segunda-feira, 26 de maio de 2008

Loja do Cidadão (II)

Quando nos resignamos ao facto de que temos mesmo de esperar por duzentas senhas à frente da nossa, principalmente se entretanto conseguimos um lugar sentado, num sítio estratégico, de onde podemos avistar o quadro electrónico e observar as pessoas que passam, a coisa deixa de parecer assim tão má. Gosto principalmente da parte do observar... Gosto de ver maldicência em tudo. Quer dizer, faço jogos e julgamentos morais inconsequentes sobre as pessoas e as coisas que vejo e isso ajuda-me a passar o tempo.
Há aquele homem de feições agradáveis, fato cuidado, a entrar nos quarentas, que ostenta uma barriga disforme quando se levanta. Uma barriga daquelas é estranhamente desproporcional àquela cara-de-corpo-magro!
Depois há a senhora Channel, num tailleur impecável de vermelho rubi e preto, com um penteado e uma maquilhagem irrepreensíveis. Não lhe sinto o perfume mas aposto que é forte.
Mas o que mais se vê é gente terrivelmente mal vestida e barulhenta. Mulheres na casa dos trinta, com o filho ou a filha adolescente e um ou dois netos ranhosos pela mão ou ao colo. Fazem-se acompanhar também da nora (ou genro) porque tratar de alguns assuntos é motivo de peregrinação familiar. De qualquer maneira são todos desempregados e normalmente esperam vez na Segurança Social ou no Instituto de Emprego. Elas são normalmente gordas, usam roupas justas, de mau gosto. Têm cabelos compridos, amarrados em rabos-de-cavalo, com pontas espigadas. Mal-dispostas ou galhofeiras, a mim parecem-me sempre crianças, mesmo que os rostos aparentem muito mais idade do que a que têm na realidade. Acho que estas mães e avós precoces nunca chegaram a crescer de facto. Chegam a parecer-me mesmo mais imaturas que os filhos. Esses, são por defeito miúdos ou miúdas cheios de um estilo indefinido e empastado. Os rapazes costumam ser magros e as miúdas gordas. Em comum têm a tendência para os acessórios, piercings, cabelos oleosos e usam roupas que se vêm muito na Praça de Espanha.
Há também aquela personagem que se senta muito perto de nós, acompanhada de um familiar ou amigo e que pode não ter nenhuma característica especial, daquelas que nem chamam a atenção, não fosse o facto de estar demasiado perto para podermos evitar ouvir a sua conversa. Conversa que perturba muitas vezes o prazer de observar em paz e sossego. Desta vez calhou-me um senhor. Sexagenário. Falava que se fartava. A esposa, ao seu lado, respondia de quando em quando, com um calmo pois é, mas aposto que na alma residia uma paciente resignação, fruto de uma jura eterna que a gasta aliança testemunhava. Primeiro pensei que no lugar dela já tinha cortado os pulsos. Depois, apoderou-se de mim uma sensação agradável ao imaginar uma companhia interessada e vivida, numa idade em que as nossas vidas já não pedem muitas outras emoções e pensei que aquela senhora era uma mulher de sorte. Lembrei-me de um e-mail curriqueiro que já recebi tantas vezes, daqueles que circulam por todo o mundo, que dizia que não se deve partilhar a vida com alguém de quem não se seja amigo, confidente e que não saiba conversar, pois vai chegar um dia em que valorizaremos isso mais do que tudo.

Loja do Cidadão

Há quatro cadeiras e duas mulheres sentam-se uma em cada ponta, viradas uma para a outra, com as malas em cima das cadeiras do meio.. Quem vê, diz que se conhecem e que devem estar a conversar, alheias ao facto de que, com as suas bolsas roubam dois lugares, num local onde quem consegue sentar-se devia uivar de alegria. Incomodada mas decidida, avanço para um dos lugares ocupado pelas malas. Vou separá-las, criar uma fronteira entre elas, mas estou-me nas tintas. Não se sentassem assim! Com ares de enfado, ambas recolhem as malas quando me vêem avançar. Ocupo só um lugar, mas rio-me para dentro a pensar que agora era eu quem devia pousar a mala no lugar ao lado. Constato a seguir que as senhoras nem sequer se conhecem.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Indiana Jones - O Regresso

Voltou com a Caveira de Cristal e eu gostei.
No meio de tanta fantasia a que assistimos no cinema, é bom reviver heróis do passado, mesmo rodeados de ficção algo 'infantil', e reconhecermos um Indiana Jones espantosamente bem conservado.
Também gosto do ar de Nikita da Cate Blanchett. Em excelente forma, a actriz.
Mas acima de tudo, gosto do que o misticismo do Indiana Jones faz renascer em mim: a paixão de miúda pela Arqueologia.

Dá que pensar

Basta passarmos os olhos pelas "gordas" de uma qualquer edição noticiosa para termos assunto q.b. para pensar e debater. Hoje, na versão on-line de um conhecido diário nacional, deparei-me de imediato com dois temas interessantes.
O primeiro - e tentarei controlar o mais possível a vontade de inventar piadas sobre o assunto -, diz respeito a três jogadores de futebol da selecção da Eritreia, que encontraram asilo político português depois da sua deslocação a Angola, na fase de apuramento para o Campeonato Africano das Nações. Dizem os jogadores que (como não podia deixar de ser...) o seu sonho é jogar no Benfica, apesar de o desespero ditar que qualquer clube em Portugal - país sem injustiças e desigualdades - é mais do que bem vindo!
Isto pode trazer novas perspectivas para o Benfica, atenção! É bom estar alerta a estas coisas.
O segundo tema é título de Editorial e reza assim: "Desigualdades sociais revelam país de injustiças", e não estão a falar da Eritreia, mas sim do que dizem as estatísticas sobre Portugal.
Diz que sim...
Quer dizer, não ponho em causa que a situação da Eritreia seja mais complicada para quem lá vive e que muita gente tenha vontade de fugir à sua realidade. Mas para estes jovens jogadores de futebol, asilados no Centro de Refugiados da Bobadela, e que nem duvido que até sejam estudados como hipótese para o Benfica ou outro qualquer clube "de sonho", Portugal vai-lhes parecer daqui por uns tempos um pouco diferente do paraíso que agora se lhes depara. Talvez até comecem a reivindicar e tudo!
Parece-me que deveriam considerar a hipótese de um pedido de asilo a outro país qualquer. É azar que tenham "optado" pelo que, também em relação à desigualdade social, está na cauda da Europa (expressão que já é prata da casa).
Mas nada disto é coincidência: os jogadores escapuliram-se ao controlo da selecção e dirigiram-se ao gabinete do Alto-Comissariado das Nações Unidas. O Sr. Engº António Guterres apenas fez as honras da casa..

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Sometimes you can't make it on your own

Hoje o sol brilha para ti, amiga.
Para ti, que carregas o fruto de um amor que nasceu cedo, no seio do universo escolar e de uma adolescência entre o rebelde e o tradicional.
Já passaram anos e o que alcançaste hoje parecia, naquela altura, uma coisa só para "gente crescida", como pensávamos. E é. É para gente crescida. Somos crescidas, efectivamente. Adultas, casadas, independentes, trabalhadoras, autónomas. Tudo aquilo que, naquela adolescência que ficou para trás, nos deslumbrava.
O que não sabíamos é que ser crescido não significa ser mais forte; que ser adulta não significa ser feita de ferro. Não sabíamos que crescer implica ter de possuir a coragem para esconder que ainda se sente fragilidade e medo, e que temos muitas vezes de usar a armadura do faz de conta.
Consegue-se estar completamente feliz durante alguns periodos de tempo mas não é possível ser plenamente feliz o tempo todo.
Queremos sempre mais, queremos sempre melhor e nem sempre conseguimos ter a lucidez para olhar para o que temos com gratidão. E isso é bom. Não te convenças do contrário. Isso significa que vais sempre reclamar o que queres para ti e batalhar pelas coisas que ambicionas. Acho que é a isso que chamam viver.
Mas também vais sempre precisar de chorar desesperadamente e sem motivo, de te irritar com pormenores que não são importantes, de nem sempre te sentires bem acompanhada ou de muitas vezes precisares de um colo presente. Tudo o que temos é feito de momentos. Diferentes.
Fico feliz que não sejas sempre sorridente para mim. Fico feliz se precisares de chorar no meu ombro. Porque sei. Sei como é..
Sometimes you can't make it on your own.. Ninguém consegue.
Gosto muito de ti.
(Para a Nani)

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Mea culpa

A declaração mais patética que já ouvi ser proferida pelo nosso Primeiro Ministro, Engº José Sócrates, chegou-me pela rádio ontem, ao final da tarde, a caminho do ginásio.
Ouvida tem outro impacto, mas achei que se transcrevesse, todos conseguiriam facilmente construir uma imagem da "personagem", com o seu olhar condescendente e a sua voz nasalada:
"Quero fazer-vos uma declaração sobre o facto de ter fumado no avião. De facto fumei, com o ministro da Economia [Manuel Pinho] enquanto conversávamos, mas no convencimento de que se podia fumar, porque assim sempre aconteceu nas outras viagens anteriores"... "Estava convencido que não estava a violar nenhuma lei nem nenhum regulamento. Infelizmente há essa polémica em Portugal e eu quero lamentar essa polémica. Se por algum motivo violei algum regulamento, alguma lei, lamento e peço desculpa, não voltará acontecer".
Na altura, não sei o que mais me incomodou: se a hipocrisia mal disfarçada, se a atitude extrema de (falsa) modéstia que reforça uma vez mais a minha teoria de que os políticos estão convencidos de que somos todos completamente idiotas, se o suposto estoicismo da atitude de deixar de fumar em consequência desta situação...
Começa por ser ridículo que o Primeiro-Ministro não saiba onde pode ou não fumar, isto partindo do princípio que acreditamos de boa-fé nas suas declarações. A partir daqui, a situação tende a piorar conforme se desenrola o processo jornalístico que traz até nós este tipo de informação.
Constata-se, por um lado, que os empresários que viajavam com a comitiva do Primeiro-Ministro, são um bando de queixinhas, provavelmente fumadores sem os mesmos privilégios no vôo, que acham que denunciar esta situação escalabrosa (como se fosse inédita), é fazer serviço público. Por outro lado, e a julgar pela equipa de reportagem que nos faz chegar esta notícia, parece que um assunto destes é de importância terminal para o nosso país (sinceramente quando ia a ouvir a notícia na rádio ia bem mais preocupada com o 15º aumento do gasóleo este ano!!).
Finalmente, vem o mais interessante. Nos diversos espaços destinados ao comentário virtual do cidadão comum - em tudo semelhantes a este blogue - dividem-se as opiniões entre o que é mais condenável: o imperdoável facto de o Engº José Sócrates fazer algo que o seu próprio Governo proibiu recentemente e sobre o qual o próprio admite não ter conhecimento ou a lamentável atitude dos jornalistas que continuam pelo bom caminho, sempre à procura de transformar novelas em notícias, porque as novelas têm mais audiências...
Eu confesso que também estou dividida, mas de uma coisa tenho a certeza: quase todos os portugueses sabem neste momento que o Primeiro-Ministro infringiu a lei do tabaco a bordo de um avião, mas muito poucos saberão sequer o que foi ele fazer à Venezuela. E se calhar nem interessa nada...
... (Já agora, Sr. Primeiro Ministro, desde quando dizer que não sabia que não podia fazer determinada coisa porque até aí era permitido é um argumento válido ou credível?? E reforçar as desculpas aos portugueses SE infringiu algum regulamento, como se ainda nem tivesse bem a certeza do que fez? Mais vale espetar logo com um cone na testa!!)

A Insustentável Leveza do Ser

(os sonhos... Meu Deus, os sonhos!)



Baseado naquele que é, certamente, um dos melhores romances de sempre, e protagonizado por dois dos mais expressivos actores que conheço:
"The Unbearable Lightness of Being", com Juliette Binoche e Daniel Day-Lewis.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Hallelujah (by Jeff Buckley)

Post da Mãe

Com alguns dias de atraso e depois de muito fermentada, não me passou a vontade de homenagear a minha mãe.
Não é muito importante para mim que não o faça no dia habitualmente dedicado às mães. Pelo contrário, creio que mais se destaca, em toda a sua grandeza, por não ser uma dedicatória no meio de muitas outras, que se fazem em massa e se materializam em frases feitas.
A sensação que tenho, agora que começo a escrever, é a de que estou a ser injusta com o meu pai. Não lhe prestei uma homenagem destas, nem no dia do Pai, nem antes ou depois. Mas logo me passa esta sensação esquisita quando penso que isto é espontaneidade e que o que sinto por ambos não se resume nunca ao que possa aqui testemunhar sobre cada um.
Vi ontem no Daily Show, do Jon Stewart, uma breve entrevista que ele fez ao ex-Presidente dos E. U. A. Jimmy Carter, a propósito de um livro que este último escreveu em homenagem à sua mãe.
Assistir ao programa fez-me pensar novamente nesta vontade que trazia comigo.
Gostei da forma como Carter descreveu certos episódios vividos em família e de como sublinhava o facto de a mãe ser uma mulher muito forte e que, em muito, lhe devia o cargo de Presidente que alcançou. A determinada altura contou um episódio engraçado em que alguém entrevistava a sua mãe, depois de um acontecimento público protagonizado pelo filho, já Presidente, e lhe perguntavam: Está orgulhosa do seu filho? Ao que ela respondia: Qual deles?
Foi apenas um à parte, mas tem a ver com aquilo que eu admiro na maternidade, na sua força e na sua capacidade de ter sempre mais para dar aos seus filhos.
A minha mãe não foi nem é uma mulher da política, nunca foi uma activista de lutas estudantis ou de direitos humanos, não foi sequer estudante universitária e não tem uma cultura geral elevada. Percebe pouco de História, de Matemática, de Línguas. Lia muito quando era nova, lembro-me bem. Mas lia livros de bolso, quase sempre romances, pouco profundos. Sempre se interessou muito por Medicina, um sonho que uma juventude com limitações não a deixou perseguir. Ainda hoje vaticina diagnósticos para alguns sintomas, com bases o mais científicas que consegue apurar nas suas enciclopédias, que gosta de consultar.
Casou e foi mãe muito nova, como era costume na sua geração, e sempre trabalhou.
Sempre soube fazer saias e vestidos, muitos deles gravados apenas nas velhas fotos minhas e da minha irmã, as saias e vestidos que usávamos, muitas vezes com pena de serem feitos em casa e não comprados na loja. Tolas!
A minha mãe é provavelmente uma mulher muito diferente da mulher que foi a mãe do Presidente Jimmy Carter.
Mas quando olho para trás, quando vejo quem sou, mesmo sabendo que pouco provavelmente serei algum dia presidente do que quer que seja, sei que um dia, daqui a muito tempo - se o tempo permitir - terei tanto para escrever sobre a minha mãe como o Presidente.
A mãe do Presidente não foi, certamente, mais do que a minha.

As Leis de Murphy e o resto do Mundo

Sempre achei que o drama da minha vida eram as Leis de Murphy. Compreendo agora, que elas não foram feitas a pensar em mim, mas sim em probabilidades trágico-cómicas que não são, de todo, fatalidades. Se lermos meia dúzia delas, percebemos que não somos uns infelizes, ainda que existam estatísticas concretas de que a nossa vida está balanceada para as suas conclusões negativas. A mim, pessoalmente, a confirmação destas leis, deixa-me (quase sempre) um sorriso no rosto, mesmo que seja um sorriso de escárnio ou irritação localizada, daquele tipo que ilustramos com um palavrão. Mas já convivo melhor com a sua presença constante e não me sinto tão perseguida.
Hoje, por exemplo, dei uma vista de olhos pelo Internacional do DN on-line, e isso fez-me pensar onde está o drama na lei que diz "A outra fila sempre anda mais rápido" ou "A possibilidade do pão cair com o lado da manteiga para baixo é directamente proporcional ao valor do tapete". Não posso sentir-me perseguida por 'infortúnios' tão fúteis quando em Sichuan milhares de pessoas morrem e outros milhares vivem a tragédia de um sismo cujas repercussões a minha imaginação não consegue nem alcançar, ou quando se sucedem atentados irracionais em nome de religiões "santas", por grupos radicais sunitas, como a mais recente em Jaipur que nos traz imagens de civis desmembrados.
Não posso sentir que o cúmulo da ironia reside num trocadilho de Murphy quando leio que, depois do devastador ciclone de Nargis, entre os escombros de Myanmar, a Birmânia vive o horror de ver os órfãos traumatizados, serem sofregamente procurados por traficantes de órgãos...
Numa vida simples, que não conhece a guerra, o terrorismo, o medo, a solidão, a fome, a censura, as catástrofes, faço (fazemos) drama porque "Nunca há horas suficientes num dia, mas há sempre muitos dias antes do sábado".

terça-feira, 6 de maio de 2008

Dia da Rita!!

Hoje é o dia da Rita!
É dia feliz, mesmo com nuvens. Dia de celebrar a perfeição.
A Rita é o objecto subjectivo do perfeito, porque a nossa noção de perfeito é subjectiva.
É a palmada e a carícia, o sorriso e a lágrima, a palavra imitadora ou a risada que reclama a atenção.
São covinhas nas bochechas e gritinhos eufóricos. São braços abertos e beijos que se soltam, ruidosos, antes de tocar a face.
É um xi, dois xis, muitos xis apertadinhos!

Eu conheço a mulher que deu colo e vida à perfeição.
No dia da Rita, parabéns a ti, mana!


Hoje é o dia da Rita!
É dia feliz, mesmo com nuvens. Dia de celebrar a perfeição.
A Rita é o objecto subjectivo do perfeito, porque a nossa noção de perfeito é subjectiva.
É a palmada e a carícia, o sorriso e a lágrima, a palavra imitadora ou a risada que reclama a atenção.
São covinhas nas bochechas e gritinhos eufóricos. São braços abertos e beijos que se soltam, ruidosos, antes de tocar a face.
É um xi, dois xis, muitos xis apertadinhos!

Eu conheço a mulher que deu colo e vida à perfeição.
No dia da Rita, parabéns a ti, mana!


(Fica giro o mesmo post em duas línguas: a nossa e a da Rita!)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Alentejo

O Alentejo, para mim, eram campos rasos e salpicados de papoilas a perder de vista, sob um céu azul e aberto.
Era cheiro a lareira e a lenha queimada.
Era um mar de estrelas a iluminar noites quentes.
Era bafo quente e sol impiedoso de meio-dia.
Era almofariz com cheiro a sumo de coentro e alho.
Era silêncio ou canto de cigarras e gado preguiçoso e pingos de uma fonte.
Era uma canção de sotaques deliciosos e descobertas em cada rosto e em cada ruga.
Agora descobri que também é centopeias.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

De fugida

Dispo-me de mim, esquecendo a frustração ligeira que me faz franzir a testa, para me alegrar com boas novas que outros partilham comigo. Notícias de felicidade e êxtase que me alegram em momentos em que faço uma pausa na minha felicidade e no meu êxtase, porque sentimentos menos nobres se impõem.
E assim, resta-me esperar que estes sentimentos se afastem.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Pim, Pam, Pum (24 horas depois...)

Assim me sinto e assim sou, tão incerta como este tempo de que não gosto. Este tempo em que agora chove e as coisas são baças, para mais logo o sol empurrar com força as nuvens e encher tudo de cores e alegrias exfusiantes.

Mas continuo a não gostar do circo. Já passei hoje bem perto da gigantesca marca no solo, deixada pela estrutura metálica das bancadas e pensei que me esqueci de referir uma coisa importante. Aquele semi-círculo gravado no solo rochoso, recusa-se a ir embora e no meio da poeira esbranquiçada do chão, deixou um rasto de relva verdinha que teima em impôr-se.
Aquela relva é como eu. E como este tempo incerto. De vez em quando, não se dá por ela, depois sem saber porquê, resplandece e ganha o verde mais bonito de todos.

O circo já foi há muito, mas deixou ficar uma raíz.
Nesta vida que desponta de vez em quando, de forma incerta, a relva brilha mais verde. Ou sou apenas eu que empurro as nuvens com força e vejo as cores mais exfusiantes.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Pim, Pam, Pum

Não gosto do Circo. Gosto de preservar a magia que ele, supostamente, representa para os mais pequenos mas não gosto dos artificialismos que lhe estão por detrás.
Lembro-me de gostar do circo quando era pequena, principalmente dos animais e dos trapezistas. Dos palhaços nunca gostei.
Hoje em dia, o que me fascina no circo é a triste e lenta rotina que o envolve.
Em frente à minha casa, há um recinto perfeito para as tendas de circo e, de longe a longe, encontro-os lá, com a sua tralha e a tenda meio montada, ao regressar do trabalho.
Quando saio de manhã, nada. Mas ao fim da tarde, vindos não sei de onde, lá estão eles, instalados, a invadir todo o espaço. Ocupam uma extensa área mas tenho a sensação de que ninguém os vê. Ou então são apenas considerados estorvo.
Gosto de espreitar, pela minha janela, a jaula dos leões e o recinto onde se amontoam várias espécies de animais, como se de uma quintinha se tratasse. Faço-o com um misto de pena e de fascínio.
Também gosto de olhar as diferentes roullotes e imaginar a vida lá dentro, por trás das maquilhagens gastas e dos cetins e lantejoulas.
Nunca os vejo na rua. Onde se enfiam as pessoas do circo? Montam rapidamente a sua tenda e somem-se para as suas caravanas velhas, sem se importar com os leões e os outros animais, ou assim parece.
Entristece-me olhar este cenário, da mesma forma que me entristece um Caravaggio: o seu realismo fere.
Às vezes, o circo em frente à minha casa enche-se de gente ao fim-de-semana. São filas e filas de crianças ansiosas e pais impacientes, e uma parte de mim fica contente. Significa que os leões não estiveram ali a semana toda, dando voltas na sua jaula, para nada. Pelo menos, alguém vai vê-los.
Mas na última vez que esteve lá o circo, não havia filas de gente. As crianças já não queriam ir e os pais agradeceram, ao que parece. Acho que nem chegou a haver espectáculo.
Já foi há bastante tempo, mas ainda hoje, quando passeio o cão no recinto, vejo as marcas na terra, das bancadas outrora ali enterradas com ferros. E entristece-me que, dessa última vez, tenha voltado para casa ao final de mais uma tarde, e já não tenha encontrado o circo...

TERRA!


Hoje é o Dia Mundial da Terra. Da Terra.

A TERRA..

Não pensamos na Terra como ela merece, não a vemos como deve ser vista e, definitivamente, não a tratamos como deveríamos.

Da Terra temos tudo. Ela dá-nos, sem cobrar, o que precisamos. E todo o mal que dela possa advir, somos nós que semeamos.
É bom que lhe dediquem um dia. Melhor seria que se pensasse mais nela todos os dias, mas isso ninguém faz.

Ainda bem que ainda consigo sentir o cheiro da relva molhada depois da chuva, ver a Lua brilhante quando as nuvens dão tréguas, sentir o mar frio e salgado na pele.
Por enquanto, ainda temos tudo isto.
A Terra ainda pulsa vida.






segunda-feira, 21 de abril de 2008

Um dia não são dias

Saudades do meu cão, saudades do sofá e do cadeirão que gira, saudades de um livro e de fechar os olhos e perder lentamente a consciência...
Saudades de um abraço, de sossego e de silêncio.
Não sinto tristeza, nem melancolia mas sinto um nó na garganta, de vez em quando. Estou vulnerável. Vulnerável ao bom e ao mau.
Hoje estou à mercê de um gesto carinhoso ou de uma palavra amarga, em igualdade de influência.
O mínimo que me pode fazer feliz, é exactamente proporcional ao que me pode entristecer.
Hoje não sou mordaz, nem crítica. Não estou vibrante ou cheia de humor.
Estou dependente de afectos.
Vou correr ao encontro deles, dos meus afectos.
Vou pedir-lhes que me envolvam.
Que bom é fazer-me ao mar mas ter sempre para onde voltar!

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Serviço Público

Partidarismos à parte, até porque assumo uma postura desprezista em relação ao culto das nossas políticas e à proliferação massiva de oportunismos, passo a divulgação deste interessante e-mail que recebi.

Parece-me bem.

Tem uma imagem tipo O.K. Teleseguro, ou Logo... essas companhias de seguros novas e de imagem jovial que parecem convidar ao sinistro automóvel, de tão descomplicadas que são...

Por outro lado, não posso ignorar o slogan que enfatiza o Civismo, a Justiça e a Prosperidade.

É pena eu ser tão céptica, desde que descobri o conceito de Marketing Político.

De qualquer forma, parece-me que, com um nome destes, já conseguiu o voto dos mais novos. Ainda há-de vir o Partido LOL e o BUE já devia ter assento parlamentar!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

April

E esta chuva que não pára. Cai incessantemente de um céu inexpressivo, que não mostra quando vai dar tréguas.
O céu não está azul e nublado, nem carregado de nuvens cinzentas. Está esbranquiçado, compacto. Parece mais perto da nossa cabeça, limita-nos o horizonte e não nos deixa olhar para longe, para a serra, para o mar...
Amanhã é sexta-feira, amanhã é sexta-feira, amanhã é sexta-feira...
Repito maquinalmente este pensamento, na ânsia de um fim de semana que sei que vai voar.

E esta chuva que não pára.
E este céu inexpressivo.
Faz-nos perder o rumo.
Que maçada, não encontro o horizonte...

quarta-feira, 16 de abril de 2008

happy ending

Sentia-se ansioso e emocionado.
Tinha ainda algumas coisas para fazer, coisas de última hora, que têm mesmo de se deixar para a véspera, e não tinha planeado um dia diferente precisamente para não sentir essa "diferença" que o deixava mais nervoso.
Se conseguisse ter o que fazer, dentro da maior normalidade possível, estaria ocupado e não teria tendência para pensar muito em como iria correr o dia seguinte. Mas era inevitável que o pensamento lhe fugisse de quando em vez para outras paragens, para o campo da imaginação. Quando caía em si novamente, fazia um esforço para se concentrar no presente, sem conseguir evitar uma pequena onda de calor a percorrer-lhe o corpo e um ligeiro suor nas palmas das mãos.
Iria correr tudo lindamente. A expectativa era o mais agradável e ninguém lhe poderia retirar isso. Quando os pensamentos teimavam em voar para o futuro, tentava pensar mais além, para dispersar o nervosismo. Imaginava a viagem, depois da cerimónia e da festa perfeitas, e o regresso para uma vida nova e cheia de desafios. Se não se concentrasse muito num momento específico, o coração acalmava e encarava tudo com uma estranha normalidade.
Já no próprio dia, pouco tempo antes, os sentimentos eram semelhantes mas mais intensos e conseguir descontrair era uma tarefa mais complicada. O sorriso estava presente como se alguém tivesse ligado um interruptor. Não que fosse falso, mas era um sorriso de nervos e de uma expectativa que vai muito além das mãos suadas.
Nada se passou de forma trágica, como nas novelas ou em dramas cinematográficos. No meio da confusão de gente que bebericava e tagarelava entre si, por entre os odores de vários perfumes que se soltavam de écharpes esvoaçantes, o rosto da irmã surgiu, o único ali que não estava como devia estar, porque não era dia de ter aquela expressão, era dia de sorrisos de nervos e expectativa.
E ninguém percebeu, e continuaram a bebericar e a tagarelar, enquanto ambos se recolhiam, para ele saber que o melhor que teve daquele dia, foi a feliz expectativa da véspera...