terça-feira, 8 de abril de 2008

Costa Rica

Que será feito do Joaquín? E das bailarinas?

Que bem que se deve estar agora do outro lado do Atlântico, na América Central... a comer ovos minúsculos de codorniz e muito queijo ao pequeno-almoço. Até ovos mexidos em quantidades grotescas e que nunca comemos por cá, logo ao acordar. E muita fruta.
(Só penso em comer, que nervos.. tanta coisa boa e eu só penso em comer).
Como queria estar lá outra vez!

Isto lembra-me que tenho de tirar um curso de preparação de bagagem.

Não consigo arrumar uma mala em condições. Falta-me sempre qualquer coisa muito importante e há sempre carga completamente dispensável. Mesmo que eu saiba como é o sítio para onde vou, seja por muito ou pouco tempo, é sempre uma tragédia. O que normalmente acontece é que acabo por repetir a mesma roupa inúmeras vezes, porque não tenho uma alternativa decente, e trago de volta peças que não utilizei.

Acho que isto está relacionado com a mania de ter sempre as gavetas atafulhadas de coisas que não visto mas que, sem que para isso haja uma explicação lógica, mantenho guardadas para o caso de.


O Joaquín fez uma performance de Michael Jackson de se lhe tirar o chapéu!

E as bailarinas tinham também muito talento.

O Victor também era engraçado, com o seu estilo mais desleixado. Lembro-me dele a chamar os macacos nas árvores. E a dar aula de hidroginástica.


Lembro-me do tubarão que se escondia na guta.

Do chão enlameado no regresso ao resort, no dia dos souvenirs.

Dos nachos com aquele molho muito pouco saudável.

Das picadas de mosquitos ao final da tarde.

Da bracelete verde.

De acordar com a notícia de que o Porto era campeão.

Das carrinhas de tour.

Da Preguiça pendurada e da preguiça de início de tarde.

Do vulcão.

Do cheiro dos grãos de café.

Do casado.

Do arame farpado.

Do Campus Universitário.

Do Mercado sujo.

Do pequeno-almoço bem cedo em San José (com Corn-Flakes em saquetas individuais).

Do aeroporto...

Do velho do chapéu no avião que queria a mala perto dele.


Para a próxima não levo bagagem. Compro tudo lá e não me aborreço. Vou andar sempre com a mesma roupa de qualquer maneira...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Andorra


Quando entrámos no apartamento ficámos em choque.

Não era bem um apartamento, era mais... um pardieiro. Tinha um pequeno corredor estreito, uma porta para a humilde casa de banho do lado direito e, do lado esquerdo, um beliche (tipo estabelecimento prisional), com colchões gastos, muito sujos e lençóis brancos, dobrados e rijos de tanta goma. Mais à frente um sofá forrado de um tecido escuro - obviamente velho e sujo também - e uma mesa de madeira. O móvel da televisão e a kitchenet completavam o cenário daquele espaço que nos aguardava depois de muitas, imensas!!, horas de viagem.

A primeira coisa de que gostei realmente foi do vão de espaço por debaixo da janela, onde as nossas bagagens poderiam ficar sem incomodar ninguém. Já não era mau. Mesmo assim, apetecia-me cair no chão e chorar. Estava exausta.

Depois o choque foi passando. Teríamos de deitar mãos à obra antes de podermos descansar, de forma a transformar aquele... apartamento, num espaço onde nos sentíssemos bem nos próximos dias. Fizemos do sofá uma cama e, com os dois colchões do beliche, fizemos a outra cama. Dois casais, duas camas improvisadas. Ninguém ia dormir num beliche da 2ª Guerra Mundial no corredor! O humor começava a melhorar.

E quando a nossa imagem das coisas deixa de ser tão negativamente condicionada, voilá!, descobrimos o que sempre lá esteve e não conseguimos apreciar antes. Aquela fabulosa janela do nosso apartamento, apoiada num telhado alto de sótão, com vista para as montanhas cobertas de neve!

De repente, o cenário já não era nada mau. Afinal tínhamos ali de tudo: água (nem sempre quente como iríamos descobrir...), luz, camas (colchões sujos e gastos...) e até uma televisão, uma Playstation (levada de Portugal porque a "suite" não tinha esses extras) e um dvd do Gato Fedorento que preenchia os serões!

Além disso, os dias foram passados quase de manhã à noite a descer pelas pistas com pranchas de snowboard. Não dava tempo para apreciar os luxos de um apartamento de cinco estrelas.

Grande experiência!

Se não pensar muito na angústia que era para mim cada subida no forfait, com a única certeza de que cairia a descer e seria atropelada por alguém, ou no súbito impulso de fé que nem sabemos que temos quando fatalmente acabamos por cair pois já perdemos o controlo da prancha agarrada aos pés há duzentos metros atrás, ou na sede horrível que o intenso esforço físico provoca e que nos leva a comer punhados de neve (sim, do chão, porquê?), tenho de concluir que foram dias inesquecíveis estes em Andorra!

Não esqueço a janela de sótão com vista para as montanhas, principalmente naquele dia em que ficou emoldurada de branco por causa do forte nevão. Nem esqueço as bolas de neve fria que me atiraste ao acordar :-). Nem esqueço o Boneco de Neve (estava perfeito!). Nem a comida de má qualidade que fazíamos apressadamente mas que calava tão bem a nossa fome, depois de um dia extenuante.

Só já não me lembro certamente do truque para o snowboard. Terei de voltar ao princípio, outra vez, um dia.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Shiuuuuuu.....

Sinto-me tão ensonada.... estou aqui e não estou. É, literalmente, como se estivesse a flutuar e os olhos pesam como se a qualquer momento se fossem cerrar totalmente. Apetece-me estar noutro espaço e poder deixar-me cair no vazio que me chama, neste abismo de sonolência à beira do qual estou debruçada.
Mas não posso. Mais que não seja porque me apetece escrever e soltar aqui pensamentos.
E, no entanto, sinto que a qualquer momento vou deixar-me levar por esta sonolência que persiste, como se fosse impossível vencê-la e precisasse mesmo, mesmo, mesmo, de deixar-me adormecer...
Talvez hoje não solte pensamentos mas antes... sensações. Porque não me sinto capaz de pensar.
Mas sentir, isso sinto.
Sinto que precisava dormir um dia inteiro, muitos dias, uma semana... mas acordar e não sentir que perdi uma semana a dormir. Acordar e sentir que a semana só tinha contado para a necessidade do meu sono profundo e que o tempo real tivesse parado em todos os relógios.
Como se faz para parar o tempo?
Improvável é adormecer aqui e agora. Mas parar o tempo, isso é mesmo impossível...
Descobri agora que não é boa ideia escrever quando o meu corpo me pede que durma uma eternidade. As vozes do meu corpo, todas as vozes que neste momento segredam baixinho e cujos discursos se entrecuzam de uma forma complexa e irritante, as vozes que me suplicam que me deixe cair lentamente no abismo desta sonolência não me deixam escrever. Que irritantes são estas vozes.
Descobri agora que para escrever, tenho de calar primeiro estas vozes...
Por isso vou dormir...
Vou deixar-me levar. Os véus a baloiçar com a brisa morna, muito ténue, que quase não se sente...
A suave libertação do corpo que vai flutuando... em profundidade...
Tão lentamente como se não tivesse peso algum...
Tudo o que existe dá lugar ao nada...
E durante um tempo, um tempo que nunca pára, eu durmo.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Botas ou sandálias?

A forma como vejo e sinto a vida é, por vezes, tão estranhamente antagónica que me pergunto na realidade quem sou eu, ou no que consiste a substância do meu "ser".
Quer dizer, se eu tivesse quinze anos era aceitável. É daquelas idades em que a maioria de nós não sabe bem o que é, o que quer, o que anda aqui a fazer e se "it's nice to be important" ou "it's more important to be nice"...
Mas esperava chegar a esta idade, mais ou menos crescida, e ser uma daquelas pessoas de cabeça levantada, andar firme e atitude decidida. E não sou.
Certamente vou pensar, daqui a dez anos, que o que sinto hoje é normal e dizer, uma vez mais, aquilo que já hoje repito tantas vezes e que é das frases que mais abominava quando era miúda: Se eu soubesse o que sei hoje... (dito com um ar melancólico e sorumbático para ter o efeito que é suposto, claro!).

Mas não me quero perder, porque a história do Chouriço só tem piada para quem ouve a primeira vez! (Constato com alguma pena que a partir daí vai sendo cada vez mais insuportável, acreditem!! E só há mesmo uma pessoa em todo o planeta que compreende o que acabei de escrever).

Voltando ao início, é com frequência que me sinto dona de uma personalidade frágil, recorrendo ao eufemismo.. E sabem onde é que noto mais esta característica? Nas Finanças! A sério! Tinha de dizer isto, estava a sufocar-me há anos!!
O.k., as Finanças são o bode expiatório (se fosse só as Finanças!), mas são um grande exemplo.
Os sapos que eu engulo daquelas senhoras mal-dispostas e irritadas! E depois parece que "cheiram" as vítimas. Se chegar lá uma senhora emproada ou a fazer peito, elas encolhem-se que nem bichos de contas. Mas a mim topam-me logo. Para já, começo por dizer bom dia ou boa tarde: boa educação? Não! Sinal de fraqueza. Depois pergunto se posso só pedir uma informação, em vez de pedi-la logo.
Saio sempre das Finanças a ouvir uma voz cá dentro que me diz que devia ter esmurrado alguém.
Mas isso é um absurdo, é óbvio!
Pelo sim, pelo não, é melhor mandar cá para fora porque estes sentimentos recalcados não fazem bem a ninguém.

E agora que me sinto muito mais aliviada, avanço para o que me trouxe aqui hoje.
Uma amiga aconselhou-me a visitar um daqueles sites engraçados para testarmos a nossa personalidade e fazermos comparações que nos levam a conclusões curiosas.
Acho que alguns destes sites (alguns!!) são realmente interessantes e acredito que as opções que se nos deparam têm como base elementos de fundo de análise psicológica. Mas normalmente é uma tortura para mim fazer determinadas escolhas. E não sei se por aí posso reforçar a minha ideia de que tenho um sério problema de falta de personalidade ou se, por outro lado, sou simplesmente uma pessoa... eclética! Quer dizer, eu sei lá se prefiro uma tarte de limão e natas, fresquinha, doce mas levemente ácida para contrastar, suave mas consistente, que combina a arenosa textura do miolo da base, com o creme frutado do interior e a cobertura glácea; ou uma fatia de bolo de chocolate, intenso, fofo e recheado de pepitas de chocolate aqui e ali, coberto de avelãs finamente picadas e... e ainda dão mais sete ou oito hipóteses de escolha!!! Não está certo!
Isto até pode ter uma explicação fácil: sou gulosa. Aceito.
Mas e se me propuserem umas férias numa casa de madeira rústica, no alto de uma montanha salpicada de neve, com vista para um lago gelado, onde eu possa fazer actividades, passear com cabras maltesas e passar serões à lareira com o grupo de amigos, a ver um bom filme, a jogar um jogo divertido e a contar anedotas? Bem fixe... se tentar esquecer o cenário paradisíaco de uma praia de areia branca, com um mar infinito à minha frente que de tão azul parece verde ou de tão verde parece azul e se nota mesmo pela foto que a temperatura é quase tão quente como a do ar, onde posso beber granizados de todas as frutas e não ter de me preocupar com o que vestir ou calçar e esperar pela noite, também quente, também paradisíaca.

Está decidido. Sou eclética! Gosto de doce e de salgado; gosto de frio e de quente; gosto de música e de silêncio; gosto do clássico e do moderno, do típico e do inovador, do habitual e da excepção.
Não gosto do exagero, não gosto do insuficiente, não gosto de tudo, não gosto de extremos.
Gosto do que é suportavelmente bom porque o que é insuportavelmente bom... é mau.
Gosto do que para mim é bom.
Não confundam. Não sou fácil de contentar. Sou... eclética! Ah, e indecisa...

sexta-feira, 28 de março de 2008

Pearl Jam

Porque a Música e a Poesia ocupam um lugar muito importante; porque o meu tributo nunca será suficiente para compensar tudo o que me Elas me dão; as minhas duas últimas entradas não são textos meus, mas sim os originais que inspiram em mim a vontade de as homenagear...

Tidal waves don't beg forgiveness
Crashed and on their way
Father he enjoyed collisions; others walked away
A snowflake falls in may.
And the doors are open now as the bells are ringing out
Cause the man of the hour is taking his final bow
Goodbye for now.
Nature has its own religion; gospel from the land
Father ruled by long division, young men they pretend
Old men comprehend. And the sky breaks at dawn; shedding light upon this town
They'll all come ‘round
Cause the man of the hour is taking his final bow
G'bye for now.
And the road
The old man paved
The broken seems along the way
The rusted signs, left just for me
He was guiding me, love, his own way
Now the man of the hour is taking his final bow
As the curtain comes down I feel that this is just g'bye for now.

Pearl Jam, "Man of The Hour"

quinta-feira, 27 de março de 2008

Ah! Como vivo o Pessoa..!


"... Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir."
Fernando Pessoa "Do Livro do Desassossego"

segunda-feira, 24 de março de 2008

Especial Março: Vilas de Portugal

As minhas sugestões, inspiradas por uma Páscoa em viagem pelo Norte do País...

Amarante

foto: site Câmara Municipal de Amarante

AMARANTE: Uma estreia para mim e uma boa surpresa. Prometida, desde já, uma nova visita, de preferência mais longa, lá mais para o Verão (esplanadas fantásticas com vista para o Rio Tâmega).

Recomendo: Para quem procura almoço ou jantar, paragem obrigatória no restaurante "O Zé da Calçada", muito próximo da ponte velha... Todo (TODO!!) o tipo e variedade de entradas e sobremesas à discrição. Obrigatório: Levar muita fome :-)

Ponte de Lima

foto: Amândio de Sousa Vieira

PONTE DE LIMA: Não é uma estreia. Conhecida por ser a Vila mais Antiga de Portugal é uma das minhas eleitas há largos anos. Em comum com Amarante: Ponte Velha (sobre o Rio Lima), monumental arquitectura nortenha, construções maciças, zonas de passeio pedestre à beira-rio, jardins, cafés, esplanadas e restaurantes.. Muita vegetação e muitas cores.
Actividades no Rio. Particularmente activa no Verão e, tal como Amarante, berço de muitos emigrantes.
Recomendo: Mais uma Vila onde se come muito... e bem! O Minho é terra de gente de festa. A vila é particularmente visitada na altura das festas de Setembro. Há diversões para todos os gostos e em cada esquina se encontra animação: Fados, Tunas, Fogo de Artifício, Artesanato, Tascas, Carrosséis, Feiras...
Para comer, imperdoável não provar o prato da Região: Rojões com Arroz de Sarrabulho. Para quem não gosta: Bacalhau, Migas, Lampreia, Pato, Polvo... de tudo se cozinha bem por estas bandas (há muitos restaurantes recomendáveis mas podem experimentar o "Encanada", juntinho ao Mercado Municipal) e também convém que se vá de estômago vazio!

segunda-feira, 17 de março de 2008

A lua em Mim

A superfície da Lua
por Paulo Gomes Varella

"Distinguem-se, na superfície lunar, três feições significativas: os mares, as montanhas e as crateras.
Ao observarmos a Lua em uma noite límpida, facilmente distinguimos várias manchas escuras que se distribuem pelo seu disco iluminado, algumas com formas curiosas, sugerindo as figuras de um rosto, de um coelho, etc. Tais manchas escuras foram chamadas, no passado, de mares lunares, nomenclatura provavelmente introduzida por Galileu Galilei.

Os mares são extensas planícies formadas pelo derramamento de rochas ígneas (tipo extrusivas, semelhantes aos nossos basaltos) e que preenchem grandes áreas da superfície. Estas rochas são escuras e refletem pouca luz solar. Em relação às demais áreas da superfície lunar são mais jovens e, por isso, apresentam poucas crateras. Por serem menos acidentadas foram escolhidas como áreas de pouso das primeiras missões tripuladas à Lua, como foi o caso da missão Apollo 11, que conduziu os primeiros astronautas à superfície da Lua em 1969, cuja área de pouso localizou-se no chamado Mar da Tranqüilidade.

Há inúmeros mares na superfície da Lua, principalmente na face perpetuamente voltada para a Terra. Além do Mar da Tranqüilidade há o Mar das Chuvas, o Mar das Crises, o Mar de Humboldt, o Mar da Serenidade, o Mar da Fecundidade, etc.

Em contraste com a aparente planicidade dos mares lunares, há grandes montanhas caracterizadas por serem muito escarpadas, geralmente com cumes pontiagudos, revelando que o intemperismo (com exceção ao intemperismo físico, conseqüência das variações térmicas diuturnas) e a erosão não são fenômenos preponderantes na modelagem do relevo. A falta de atmosfera e a conseqüente ausência de ventos e chuvas produzem uma situação ímpar: as montanhas, salvo pequenas alterações, parecem estar preservadas, apresentando-se conservadas desde a época de suas formações. As grandes cordilheiras receberam nomes iguais às marcantes cadeias de montanhas da Terra, como é o caso dos Alpes, dos Apeninos, do Cáucaso, dos Pirineus, etc.

Por fim, há as crateras, estruturas com formas circulares ou elípticas, provenientes principalmente da colisão de corpos celestes das mais variadas dimensões com o solo lunar. Cada cratera representa uma cicatriz, uma marca de um evento catastrófico. Há milhares de crateras na superfície da Lua com diâmetros que variam de alguns milímetros até grandes estruturas com mais de uma centena de km de diâmetro. Além das crateras de impacto, acredita-se que algumas sejam remanescentes de antigos vulcões."

Não há nada que mais admire do que a Lua... Não me cansa olhá-la. Serena, Agitada, Brilhante, Mate, Grande e Nula... É difícil existir algo mais bonito e misterioso ao alcance da vista Humana. Será que vou tocá-la um dia?

segunda-feira, 10 de março de 2008

Sabedoria

Nem todo o bom senso do mundo se sobrepõe às fraquezas que caracterizam a condição humana e, consequentemente, à irracional vontade de romper com as fronteiras que nos separam legitimamente dos outros.
Quantos de nós nunca sentiram vontade de conhecer os desejos secretos daquela pessoa, os seus pensamentos mais íntimos, principalmente daqueles que nos são chegados e que muitas vezes receamos não conhecer como achamos que temos direito? Mas nós não temos, de facto, esse direito. E seremos tanto mais virtuosos quanto melhor soubermos aceitar esta realidade.

Felizmente, os "direitos reservados" relativamente aos nossos pensamentos e àquilo que sentimos estão garantidos, em igualdade e sem descriminação para cada pessoa. É por isso que um dos mais valiosos e impenetráveis tesouros que possuímos é o nosso mundo de memórias, que não pode ser-nos "arrancado" por ninguém, nem com a melhor das tecnologias, e tem a magia de, ainda que seja da nossa vontade, não ser sentido por ninguém como é sentido por nós, mesmo que o partilhemos.

Aquilo que considero ser a verdadeira sabedoria é o resultado de uma estreita relação entre as nossas memórias e o que a imaginação nos permite construir com as memórias dos outros. Quantas mais recordações guardarmos, quantas mais experiências vivermos e acumularmos e quantas mais forem as memórias que aqueles que se cruzam nas nossas vidas partilhem connosco, maior e melhor será o saldo da nossa sabedoria.
Faz sentido que a idade seja um factor de peso para se chegar a sábio.
Mas mais do que isso, faz todo o sentido que, independentemente da distância entre o ponto de partida e o ponto de chegada, a nossa vida seja recheada de acontecimentos, experiências, boas e más recordações, razão e emoção e, sobretudo, de muitas relações, pessoas, 'estórias' e Imaginação, para podermos reconstruir as memórias dos outros e entrelaçarmo-las com as nossas próprias memórias...

Sinto que sou um pouco mais sábia conforme o tempo vai passando e vou aprendendo a refrear a vontade de "invadir" aquilo que, nos outros, não me pertence. Ao mesmo tempo, vou conseguindo gerir melhor as minhas próprias memórias, as que, felizmente, vão crescendo e que vou arrumando em gavetinhas separadas e me ensinaram tanta coisa que aplico no presente.

Quero um dia olhar para trás e descobrir que o meu passado é uma grande sala, cheia de gavetas com imagens, cheiros, lágrimas, desejos e sorrisos. Gavetas com rostos, nomes, sensações, músicas e sabores. Gavetas das quais ninguém tem a chave.

E dessas gavetas talvez eu retire qualquer coisa para partilhar com alguém; alguém que reconstrua, com a sua Imaginação, o objecto das minhas memórias..

sexta-feira, 7 de março de 2008

Menina...

Conheço uma menina franzina e pequena; trigueira de natureza, de nariz arrebitado e cabelinhos escuros e finos. Tem dentinhos desalinhados - ainda de leite! -, que mostra atrevidamente quando sorri. Tem uma voz meiga e doce, mais infantil que a de muitas outras meninas da mesma idade, mas que apetece congelar no tempo e ouvir sempre! Ai, se eu pudesse! Se fosse legítimo conservar numa "caixinha" esta voz melodiosa e ouvi-la sempre que apetece, sem gastar!
Atrapalha-se a falar, esta menina. É esperta e brincalhona, mas cresce sem pressa nenhuma. Não é a mais inteligente dos meninos da sala, lá no colégio; nem tão pouco a mais crescida ou desembaraçada. É emocionalmente frágil, como as crianças devem ser e apetece abraçá-la, protegê-la, pedir-lhe que não cresça.
É tão fácil sentir tantas coisas por esta menina e, contudo, tão difícil descrevê-la para além daquilo que os olhos vêm.
Sei que, seja qual for o rumo que a vida tome ou quantas mais meninas conheça, esta menina vai ser sempre a minha menina especial.
Vou querer um dia dizer a esta menina, talvez quando já for uma Mulher, o quanto ela é importante para mim. Vou querer contar-lhe das vezes que tentei adormecê-la sem sucesso, porque era muito selectiva no colo; vou dizer-lhe quantas vezes a apelidei carinhosamente de disléxica pela forma deliciosa como trocava as sílabas a proferir as palavras, por mais simples que fossem, e como lhe disse tantas vezes que era muito esquisita por se sentir apertada e desconfortável com collants que se enrolavam nos sapatos e ficavam torcidos nas suas pernitas de bailarina... Vou mostrar-lhe as inúmeras fotos de todas as suas fases e contar-lhe banalidades sobre o dia em que foram tiradas. Se mudar no futuro, saberá que no passado não gostava de sentir a areia da praia nas mãos e muito menos que esta entrasse pelas aberturas das sandálias! Que aborrecimento! Não saía do sítio enquanto não a limpassem e transportassem ao colo até uma toalha bem sacudida e com um diâmetro de segurança razoável... Como a compreendo!
Mas isso é um dia... mais tarde. Muito mais tarde, se puder escolher. Porque, por enquanto, vou abraçar esta menina e contemplar o seu sorriso matreiro, inebriada pela sua voz de bébé, esperando que o passar do tempo nos dê tréguas e me permita guardar muitos mais momentos para contar um dia, muito mais tarde, à minha menina...

quarta-feira, 5 de março de 2008

A fava... rica!

Era assim que devia ter sido iniciado este blog:

"O termo culinário fava-rica designa a «fava seca, que, depois de cozida, é refogada com azeite, alhos e pimenta» (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa). É apreciada por muitas pessoas, pois é base de sopas deliciosas. Assim, as vendedeiras são bem recebidas por quem gosta de fava-rica. Portanto, «até vir a mulher da fava-rica» significa: «poderemos ter de esperar muito tempo, mas vai valer a pena».
A. Tavares Louro :: 26/04/2007 "
in http://www.ciberduvidas.pt/

Ou com qualquer outro tipo de esclarecimento sobre o nome do blog e, eventualmente, uma explicação para a expressão popular que lhe está na origem. Não que considere que tudo tem de ter uma justificação ou que esta tenha de ser do conhecimento público, mas afinal de contas este é um espaço de partilha.
O que não consigo é explicar muito bem a minha adopção do termo. A expressão "até vir a mulher da fava rica" sempre me soou muito engraçada e logo que a ouvi pela primeira vez questionei-me sobre o 'pano de fundo' do seu aparecimento. Afinal de contas, a mulher da fava rica é uma espécie de salvação das almas? É a toda-poderosa das criaturas, por quem todos esperam e cuja chegada implica sempre uma espera que parece interminável? Quem não quer ser assim tão desejado? Pois.. Posso afirmar, sem falsas modéstias, que não gosto desse conceito aparente de centro das atenções, mas gosto de pensar que, seja em termos culinários ou noutro contexto mais profundo, saber que é opinião unânime que vale realmente a pena esperar por mim o tempo que for preciso, faz-me querer ser a mulher da fava rica para todas as pessoas que são importantes para mim.
Ah! Quase me esquecia! Não gosto de favas guisadas...


terça-feira, 4 de março de 2008

Um brinde... à vida!

Devo confessar que tenho tendência para as lamentações. Não tanto para lamentar o que fiz, mas para me lamentar daquilo que não faço. É uma tendência que quero tentar contrariar porque concordo com a velha máxima que nos diz que pior do que fazer mal é mesmo nem sequer tentar! Quis o acaso então que o dia 4 de Março fosse um dia Histórico na minha vida. Não só por esta resolução. Começar o blog é um passo em frente, absolutamente. Mas há dias em que várias pequenas coisas contam... O olá de um amigo especial através do mail só para deixar um beijo, ouvir a voz de alguém que já não dava notícias há muito e em quem pensamos tantas vezes, descobrir que a nossa amiga dos tempos de escola vai ser mãe e, muito importante, consciencializarmo-nos de que fazermos algo que gostamos pode transformar um dia banal num dia realmente... histórico!
Creio que só nos apercebemos mesmo da importância que têm alguns acontecimentos quando estes nos afectam de alguma forma.. É o que dizem da vida e da morte. E penso que é bem verdade. Prefiro escolher a Vida. Faço esta escolha por motivos óbvios: se por um lado é menos obscura e mais agradável, por outro vem também mais a propósito, para que possa homenagear alguém que pode hoje adormecer a pensar que também para ela Hoje é um dia Histórico. Daí um brinde ao começo, que para mim é apenas o meu blog e para a minha amiga é o verdadeiro início de uma Vida!
Hoje estou em fase de aquecimento em lume brando, ludibriada por esta sensação de bem-estar que nos invade quando avançamos por terreno desconhecido que já queríamos experimentar há muito.. e é agradável esta sensação. É inversa à sensação de tormento que nos auto-infligimos quando nem falhamos nem somos bem sucedidos porque nem sequer tentamos.
Vou por isso dormir enroscada neste sentimento de bem-estar..
Espero que todos os fetos durmam bem esta noite, enroscados em ventres felizes e maternais, e que todas as sereias do mundo estejam, a esta hora, a tomar banhos de uma Lua branca, enorme e brilhante...
Vocês entendem-me...
Boa noite..