quarta-feira, 23 de abril de 2008

Pim, Pam, Pum (24 horas depois...)

Assim me sinto e assim sou, tão incerta como este tempo de que não gosto. Este tempo em que agora chove e as coisas são baças, para mais logo o sol empurrar com força as nuvens e encher tudo de cores e alegrias exfusiantes.

Mas continuo a não gostar do circo. Já passei hoje bem perto da gigantesca marca no solo, deixada pela estrutura metálica das bancadas e pensei que me esqueci de referir uma coisa importante. Aquele semi-círculo gravado no solo rochoso, recusa-se a ir embora e no meio da poeira esbranquiçada do chão, deixou um rasto de relva verdinha que teima em impôr-se.
Aquela relva é como eu. E como este tempo incerto. De vez em quando, não se dá por ela, depois sem saber porquê, resplandece e ganha o verde mais bonito de todos.

O circo já foi há muito, mas deixou ficar uma raíz.
Nesta vida que desponta de vez em quando, de forma incerta, a relva brilha mais verde. Ou sou apenas eu que empurro as nuvens com força e vejo as cores mais exfusiantes.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Pim, Pam, Pum

Não gosto do Circo. Gosto de preservar a magia que ele, supostamente, representa para os mais pequenos mas não gosto dos artificialismos que lhe estão por detrás.
Lembro-me de gostar do circo quando era pequena, principalmente dos animais e dos trapezistas. Dos palhaços nunca gostei.
Hoje em dia, o que me fascina no circo é a triste e lenta rotina que o envolve.
Em frente à minha casa, há um recinto perfeito para as tendas de circo e, de longe a longe, encontro-os lá, com a sua tralha e a tenda meio montada, ao regressar do trabalho.
Quando saio de manhã, nada. Mas ao fim da tarde, vindos não sei de onde, lá estão eles, instalados, a invadir todo o espaço. Ocupam uma extensa área mas tenho a sensação de que ninguém os vê. Ou então são apenas considerados estorvo.
Gosto de espreitar, pela minha janela, a jaula dos leões e o recinto onde se amontoam várias espécies de animais, como se de uma quintinha se tratasse. Faço-o com um misto de pena e de fascínio.
Também gosto de olhar as diferentes roullotes e imaginar a vida lá dentro, por trás das maquilhagens gastas e dos cetins e lantejoulas.
Nunca os vejo na rua. Onde se enfiam as pessoas do circo? Montam rapidamente a sua tenda e somem-se para as suas caravanas velhas, sem se importar com os leões e os outros animais, ou assim parece.
Entristece-me olhar este cenário, da mesma forma que me entristece um Caravaggio: o seu realismo fere.
Às vezes, o circo em frente à minha casa enche-se de gente ao fim-de-semana. São filas e filas de crianças ansiosas e pais impacientes, e uma parte de mim fica contente. Significa que os leões não estiveram ali a semana toda, dando voltas na sua jaula, para nada. Pelo menos, alguém vai vê-los.
Mas na última vez que esteve lá o circo, não havia filas de gente. As crianças já não queriam ir e os pais agradeceram, ao que parece. Acho que nem chegou a haver espectáculo.
Já foi há bastante tempo, mas ainda hoje, quando passeio o cão no recinto, vejo as marcas na terra, das bancadas outrora ali enterradas com ferros. E entristece-me que, dessa última vez, tenha voltado para casa ao final de mais uma tarde, e já não tenha encontrado o circo...

TERRA!


Hoje é o Dia Mundial da Terra. Da Terra.

A TERRA..

Não pensamos na Terra como ela merece, não a vemos como deve ser vista e, definitivamente, não a tratamos como deveríamos.

Da Terra temos tudo. Ela dá-nos, sem cobrar, o que precisamos. E todo o mal que dela possa advir, somos nós que semeamos.
É bom que lhe dediquem um dia. Melhor seria que se pensasse mais nela todos os dias, mas isso ninguém faz.

Ainda bem que ainda consigo sentir o cheiro da relva molhada depois da chuva, ver a Lua brilhante quando as nuvens dão tréguas, sentir o mar frio e salgado na pele.
Por enquanto, ainda temos tudo isto.
A Terra ainda pulsa vida.






segunda-feira, 21 de abril de 2008

Um dia não são dias

Saudades do meu cão, saudades do sofá e do cadeirão que gira, saudades de um livro e de fechar os olhos e perder lentamente a consciência...
Saudades de um abraço, de sossego e de silêncio.
Não sinto tristeza, nem melancolia mas sinto um nó na garganta, de vez em quando. Estou vulnerável. Vulnerável ao bom e ao mau.
Hoje estou à mercê de um gesto carinhoso ou de uma palavra amarga, em igualdade de influência.
O mínimo que me pode fazer feliz, é exactamente proporcional ao que me pode entristecer.
Hoje não sou mordaz, nem crítica. Não estou vibrante ou cheia de humor.
Estou dependente de afectos.
Vou correr ao encontro deles, dos meus afectos.
Vou pedir-lhes que me envolvam.
Que bom é fazer-me ao mar mas ter sempre para onde voltar!

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Serviço Público

Partidarismos à parte, até porque assumo uma postura desprezista em relação ao culto das nossas políticas e à proliferação massiva de oportunismos, passo a divulgação deste interessante e-mail que recebi.

Parece-me bem.

Tem uma imagem tipo O.K. Teleseguro, ou Logo... essas companhias de seguros novas e de imagem jovial que parecem convidar ao sinistro automóvel, de tão descomplicadas que são...

Por outro lado, não posso ignorar o slogan que enfatiza o Civismo, a Justiça e a Prosperidade.

É pena eu ser tão céptica, desde que descobri o conceito de Marketing Político.

De qualquer forma, parece-me que, com um nome destes, já conseguiu o voto dos mais novos. Ainda há-de vir o Partido LOL e o BUE já devia ter assento parlamentar!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

April

E esta chuva que não pára. Cai incessantemente de um céu inexpressivo, que não mostra quando vai dar tréguas.
O céu não está azul e nublado, nem carregado de nuvens cinzentas. Está esbranquiçado, compacto. Parece mais perto da nossa cabeça, limita-nos o horizonte e não nos deixa olhar para longe, para a serra, para o mar...
Amanhã é sexta-feira, amanhã é sexta-feira, amanhã é sexta-feira...
Repito maquinalmente este pensamento, na ânsia de um fim de semana que sei que vai voar.

E esta chuva que não pára.
E este céu inexpressivo.
Faz-nos perder o rumo.
Que maçada, não encontro o horizonte...

quarta-feira, 16 de abril de 2008

happy ending

Sentia-se ansioso e emocionado.
Tinha ainda algumas coisas para fazer, coisas de última hora, que têm mesmo de se deixar para a véspera, e não tinha planeado um dia diferente precisamente para não sentir essa "diferença" que o deixava mais nervoso.
Se conseguisse ter o que fazer, dentro da maior normalidade possível, estaria ocupado e não teria tendência para pensar muito em como iria correr o dia seguinte. Mas era inevitável que o pensamento lhe fugisse de quando em vez para outras paragens, para o campo da imaginação. Quando caía em si novamente, fazia um esforço para se concentrar no presente, sem conseguir evitar uma pequena onda de calor a percorrer-lhe o corpo e um ligeiro suor nas palmas das mãos.
Iria correr tudo lindamente. A expectativa era o mais agradável e ninguém lhe poderia retirar isso. Quando os pensamentos teimavam em voar para o futuro, tentava pensar mais além, para dispersar o nervosismo. Imaginava a viagem, depois da cerimónia e da festa perfeitas, e o regresso para uma vida nova e cheia de desafios. Se não se concentrasse muito num momento específico, o coração acalmava e encarava tudo com uma estranha normalidade.
Já no próprio dia, pouco tempo antes, os sentimentos eram semelhantes mas mais intensos e conseguir descontrair era uma tarefa mais complicada. O sorriso estava presente como se alguém tivesse ligado um interruptor. Não que fosse falso, mas era um sorriso de nervos e de uma expectativa que vai muito além das mãos suadas.
Nada se passou de forma trágica, como nas novelas ou em dramas cinematográficos. No meio da confusão de gente que bebericava e tagarelava entre si, por entre os odores de vários perfumes que se soltavam de écharpes esvoaçantes, o rosto da irmã surgiu, o único ali que não estava como devia estar, porque não era dia de ter aquela expressão, era dia de sorrisos de nervos e expectativa.
E ninguém percebeu, e continuaram a bebericar e a tagarelar, enquanto ambos se recolhiam, para ele saber que o melhor que teve daquele dia, foi a feliz expectativa da véspera...

M de aMor, M de aMar

M de mar.
M de música, de mousse e de... medo.
M de meu, de minha e de... mau.

M de maravilha e de malvadez.

M de manteiga, de mil-folhas e de miosótis!!!
M de mimos, de macia, de meiga, de mãe.
M de mim..

Porque é que em tudo o que somos, em tudo o que amamos, em tudo o que temos... há sempre escuridão?

terça-feira, 15 de abril de 2008

Descobrir as diferenças

São ambos gordos, diria mesmo balofos. São festeiros, gostam da folia de um bom Carnaval (de época ou fora dela!) e dirigem a todos olhares de ironia e superioridade, olhares de quem ostenta aquilo que, queiramos ou não, possuem: um domínio territorial surpreendente.
A confirmar a regra, há quem debaixo da sua alçada não goste deles, mas deixa-se ficar, na timidez do conformismo, ou na esperança de herdar um bocadinho do legado.
Também a confirmar a regra, toda a restante maioria se divide em bajuladores de risinhos fáceis e em populares de bom pulmão e fidelidade até à morte.
Partilham distintos, mas igualmente deliciosos, sotaques regionais.
Às vezes não sei o que é pior.
Num país de dirigentes e políticos medíocres, em busca de reformas chorudas, talvez estes dois ditadores babosos, que cospem (i)moralidades, sejam de facto os líderes dos quais nos deveríamos orgulhar...

segunda-feira, 14 de abril de 2008

E foi assim que aconteceu

A noite estava fria, gelada. Na Serra então, parecia que ia nevar! Mas eu sentia-me animada, feliz por ter aceite o convite e por estar a dar a volta por cima, depois de um ano emocionalmente complicado. Rompi com o costume de recusar sistematicamente os poucos convites que tinha para jantares, por não me apetecer estar presente. É verdade que o que normalmente faria era mesmo ficar em casa e fingir que as coisas lá fora não tinham nada a ver comigo. Mas desta vez fui.
Tagarelar com a Maria até lá enquanto fazia o IC19 fez-me sentir bem, como se aquela noite cheirasse a uma mudança definitiva na minha atitude. A seguir seriam os colegas mais chegados da faculdade e, com sorte, mais para o final da noite, regressaria a casa a sentir que tinha valido a pena arejar.
Não esperava encontrar-te, conhecer-te. Pensei que não teria surpresas nessa noite. Esperava que fosse agradável mas sem sobressaltos. O meu coração não me pedia isso nesse momento.
Usava um cachecol às riscas. Estava um bocado hippie, ou é assim que me recordo hoje. Estava muito pálida e o cabelo parecia mais escuro que nunca, como me disseste mais tarde e como mostram as fotografias que hoje vejo dessa noite. Mas lembro-me de rir muito. De sorrir. Como se estivesse inebriada.
Tu.. lembro-me apenas que vestias uma camisola lisa, verde, e que usavas os óculos de aros pretos, ainda os primeiros que te conheci. Lembro-me da tua voz, das brincadeiras constantes de quem gosta de chamar a atenção sobre si e do som das gargalhadas. Perguntava-me se serias mesmo assim ou se estavas a tentar reclamar um lugar de destaque, porque, estranhamente, parecias muito à vontade, muito embora tivesse percebido que não conhecias as pessoas presentes, à excepção daquela que nos era comum...
Fiquei intrigada mas não percebi imediatamente que a minha curiosidade iria continuar a crescer até se tornar insaciável.
A continuação da noite para além das Azenhas, no cenário confortável do Penedo, em muito contribuiu para essa curiosidade crescente.
Seguiu-se aquela semana completamente surreal.
O normal seria não ouvir falar mais de ti. Mas sei agora que, desde cedo, tudo se desenrolou de uma forma muito fora do normal.
Naquele segundo sábado, apenas me lembro de dar por mim a desligar o telemóvel, em plena Rotunda do Marquês, depois de te ter avisado que estava a caminho. Estava a caminho.
Não faço ideia de como foi esse meu sábado, com quem estive, o que fiz, o que terá sido o meu jantar.. para mim esse sábado começou depois das 22h30 talvez, no Marquês de Pombal, com uma mão no volante e a outra a segurar o telemóvel.
Atravessei o Bairro, no meio de um trânsito já infernal, para encontrar alguém que sei que não me esperava. E perguntava-me, pela primeira vez, se a minha presença não seria inconveniente e indesejada, apesar de ter existido um tímido convite, algures no meio da estranha confusão que foi aquela semana.
Algumas horas depois, quando respondia a inquéritos bem intencionados sobre os meus conhecimentos futebolísticos e olhava o teu ar embaraçado no meio de um quarteto cómico que formámos com aquele par de jarras, percebi que era ali que tu me querias e que era ali que eu queria estar. Naquele bar da Rua da Rosa, a conhecer-te melhor.

Inútil

Era para escrever mas, apesar da vontade de o fazer, hoje não é dia para isso.
Falta-me a inspiração, o motivo, o conteúdo.
Certamente faria uma introdução longa, de um qualquer assunto que fosse surgindo, porque acaba sempre por surgir, mas não seria espontâneo.
Assim, deixo só um rasto de mim. Apenas porque tenho sede de bater aqui as minhas asas. Não porque tenha alguma coisa para dizer.
Talvez mais tarde...

sexta-feira, 11 de abril de 2008

post scriptum

Tinha de reescrever o meu post anterior, no que respeita às mentiras piedosas...
Não serão necessariamente boas. Acho até que quem inventou esta expressão fê-lo para se desculpar de algum comportamento imoral e vergonhoso, e que diz utilizar para não ferir sentimentos de terceiros. Cobardolas!
Mas pronto, as mentiras piedosas a que me refiro como boas, são do género de não contar a um velhinho moribundo que o seu cão e fiel amigo de uma vida teve de ser abatido... Quer dizer, não há necessidade, certo?

Blá, Blá, Blá...

De todas as pessoas, as que mais me irritam são as que mentem sem saber fazê-lo.
Convenhamos que mentir todos mentimos e mais vale admiti-lo. A mentira não tem necessariamente de ser um bicho papão e até há mentiras boas. As piedosas, por exemplo.
Mas a mentira sem jeito, a mentira cobardolas e pouco conseguida, enrolada, ruborizada e trapalhona, essa sim é insuportável. Como são insuportáveis as pessoas que inventam mentirinhas e enredos para tornar as suas vidas mais interessantes. Às vezes, vejo-me rodeada de gente assim e só me apetece fugir. Não consigo disfarçar um profundo desprezo por essas pessoazinhas. Mesmo assim elas não percebem e, páginas tantas, lá vêm com mais uma historieta...

Educação

Contratados com má nota não renovam
Alexandra Inácio
"Os professores contratados que tenham a classificação de regular ou insuficiente poderão não renovar os seus contratos. Anteontem, a ministra da Educação anunciou que os professores com essas notas não sofreriam as penalizações previstas na lei para a contagem do tempo de serviço mas ontem a renovação surge na proposta do ministério como excepção. Foi, aliás, um dos pontos que impediu o entendimento entre a tutela e a Plataforma Nacional de Professores. Hoje equipa ministerial e sindicatos voltam a reunir-se. A recusa do ministério em aceitar um modelo único de avaliação simplificada é para o secretário-geral da Fenprof a segunda divergência a travar o entendimento. A tutela prefere apontar a obrigatoriedade de procedimentos mínimos, como a auto-avaliação e a assiduidade. "O nosso objectivo é que façam o máximo e o façam bem. O modelo é o referencial", defendeu Maria de Lurdes Rodrigues à saída do Conselho Nacional de Educação (CNE). Os sindicatos rejeitam que os professores possam ser avaliados de forma desigual, consoante a escola onde estejam colocados. "Está fora de hipótese um acordo. Pode é chegar-se a um entendimento em relação a algumas matérias", frisou Mário Nogueira. O objectivo da Plataforma, garantiu, é o de "desbloquear o conflito no 3º período". O secretário-geral da Fenprof aproveitou o impasse e a disponibilidade de ambas as partes para negociar e apelou à participação dos docentes nos protestos marcados no Norte do país na segunda-feira. "A pressão pode ser fundamental para desbloquear a situação". Após quatro horas de reunião, ministra e secretário-geral da Fenprof não excluíam a hipótese de uma quarta reunião."
Alguém se importa de me explicar qual é o problema dos nossos professores afinal? Têm medo de uma avaliação mais rigorosa? Não estão a dar um grande exemplo aos alunos!
Tenho pena que certas decisões ministeriais não se apliquem é a professores efectivos e recostados, em vez de afectarem apenas os contratados. A exigência de qualidade deve aplicar-se a todos os profissionais do sector, mas sabemos que as coisas não são bem assim.
Se estiver a ser ignorante, corrijam-me. Tal como os sindicatos, também eu estou aberta a chegar a "entendimento em relação a algumas matérias".
(Não vejo grandes diferenças entre a manifestação "histórica" que fizeram há meia dúzia de semanas e aquela em que participei há vários anos, por causa das PGA's, a cantar Oh Manela! Oh Manela! Anda cá! Anda cá! Vira o cu pá gente, vira o cu pá gente! Toma lá! Toma lá!
É a democracia no seu melhor, ao serviço de qualquer causa... mesmo que não se saiba qual!)

8º Frente

Os vizinhos de cima são uma espécie de sogras malvadas, por defeito.
A comparação é tanto mais adequada se pensarmos que todos estamos na iminência de ser sogros ou sogras, da mesma forma que estamos na iminência de ser vizinhos de cima dos nossos vizinhos de baixo. A excepção são aqueles que optam por não ser sogros, ou simplesmente não acontece, e os que vivem em moradias ou no rés-do-chão, claro está.
Como vizinha de cima, e por isso também potencial "sogra malvada", tenho feito os possíveis para ser tolerante com a minha vizinha de cima, que ainda por cima tem crianças.
Mas ela não me facilita a vida.
Começa pelo facto de me acordar todos os dias, em rigor cerca de uma meia hora antes do meu alarme. E fá-lo a gritar. Na sua voz de desespero, não muito alta mas esganiçada, rouca de tão esganiçada. É indescritível. Imaginam como a broca do dentista atinge aquele nervo não anestesiado? Pois é esse efeito que provoca em mim a voz daquela mulher.
Os miúdos, esses por vezes fazem rolar uma espécie de esferas de chumbo (é o que parece mas devem ser berlindes) ao longo do corredor e de todos os compartimentos da casa. Fora isso, quase não se ouvem. Mas aquela desgraçada tem uma raiva aparente a tudo o que a rodeia, que se revela desde que acorda até que sai de casa, e imediatamente assim que regressa ao fim da tarde.
Ontem apareceu lá por casa, para tratar de coisinhas do condomínio. E aproveitou para conhecer de uma forma simpática, descaradamente subtil e aparentemente desinteressada, todas as divisões da casa. Com os miúdos à frente a perguntarem tudo e por tudo, e ela, com advertências delicadas e ligeiras, a seguir avidamente atrás deles.
Depois, lá voltou muito a custo, arrastando as crianças, para o seu ninho. Onde começou quase imediatamente a sua ladaínha enervada.
Aposto que ela não gosta do sítio onde vive e adorava ter uma moradia.
Eu também acho que ela devia viver numa moradia.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Professor de Português

Tenho saudades do meu Professor de Português, o Luís Filipe. Não o vejo há uns anos valentes. Com sorte, ele acaba por ler este post, reconhecer-se e dar notícias um dia destes.
Mas gostava que ainda fosse o mesmo. Se mudou muito e já não tem aquele ar de gozão também não faço questão de o ver. Se calhar, na verdade, apetece-me muitas vezes recordar aqueles tempos de escola, a nossa visita de estudo a Lamego (aquilo foi mesmo uma visita de estudo??) e a minha colega a vomitar as tripas depois de dar uns tirinhos naquele joint..
Sinto falta de que me chamem foleira com a mesma honestidade com que ele o fazia. Para me acordar para a vida, como quem diz Não te desperdices, miúda!
Também gostava da delicadeza e devoção quase teatral do professor de Português da Faculdade, mas era diferente... aí era mais pela paixão que ele demonstrava pela disciplina.
Com "o" Professor de Português era muito mais natural e tinha a ver com a pessoa que ele era e com a forma como me chamava foleira. Era a sua maneira de mostrar que achava que eu tinha talentos que precisavam de ser trabalhados. E eu sabia-o bem. Por isso me irritava na altura.
Ainda é Professor de Português, julgo eu.
E é tripeiro ferrenho.
Será que há muitos com estas características?
Bom, em desespero de causa, posso sempre "postar" aqui a foto dele, lá no passeio a Lamego, a preparar o seu saco-cama e o radiozinho despertador, quando dormimos todos naquele gélido ginásio, sem água quente para tomar banho.
Mas acho que ele não ia gostar.
Usava um fato de treino verde, com golinha branca.
Muito foleiro.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Chopper

http://br.youtube.com/watch?v=LhmIYku4amQ

Porque a Medeiros é a nossa Amélie Poulain e porque o Bruce Willis é... o Bruce Willis.
E porque estou sempre a lembrar-me desta cena, por muitos anos que passem!

Quem Quer Ser Milionário

... mas se se querem divertir a sério, vejam (ou revejam) o programa "Quem Quer Ser Milionário", emitido ontem (08-04-2008), na RTP 1.
(Eu devolvia os 5.ooo euros para não transmitirem o programa mas aposto que ela até ficou orgulhosa com a sua performance...)
Há coisas fantásticas, não há?

Tenho uma dor, Sr. Doutor!!

Muito cuidado com uma senhora, que se diz Doutora, especialista em Dermatologia e pela mão da qual passam crianças, que tem consultório ali para os lados da Avenida da República.
É que parece que essa senhora "Doutora" também é especialista em Estética, muito embora reencaminhe as suas pacientes para uma esteticista, assalariada concerteza, aparentemente não Doutorada, que pratica depilações a laser com resultados... duvidosos, nomeadamente como consequência de infligir queimaduras graves nas utentes. E digo "nas" porque não aconteceu apenas uma vez, nem só a uma pessoa. Não é acidente, é negligência.
Mas tanto quanto sei, não há queixas contra a Doutora... até agora.
E é um bom negócio o dela: aconselha uma sessão, cobra a maquia elevada correspondente à intervenção (porque numa clínica, com uma médica, é muito mais credível do que num qualquer centro de estética, claro está!) e depois incumbe uma esteticista (!!) de retirar, literalmente, couro e cabelo à pobre da paciente.
A boa-fé e o profissionalismo são tão grandes que a justificação vem depois, em forma desinteressada de explicação, de que há peles mais sensíveis que outras e não suportam "radiações" tão fortes... Mas parece que a Doutora tinha dito qualquer coisa relacionada com uns testes que se fazem antes, justamente para saber qual a resistência de cada tipo de pele... Deve ter sido impressão.
Dá ideia que a resposta da Senhora Doutora é qualquer coisa como: Temos pena!
O que é facto é que, em caso algum, e apesar de lamentar a situação, a Doutora se oferece sequer para devolver o dinheiro de um tratamento tão bem feito.
Também parece não querer saber dos danos causados, das dores, do sofrimento. E sente-se ofendida se alguém insinua que não agiu com profissionalismo.
Grande consciência deve ter esta Doutora. E pesada!

terça-feira, 8 de abril de 2008

Cartoons Chineses

Entristece-me a miudagem de hoje.
Entristece-me que a maioria, senão todos, não conheça o prazer de jogar ao mata, ao piolho, à cirumba ou ao pau.
Entristece-me que não se divirtam com séries como o Verão Azul ou personagens como o Tom Sawyer.
Entristece-me vê-los sentados em frente aos Morangos com Açucar, alienados, a ver miúdas pirosas e rapazes que usam cristas estúpidas no cabelo.
Eles nem devem saber o que é um pirilampo! Nunca devem ter visto nenhum!
Eu apanhava-os, com grupos de amigos, em noites quentes de Verão. Fechávamo-los num frasco ou em sacos transparentes para os ver brilhar. Mas soltávamo-los sempre!
Hoje, os miúdos andam agarrados a telemóveis e falam entre eles com diminutivos estranhos e praticamente indecifráveis!
Hoje, para os miúdos, um presente não é uma excepção e uma alegria. É a norma.
Hoje, não são os pais que mandam e os filhos que respeitam. São os filhos que exigem e os pais que obedecem.
Hoje, os alunos batem nos professores, divertem-se com isso e têm direito a tempo de antena e a psicanálise.
Salazarista não, mas admito que me chamem "Velha" do Restelo...

Costa Rica

Que será feito do Joaquín? E das bailarinas?

Que bem que se deve estar agora do outro lado do Atlântico, na América Central... a comer ovos minúsculos de codorniz e muito queijo ao pequeno-almoço. Até ovos mexidos em quantidades grotescas e que nunca comemos por cá, logo ao acordar. E muita fruta.
(Só penso em comer, que nervos.. tanta coisa boa e eu só penso em comer).
Como queria estar lá outra vez!

Isto lembra-me que tenho de tirar um curso de preparação de bagagem.

Não consigo arrumar uma mala em condições. Falta-me sempre qualquer coisa muito importante e há sempre carga completamente dispensável. Mesmo que eu saiba como é o sítio para onde vou, seja por muito ou pouco tempo, é sempre uma tragédia. O que normalmente acontece é que acabo por repetir a mesma roupa inúmeras vezes, porque não tenho uma alternativa decente, e trago de volta peças que não utilizei.

Acho que isto está relacionado com a mania de ter sempre as gavetas atafulhadas de coisas que não visto mas que, sem que para isso haja uma explicação lógica, mantenho guardadas para o caso de.


O Joaquín fez uma performance de Michael Jackson de se lhe tirar o chapéu!

E as bailarinas tinham também muito talento.

O Victor também era engraçado, com o seu estilo mais desleixado. Lembro-me dele a chamar os macacos nas árvores. E a dar aula de hidroginástica.


Lembro-me do tubarão que se escondia na guta.

Do chão enlameado no regresso ao resort, no dia dos souvenirs.

Dos nachos com aquele molho muito pouco saudável.

Das picadas de mosquitos ao final da tarde.

Da bracelete verde.

De acordar com a notícia de que o Porto era campeão.

Das carrinhas de tour.

Da Preguiça pendurada e da preguiça de início de tarde.

Do vulcão.

Do cheiro dos grãos de café.

Do casado.

Do arame farpado.

Do Campus Universitário.

Do Mercado sujo.

Do pequeno-almoço bem cedo em San José (com Corn-Flakes em saquetas individuais).

Do aeroporto...

Do velho do chapéu no avião que queria a mala perto dele.


Para a próxima não levo bagagem. Compro tudo lá e não me aborreço. Vou andar sempre com a mesma roupa de qualquer maneira...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Andorra


Quando entrámos no apartamento ficámos em choque.

Não era bem um apartamento, era mais... um pardieiro. Tinha um pequeno corredor estreito, uma porta para a humilde casa de banho do lado direito e, do lado esquerdo, um beliche (tipo estabelecimento prisional), com colchões gastos, muito sujos e lençóis brancos, dobrados e rijos de tanta goma. Mais à frente um sofá forrado de um tecido escuro - obviamente velho e sujo também - e uma mesa de madeira. O móvel da televisão e a kitchenet completavam o cenário daquele espaço que nos aguardava depois de muitas, imensas!!, horas de viagem.

A primeira coisa de que gostei realmente foi do vão de espaço por debaixo da janela, onde as nossas bagagens poderiam ficar sem incomodar ninguém. Já não era mau. Mesmo assim, apetecia-me cair no chão e chorar. Estava exausta.

Depois o choque foi passando. Teríamos de deitar mãos à obra antes de podermos descansar, de forma a transformar aquele... apartamento, num espaço onde nos sentíssemos bem nos próximos dias. Fizemos do sofá uma cama e, com os dois colchões do beliche, fizemos a outra cama. Dois casais, duas camas improvisadas. Ninguém ia dormir num beliche da 2ª Guerra Mundial no corredor! O humor começava a melhorar.

E quando a nossa imagem das coisas deixa de ser tão negativamente condicionada, voilá!, descobrimos o que sempre lá esteve e não conseguimos apreciar antes. Aquela fabulosa janela do nosso apartamento, apoiada num telhado alto de sótão, com vista para as montanhas cobertas de neve!

De repente, o cenário já não era nada mau. Afinal tínhamos ali de tudo: água (nem sempre quente como iríamos descobrir...), luz, camas (colchões sujos e gastos...) e até uma televisão, uma Playstation (levada de Portugal porque a "suite" não tinha esses extras) e um dvd do Gato Fedorento que preenchia os serões!

Além disso, os dias foram passados quase de manhã à noite a descer pelas pistas com pranchas de snowboard. Não dava tempo para apreciar os luxos de um apartamento de cinco estrelas.

Grande experiência!

Se não pensar muito na angústia que era para mim cada subida no forfait, com a única certeza de que cairia a descer e seria atropelada por alguém, ou no súbito impulso de fé que nem sabemos que temos quando fatalmente acabamos por cair pois já perdemos o controlo da prancha agarrada aos pés há duzentos metros atrás, ou na sede horrível que o intenso esforço físico provoca e que nos leva a comer punhados de neve (sim, do chão, porquê?), tenho de concluir que foram dias inesquecíveis estes em Andorra!

Não esqueço a janela de sótão com vista para as montanhas, principalmente naquele dia em que ficou emoldurada de branco por causa do forte nevão. Nem esqueço as bolas de neve fria que me atiraste ao acordar :-). Nem esqueço o Boneco de Neve (estava perfeito!). Nem a comida de má qualidade que fazíamos apressadamente mas que calava tão bem a nossa fome, depois de um dia extenuante.

Só já não me lembro certamente do truque para o snowboard. Terei de voltar ao princípio, outra vez, um dia.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Shiuuuuuu.....

Sinto-me tão ensonada.... estou aqui e não estou. É, literalmente, como se estivesse a flutuar e os olhos pesam como se a qualquer momento se fossem cerrar totalmente. Apetece-me estar noutro espaço e poder deixar-me cair no vazio que me chama, neste abismo de sonolência à beira do qual estou debruçada.
Mas não posso. Mais que não seja porque me apetece escrever e soltar aqui pensamentos.
E, no entanto, sinto que a qualquer momento vou deixar-me levar por esta sonolência que persiste, como se fosse impossível vencê-la e precisasse mesmo, mesmo, mesmo, de deixar-me adormecer...
Talvez hoje não solte pensamentos mas antes... sensações. Porque não me sinto capaz de pensar.
Mas sentir, isso sinto.
Sinto que precisava dormir um dia inteiro, muitos dias, uma semana... mas acordar e não sentir que perdi uma semana a dormir. Acordar e sentir que a semana só tinha contado para a necessidade do meu sono profundo e que o tempo real tivesse parado em todos os relógios.
Como se faz para parar o tempo?
Improvável é adormecer aqui e agora. Mas parar o tempo, isso é mesmo impossível...
Descobri agora que não é boa ideia escrever quando o meu corpo me pede que durma uma eternidade. As vozes do meu corpo, todas as vozes que neste momento segredam baixinho e cujos discursos se entrecuzam de uma forma complexa e irritante, as vozes que me suplicam que me deixe cair lentamente no abismo desta sonolência não me deixam escrever. Que irritantes são estas vozes.
Descobri agora que para escrever, tenho de calar primeiro estas vozes...
Por isso vou dormir...
Vou deixar-me levar. Os véus a baloiçar com a brisa morna, muito ténue, que quase não se sente...
A suave libertação do corpo que vai flutuando... em profundidade...
Tão lentamente como se não tivesse peso algum...
Tudo o que existe dá lugar ao nada...
E durante um tempo, um tempo que nunca pára, eu durmo.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Botas ou sandálias?

A forma como vejo e sinto a vida é, por vezes, tão estranhamente antagónica que me pergunto na realidade quem sou eu, ou no que consiste a substância do meu "ser".
Quer dizer, se eu tivesse quinze anos era aceitável. É daquelas idades em que a maioria de nós não sabe bem o que é, o que quer, o que anda aqui a fazer e se "it's nice to be important" ou "it's more important to be nice"...
Mas esperava chegar a esta idade, mais ou menos crescida, e ser uma daquelas pessoas de cabeça levantada, andar firme e atitude decidida. E não sou.
Certamente vou pensar, daqui a dez anos, que o que sinto hoje é normal e dizer, uma vez mais, aquilo que já hoje repito tantas vezes e que é das frases que mais abominava quando era miúda: Se eu soubesse o que sei hoje... (dito com um ar melancólico e sorumbático para ter o efeito que é suposto, claro!).

Mas não me quero perder, porque a história do Chouriço só tem piada para quem ouve a primeira vez! (Constato com alguma pena que a partir daí vai sendo cada vez mais insuportável, acreditem!! E só há mesmo uma pessoa em todo o planeta que compreende o que acabei de escrever).

Voltando ao início, é com frequência que me sinto dona de uma personalidade frágil, recorrendo ao eufemismo.. E sabem onde é que noto mais esta característica? Nas Finanças! A sério! Tinha de dizer isto, estava a sufocar-me há anos!!
O.k., as Finanças são o bode expiatório (se fosse só as Finanças!), mas são um grande exemplo.
Os sapos que eu engulo daquelas senhoras mal-dispostas e irritadas! E depois parece que "cheiram" as vítimas. Se chegar lá uma senhora emproada ou a fazer peito, elas encolhem-se que nem bichos de contas. Mas a mim topam-me logo. Para já, começo por dizer bom dia ou boa tarde: boa educação? Não! Sinal de fraqueza. Depois pergunto se posso só pedir uma informação, em vez de pedi-la logo.
Saio sempre das Finanças a ouvir uma voz cá dentro que me diz que devia ter esmurrado alguém.
Mas isso é um absurdo, é óbvio!
Pelo sim, pelo não, é melhor mandar cá para fora porque estes sentimentos recalcados não fazem bem a ninguém.

E agora que me sinto muito mais aliviada, avanço para o que me trouxe aqui hoje.
Uma amiga aconselhou-me a visitar um daqueles sites engraçados para testarmos a nossa personalidade e fazermos comparações que nos levam a conclusões curiosas.
Acho que alguns destes sites (alguns!!) são realmente interessantes e acredito que as opções que se nos deparam têm como base elementos de fundo de análise psicológica. Mas normalmente é uma tortura para mim fazer determinadas escolhas. E não sei se por aí posso reforçar a minha ideia de que tenho um sério problema de falta de personalidade ou se, por outro lado, sou simplesmente uma pessoa... eclética! Quer dizer, eu sei lá se prefiro uma tarte de limão e natas, fresquinha, doce mas levemente ácida para contrastar, suave mas consistente, que combina a arenosa textura do miolo da base, com o creme frutado do interior e a cobertura glácea; ou uma fatia de bolo de chocolate, intenso, fofo e recheado de pepitas de chocolate aqui e ali, coberto de avelãs finamente picadas e... e ainda dão mais sete ou oito hipóteses de escolha!!! Não está certo!
Isto até pode ter uma explicação fácil: sou gulosa. Aceito.
Mas e se me propuserem umas férias numa casa de madeira rústica, no alto de uma montanha salpicada de neve, com vista para um lago gelado, onde eu possa fazer actividades, passear com cabras maltesas e passar serões à lareira com o grupo de amigos, a ver um bom filme, a jogar um jogo divertido e a contar anedotas? Bem fixe... se tentar esquecer o cenário paradisíaco de uma praia de areia branca, com um mar infinito à minha frente que de tão azul parece verde ou de tão verde parece azul e se nota mesmo pela foto que a temperatura é quase tão quente como a do ar, onde posso beber granizados de todas as frutas e não ter de me preocupar com o que vestir ou calçar e esperar pela noite, também quente, também paradisíaca.

Está decidido. Sou eclética! Gosto de doce e de salgado; gosto de frio e de quente; gosto de música e de silêncio; gosto do clássico e do moderno, do típico e do inovador, do habitual e da excepção.
Não gosto do exagero, não gosto do insuficiente, não gosto de tudo, não gosto de extremos.
Gosto do que é suportavelmente bom porque o que é insuportavelmente bom... é mau.
Gosto do que para mim é bom.
Não confundam. Não sou fácil de contentar. Sou... eclética! Ah, e indecisa...