Que delícia sentir no seu olhar uma pontada de receio, de medo, de verdadeiro pânico por julgá-la incerta, livre, desejada. Que bom poder prolongar aquele olhar pelo tempo preciso e suficiente que rebenta em gargalhada de entrega, confiança e alívio. Ela está lá, ao lado, para onde sempre volta ou onde sempre espera. Sabe que, se tentasse sair, levaria a caixa de sapatos, os livros e o álbum mas para trás deixaria a alma.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
visão nº1
Não pode vê-lo nem pintado a lápis de cera.
Aquele ar de cordeiro manso, a voz melosa, a figura atarracada e a postura submissa e bajuladora são-lhe insuportáveis. Às vezes até tem pena dele. Deseja que nunca ninguém sinta por si a compaixão dolorosa que ele lhe desperta.
Esgota a paciência ao longo da semana de trabalho, ocupado que anda a lamber botas, na sua doente subserviência. Ao fim de semana fica por casa, o mais possível, e tem como única missão tentar ler o jornal e saber qualquer coisa sobre futebol para poder mandar umas piadas porreiras na segunda-feira, se a sua equipa tiver mais sorte que a dos colegas.
Ela acha que ele é infeliz mas o que sabe ela sobre a felicidade?
calduço ou cachaço?
Só um cheirinho:
'A determinada altura do julgamento de hoje, a tentativa de esclarecimento da intensidade da agressão sofrida por José Ramalho originou uma discussão semântica em redor das expressões "calduço e cachaço" utilizados por alguns depoentes. Uma dúvida que levou o juiz a questionar por diversas vezes: "Mas foi um calduço ou um cachaço?" '
Valentina Marcelino Expresso Edição On-line 21:10 Terça-feira, 28 de Out de 2008
Nem tenho palavras.
Tem mesmo de se ir à fonte porque sintetizar seria de uma grande injustiça para o conteúdo hilariante de todo o artigo.
Não hesitem portanto em clicar.... AQUI!!
p.s. O sr. José Ramalho é que está muito em baixo, coitado. Ainda a semana passada vi um árbitro de campeonato amador levar uma solha no final do jogo e não se passou nada. Deve ter comido um coirato com uma mini depois do duche e pronto. Sem direito a psicólogos e a indemnização.
não sei, mas vou descobrir
"João era fabulista? fabuloso? fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? Projetava na gravatinha a quinta face das coisas, inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar, para farçar o que não ousamos compreender? Tinha pastos, buritis plantados no apartamento? no peito? Vegetal ele era ou passarinho sob a robusta ossatura com pinta de boi risonho? Era um teatro e todos os artistas no mesmo papel, ciranda multívoca? João era tudo? tudo escondido, florindo como flor é flor, mesmo não semeada? Mapa com acidentes deslizando para fora, falando? Guardava rios no bolso, cada qual com a cor de suas águas? sem misturar, sem conflitar? E de cada gota redigia nome, curva, fim, e no destinado geral seu fado era saber para contar sem desnudar o que não deve ser desnudado e por isso se veste de véus novos? Mágico sem apetrechos, civilmente mágico, apelador e precipites prodígios acudindo a chamado geral? Embaixador do reino que há por trás dos reinos, dos poderes, das supostas fórmulas de abracadabra, sésamo? Reino cercado não de muros, chaves, códigos, mas o reino-reino? Por que João sorria se lhe perguntavam que mistério é esse? E propondo desenhos figurava menos a resposta que outra questão ao perguntante? Tinha parte com... (não sei o nome) ou ele mesmo era a parte de gente servindo de ponte entre o sub e o sobre que se arcabuzeiam de antes do princípio, que se entrelaçam para melhor guerra, para maior festa? Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar."
"Um chamado João", Carlos Drummond de Andrade - 22/11/1967 - Versiprosa
"Um chamado João", Carlos Drummond de Andrade - 22/11/1967 - Versiprosa
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
seda
É conhecida a cudelaria que dá fama a Alter, mas da pequena aldeia, pouco se ouve. Quando avisto ao longe a sua ribeira e a pequena ponte quase perdida, é nessa altura que sinto a saudade. É o regressar à terra que me traz a nostalgia dos tempos em que, miúda, ia ao baile do largo. Havia muito mais gente, gente mais nova, música, petiscos e barulho das festas de verão que traziam de volta os filhos da terra e acordavam os seus habitantes. Durante o dia passeava-se, se o sol deixasse. Descia-se a rua onde viveu a minha mãe, passava-se à porta da casa que a viu nascer e que tinha, como ela me contava, uma porta diferente naquela altura. Já lá em baixo, na fonte, desfiava-se mais uma mão cheia de histórias de tempos que não conheci. Uma vizinha chamava para a conversa, na morna calma do seu terraço, à sombra da árvore com laranjas cor de sangue. Descia-se a colina até à ribeira e apanhava-se com facilidade peixe miúdo que, com pena, eu devolvia às águas do rio. As águas eram mais altas, a nascente mais viva. Agora, a ponte não faz falta e o curso que corre é fraco. Não há peixes. Agora, há uma melhorada casa do povo, porque a população está envelhecida, e uma piscina, para chamar os mais novos da terra e de outras terras ao redor. Mas em mim, o amargo de visitar a terra de longe a longe para ver os mortos, só me traz à lembrança as gargalhadas que aquele chão já me deu. As pedras da calçada só permitem recordações, porque o solo, esse está agora estéril do risos dos gaiatos.
Miguel Sousa Tavares
Há já um tempo que ando para depositar aqui algumas notas soltas sobre o Miguel Sousa Tavares mas não se tem revelado nada fácil. O homem, senhor - "doutor", como dirá o Manuel Serrão - não é pessoa de simples interpretação. Não li nenhuma obra que tenha escrito, não sei nada de plágios e o que observo baseia-se, sobretudo, no que costumava acompanhar da sua presença assídua nos Telejornais da TVI e em algumas crónicas que leio por aí. Devo confessar que a sua pessoa não me inspira grande confiança ou simpatia. A sua postura, quer na oralidade quer na escrita, ostenta sempre superioridade, mesmo quando desce ao mais baixo nível argumentativo e isso não é, de todo, agradável. Isto não significa que discorde de todas as suas tomadas de posição, mas fica-me sempre a impressão que, debaixo daquela carcaça aristocrática, há um treinador de bancada de bigode farfalhudo ou uma nascida e criada varina do bulhão. Outra coisa curiosa é que, quando olho para o homem Miguel Sousa Tavares, vejo o menino Miguel, criança educada e inteligente, mais dotada de etiqueta do que de consciência, incapaz de resistir à tentação de molestar outras crianças, se o seu elucidado espírito detectar nelas um fio de matéria criticável. Existe, neste colunista, por excelência, uma capacidade inata que é simultaneamente assustadora e admirável: o ser naturalmente e sem pudores um crítico severo de certezas absolutas e deliberações convictas sobre temáticas que são, no mínimo, discutíveis. É precisamente esta característica que me faz oscilar na visão que tenho da sua pessoa e me impede de formar uma opinião tão célere e contundente como as que lhe são características: o facto de acompanhar o seu discurso ou a sua escrita numa toada inconstante que varia entre o "tu estás lá" e o "és mesmo uma besta".
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
sonho
O sítio era em Marrocos. Não que já lá tenha estado, mas lembro-me de que era esse o destino programado. Lembro-me de que houve uma véspera, preparativos, compras apressadas ao cair da noite. Por qualquer motivo, havia bolos de pastelaria fresca e doces. Escolhíamos: havia um bolo de mármore, sólido, enorme, com óptimo aspecto; outro com uma cobertura brilhante e cremosa, aspecto guloso; e também um doce, que parecia de claras e gemas de ovo, com uma apresentação divinal, como se fossem farófias em organizadas formas de madalenas. Escolhemos um dos bolos. Não era o de mármore como eu queria. Nunca é o que EU teria escolhido, lembro-me de pensar. E pensei também que desconhecia a existência de tão simpática pastelaria mesmo ao lado de casa. Depois, desapareceu a pastelaria. Num salto lá estávamos nós em Marrocos. E vou dizer o que é para mim Marrocos. Calor e cor de barro. Guias turísticos que elaboram percursos sinuosos e difíceis. Casinhas e mais casinhas, encastradas em colinas, com pátios e ruelas em escadaria, viradas para o mar, qual Santorini africana. Mas o mar, o mar é bravo, temível. O mar é medonho. Pensei que nunca conseguiria dormir numa daquelas casas de terraços simpáticos debruçados sobre o mar, fustigadas pelas impiedosas ondas que atingiam com violência as portas, janelas, todas as fachadas. Será que mais ninguém reparava na violência assustadora daquele mar? Nos meus sonhos, só eu me assusto com o mal evidente. Os outros estão sempre a conversar e a rir, em dialectos que não entendo. Só se dirigem a mim de forma perceptível para repetir, incansavelmente, num tom reprovador, que se dependesse da minha cabeça de vento, a camera fotográfica teria ficado para trás. Sinto-me terrivelmente injustiçada. Apetece-me fugir daquele mar e voltar para casa, para perto da sossegada pastelaria que, até há pouco, desconhecia.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
quereres
Chegada a casa, vou dar um jeito neste cabelo que não lembra a ninguém, desfiando-lhe um impiedoso golpe tórrido nos caracóis desarranjados. Cresce-me água na boca, de pensar no alívio que sinto ao passar as mãos por cabelo liso. Inquieta-me o cabelo ondulante e rebelde, que parece oscilar com o meu humor. Acho-lhe piada enquanto, ainda húmido, exibe canudos perfeitos, quase infantis, mas que depressa desaparecem depois de secos e expostos às intempéries. Restam-lhe depois vestígios de caracóis e um volume que desprezo. O desprezo que exaspera a minha mãe, a quem, se eu pudesse, dava metade da cabeleira, para regozijo de ambas. Também estou em pulgas para uma leitura de serão. A calma da leitura é o proveito retirado de horas tardias de frequente solidão imposta, coisas da vida que também têm de ter um lado positivo. Este vento uivante, raivoso, que oiço e me incómoda tal e qual os cabelos ondulantes, faz-me querer mais ainda este serão já próximo.
espírito de Natal
Faço-o cedo, bem sei, mas há quem a mim se tenha antecipado.
Porque o Natal é quando o homem quiser e que Bolsa nenhuma deste mundo se atreva a pôr isso em causa.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
bilingue
Não posso deixar de reparar na quantidade de pequenas expressões estrangeiras que vou depositando nos meus posts (cá está mais uma!), sendo obrigada a admitir que estas são de grande utilidade linguística, para uma fluência bonita e cosmopolita do texto. Ao mesmo tempo, isto faz-me perder credibilidade quando censuro os media (outra!) por adoptarem o termo car-jacking quando se referem a assaltos a/em carros, ou bullying para designar a intemporal relação de conflito entre o grupo dos fixes e o dos marrões (com o dos fixes a dominar. Invariavelmente).
assimetrias
Ando para concluir que os recentes desgostos do Miguel Sousa Tavares são inversamente proporcionais ao boom literário do José Rodrigues dos Santos. Se esta inversa proporcionalidade continuar, e começarmos a incluir nos desgostos do MST os insucessos do FCP, qualquer dia o pivôt de olhar expressivo apresenta-nos a sequela d'Os Lusíadas.
Max "Pain", ou a arte de fazer mau cinema
Duvido muito que seja um problema de criteriosa infexibilidade da minha parte, até porque me considero uma saudável consumidora de muita porcaria comercial, mas a verdade - e no seguimento da minha recente crítica musical aqui postada - é que só vejo lixo nas salas de cinema actualmente. Claro está que uma pitada de inércia associada à falta da companhia desejada também têm sido responsáveis pela recorrência ao Shopping mais próximo, em detrimento de outros mundos alternativos e menos percorridos, porventura bem mais apetecíveis, mas ainda assim era de se esperar mais da sorte. O Max Payne, acima propositadamente distorcido para dar uma ideia mais objectiva da dolorosa experiência que 1h38 nos podem proporcionar, tem de tudo, como na farmácia. Péssimas representações, condizentes com um script muito, muito fraquinho; história entediante, previsível, quase naif para um realizador de quem se pedia mais qualquer coisa; cenários pirosos, exagerados, carregados de efeitos de luz surreal e teatral. Para conferir (ou não!), numa sala Lusomundo perto de si...
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
fraude
Hoje, ao ler o que escrevo, tenho a real percepção de como sou moralista. É-me fácil falar, e sobretudo escrever, baseada nas conclusões de experiências passadas ou através de assumpções em que julgo ter a perspicácia que dispensa a vivência das coisas. É tão mais difícil fazer uso dessa sabedoria quando se afiguram cruciais as decisões importantes. Estou destroçada. E ainda por cima sou uma fraude.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
(sem título)
Não há na culinária nada que se assemelhe ao poder sublime de uma erva aromática. Saber cozinhar é saber entender, de todas as escolhas possíveis, qual a que torna distinta uma receita. É, sobretudo, saber dosear essa distinção. É não deixar aquém ou exagerar no condimento. É adivinhar a quantidade que faz a perfeição. Depois é, subtilmente, utilizá-la na sua forma de expressão mais pura: disfarçá-la por entre a comida ou realçar o seu contraste dos outros ingredientes. Enfim, saber extrair de si o que de mais valioso contém.
O amor é a especiaria no prato da nossa vida. Não devemos subestimar a sua importância, pois ele é, simultaneamente, o manjericão e a pimenta, a canela e o açafrão, o caril e a noz moscada. Dele provêm a côr e a magia das nossas experiências. Encerra em si, tantas vezes, paladares sem nome, aromas que não sabemos classificar, dos quais nada precisamos saber, a não ser que existem.
Há que experimentar este amor e os segredos, por vezes amargos, que nele se escondem. Há que saber dosear o amor, saber que condimento escolher para cada momento. Há que ousar roubar-lhe a vaidade da sua expressão e ostentá-la sem pudores.
E há que ter cuidado.
A melhor das especiarias, na errada proporção, pode ser veneno.
"O elixir da vida é o olhar de beleza com que presenteamos cada botão, então ele abrirá para nós, revelando assim toda a exuberância do seu ser..."
(algures p'los jardins do Solar de Mateus...)
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
estar viva
Doces e amargas, assim se querem as recordações, para que possamos valorizá-las bem.
A verdade é que experimento de novo uma série infindável de emoções e, mais importante, regressam fisicamente (ou quase) à minha vida pessoas que julguei perdidas.
It's all coming back to me, como diz a canção.
Ainda hoje pensei que reprimir sensações e recusar viver certas experiências representa um duplo perigo: um primeiro, mais imediato, que nos limita o conhecimento e a acumulação saudável de recordações; e um segundo, a longo prazo, que se manifesta quando procuramos recuperar um tempo perdido e a vida já nos pede outras coisas.
Recusei experiências que queria mesmo viver, só pela necessidade incoerente de me contrariar e já encontrei a frustração ao procurar reencontrá-las.
Preciso de encontrar um equilíbrio saudável entre o passado e o presente.
É difícil dar sentido a coisas que perdemos e que se vão tornando cada vez mais desajustadas, mas as pessoas, mais do que os momentos, marcam-nos a ferro e fogo e é bom voltar a sentir ferver certas cicatrizes.
hilarious
Depois de Sarah Palin, o desespero das sondagens negativas lança para a ribalta a sacrificada do rebanho
terça-feira, 21 de outubro de 2008
2001
Deposito aqui um bocadinho do meu coração porque, já que nunca vou esquecer, quero a prova irrefutável de que vocês não foram apenas fruto da minha imaginação. É precisamente assim que me lembro.
dar um tempo
deixar para trás.
abdicar.
despromover.
retirar carácter prioritário.
desvalorizar.
desistir.
dei um tempo a este projecto antes de lhe dar uma oportunidade de vingar.
quero que a regra permita a excepção e que dar um tempo não signifique desistir.
não sem antes dedilhar a cannonball.
biografia
"Quando trabalhei num alfarrabista – lugar facilmente idealizável, quando não se trabalha lá, como uma espécie de paraíso onde cavalheiros encantadores procuram incansavelmente volumes encadernados a pele – aquilo que mais me surpreendeu foi a escassez de pessoas verdadeiramente livrescas. A livraria tinha um catálogo excepcionalmente interessante, mas duvido de que sequer dez por cento dos nossos clientes fosse capaz de distinguir um bom de um mau livro. Os snobes das primeiras edições abundavam mais dos que os amantes da literatura. Muitas das pessoas que apareciam eram daquele género que seria um transtorno em qualquer outro sítio, mas que têm magníficas oportunidades numa livraria. Por exemplo, a amorosa velhinha que deseja «um livro para uma inválida» ou a outra amorosa velhinha que leu um livro óptimo em 1897 e pergunta se será possível arranjar-lhe um exemplar. Infelizmente, não se lembra do título do livro nem do nome do autor nem propriamente da história, mas lembra-se, isso sim, que a capa era vermelha. Para além destas, há duas outras pragas bem conhecidas que assombram todos os alfarrabistas. Uma é a pessoa decadente que cheira a côdea de pão velho e que aparece diariamente, com frequência várias vezes ao dia, tentando vender livros inúteis. A outra é a pessoa que encomenda grandes quantidades de livros e não tem qualquer intenção de algum dia vir a pagá-los. Chega e solicita um qualquer livro raro e caro, obriga-nos a prometer vezes sem conta que lho guardaremos, e depois desaparece para não mais voltar. "
burn after reading
"Depois do Billy Bob Thornton ter trabalhado connosco, entrou num filme de Barry Levinson e nós dissemos-lhe para não dizer ao Barry nenhum dos nossos segredos. O Billy Bob virou-se para mim: 'Vocês não têm segredos!'. 'Sim', respondi-lhe, 'mas não digas isso ao Barry Levinson!' "Joel e Ethan Coen (sobre o seu método de trabalho enquanto realizadores)
com os azeites
Não me surge nada engraçado que possa dizer a propósito da polémica da carta de azeites e do veto aos galheteiros. Na rádio comercial até fizeram uma música para satirizar a polémica, agora que o ministro da agricultura dá um passo atrás na sua decisão. Na verdade isto não tem mesmo piada nenhuma. É apenas mais um fait-divers de quem não sabe o que faz no governo e não tem ideia das necessidades prioritárias do país. Por mais que dê volta à cabeça, nada me ocorre. Estou desprovida de humor.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
pergunta do dia
O que fazer para impedir a minha vizinha de me invadir a cozinha com a Bimby às costas?
(sou uma besta quadrada: além de permitir que tentem profanar a minha noção sagrada do que é cozinhar, abdico também de duas preciosas horas da minha quinta-feira. Se soubesse não teria segurado o elevador)
any given sunday
Experimentei ontem alguns daqueles sentimentos que mais tememos e que, habitualmente, não atacam assim todos em simultâneo, sem aviso prévio.
A percepção de que um dia não vai correr bem afigura-se-me, infelizmente, infalível na maioria das vezes. E o acordar costuma ser determinante neste processo premonitório. Já nem falo dos sonhos bizarros que nunca são bons, na melhor das hipóteses são apenas estranhos. Aos sonhos já me habituei. Percebo que fazem parte de mim. Mas a concretização das premonições, a essa não me acostumo.
Acordar de um pesadelo com a sensação de que o melhor remédio para limpar a alma e apagar a sensação de que algo ruim se avizinha é um banho imenso, de água tépida, corrente e abundante e constatar que não há água no cano é a primeira prova de que não se devem encarar certos avisos de ânimo leve.
Mas o dia passa. Vive-se. Lida-se com a neura e com os acasos que não parecem, de todo, acasos. Até que a premonição começa a fazer sentido de uma forma assombrosa e já não apetece dizer que sabíamos que o dia ia ser assim porque, na realidade, não sabíamos. Há coisas que não se prevêem, que nos atingem como uma bola no estômago, vinda não se sabe de onde. Perguntamo-nos porquê mas não há resposta. E temos de aceitar que, ainda assim, o dia continua a passar e continua a viver-se, mesmo quando nos apetece desligar a ficha e fazer uma pausa na vida que corre, indiferente às boladas no estômago.
E o grande receio que me toma é saber-me tão pouco preparada para suportar o inevitável impacto de outros arremessos, tão violentos e imprevisíveis como este.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
aldeia global
Desde a faculdade que o conceito não se me afigurava de forma tão clara e evidente como hoje: cruzei-me com uma senhora, arianíssima, com uma enorme túnica africana, de generosos estampados verdes e azuis, calçando uns crocs que faziam o pan dan cromático perfeito.
estética capilar
Já pensei várias vezes que o Paulo Bento devia fazer carreira no estrangeiro. Por dois fortes motivos. Em primeiro lugar, acredito muito nas suas potencialidades como treinador (a sério que sim) e acho que o sporting tem-no prejudicado muito mais do que ele ao sporting. Depois porque ele precisa mesmo de mudar aquele penteado. É que já nem as sátiras humorísticas justificam tamanho ridículo. E pelo que vi do que conseguiram com o Ricardo Carvalho em Inglaterra, estes milagres acontecem mesmo.
(sei o que estão a pensar mas o Nuno Gomes é diferente. O homem não olha muito à imagem e no contexto actual isso até abona a seu favor, já que é dos poucos que estão lá para jogar à bola. Além disso, ele tem piada pelo seu ar de miúdo simpático do norte. Um estudo recente concluiu que a alcunha de amélia não é mais do que o resultado do elevado despeito de um grupo secreto de Ultras - como gostam de ser chamados - que não vêem no Liedson magricelas um grande exemplo de comparação.)
ontem
Estive ontem demasiado entretida a (tentar) perder calorias e modular o ventre, para conseguir prestar as devidas atenções à actualidade política nacional e ao jogo de Portugal, cujo desaire já havia previsto, perdoem-me se faço ilações óbvias da ostentação injustificada de vedetismo que se tem verificado em meia dúzia de estrelas que saem das aldeias mais remotas, das tocas insulares de fim de mundo ou dos acampamentos ciganos, e usam anéis DG e brincos idem-idem, aspas-aspas, com diamantes e tudo, e até penteados muito à frente, ainda com vestígios da acne nojenta que lhes enchia o rosto na época em que jogavam realmente bem, nos pelados lá da rua, e hoje têm aos pés mulheres de categoria semelhante e curvas generosas que foram (ou são), também elas, adolescentes de feira e olho guloso para os boys da band e gente desta laia, sem grandes talentos ou dedos de testa, mas com tiques de hollywood e muito dinheiro, graças a deus. Dizia que, mesmo depois de regressada ao lar, apostei mais na atenção à raposinha doméstica e até tive paciência para o meu brushing e lá fui ouvindo, de longe, a vergonha nacional (que amanhã pode ser glória), narrada já sem paciência pelos senhores da tvi. Ocorreu-me uma vez mais que se nunca tivesse conhecido o Valdemar Duarte em pessoa, não diria que ele é a besta quadrada que, efectivamente, é. Talvez porque tenha boa voz. Nunca lhe devia ter conhecido mais que isso e mesmo assim, em certo contexto, já foi suficiente para o mandar para a boa da senhora mãe dele. Antes de chegada a casa, porém, e ainda na passadeira milagrosa a 9 km/hora assistia ao mea culpa que se ia desenrolando no écran da sic notícias, a propósito do atraso na entrega do orçamento de estado para 2009. Uns que não há culpados, outros que dizem assumir a "culpa política" (presumi que há vários tipos de culpa sobre este assunto) e pensei para mim, 'andei eu todo o dia a trabalhar, esfalfadamente, enquanto estes gajos discutiam em assembleia a merda da gravidade do atraso de três horas na entrega do orçamento como se isso salvasse este país de condenados'. Até já se me crescia uma raiva miudinha e só me faziam lembrar aquele anúncio do professor e do preservativo em que os alunos se vão erguendo e repetindo 'é meu', 'é meu', 'é meu', em solidariedade comovente, e pensava eu 'vão mas é para casa ver a merda de jogo que vai dar daqui a pouco'. E não me enganei.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
ego
essa gajinha é assim, como hei-de dizer?, um nada. fraca figura, adorada apenas pelos partilharam com ela o ranho da infância e, claro está, pela família. mas esses não contam, esses amam incondicionalmente. agora, seduzir, seduzir, isso ela não consegue. não tem cabelos para isso, pele para isso, peito para isso, pernas para isso, talento para isso. e a sua inteligência é muito limitada. andou na faculdade mas é apenas mais uma das medíocres mentes formadas neste país. bem sei que ser-se formado não significa, por si só, nada de especial. quantos não conheci na faculdade que nunca souberam distinguir "soube-se" de "soubesse" (e o que isto me irrita!). portanto, não temos mulher. temos, quando muito, alguém. mais um espectro físico e ambulante, que por acaso é do sexo feminino, cuja graciosidade é... duvidosa. não. tinha de ser muito mais, muito maior, muito melhor para conseguir ser extraordinária e estar, portanto, à minha altura.
silêncio
não se incomodem, por favor, quando estou sozinha.
preocupante é a solidão, não a ausência de gente à nossa volta.
preocupante é a solidão, não a ausência de gente à nossa volta.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
permissividade
O limite da nossa permissividade está sempre dependente de nós: a permissividade em relação ao que se tolera, ao que se abdica, ao que se vive, ao que se é. Sempre fui muito, leia-se demasiado, permissiva. Ainda sou. Sempre atribuí a esta característica uma conotação nublada, variável de situação para situação. Em alguns casos, a minha permissividade era assumida como tolerância, noutros como boa-vontade, noutros ainda como uma visão democrática da maneira de ser dos outros, mesmo quando esse factor externo tinha implicações directas na minha vida. Na maior parte das vezes, no entanto, deixei que permissividade e amizade se fundissem (e confundissem) até ao ponto de se tornarem indissociáveis. Também aconteceu no amor. Quando acordei para os primeiros sintomas desta infeliz realidade, tentei mudar as coisas mas só consegui remediá-las e adiar desilusões. Hoje tento evitar que esta minha exagerada permissividade se assome nas minhas relações com os outros. Tento que seja contida, regrada. Predisponho-me a sofrer mais desilusões ainda, como consequência de anos de permissividade, desde que essas desilusões assumam um carácter definitivo. Quero cortar as lianas sombrias que me prendem a pessoas das quais, na realidade, não preciso. É tão bom, tão intensamente bom, ser desejada por tão poucas pessoas e sentir que esse círculo é tão mais forte do que o elo gigante que me liga a mil ninguéns.
Percebo isto quando chegam as boas novas que, afinal, já não me dizem nada.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
what the hell..??
Mesmo com os disparates que conscientemente são difundidos pela Internet em formato de cândidas mensagens para repassar, sob ameaça de maldições terríveis, ou através do aproveitamento da compaixão do próximo por doenças que nem sequer existem, o Gmail manifesta-se bastante preocupado com a preservação da integridade moral de quem, depois de uns copos, se aventure nos conteúdos electrónicos.
(Já investiguei a ferramenta do Labs no meu gmail mas ainda não sofreu este up-grade. Também não devo utilizá-lo muito. Como não bebo seria muito humilhante não acertar em contas matemáticas feitas com o propósito de testar a demência que o álcool pode provocar. Tenho um certo receio de, na minha sóbria lucidez, não passar no teste)
cornucópias
Soubera eu que é comum e talvez assim fosse mais fácil;
Soubera eu enganar-me com felicidade imaginada;
Soubera eu que nada é tão dramático como parece e que a felicidade simples está logo ali, depois daquela esquina que dobra;
Mas não.
Mas não...
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
canal Panda
Hoje nada me impediria de estar em casa às 13h26.
De manhã era impossível e ao fim da tarde (Deus me dê forças!) estarei no ginásio, por isso só me restava a emissão do almoço. Corri que me fartei, que é como quem diz acelerei muito, mas uns minutos antes, sentada no sofá, lutava com o comando e com a nova configuração da power box para encontrar a lista total de canais e localizar o Panda (que tenho de acrescentar à minha lista de Favoritos porque um ano passa depressa e quero evitar estes stresses) e consegui! Ainda tive oportunidade de conhecer o ursinho Nouky, o burrinho Paco e a vaquinha Lola, antes do intervalo que trouxe ao écran, com impressionante pontualidade, a menina dos meus olhos para os seus quinze segundos de fama.
che sorpresa
pus-me a testar o tradutor do Google.
ante o meu cepticismo, até me pareceu bastante fidedigno. como tenho um feeling (ou talvez uma vã esperança) de que trocarei o reveillon caraibenho por uma viagem a Itália, experimentei: bom ano novo = buon anno; parabéns a você = buon compleanno a voi; rapaz bonito = PRETTY BOY ???
voltei a tentar e o resultado foi o mesmo.
lá se foi novamente a minha confiança na fiabilidade do motor de busca. e reforça-se a convicção de que o inglês é a língua universal (e em caixa alta!).
terça-feira, 7 de outubro de 2008
a necessidade aguça o engenho
"O aumento dos combustíveis afecta todos. Na Tailândia, os arados mecânicos estão a ser substituídos pela força animal já que os preços dos combustíveis são muito elevados. Este rapaz trava amizade com um búfalo durante um dos cursos que o governo tailandês está a promover para treinar novos agricultores."
fonte: http://noticias.sapo.pt
Escola de búfalos?
Curso promovido pelo Governo tailandês para treinar novos agricultores?
Escola de agro-búfalos?
São bem mais espertos do que nós, na Tailândia!
tecnologias de utilidade doméstica
Foto@EPA/Dai Kurokawa
"A tecnologia japonesa apresenta a sua última invenção: os meninos robots, ou melhor, o «Rapaz Murata» e a sua prima a «Menina Murata». Com apenas 5kg e 50 cm de altura estes robots conseguem mover-se sozinhos com ajuda de sensores. Mas também podem ser comandados por humanos através de «blootooh»."
fonte: http://notícias.sapo.pt
"blootooh"?
será Bluetooth?
...
ainda a propósito de futebol
saber ganhar é fácil. todos têm um bom discurso na vitória.
saber perder é mais complicado.
estou em pulgas para assistir às desculpas de mau perdedor de Jesualdo.
cheira-me que não vou precisar esperar muito.
este Porto que ainda lidera, tem queda anunciada.
campanha
palavra de honra que Barack Obama, no seu estilo de afro-american de etiqueta e cara lavada nunca me emocionou com os seus dicursos eloquentes e a proclamada sensibilidade para os problemas dos norte-americanos (sou invariavelmente céptica em relação a toda e qualquer figura política), mas a Sra. Palin deixa-me os nervos em franja. acho-lhe até ar de psicopata disfarçada.
saber da minha economia dependente deste país de miseráveis é frustrante.
espreitar a lixeira
liderança adiada
na ressaca de um empate com sabor a derrota, sentimentos de frustração à parte e profunda agonia dos meus vizinhos que têm vivido cada jogo como se de uma final se tratasse (com direito a aplausos e gritos de encorajamento ao apito inicial), ocorre-me dizer que o mister Quique é um treinador inteligente, humilde e imparcial. são três características que os benfiquistas (no geral) não estão habituados a ver neste clube há muito tempo. e muitos, nomeadamente os que consideram que este empate foi injusto para o clube do coração, nem sequer sabem reconhecê-las. não é caso único admitir no fim do jogo que não se mereceu mais do que o que se teve (basta olharmos para o Paulo Bento nas flash interviews dos últimos jogos) mas este Quique, no meio destes dissabores, faz mais do que isso: incute melhorias já visíveis mas (e ele sabe-o) ainda insuficientes. de estranhar seria que o Benfica que nos habituámos a ver nos últimos anos se transformasse, do dia para a noite, numa equipa invencível. além disso, é importante salientar o grande mérito do Leixões, que nunca virou as costas à bola e jogou sempre para marcar (tenham eles a mesma atitude no dragão, embora certamente lá não consigam reunir a falange de apoio de Matosinhos - quase tão insuportável como a do Nacional da Madeira, mas menos estridente).
está quase tudo dito.
José Mota tem motivos para ser um treinador feliz e confiante na sua equipa.
pequena correcção à sua declaração no final do jogo: apesar da aceitável observação sobre a maior justiça que a vitória da sua equipa traduziria, nunca poderá dizer "fomos sempre a melhor equipa em campo. fomos a que mais tivemos a bola e a que mais fizemos para ganhar...". em bom português, fomos a que mais teve e a que mais fez. assim é que se diz. foi a nódoa no pano imaculado da competência do mister a noite passada.
mas no futebol há incompatibilidades inultrapassáveis.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
os socialistas andam a padecer de falta de camaradagem política...
é preciso golos para reclamar vitória
Obama e McCain colocaram ontem as suas marionetas na linha de fogo para defender os respectivos patronos.
Activou-se a diplomacia para discussão sobre o sexo dos anjos. E o sexo dos anjos na América é uma pescada de rabo na boca que involve a Guerra no Iraque e as questões financeiras que se prendem com o petróleo.
Dizem as sondagens que saíram vencedores os democratas. Quer isso dizer que Joe Biden teve direito ao seu cubo de açucar ao descer do pano.
Mas afinal, o que é isso de se vencer um debate destes?
Para se vencer tem de se ser realmente superior e, acima de tudo, marcar golos (que foi o que o Benfica fez ontem).
Mas os Americanos não percebem nada de futebol.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
maria
Sempre gostei de ouvir a tua voz. As palavras saem disparadas a mil à hora, decididas, traduzem fortes convicções, em relação a tudo. São palavras de sindicalista, sempre no bom sentido do termo.Não és fácil. És complicada mas pragmática. Na tua forma tão comum de teres sempre uma tarefa em mãos, consegues estar distante, afastada, mas não és pessoa de se esquecer... ou ser esquecida.
Não me esqueço do teu ar sorridente e da tua forte expressividade. Não esqueço as tuas lágrimas de emoção, tão fáceis como as minhas. Não esqueço outras lágrimas que, inevitavelmente, partilhámos e orgulho-me de termos estado juntas em momentos felizes e em horas menos boas.
Mesmo os conflitos foram sempre um desafio. Testar a nossa compatibilidade acabou sempre por fortalecer os nossos laços. Trocámos conselhos, sermões e segredos sem nunca julgarmos a outra. Tão diferentes e tão iguais, fomos sempre capazes de discordar com classe e isso aproximou-nos.
Fomos ao futebol para lugar VIP, como quem sai em Manhattan para ver montras, e demos por nós a falar de abdominais masculinos e a rir muito.
Rir, rir, rir muito. Gargalhar. É das coisas que me lembro sempre que te relembro.
Tenho saudades dos espectáculos vividos no pavilhão, de trabalhar contigo e discutir os nossos critérios para atribuição legítima do adjectivo charmoso a alguém, enquanto dissecávamos as nossas crises existenciais, de te deixar em casa já bem tarde mas sempre com assunto para fazer a conversa demorar horas.
Nunca nos faltou tema. Talvez por isso, mesmo depois de semanas, meses!, sem falarmos, nunca há embaraço, nunca fica a sensação de que somos almas separadas pelo fosso da distância. O sorriso e o olá soam sempre familiares como se ali estivessem todos os dias. Não apetece calar a conversa que despertamos.
Não, não te considero desnaturada. És assim, cada vez mais aquela mulher que não sabe estar parada e é mais importante para mim sentir que quando te oiço faz sentido ouvir-te, mesmo que o (pouco) tempo nos roube a frequência dos diálogos.
Ontem, mais uma vez e como sempre, gostei de ouvir a tua voz...
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
eu já votei. e você?
votei, ainda que por exclusão de partes.
voto sempre por exclusão de partes. daí que na maior parte das vezes seja uma Abstenção com A maiúsculo (quem ganha agradece sempre esta minha opção de voto).
sugeria que, depois do amor, a alternativa fosse... fazer mais amor.
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