segunda-feira, 23 de junho de 2008

santos populares

Como diz a canção, o Santo António já se acabou mas ainda vem lá o S. Pedro e eu já comecei a festejá-lo este fim-de-semana na mística e invariavelmente nublada Serra de Sintra. O Verão é isto mesmo. O cansaço mais saudável é o dos longos dias de praia - até às nove da noite!! - seguido de serões barulhentos, num cenário de música, vozes, luzes e cheiro a sardinhas e farturas, em pátios ou praças da freguesia.
Hoje tinha duas opções: escrever sobre a deprimente ausência de férias nestes meses de Verão que se seguem, que constitui o sacrifício necessário para a desejada partida para o México num Dezembro que parece longínquo demais, ou realçar os momentos alegres dos fins-de-semana, sempre tão curtos, mas espremidos ao máximo, para condensar em cada um deles, a essência das (ausentes) férias de Verão.
Optei pela segunda. Este fim-de-semana, o sol e o mar fizeram as minhas delícias e ainda tive tempo para fechar em grande o meu Domingo, saboreando umas sardinhas gordinhas, como se quer, ao som da pior performance possível: a especial actuação do tal Tino de Rans (verdadeiro suplício para os ouvidos dos presentes).
Fica por isso apenas esta nota negativa, que dirijo ao Senhor Presidente da Junta de Freguesia de S. Pedro de Penaferrim, para que atente com mais consideração ao programa das festas de Sintra. Quer dizer, a musiquinha de bolso, cantada por acordeonistas adolescentes, com rimas fáceis e de mau gosto até dá brilho às festas populares mas não queiramos ofender o nosso Santinho com estes mediáticos da televisão nacional.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

www.irrequietos.com


Estive a ver o seu perfil! Vote no Selo de Marisa Araújo


Hoje foi o último dia para votar.
Uma amiga aconselhou-me um dos presentes a concurso, bem bonito, por sinal, e que também mereceu o meu voto. Mas o meu amor pelos animais - no geral - e pelos cães - em particular - falou mais alto.

Não deixem de visitar!

lado lunar

Quando fui fechar as persianas para ir dormir fiquei presa pelo brilho que a lua cheia propagava. A sua luz imensa inundava o quarto e não resisti a abrir a janela para sentir melhor aquela luz, sim porque a luminosidade de uma lua cheia como a que estava ontem sente-se, arrebata.
Não sei como há quem consiga ficar indiferente à lua. Não tenho grande inclinação para o esoterismo ou para acreditar no poder dos astros, e até me incomoda esta minha fragilidade, que chega a roçar a fraqueza, mas a verdade é que não me apetece fechar os olhos a esta força da Natureza, como se a noite fosse muito mais rica e não pudesse ser desperdiçada com coisas menores, como o sono.
A lua é mágica do meu sétimo andar da mesma forma que é deslumbrante por cima da serra, a iluminar o palácio, ou a banhar os bairros velhos e irregulares da minha Lisboa, imbutida no céu negro. Gosto do campo, onde à lua se juntam triliões de estrelas, daquelas que não vemos por cá. Gosto de noites de praia cheias de lua - adorei as noites de praia que já vivi até hoje - em que podemos mergulhar no seu reflexo ou apenas contemplá-lo...
Caramba! Acho que nunca escrevi nada tão lamechas..
(agora ando com a mania do 'caramba' - por causa da minha vizinha de cima. Faz-me parecer mais adulta!)

a "energia positiva" das quinas

Escrevo repetidamente sobre a minha tendência para ser uma pessoa negativa nos aspectos mais práticos que se referem à minha vida pessoal, mas a verdade é que, inevitavelmente, essa conotação se reflecte em tudo o mais. Prefiro dizer que sou realista, mas já não contrario quem me diz que sou uma "deprê"...
Como milhares de pessoas pela blogosfera, vou dedicar hoje um bocadinho do meu tempo ao futebol.
Gosto muito de futebol. Percebo alguma coisa sobre as equipas, as classificações gerais, as regras do jogo em si. Interesso-me mais do que uma larga maioria das mulheres, mas não tanto quanto algumas outras. Tenho um clube de coração - claro! - que me faz "sofrer" muito mais do que a selecção, devo confessar. Há quem censure esta visão e eu estou-me borrifando. De qualquer das formas, o futebol constitui hoje em dia mais uma profunda desilusão e já deixou de ser desporto, entretenimento e paixão, para ser política, negócio, trend e corrupção... E por isso, muito tenho a apontar ao meu próprio clube. E evito contribuir financeiramente para enriquecer os seus cofres seja de que forma for. Não consigo é abdicar da imensa devoção que desde sempre senti, sem saber muito bem sob que influência - em minha casa não se falava nem se percebia muito de futebol.
Desde o Euro 2004, apesar de ter aproveitado alguns jogos para convívio com os amigos e ter também mergulhado nas multidões, que nunca percebi o favoritismo da nossa Selecção, quer para os portugueses, quer para a crítica internacional. Talvez não seja a melhor altura para escrever sobre isto, mas não é uma revelação e alguns amigos chamavam-me mau agoiro muitas vezes, só porque manifestava a minha opinião. Eu calava-me: não queria estragar a festa a ninguém e, claro, como todos, queria que ganhassem. Não tinha era tanta certeza se mereciam.
Actualmente, com uma equipa renovada e uma nova geração de jogadores, será que as pessoas que acompanharam a selecção ao longo deste Euro 2008 assistiram também aos jogos de preparação? Pergunto-me se a forma como a selecção se apresentou em determinados desafios agoirava grandes perspectivas..(?)
Temos o Cristiano Ronaldo, os brasileiros, um guarda-redes que brilhou sem luvas, num momento decisivo, miúdos com 'potencial' (para se tornarem multimilionários!) e, às tantas, não sabem jogar em equipa, pelo menos fora das suas equipas...
Fica a desilusão para todos, a compaixão dos sempre-fiéis emigrantes e, para mim, a não-surpresa. Para mim, fica o sentimento de que se fez justiça. Não fizeram o suficiente para ir mais longe e cometeram demasiados erros para se safarem. Estou há muito tempo convencida de que a selecção precisa SER grande, em vez de apenas PARECER a melhor..

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Golf prata de 2002 (II)

Levaram ontem o Golf. Nem de propósito. Veio o reboque e levou-o. E nunca saberei nada sobre a sua "estória".

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Golf prata de 2002

Ando atormentada com aquele homem que tem dormido dentro do carro, no meio do descampado em frente à minha casa. Penso no homem todos os dias e vejo-o muitas vezes, de relance, quando chego a casa a horas tardias e ele já se recolheu, ou quando passeio o cão na rua bem cedo e ele ainda dorme. Não o vejo bem, por isso não me familiarizei com o seu rosto.
É intrigante, o homem e a situação. Não é um vagabundo comum, com mau aspecto - vi quando o reboque deixou lá o Golf (bem estimado!), apenas com um pneu furado, e nessa altura lembro-me de olhar para o senhor, jovem - mas não lhe fixei os traços por não me ter chamado muito a atenção. O certo é que o carro lá está, coberto de pó, agora com plásticos a cobrir uma janela, com o seu peluche pequenino do Sporting pendurado num dos vidros.
Gostava de conhecer a história deste homem. Ainda que não me diga respeito e que possa ser uma parva ilusão, não consigo resistir à tentação do drama que construi.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Pontos de vista

No outro dia dei por mim a pensar no que passa pela cabeça de um homem que pretende seguir a especialidade de Obstetrícia-Ginecologia, como carreira profissional, e como se caracteriza o fascínio que o puxa para essa área específica. É possível que um jovem estudante de Medicina não contemple a conotação sexual que é intrínseca a esta opção, ou será que o chamamento deriva exactamente desta conotação? Os médicos são (devem ser) homens da ciência, (supostamente) impermeáveis a influências sensitivas que possam condicionar o seu desempenho, mas todo o processo de escolha desta especialidade me faz uma certa confusão.
(Não que as histórias de uma amiga Urologista e dos exames de rastreio aos seus pacientes não me provocassem um profundo choque... mas a ginecologia parece-me o melhor exemplo do meu assumido preconceito de não-pessoa-da-ciência)
Diverti-me sobretudo quando os meus pensamentos sobre este assunto começaram, infantilmente a construir cartoons. Qual é a reacção de uma mãe quando um filho lhe revela, obstinado e confiante, que pretende ser Obstetra? É sempre bom ter um filho médico - sei lá... por mil e uma razões - mas assumo que neste caso a mãe exclua a hipótese de vir a beneficiar directamente com esta escolha e que não se entusiasme com a ideia de lhe apresentar os ovários enquanto relembra, nostalgicamente, as inúmeras vezes que este lhe perguntou com voz infantil: Mamã, de onde vêm os bébés?
Isto é tudo muito engraçado, mas correndo o risco de soar a preconceito e de passar eu por pervertida, prefiro continuar a não ver barbas rijas a espreitar cá para onde não devem.

Dentista

Prefiro viver realidades duras do que doces ilusões, e detesto que me mandem areia para os olhos com teatrinhos de que "não vai doer nada". Claro que vai doer! Arrancar um dente que aqui está há anos a tentar crescer, num maxilar pequeno demais e que, obstinadamente, se decide a não entrar nem sair do sítio, tem de doer!! É normal que doa. E continua a doer (talvez por ter sido 'escavado' e 'arrancado' a ferros). A arte de ladrilhar é mais graciosa, palavra de honra!
O Ibuprofeno vai continuar em cima da minha pilha de livros de cabeceira, para me ajudar a manter a sanidade mental..

quarta-feira, 11 de junho de 2008

"Tété"

Ser tia faz-me sentir, virtualmente, um enorme sentimento de maternidade: um amor imenso e incondicional, sempre atormentado pelo desejo de não perder um sorriso e pelo medo de que algum mal aconteça.. Não se metam com as minhas pseudo-crias!

wish..

Que bom seria podermos banir das nossas vidas a presença de algumas pessoas, com ou sem motivo válido para tal, apenas porque nos "fazem mal" ao espírito, nos doem na alma e chegam a provocar ligeira azia... Refiro-me, por exemplo, aos políticos (no geral) e a outras pessoas, que infelizmente, se impõem também fisicamente e não apenas através da comunicação social.

Heróis do Mar

Metade dos Telejornais (espaços noticiosos, seja qual for o canal ou designação dos mesmos) é dedicada ao Euro 2008, a outra metade, às consequências da greve dos camionistas e, no geral, à situação vergonhosa (política, económica e social) que o nosso País atravessa.
O sucesso dos nossos futebolistas é, neste momento, inversamente proporcional à nossa condição de Estado democrático saudável e organizado. Tudo gira em função destes fenómenos antípodas que o Povo utiliza conforme o seu humor e conveniência.
Sinto-me tão profundamente infeliz e pouco patriótica!
E tenho muito medo que, também no Euro, Portugal comece a desiludir... É que assim acaba-se o engodo que neste momento distrai as mentes mais felizes. E depois é ver o folião português a virar-se agressivamente contra tudo e todos, para descarregar a sua frustração, legítima ou nem por isso!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Loja do Cidadão (II)

Quando nos resignamos ao facto de que temos mesmo de esperar por duzentas senhas à frente da nossa, principalmente se entretanto conseguimos um lugar sentado, num sítio estratégico, de onde podemos avistar o quadro electrónico e observar as pessoas que passam, a coisa deixa de parecer assim tão má. Gosto principalmente da parte do observar... Gosto de ver maldicência em tudo. Quer dizer, faço jogos e julgamentos morais inconsequentes sobre as pessoas e as coisas que vejo e isso ajuda-me a passar o tempo.
Há aquele homem de feições agradáveis, fato cuidado, a entrar nos quarentas, que ostenta uma barriga disforme quando se levanta. Uma barriga daquelas é estranhamente desproporcional àquela cara-de-corpo-magro!
Depois há a senhora Channel, num tailleur impecável de vermelho rubi e preto, com um penteado e uma maquilhagem irrepreensíveis. Não lhe sinto o perfume mas aposto que é forte.
Mas o que mais se vê é gente terrivelmente mal vestida e barulhenta. Mulheres na casa dos trinta, com o filho ou a filha adolescente e um ou dois netos ranhosos pela mão ou ao colo. Fazem-se acompanhar também da nora (ou genro) porque tratar de alguns assuntos é motivo de peregrinação familiar. De qualquer maneira são todos desempregados e normalmente esperam vez na Segurança Social ou no Instituto de Emprego. Elas são normalmente gordas, usam roupas justas, de mau gosto. Têm cabelos compridos, amarrados em rabos-de-cavalo, com pontas espigadas. Mal-dispostas ou galhofeiras, a mim parecem-me sempre crianças, mesmo que os rostos aparentem muito mais idade do que a que têm na realidade. Acho que estas mães e avós precoces nunca chegaram a crescer de facto. Chegam a parecer-me mesmo mais imaturas que os filhos. Esses, são por defeito miúdos ou miúdas cheios de um estilo indefinido e empastado. Os rapazes costumam ser magros e as miúdas gordas. Em comum têm a tendência para os acessórios, piercings, cabelos oleosos e usam roupas que se vêm muito na Praça de Espanha.
Há também aquela personagem que se senta muito perto de nós, acompanhada de um familiar ou amigo e que pode não ter nenhuma característica especial, daquelas que nem chamam a atenção, não fosse o facto de estar demasiado perto para podermos evitar ouvir a sua conversa. Conversa que perturba muitas vezes o prazer de observar em paz e sossego. Desta vez calhou-me um senhor. Sexagenário. Falava que se fartava. A esposa, ao seu lado, respondia de quando em quando, com um calmo pois é, mas aposto que na alma residia uma paciente resignação, fruto de uma jura eterna que a gasta aliança testemunhava. Primeiro pensei que no lugar dela já tinha cortado os pulsos. Depois, apoderou-se de mim uma sensação agradável ao imaginar uma companhia interessada e vivida, numa idade em que as nossas vidas já não pedem muitas outras emoções e pensei que aquela senhora era uma mulher de sorte. Lembrei-me de um e-mail curriqueiro que já recebi tantas vezes, daqueles que circulam por todo o mundo, que dizia que não se deve partilhar a vida com alguém de quem não se seja amigo, confidente e que não saiba conversar, pois vai chegar um dia em que valorizaremos isso mais do que tudo.

Loja do Cidadão

Há quatro cadeiras e duas mulheres sentam-se uma em cada ponta, viradas uma para a outra, com as malas em cima das cadeiras do meio.. Quem vê, diz que se conhecem e que devem estar a conversar, alheias ao facto de que, com as suas bolsas roubam dois lugares, num local onde quem consegue sentar-se devia uivar de alegria. Incomodada mas decidida, avanço para um dos lugares ocupado pelas malas. Vou separá-las, criar uma fronteira entre elas, mas estou-me nas tintas. Não se sentassem assim! Com ares de enfado, ambas recolhem as malas quando me vêem avançar. Ocupo só um lugar, mas rio-me para dentro a pensar que agora era eu quem devia pousar a mala no lugar ao lado. Constato a seguir que as senhoras nem sequer se conhecem.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Indiana Jones - O Regresso

Voltou com a Caveira de Cristal e eu gostei.
No meio de tanta fantasia a que assistimos no cinema, é bom reviver heróis do passado, mesmo rodeados de ficção algo 'infantil', e reconhecermos um Indiana Jones espantosamente bem conservado.
Também gosto do ar de Nikita da Cate Blanchett. Em excelente forma, a actriz.
Mas acima de tudo, gosto do que o misticismo do Indiana Jones faz renascer em mim: a paixão de miúda pela Arqueologia.

Dá que pensar

Basta passarmos os olhos pelas "gordas" de uma qualquer edição noticiosa para termos assunto q.b. para pensar e debater. Hoje, na versão on-line de um conhecido diário nacional, deparei-me de imediato com dois temas interessantes.
O primeiro - e tentarei controlar o mais possível a vontade de inventar piadas sobre o assunto -, diz respeito a três jogadores de futebol da selecção da Eritreia, que encontraram asilo político português depois da sua deslocação a Angola, na fase de apuramento para o Campeonato Africano das Nações. Dizem os jogadores que (como não podia deixar de ser...) o seu sonho é jogar no Benfica, apesar de o desespero ditar que qualquer clube em Portugal - país sem injustiças e desigualdades - é mais do que bem vindo!
Isto pode trazer novas perspectivas para o Benfica, atenção! É bom estar alerta a estas coisas.
O segundo tema é título de Editorial e reza assim: "Desigualdades sociais revelam país de injustiças", e não estão a falar da Eritreia, mas sim do que dizem as estatísticas sobre Portugal.
Diz que sim...
Quer dizer, não ponho em causa que a situação da Eritreia seja mais complicada para quem lá vive e que muita gente tenha vontade de fugir à sua realidade. Mas para estes jovens jogadores de futebol, asilados no Centro de Refugiados da Bobadela, e que nem duvido que até sejam estudados como hipótese para o Benfica ou outro qualquer clube "de sonho", Portugal vai-lhes parecer daqui por uns tempos um pouco diferente do paraíso que agora se lhes depara. Talvez até comecem a reivindicar e tudo!
Parece-me que deveriam considerar a hipótese de um pedido de asilo a outro país qualquer. É azar que tenham "optado" pelo que, também em relação à desigualdade social, está na cauda da Europa (expressão que já é prata da casa).
Mas nada disto é coincidência: os jogadores escapuliram-se ao controlo da selecção e dirigiram-se ao gabinete do Alto-Comissariado das Nações Unidas. O Sr. Engº António Guterres apenas fez as honras da casa..

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Sometimes you can't make it on your own

Hoje o sol brilha para ti, amiga.
Para ti, que carregas o fruto de um amor que nasceu cedo, no seio do universo escolar e de uma adolescência entre o rebelde e o tradicional.
Já passaram anos e o que alcançaste hoje parecia, naquela altura, uma coisa só para "gente crescida", como pensávamos. E é. É para gente crescida. Somos crescidas, efectivamente. Adultas, casadas, independentes, trabalhadoras, autónomas. Tudo aquilo que, naquela adolescência que ficou para trás, nos deslumbrava.
O que não sabíamos é que ser crescido não significa ser mais forte; que ser adulta não significa ser feita de ferro. Não sabíamos que crescer implica ter de possuir a coragem para esconder que ainda se sente fragilidade e medo, e que temos muitas vezes de usar a armadura do faz de conta.
Consegue-se estar completamente feliz durante alguns periodos de tempo mas não é possível ser plenamente feliz o tempo todo.
Queremos sempre mais, queremos sempre melhor e nem sempre conseguimos ter a lucidez para olhar para o que temos com gratidão. E isso é bom. Não te convenças do contrário. Isso significa que vais sempre reclamar o que queres para ti e batalhar pelas coisas que ambicionas. Acho que é a isso que chamam viver.
Mas também vais sempre precisar de chorar desesperadamente e sem motivo, de te irritar com pormenores que não são importantes, de nem sempre te sentires bem acompanhada ou de muitas vezes precisares de um colo presente. Tudo o que temos é feito de momentos. Diferentes.
Fico feliz que não sejas sempre sorridente para mim. Fico feliz se precisares de chorar no meu ombro. Porque sei. Sei como é..
Sometimes you can't make it on your own.. Ninguém consegue.
Gosto muito de ti.
(Para a Nani)

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Mea culpa

A declaração mais patética que já ouvi ser proferida pelo nosso Primeiro Ministro, Engº José Sócrates, chegou-me pela rádio ontem, ao final da tarde, a caminho do ginásio.
Ouvida tem outro impacto, mas achei que se transcrevesse, todos conseguiriam facilmente construir uma imagem da "personagem", com o seu olhar condescendente e a sua voz nasalada:
"Quero fazer-vos uma declaração sobre o facto de ter fumado no avião. De facto fumei, com o ministro da Economia [Manuel Pinho] enquanto conversávamos, mas no convencimento de que se podia fumar, porque assim sempre aconteceu nas outras viagens anteriores"... "Estava convencido que não estava a violar nenhuma lei nem nenhum regulamento. Infelizmente há essa polémica em Portugal e eu quero lamentar essa polémica. Se por algum motivo violei algum regulamento, alguma lei, lamento e peço desculpa, não voltará acontecer".
Na altura, não sei o que mais me incomodou: se a hipocrisia mal disfarçada, se a atitude extrema de (falsa) modéstia que reforça uma vez mais a minha teoria de que os políticos estão convencidos de que somos todos completamente idiotas, se o suposto estoicismo da atitude de deixar de fumar em consequência desta situação...
Começa por ser ridículo que o Primeiro-Ministro não saiba onde pode ou não fumar, isto partindo do princípio que acreditamos de boa-fé nas suas declarações. A partir daqui, a situação tende a piorar conforme se desenrola o processo jornalístico que traz até nós este tipo de informação.
Constata-se, por um lado, que os empresários que viajavam com a comitiva do Primeiro-Ministro, são um bando de queixinhas, provavelmente fumadores sem os mesmos privilégios no vôo, que acham que denunciar esta situação escalabrosa (como se fosse inédita), é fazer serviço público. Por outro lado, e a julgar pela equipa de reportagem que nos faz chegar esta notícia, parece que um assunto destes é de importância terminal para o nosso país (sinceramente quando ia a ouvir a notícia na rádio ia bem mais preocupada com o 15º aumento do gasóleo este ano!!).
Finalmente, vem o mais interessante. Nos diversos espaços destinados ao comentário virtual do cidadão comum - em tudo semelhantes a este blogue - dividem-se as opiniões entre o que é mais condenável: o imperdoável facto de o Engº José Sócrates fazer algo que o seu próprio Governo proibiu recentemente e sobre o qual o próprio admite não ter conhecimento ou a lamentável atitude dos jornalistas que continuam pelo bom caminho, sempre à procura de transformar novelas em notícias, porque as novelas têm mais audiências...
Eu confesso que também estou dividida, mas de uma coisa tenho a certeza: quase todos os portugueses sabem neste momento que o Primeiro-Ministro infringiu a lei do tabaco a bordo de um avião, mas muito poucos saberão sequer o que foi ele fazer à Venezuela. E se calhar nem interessa nada...
... (Já agora, Sr. Primeiro Ministro, desde quando dizer que não sabia que não podia fazer determinada coisa porque até aí era permitido é um argumento válido ou credível?? E reforçar as desculpas aos portugueses SE infringiu algum regulamento, como se ainda nem tivesse bem a certeza do que fez? Mais vale espetar logo com um cone na testa!!)

A Insustentável Leveza do Ser

(os sonhos... Meu Deus, os sonhos!)



Baseado naquele que é, certamente, um dos melhores romances de sempre, e protagonizado por dois dos mais expressivos actores que conheço:
"The Unbearable Lightness of Being", com Juliette Binoche e Daniel Day-Lewis.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Hallelujah (by Jeff Buckley)

Post da Mãe

Com alguns dias de atraso e depois de muito fermentada, não me passou a vontade de homenagear a minha mãe.
Não é muito importante para mim que não o faça no dia habitualmente dedicado às mães. Pelo contrário, creio que mais se destaca, em toda a sua grandeza, por não ser uma dedicatória no meio de muitas outras, que se fazem em massa e se materializam em frases feitas.
A sensação que tenho, agora que começo a escrever, é a de que estou a ser injusta com o meu pai. Não lhe prestei uma homenagem destas, nem no dia do Pai, nem antes ou depois. Mas logo me passa esta sensação esquisita quando penso que isto é espontaneidade e que o que sinto por ambos não se resume nunca ao que possa aqui testemunhar sobre cada um.
Vi ontem no Daily Show, do Jon Stewart, uma breve entrevista que ele fez ao ex-Presidente dos E. U. A. Jimmy Carter, a propósito de um livro que este último escreveu em homenagem à sua mãe.
Assistir ao programa fez-me pensar novamente nesta vontade que trazia comigo.
Gostei da forma como Carter descreveu certos episódios vividos em família e de como sublinhava o facto de a mãe ser uma mulher muito forte e que, em muito, lhe devia o cargo de Presidente que alcançou. A determinada altura contou um episódio engraçado em que alguém entrevistava a sua mãe, depois de um acontecimento público protagonizado pelo filho, já Presidente, e lhe perguntavam: Está orgulhosa do seu filho? Ao que ela respondia: Qual deles?
Foi apenas um à parte, mas tem a ver com aquilo que eu admiro na maternidade, na sua força e na sua capacidade de ter sempre mais para dar aos seus filhos.
A minha mãe não foi nem é uma mulher da política, nunca foi uma activista de lutas estudantis ou de direitos humanos, não foi sequer estudante universitária e não tem uma cultura geral elevada. Percebe pouco de História, de Matemática, de Línguas. Lia muito quando era nova, lembro-me bem. Mas lia livros de bolso, quase sempre romances, pouco profundos. Sempre se interessou muito por Medicina, um sonho que uma juventude com limitações não a deixou perseguir. Ainda hoje vaticina diagnósticos para alguns sintomas, com bases o mais científicas que consegue apurar nas suas enciclopédias, que gosta de consultar.
Casou e foi mãe muito nova, como era costume na sua geração, e sempre trabalhou.
Sempre soube fazer saias e vestidos, muitos deles gravados apenas nas velhas fotos minhas e da minha irmã, as saias e vestidos que usávamos, muitas vezes com pena de serem feitos em casa e não comprados na loja. Tolas!
A minha mãe é provavelmente uma mulher muito diferente da mulher que foi a mãe do Presidente Jimmy Carter.
Mas quando olho para trás, quando vejo quem sou, mesmo sabendo que pouco provavelmente serei algum dia presidente do que quer que seja, sei que um dia, daqui a muito tempo - se o tempo permitir - terei tanto para escrever sobre a minha mãe como o Presidente.
A mãe do Presidente não foi, certamente, mais do que a minha.

As Leis de Murphy e o resto do Mundo

Sempre achei que o drama da minha vida eram as Leis de Murphy. Compreendo agora, que elas não foram feitas a pensar em mim, mas sim em probabilidades trágico-cómicas que não são, de todo, fatalidades. Se lermos meia dúzia delas, percebemos que não somos uns infelizes, ainda que existam estatísticas concretas de que a nossa vida está balanceada para as suas conclusões negativas. A mim, pessoalmente, a confirmação destas leis, deixa-me (quase sempre) um sorriso no rosto, mesmo que seja um sorriso de escárnio ou irritação localizada, daquele tipo que ilustramos com um palavrão. Mas já convivo melhor com a sua presença constante e não me sinto tão perseguida.
Hoje, por exemplo, dei uma vista de olhos pelo Internacional do DN on-line, e isso fez-me pensar onde está o drama na lei que diz "A outra fila sempre anda mais rápido" ou "A possibilidade do pão cair com o lado da manteiga para baixo é directamente proporcional ao valor do tapete". Não posso sentir-me perseguida por 'infortúnios' tão fúteis quando em Sichuan milhares de pessoas morrem e outros milhares vivem a tragédia de um sismo cujas repercussões a minha imaginação não consegue nem alcançar, ou quando se sucedem atentados irracionais em nome de religiões "santas", por grupos radicais sunitas, como a mais recente em Jaipur que nos traz imagens de civis desmembrados.
Não posso sentir que o cúmulo da ironia reside num trocadilho de Murphy quando leio que, depois do devastador ciclone de Nargis, entre os escombros de Myanmar, a Birmânia vive o horror de ver os órfãos traumatizados, serem sofregamente procurados por traficantes de órgãos...
Numa vida simples, que não conhece a guerra, o terrorismo, o medo, a solidão, a fome, a censura, as catástrofes, faço (fazemos) drama porque "Nunca há horas suficientes num dia, mas há sempre muitos dias antes do sábado".

terça-feira, 6 de maio de 2008

Dia da Rita!!

Hoje é o dia da Rita!
É dia feliz, mesmo com nuvens. Dia de celebrar a perfeição.
A Rita é o objecto subjectivo do perfeito, porque a nossa noção de perfeito é subjectiva.
É a palmada e a carícia, o sorriso e a lágrima, a palavra imitadora ou a risada que reclama a atenção.
São covinhas nas bochechas e gritinhos eufóricos. São braços abertos e beijos que se soltam, ruidosos, antes de tocar a face.
É um xi, dois xis, muitos xis apertadinhos!

Eu conheço a mulher que deu colo e vida à perfeição.
No dia da Rita, parabéns a ti, mana!


Hoje é o dia da Rita!
É dia feliz, mesmo com nuvens. Dia de celebrar a perfeição.
A Rita é o objecto subjectivo do perfeito, porque a nossa noção de perfeito é subjectiva.
É a palmada e a carícia, o sorriso e a lágrima, a palavra imitadora ou a risada que reclama a atenção.
São covinhas nas bochechas e gritinhos eufóricos. São braços abertos e beijos que se soltam, ruidosos, antes de tocar a face.
É um xi, dois xis, muitos xis apertadinhos!

Eu conheço a mulher que deu colo e vida à perfeição.
No dia da Rita, parabéns a ti, mana!


(Fica giro o mesmo post em duas línguas: a nossa e a da Rita!)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Alentejo

O Alentejo, para mim, eram campos rasos e salpicados de papoilas a perder de vista, sob um céu azul e aberto.
Era cheiro a lareira e a lenha queimada.
Era um mar de estrelas a iluminar noites quentes.
Era bafo quente e sol impiedoso de meio-dia.
Era almofariz com cheiro a sumo de coentro e alho.
Era silêncio ou canto de cigarras e gado preguiçoso e pingos de uma fonte.
Era uma canção de sotaques deliciosos e descobertas em cada rosto e em cada ruga.
Agora descobri que também é centopeias.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

De fugida

Dispo-me de mim, esquecendo a frustração ligeira que me faz franzir a testa, para me alegrar com boas novas que outros partilham comigo. Notícias de felicidade e êxtase que me alegram em momentos em que faço uma pausa na minha felicidade e no meu êxtase, porque sentimentos menos nobres se impõem.
E assim, resta-me esperar que estes sentimentos se afastem.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Pim, Pam, Pum (24 horas depois...)

Assim me sinto e assim sou, tão incerta como este tempo de que não gosto. Este tempo em que agora chove e as coisas são baças, para mais logo o sol empurrar com força as nuvens e encher tudo de cores e alegrias exfusiantes.

Mas continuo a não gostar do circo. Já passei hoje bem perto da gigantesca marca no solo, deixada pela estrutura metálica das bancadas e pensei que me esqueci de referir uma coisa importante. Aquele semi-círculo gravado no solo rochoso, recusa-se a ir embora e no meio da poeira esbranquiçada do chão, deixou um rasto de relva verdinha que teima em impôr-se.
Aquela relva é como eu. E como este tempo incerto. De vez em quando, não se dá por ela, depois sem saber porquê, resplandece e ganha o verde mais bonito de todos.

O circo já foi há muito, mas deixou ficar uma raíz.
Nesta vida que desponta de vez em quando, de forma incerta, a relva brilha mais verde. Ou sou apenas eu que empurro as nuvens com força e vejo as cores mais exfusiantes.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Pim, Pam, Pum

Não gosto do Circo. Gosto de preservar a magia que ele, supostamente, representa para os mais pequenos mas não gosto dos artificialismos que lhe estão por detrás.
Lembro-me de gostar do circo quando era pequena, principalmente dos animais e dos trapezistas. Dos palhaços nunca gostei.
Hoje em dia, o que me fascina no circo é a triste e lenta rotina que o envolve.
Em frente à minha casa, há um recinto perfeito para as tendas de circo e, de longe a longe, encontro-os lá, com a sua tralha e a tenda meio montada, ao regressar do trabalho.
Quando saio de manhã, nada. Mas ao fim da tarde, vindos não sei de onde, lá estão eles, instalados, a invadir todo o espaço. Ocupam uma extensa área mas tenho a sensação de que ninguém os vê. Ou então são apenas considerados estorvo.
Gosto de espreitar, pela minha janela, a jaula dos leões e o recinto onde se amontoam várias espécies de animais, como se de uma quintinha se tratasse. Faço-o com um misto de pena e de fascínio.
Também gosto de olhar as diferentes roullotes e imaginar a vida lá dentro, por trás das maquilhagens gastas e dos cetins e lantejoulas.
Nunca os vejo na rua. Onde se enfiam as pessoas do circo? Montam rapidamente a sua tenda e somem-se para as suas caravanas velhas, sem se importar com os leões e os outros animais, ou assim parece.
Entristece-me olhar este cenário, da mesma forma que me entristece um Caravaggio: o seu realismo fere.
Às vezes, o circo em frente à minha casa enche-se de gente ao fim-de-semana. São filas e filas de crianças ansiosas e pais impacientes, e uma parte de mim fica contente. Significa que os leões não estiveram ali a semana toda, dando voltas na sua jaula, para nada. Pelo menos, alguém vai vê-los.
Mas na última vez que esteve lá o circo, não havia filas de gente. As crianças já não queriam ir e os pais agradeceram, ao que parece. Acho que nem chegou a haver espectáculo.
Já foi há bastante tempo, mas ainda hoje, quando passeio o cão no recinto, vejo as marcas na terra, das bancadas outrora ali enterradas com ferros. E entristece-me que, dessa última vez, tenha voltado para casa ao final de mais uma tarde, e já não tenha encontrado o circo...

TERRA!


Hoje é o Dia Mundial da Terra. Da Terra.

A TERRA..

Não pensamos na Terra como ela merece, não a vemos como deve ser vista e, definitivamente, não a tratamos como deveríamos.

Da Terra temos tudo. Ela dá-nos, sem cobrar, o que precisamos. E todo o mal que dela possa advir, somos nós que semeamos.
É bom que lhe dediquem um dia. Melhor seria que se pensasse mais nela todos os dias, mas isso ninguém faz.

Ainda bem que ainda consigo sentir o cheiro da relva molhada depois da chuva, ver a Lua brilhante quando as nuvens dão tréguas, sentir o mar frio e salgado na pele.
Por enquanto, ainda temos tudo isto.
A Terra ainda pulsa vida.






segunda-feira, 21 de abril de 2008

Um dia não são dias

Saudades do meu cão, saudades do sofá e do cadeirão que gira, saudades de um livro e de fechar os olhos e perder lentamente a consciência...
Saudades de um abraço, de sossego e de silêncio.
Não sinto tristeza, nem melancolia mas sinto um nó na garganta, de vez em quando. Estou vulnerável. Vulnerável ao bom e ao mau.
Hoje estou à mercê de um gesto carinhoso ou de uma palavra amarga, em igualdade de influência.
O mínimo que me pode fazer feliz, é exactamente proporcional ao que me pode entristecer.
Hoje não sou mordaz, nem crítica. Não estou vibrante ou cheia de humor.
Estou dependente de afectos.
Vou correr ao encontro deles, dos meus afectos.
Vou pedir-lhes que me envolvam.
Que bom é fazer-me ao mar mas ter sempre para onde voltar!

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Serviço Público

Partidarismos à parte, até porque assumo uma postura desprezista em relação ao culto das nossas políticas e à proliferação massiva de oportunismos, passo a divulgação deste interessante e-mail que recebi.

Parece-me bem.

Tem uma imagem tipo O.K. Teleseguro, ou Logo... essas companhias de seguros novas e de imagem jovial que parecem convidar ao sinistro automóvel, de tão descomplicadas que são...

Por outro lado, não posso ignorar o slogan que enfatiza o Civismo, a Justiça e a Prosperidade.

É pena eu ser tão céptica, desde que descobri o conceito de Marketing Político.

De qualquer forma, parece-me que, com um nome destes, já conseguiu o voto dos mais novos. Ainda há-de vir o Partido LOL e o BUE já devia ter assento parlamentar!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

April

E esta chuva que não pára. Cai incessantemente de um céu inexpressivo, que não mostra quando vai dar tréguas.
O céu não está azul e nublado, nem carregado de nuvens cinzentas. Está esbranquiçado, compacto. Parece mais perto da nossa cabeça, limita-nos o horizonte e não nos deixa olhar para longe, para a serra, para o mar...
Amanhã é sexta-feira, amanhã é sexta-feira, amanhã é sexta-feira...
Repito maquinalmente este pensamento, na ânsia de um fim de semana que sei que vai voar.

E esta chuva que não pára.
E este céu inexpressivo.
Faz-nos perder o rumo.
Que maçada, não encontro o horizonte...

quarta-feira, 16 de abril de 2008

happy ending

Sentia-se ansioso e emocionado.
Tinha ainda algumas coisas para fazer, coisas de última hora, que têm mesmo de se deixar para a véspera, e não tinha planeado um dia diferente precisamente para não sentir essa "diferença" que o deixava mais nervoso.
Se conseguisse ter o que fazer, dentro da maior normalidade possível, estaria ocupado e não teria tendência para pensar muito em como iria correr o dia seguinte. Mas era inevitável que o pensamento lhe fugisse de quando em vez para outras paragens, para o campo da imaginação. Quando caía em si novamente, fazia um esforço para se concentrar no presente, sem conseguir evitar uma pequena onda de calor a percorrer-lhe o corpo e um ligeiro suor nas palmas das mãos.
Iria correr tudo lindamente. A expectativa era o mais agradável e ninguém lhe poderia retirar isso. Quando os pensamentos teimavam em voar para o futuro, tentava pensar mais além, para dispersar o nervosismo. Imaginava a viagem, depois da cerimónia e da festa perfeitas, e o regresso para uma vida nova e cheia de desafios. Se não se concentrasse muito num momento específico, o coração acalmava e encarava tudo com uma estranha normalidade.
Já no próprio dia, pouco tempo antes, os sentimentos eram semelhantes mas mais intensos e conseguir descontrair era uma tarefa mais complicada. O sorriso estava presente como se alguém tivesse ligado um interruptor. Não que fosse falso, mas era um sorriso de nervos e de uma expectativa que vai muito além das mãos suadas.
Nada se passou de forma trágica, como nas novelas ou em dramas cinematográficos. No meio da confusão de gente que bebericava e tagarelava entre si, por entre os odores de vários perfumes que se soltavam de écharpes esvoaçantes, o rosto da irmã surgiu, o único ali que não estava como devia estar, porque não era dia de ter aquela expressão, era dia de sorrisos de nervos e expectativa.
E ninguém percebeu, e continuaram a bebericar e a tagarelar, enquanto ambos se recolhiam, para ele saber que o melhor que teve daquele dia, foi a feliz expectativa da véspera...

M de aMor, M de aMar

M de mar.
M de música, de mousse e de... medo.
M de meu, de minha e de... mau.

M de maravilha e de malvadez.

M de manteiga, de mil-folhas e de miosótis!!!
M de mimos, de macia, de meiga, de mãe.
M de mim..

Porque é que em tudo o que somos, em tudo o que amamos, em tudo o que temos... há sempre escuridão?

terça-feira, 15 de abril de 2008

Descobrir as diferenças

São ambos gordos, diria mesmo balofos. São festeiros, gostam da folia de um bom Carnaval (de época ou fora dela!) e dirigem a todos olhares de ironia e superioridade, olhares de quem ostenta aquilo que, queiramos ou não, possuem: um domínio territorial surpreendente.
A confirmar a regra, há quem debaixo da sua alçada não goste deles, mas deixa-se ficar, na timidez do conformismo, ou na esperança de herdar um bocadinho do legado.
Também a confirmar a regra, toda a restante maioria se divide em bajuladores de risinhos fáceis e em populares de bom pulmão e fidelidade até à morte.
Partilham distintos, mas igualmente deliciosos, sotaques regionais.
Às vezes não sei o que é pior.
Num país de dirigentes e políticos medíocres, em busca de reformas chorudas, talvez estes dois ditadores babosos, que cospem (i)moralidades, sejam de facto os líderes dos quais nos deveríamos orgulhar...

segunda-feira, 14 de abril de 2008

E foi assim que aconteceu

A noite estava fria, gelada. Na Serra então, parecia que ia nevar! Mas eu sentia-me animada, feliz por ter aceite o convite e por estar a dar a volta por cima, depois de um ano emocionalmente complicado. Rompi com o costume de recusar sistematicamente os poucos convites que tinha para jantares, por não me apetecer estar presente. É verdade que o que normalmente faria era mesmo ficar em casa e fingir que as coisas lá fora não tinham nada a ver comigo. Mas desta vez fui.
Tagarelar com a Maria até lá enquanto fazia o IC19 fez-me sentir bem, como se aquela noite cheirasse a uma mudança definitiva na minha atitude. A seguir seriam os colegas mais chegados da faculdade e, com sorte, mais para o final da noite, regressaria a casa a sentir que tinha valido a pena arejar.
Não esperava encontrar-te, conhecer-te. Pensei que não teria surpresas nessa noite. Esperava que fosse agradável mas sem sobressaltos. O meu coração não me pedia isso nesse momento.
Usava um cachecol às riscas. Estava um bocado hippie, ou é assim que me recordo hoje. Estava muito pálida e o cabelo parecia mais escuro que nunca, como me disseste mais tarde e como mostram as fotografias que hoje vejo dessa noite. Mas lembro-me de rir muito. De sorrir. Como se estivesse inebriada.
Tu.. lembro-me apenas que vestias uma camisola lisa, verde, e que usavas os óculos de aros pretos, ainda os primeiros que te conheci. Lembro-me da tua voz, das brincadeiras constantes de quem gosta de chamar a atenção sobre si e do som das gargalhadas. Perguntava-me se serias mesmo assim ou se estavas a tentar reclamar um lugar de destaque, porque, estranhamente, parecias muito à vontade, muito embora tivesse percebido que não conhecias as pessoas presentes, à excepção daquela que nos era comum...
Fiquei intrigada mas não percebi imediatamente que a minha curiosidade iria continuar a crescer até se tornar insaciável.
A continuação da noite para além das Azenhas, no cenário confortável do Penedo, em muito contribuiu para essa curiosidade crescente.
Seguiu-se aquela semana completamente surreal.
O normal seria não ouvir falar mais de ti. Mas sei agora que, desde cedo, tudo se desenrolou de uma forma muito fora do normal.
Naquele segundo sábado, apenas me lembro de dar por mim a desligar o telemóvel, em plena Rotunda do Marquês, depois de te ter avisado que estava a caminho. Estava a caminho.
Não faço ideia de como foi esse meu sábado, com quem estive, o que fiz, o que terá sido o meu jantar.. para mim esse sábado começou depois das 22h30 talvez, no Marquês de Pombal, com uma mão no volante e a outra a segurar o telemóvel.
Atravessei o Bairro, no meio de um trânsito já infernal, para encontrar alguém que sei que não me esperava. E perguntava-me, pela primeira vez, se a minha presença não seria inconveniente e indesejada, apesar de ter existido um tímido convite, algures no meio da estranha confusão que foi aquela semana.
Algumas horas depois, quando respondia a inquéritos bem intencionados sobre os meus conhecimentos futebolísticos e olhava o teu ar embaraçado no meio de um quarteto cómico que formámos com aquele par de jarras, percebi que era ali que tu me querias e que era ali que eu queria estar. Naquele bar da Rua da Rosa, a conhecer-te melhor.

Inútil

Era para escrever mas, apesar da vontade de o fazer, hoje não é dia para isso.
Falta-me a inspiração, o motivo, o conteúdo.
Certamente faria uma introdução longa, de um qualquer assunto que fosse surgindo, porque acaba sempre por surgir, mas não seria espontâneo.
Assim, deixo só um rasto de mim. Apenas porque tenho sede de bater aqui as minhas asas. Não porque tenha alguma coisa para dizer.
Talvez mais tarde...

sexta-feira, 11 de abril de 2008

post scriptum

Tinha de reescrever o meu post anterior, no que respeita às mentiras piedosas...
Não serão necessariamente boas. Acho até que quem inventou esta expressão fê-lo para se desculpar de algum comportamento imoral e vergonhoso, e que diz utilizar para não ferir sentimentos de terceiros. Cobardolas!
Mas pronto, as mentiras piedosas a que me refiro como boas, são do género de não contar a um velhinho moribundo que o seu cão e fiel amigo de uma vida teve de ser abatido... Quer dizer, não há necessidade, certo?

Blá, Blá, Blá...

De todas as pessoas, as que mais me irritam são as que mentem sem saber fazê-lo.
Convenhamos que mentir todos mentimos e mais vale admiti-lo. A mentira não tem necessariamente de ser um bicho papão e até há mentiras boas. As piedosas, por exemplo.
Mas a mentira sem jeito, a mentira cobardolas e pouco conseguida, enrolada, ruborizada e trapalhona, essa sim é insuportável. Como são insuportáveis as pessoas que inventam mentirinhas e enredos para tornar as suas vidas mais interessantes. Às vezes, vejo-me rodeada de gente assim e só me apetece fugir. Não consigo disfarçar um profundo desprezo por essas pessoazinhas. Mesmo assim elas não percebem e, páginas tantas, lá vêm com mais uma historieta...

Educação

Contratados com má nota não renovam
Alexandra Inácio
"Os professores contratados que tenham a classificação de regular ou insuficiente poderão não renovar os seus contratos. Anteontem, a ministra da Educação anunciou que os professores com essas notas não sofreriam as penalizações previstas na lei para a contagem do tempo de serviço mas ontem a renovação surge na proposta do ministério como excepção. Foi, aliás, um dos pontos que impediu o entendimento entre a tutela e a Plataforma Nacional de Professores. Hoje equipa ministerial e sindicatos voltam a reunir-se. A recusa do ministério em aceitar um modelo único de avaliação simplificada é para o secretário-geral da Fenprof a segunda divergência a travar o entendimento. A tutela prefere apontar a obrigatoriedade de procedimentos mínimos, como a auto-avaliação e a assiduidade. "O nosso objectivo é que façam o máximo e o façam bem. O modelo é o referencial", defendeu Maria de Lurdes Rodrigues à saída do Conselho Nacional de Educação (CNE). Os sindicatos rejeitam que os professores possam ser avaliados de forma desigual, consoante a escola onde estejam colocados. "Está fora de hipótese um acordo. Pode é chegar-se a um entendimento em relação a algumas matérias", frisou Mário Nogueira. O objectivo da Plataforma, garantiu, é o de "desbloquear o conflito no 3º período". O secretário-geral da Fenprof aproveitou o impasse e a disponibilidade de ambas as partes para negociar e apelou à participação dos docentes nos protestos marcados no Norte do país na segunda-feira. "A pressão pode ser fundamental para desbloquear a situação". Após quatro horas de reunião, ministra e secretário-geral da Fenprof não excluíam a hipótese de uma quarta reunião."
Alguém se importa de me explicar qual é o problema dos nossos professores afinal? Têm medo de uma avaliação mais rigorosa? Não estão a dar um grande exemplo aos alunos!
Tenho pena que certas decisões ministeriais não se apliquem é a professores efectivos e recostados, em vez de afectarem apenas os contratados. A exigência de qualidade deve aplicar-se a todos os profissionais do sector, mas sabemos que as coisas não são bem assim.
Se estiver a ser ignorante, corrijam-me. Tal como os sindicatos, também eu estou aberta a chegar a "entendimento em relação a algumas matérias".
(Não vejo grandes diferenças entre a manifestação "histórica" que fizeram há meia dúzia de semanas e aquela em que participei há vários anos, por causa das PGA's, a cantar Oh Manela! Oh Manela! Anda cá! Anda cá! Vira o cu pá gente, vira o cu pá gente! Toma lá! Toma lá!
É a democracia no seu melhor, ao serviço de qualquer causa... mesmo que não se saiba qual!)

8º Frente

Os vizinhos de cima são uma espécie de sogras malvadas, por defeito.
A comparação é tanto mais adequada se pensarmos que todos estamos na iminência de ser sogros ou sogras, da mesma forma que estamos na iminência de ser vizinhos de cima dos nossos vizinhos de baixo. A excepção são aqueles que optam por não ser sogros, ou simplesmente não acontece, e os que vivem em moradias ou no rés-do-chão, claro está.
Como vizinha de cima, e por isso também potencial "sogra malvada", tenho feito os possíveis para ser tolerante com a minha vizinha de cima, que ainda por cima tem crianças.
Mas ela não me facilita a vida.
Começa pelo facto de me acordar todos os dias, em rigor cerca de uma meia hora antes do meu alarme. E fá-lo a gritar. Na sua voz de desespero, não muito alta mas esganiçada, rouca de tão esganiçada. É indescritível. Imaginam como a broca do dentista atinge aquele nervo não anestesiado? Pois é esse efeito que provoca em mim a voz daquela mulher.
Os miúdos, esses por vezes fazem rolar uma espécie de esferas de chumbo (é o que parece mas devem ser berlindes) ao longo do corredor e de todos os compartimentos da casa. Fora isso, quase não se ouvem. Mas aquela desgraçada tem uma raiva aparente a tudo o que a rodeia, que se revela desde que acorda até que sai de casa, e imediatamente assim que regressa ao fim da tarde.
Ontem apareceu lá por casa, para tratar de coisinhas do condomínio. E aproveitou para conhecer de uma forma simpática, descaradamente subtil e aparentemente desinteressada, todas as divisões da casa. Com os miúdos à frente a perguntarem tudo e por tudo, e ela, com advertências delicadas e ligeiras, a seguir avidamente atrás deles.
Depois, lá voltou muito a custo, arrastando as crianças, para o seu ninho. Onde começou quase imediatamente a sua ladaínha enervada.
Aposto que ela não gosta do sítio onde vive e adorava ter uma moradia.
Eu também acho que ela devia viver numa moradia.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Professor de Português

Tenho saudades do meu Professor de Português, o Luís Filipe. Não o vejo há uns anos valentes. Com sorte, ele acaba por ler este post, reconhecer-se e dar notícias um dia destes.
Mas gostava que ainda fosse o mesmo. Se mudou muito e já não tem aquele ar de gozão também não faço questão de o ver. Se calhar, na verdade, apetece-me muitas vezes recordar aqueles tempos de escola, a nossa visita de estudo a Lamego (aquilo foi mesmo uma visita de estudo??) e a minha colega a vomitar as tripas depois de dar uns tirinhos naquele joint..
Sinto falta de que me chamem foleira com a mesma honestidade com que ele o fazia. Para me acordar para a vida, como quem diz Não te desperdices, miúda!
Também gostava da delicadeza e devoção quase teatral do professor de Português da Faculdade, mas era diferente... aí era mais pela paixão que ele demonstrava pela disciplina.
Com "o" Professor de Português era muito mais natural e tinha a ver com a pessoa que ele era e com a forma como me chamava foleira. Era a sua maneira de mostrar que achava que eu tinha talentos que precisavam de ser trabalhados. E eu sabia-o bem. Por isso me irritava na altura.
Ainda é Professor de Português, julgo eu.
E é tripeiro ferrenho.
Será que há muitos com estas características?
Bom, em desespero de causa, posso sempre "postar" aqui a foto dele, lá no passeio a Lamego, a preparar o seu saco-cama e o radiozinho despertador, quando dormimos todos naquele gélido ginásio, sem água quente para tomar banho.
Mas acho que ele não ia gostar.
Usava um fato de treino verde, com golinha branca.
Muito foleiro.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Chopper

http://br.youtube.com/watch?v=LhmIYku4amQ

Porque a Medeiros é a nossa Amélie Poulain e porque o Bruce Willis é... o Bruce Willis.
E porque estou sempre a lembrar-me desta cena, por muitos anos que passem!

Quem Quer Ser Milionário

... mas se se querem divertir a sério, vejam (ou revejam) o programa "Quem Quer Ser Milionário", emitido ontem (08-04-2008), na RTP 1.
(Eu devolvia os 5.ooo euros para não transmitirem o programa mas aposto que ela até ficou orgulhosa com a sua performance...)
Há coisas fantásticas, não há?

Tenho uma dor, Sr. Doutor!!

Muito cuidado com uma senhora, que se diz Doutora, especialista em Dermatologia e pela mão da qual passam crianças, que tem consultório ali para os lados da Avenida da República.
É que parece que essa senhora "Doutora" também é especialista em Estética, muito embora reencaminhe as suas pacientes para uma esteticista, assalariada concerteza, aparentemente não Doutorada, que pratica depilações a laser com resultados... duvidosos, nomeadamente como consequência de infligir queimaduras graves nas utentes. E digo "nas" porque não aconteceu apenas uma vez, nem só a uma pessoa. Não é acidente, é negligência.
Mas tanto quanto sei, não há queixas contra a Doutora... até agora.
E é um bom negócio o dela: aconselha uma sessão, cobra a maquia elevada correspondente à intervenção (porque numa clínica, com uma médica, é muito mais credível do que num qualquer centro de estética, claro está!) e depois incumbe uma esteticista (!!) de retirar, literalmente, couro e cabelo à pobre da paciente.
A boa-fé e o profissionalismo são tão grandes que a justificação vem depois, em forma desinteressada de explicação, de que há peles mais sensíveis que outras e não suportam "radiações" tão fortes... Mas parece que a Doutora tinha dito qualquer coisa relacionada com uns testes que se fazem antes, justamente para saber qual a resistência de cada tipo de pele... Deve ter sido impressão.
Dá ideia que a resposta da Senhora Doutora é qualquer coisa como: Temos pena!
O que é facto é que, em caso algum, e apesar de lamentar a situação, a Doutora se oferece sequer para devolver o dinheiro de um tratamento tão bem feito.
Também parece não querer saber dos danos causados, das dores, do sofrimento. E sente-se ofendida se alguém insinua que não agiu com profissionalismo.
Grande consciência deve ter esta Doutora. E pesada!

terça-feira, 8 de abril de 2008

Cartoons Chineses

Entristece-me a miudagem de hoje.
Entristece-me que a maioria, senão todos, não conheça o prazer de jogar ao mata, ao piolho, à cirumba ou ao pau.
Entristece-me que não se divirtam com séries como o Verão Azul ou personagens como o Tom Sawyer.
Entristece-me vê-los sentados em frente aos Morangos com Açucar, alienados, a ver miúdas pirosas e rapazes que usam cristas estúpidas no cabelo.
Eles nem devem saber o que é um pirilampo! Nunca devem ter visto nenhum!
Eu apanhava-os, com grupos de amigos, em noites quentes de Verão. Fechávamo-los num frasco ou em sacos transparentes para os ver brilhar. Mas soltávamo-los sempre!
Hoje, os miúdos andam agarrados a telemóveis e falam entre eles com diminutivos estranhos e praticamente indecifráveis!
Hoje, para os miúdos, um presente não é uma excepção e uma alegria. É a norma.
Hoje, não são os pais que mandam e os filhos que respeitam. São os filhos que exigem e os pais que obedecem.
Hoje, os alunos batem nos professores, divertem-se com isso e têm direito a tempo de antena e a psicanálise.
Salazarista não, mas admito que me chamem "Velha" do Restelo...

Costa Rica

Que será feito do Joaquín? E das bailarinas?

Que bem que se deve estar agora do outro lado do Atlântico, na América Central... a comer ovos minúsculos de codorniz e muito queijo ao pequeno-almoço. Até ovos mexidos em quantidades grotescas e que nunca comemos por cá, logo ao acordar. E muita fruta.
(Só penso em comer, que nervos.. tanta coisa boa e eu só penso em comer).
Como queria estar lá outra vez!

Isto lembra-me que tenho de tirar um curso de preparação de bagagem.

Não consigo arrumar uma mala em condições. Falta-me sempre qualquer coisa muito importante e há sempre carga completamente dispensável. Mesmo que eu saiba como é o sítio para onde vou, seja por muito ou pouco tempo, é sempre uma tragédia. O que normalmente acontece é que acabo por repetir a mesma roupa inúmeras vezes, porque não tenho uma alternativa decente, e trago de volta peças que não utilizei.

Acho que isto está relacionado com a mania de ter sempre as gavetas atafulhadas de coisas que não visto mas que, sem que para isso haja uma explicação lógica, mantenho guardadas para o caso de.


O Joaquín fez uma performance de Michael Jackson de se lhe tirar o chapéu!

E as bailarinas tinham também muito talento.

O Victor também era engraçado, com o seu estilo mais desleixado. Lembro-me dele a chamar os macacos nas árvores. E a dar aula de hidroginástica.


Lembro-me do tubarão que se escondia na guta.

Do chão enlameado no regresso ao resort, no dia dos souvenirs.

Dos nachos com aquele molho muito pouco saudável.

Das picadas de mosquitos ao final da tarde.

Da bracelete verde.

De acordar com a notícia de que o Porto era campeão.

Das carrinhas de tour.

Da Preguiça pendurada e da preguiça de início de tarde.

Do vulcão.

Do cheiro dos grãos de café.

Do casado.

Do arame farpado.

Do Campus Universitário.

Do Mercado sujo.

Do pequeno-almoço bem cedo em San José (com Corn-Flakes em saquetas individuais).

Do aeroporto...

Do velho do chapéu no avião que queria a mala perto dele.


Para a próxima não levo bagagem. Compro tudo lá e não me aborreço. Vou andar sempre com a mesma roupa de qualquer maneira...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Andorra


Quando entrámos no apartamento ficámos em choque.

Não era bem um apartamento, era mais... um pardieiro. Tinha um pequeno corredor estreito, uma porta para a humilde casa de banho do lado direito e, do lado esquerdo, um beliche (tipo estabelecimento prisional), com colchões gastos, muito sujos e lençóis brancos, dobrados e rijos de tanta goma. Mais à frente um sofá forrado de um tecido escuro - obviamente velho e sujo também - e uma mesa de madeira. O móvel da televisão e a kitchenet completavam o cenário daquele espaço que nos aguardava depois de muitas, imensas!!, horas de viagem.

A primeira coisa de que gostei realmente foi do vão de espaço por debaixo da janela, onde as nossas bagagens poderiam ficar sem incomodar ninguém. Já não era mau. Mesmo assim, apetecia-me cair no chão e chorar. Estava exausta.

Depois o choque foi passando. Teríamos de deitar mãos à obra antes de podermos descansar, de forma a transformar aquele... apartamento, num espaço onde nos sentíssemos bem nos próximos dias. Fizemos do sofá uma cama e, com os dois colchões do beliche, fizemos a outra cama. Dois casais, duas camas improvisadas. Ninguém ia dormir num beliche da 2ª Guerra Mundial no corredor! O humor começava a melhorar.

E quando a nossa imagem das coisas deixa de ser tão negativamente condicionada, voilá!, descobrimos o que sempre lá esteve e não conseguimos apreciar antes. Aquela fabulosa janela do nosso apartamento, apoiada num telhado alto de sótão, com vista para as montanhas cobertas de neve!

De repente, o cenário já não era nada mau. Afinal tínhamos ali de tudo: água (nem sempre quente como iríamos descobrir...), luz, camas (colchões sujos e gastos...) e até uma televisão, uma Playstation (levada de Portugal porque a "suite" não tinha esses extras) e um dvd do Gato Fedorento que preenchia os serões!

Além disso, os dias foram passados quase de manhã à noite a descer pelas pistas com pranchas de snowboard. Não dava tempo para apreciar os luxos de um apartamento de cinco estrelas.

Grande experiência!

Se não pensar muito na angústia que era para mim cada subida no forfait, com a única certeza de que cairia a descer e seria atropelada por alguém, ou no súbito impulso de fé que nem sabemos que temos quando fatalmente acabamos por cair pois já perdemos o controlo da prancha agarrada aos pés há duzentos metros atrás, ou na sede horrível que o intenso esforço físico provoca e que nos leva a comer punhados de neve (sim, do chão, porquê?), tenho de concluir que foram dias inesquecíveis estes em Andorra!

Não esqueço a janela de sótão com vista para as montanhas, principalmente naquele dia em que ficou emoldurada de branco por causa do forte nevão. Nem esqueço as bolas de neve fria que me atiraste ao acordar :-). Nem esqueço o Boneco de Neve (estava perfeito!). Nem a comida de má qualidade que fazíamos apressadamente mas que calava tão bem a nossa fome, depois de um dia extenuante.

Só já não me lembro certamente do truque para o snowboard. Terei de voltar ao princípio, outra vez, um dia.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Shiuuuuuu.....

Sinto-me tão ensonada.... estou aqui e não estou. É, literalmente, como se estivesse a flutuar e os olhos pesam como se a qualquer momento se fossem cerrar totalmente. Apetece-me estar noutro espaço e poder deixar-me cair no vazio que me chama, neste abismo de sonolência à beira do qual estou debruçada.
Mas não posso. Mais que não seja porque me apetece escrever e soltar aqui pensamentos.
E, no entanto, sinto que a qualquer momento vou deixar-me levar por esta sonolência que persiste, como se fosse impossível vencê-la e precisasse mesmo, mesmo, mesmo, de deixar-me adormecer...
Talvez hoje não solte pensamentos mas antes... sensações. Porque não me sinto capaz de pensar.
Mas sentir, isso sinto.
Sinto que precisava dormir um dia inteiro, muitos dias, uma semana... mas acordar e não sentir que perdi uma semana a dormir. Acordar e sentir que a semana só tinha contado para a necessidade do meu sono profundo e que o tempo real tivesse parado em todos os relógios.
Como se faz para parar o tempo?
Improvável é adormecer aqui e agora. Mas parar o tempo, isso é mesmo impossível...
Descobri agora que não é boa ideia escrever quando o meu corpo me pede que durma uma eternidade. As vozes do meu corpo, todas as vozes que neste momento segredam baixinho e cujos discursos se entrecuzam de uma forma complexa e irritante, as vozes que me suplicam que me deixe cair lentamente no abismo desta sonolência não me deixam escrever. Que irritantes são estas vozes.
Descobri agora que para escrever, tenho de calar primeiro estas vozes...
Por isso vou dormir...
Vou deixar-me levar. Os véus a baloiçar com a brisa morna, muito ténue, que quase não se sente...
A suave libertação do corpo que vai flutuando... em profundidade...
Tão lentamente como se não tivesse peso algum...
Tudo o que existe dá lugar ao nada...
E durante um tempo, um tempo que nunca pára, eu durmo.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Botas ou sandálias?

A forma como vejo e sinto a vida é, por vezes, tão estranhamente antagónica que me pergunto na realidade quem sou eu, ou no que consiste a substância do meu "ser".
Quer dizer, se eu tivesse quinze anos era aceitável. É daquelas idades em que a maioria de nós não sabe bem o que é, o que quer, o que anda aqui a fazer e se "it's nice to be important" ou "it's more important to be nice"...
Mas esperava chegar a esta idade, mais ou menos crescida, e ser uma daquelas pessoas de cabeça levantada, andar firme e atitude decidida. E não sou.
Certamente vou pensar, daqui a dez anos, que o que sinto hoje é normal e dizer, uma vez mais, aquilo que já hoje repito tantas vezes e que é das frases que mais abominava quando era miúda: Se eu soubesse o que sei hoje... (dito com um ar melancólico e sorumbático para ter o efeito que é suposto, claro!).

Mas não me quero perder, porque a história do Chouriço só tem piada para quem ouve a primeira vez! (Constato com alguma pena que a partir daí vai sendo cada vez mais insuportável, acreditem!! E só há mesmo uma pessoa em todo o planeta que compreende o que acabei de escrever).

Voltando ao início, é com frequência que me sinto dona de uma personalidade frágil, recorrendo ao eufemismo.. E sabem onde é que noto mais esta característica? Nas Finanças! A sério! Tinha de dizer isto, estava a sufocar-me há anos!!
O.k., as Finanças são o bode expiatório (se fosse só as Finanças!), mas são um grande exemplo.
Os sapos que eu engulo daquelas senhoras mal-dispostas e irritadas! E depois parece que "cheiram" as vítimas. Se chegar lá uma senhora emproada ou a fazer peito, elas encolhem-se que nem bichos de contas. Mas a mim topam-me logo. Para já, começo por dizer bom dia ou boa tarde: boa educação? Não! Sinal de fraqueza. Depois pergunto se posso só pedir uma informação, em vez de pedi-la logo.
Saio sempre das Finanças a ouvir uma voz cá dentro que me diz que devia ter esmurrado alguém.
Mas isso é um absurdo, é óbvio!
Pelo sim, pelo não, é melhor mandar cá para fora porque estes sentimentos recalcados não fazem bem a ninguém.

E agora que me sinto muito mais aliviada, avanço para o que me trouxe aqui hoje.
Uma amiga aconselhou-me a visitar um daqueles sites engraçados para testarmos a nossa personalidade e fazermos comparações que nos levam a conclusões curiosas.
Acho que alguns destes sites (alguns!!) são realmente interessantes e acredito que as opções que se nos deparam têm como base elementos de fundo de análise psicológica. Mas normalmente é uma tortura para mim fazer determinadas escolhas. E não sei se por aí posso reforçar a minha ideia de que tenho um sério problema de falta de personalidade ou se, por outro lado, sou simplesmente uma pessoa... eclética! Quer dizer, eu sei lá se prefiro uma tarte de limão e natas, fresquinha, doce mas levemente ácida para contrastar, suave mas consistente, que combina a arenosa textura do miolo da base, com o creme frutado do interior e a cobertura glácea; ou uma fatia de bolo de chocolate, intenso, fofo e recheado de pepitas de chocolate aqui e ali, coberto de avelãs finamente picadas e... e ainda dão mais sete ou oito hipóteses de escolha!!! Não está certo!
Isto até pode ter uma explicação fácil: sou gulosa. Aceito.
Mas e se me propuserem umas férias numa casa de madeira rústica, no alto de uma montanha salpicada de neve, com vista para um lago gelado, onde eu possa fazer actividades, passear com cabras maltesas e passar serões à lareira com o grupo de amigos, a ver um bom filme, a jogar um jogo divertido e a contar anedotas? Bem fixe... se tentar esquecer o cenário paradisíaco de uma praia de areia branca, com um mar infinito à minha frente que de tão azul parece verde ou de tão verde parece azul e se nota mesmo pela foto que a temperatura é quase tão quente como a do ar, onde posso beber granizados de todas as frutas e não ter de me preocupar com o que vestir ou calçar e esperar pela noite, também quente, também paradisíaca.

Está decidido. Sou eclética! Gosto de doce e de salgado; gosto de frio e de quente; gosto de música e de silêncio; gosto do clássico e do moderno, do típico e do inovador, do habitual e da excepção.
Não gosto do exagero, não gosto do insuficiente, não gosto de tudo, não gosto de extremos.
Gosto do que é suportavelmente bom porque o que é insuportavelmente bom... é mau.
Gosto do que para mim é bom.
Não confundam. Não sou fácil de contentar. Sou... eclética! Ah, e indecisa...

sexta-feira, 28 de março de 2008

Pearl Jam

Porque a Música e a Poesia ocupam um lugar muito importante; porque o meu tributo nunca será suficiente para compensar tudo o que me Elas me dão; as minhas duas últimas entradas não são textos meus, mas sim os originais que inspiram em mim a vontade de as homenagear...

Tidal waves don't beg forgiveness
Crashed and on their way
Father he enjoyed collisions; others walked away
A snowflake falls in may.
And the doors are open now as the bells are ringing out
Cause the man of the hour is taking his final bow
Goodbye for now.
Nature has its own religion; gospel from the land
Father ruled by long division, young men they pretend
Old men comprehend. And the sky breaks at dawn; shedding light upon this town
They'll all come ‘round
Cause the man of the hour is taking his final bow
G'bye for now.
And the road
The old man paved
The broken seems along the way
The rusted signs, left just for me
He was guiding me, love, his own way
Now the man of the hour is taking his final bow
As the curtain comes down I feel that this is just g'bye for now.

Pearl Jam, "Man of The Hour"

quinta-feira, 27 de março de 2008

Ah! Como vivo o Pessoa..!


"... Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir."
Fernando Pessoa "Do Livro do Desassossego"

segunda-feira, 24 de março de 2008

Especial Março: Vilas de Portugal

As minhas sugestões, inspiradas por uma Páscoa em viagem pelo Norte do País...

Amarante

foto: site Câmara Municipal de Amarante

AMARANTE: Uma estreia para mim e uma boa surpresa. Prometida, desde já, uma nova visita, de preferência mais longa, lá mais para o Verão (esplanadas fantásticas com vista para o Rio Tâmega).

Recomendo: Para quem procura almoço ou jantar, paragem obrigatória no restaurante "O Zé da Calçada", muito próximo da ponte velha... Todo (TODO!!) o tipo e variedade de entradas e sobremesas à discrição. Obrigatório: Levar muita fome :-)

Ponte de Lima

foto: Amândio de Sousa Vieira

PONTE DE LIMA: Não é uma estreia. Conhecida por ser a Vila mais Antiga de Portugal é uma das minhas eleitas há largos anos. Em comum com Amarante: Ponte Velha (sobre o Rio Lima), monumental arquitectura nortenha, construções maciças, zonas de passeio pedestre à beira-rio, jardins, cafés, esplanadas e restaurantes.. Muita vegetação e muitas cores.
Actividades no Rio. Particularmente activa no Verão e, tal como Amarante, berço de muitos emigrantes.
Recomendo: Mais uma Vila onde se come muito... e bem! O Minho é terra de gente de festa. A vila é particularmente visitada na altura das festas de Setembro. Há diversões para todos os gostos e em cada esquina se encontra animação: Fados, Tunas, Fogo de Artifício, Artesanato, Tascas, Carrosséis, Feiras...
Para comer, imperdoável não provar o prato da Região: Rojões com Arroz de Sarrabulho. Para quem não gosta: Bacalhau, Migas, Lampreia, Pato, Polvo... de tudo se cozinha bem por estas bandas (há muitos restaurantes recomendáveis mas podem experimentar o "Encanada", juntinho ao Mercado Municipal) e também convém que se vá de estômago vazio!

segunda-feira, 17 de março de 2008

A lua em Mim

A superfície da Lua
por Paulo Gomes Varella

"Distinguem-se, na superfície lunar, três feições significativas: os mares, as montanhas e as crateras.
Ao observarmos a Lua em uma noite límpida, facilmente distinguimos várias manchas escuras que se distribuem pelo seu disco iluminado, algumas com formas curiosas, sugerindo as figuras de um rosto, de um coelho, etc. Tais manchas escuras foram chamadas, no passado, de mares lunares, nomenclatura provavelmente introduzida por Galileu Galilei.

Os mares são extensas planícies formadas pelo derramamento de rochas ígneas (tipo extrusivas, semelhantes aos nossos basaltos) e que preenchem grandes áreas da superfície. Estas rochas são escuras e refletem pouca luz solar. Em relação às demais áreas da superfície lunar são mais jovens e, por isso, apresentam poucas crateras. Por serem menos acidentadas foram escolhidas como áreas de pouso das primeiras missões tripuladas à Lua, como foi o caso da missão Apollo 11, que conduziu os primeiros astronautas à superfície da Lua em 1969, cuja área de pouso localizou-se no chamado Mar da Tranqüilidade.

Há inúmeros mares na superfície da Lua, principalmente na face perpetuamente voltada para a Terra. Além do Mar da Tranqüilidade há o Mar das Chuvas, o Mar das Crises, o Mar de Humboldt, o Mar da Serenidade, o Mar da Fecundidade, etc.

Em contraste com a aparente planicidade dos mares lunares, há grandes montanhas caracterizadas por serem muito escarpadas, geralmente com cumes pontiagudos, revelando que o intemperismo (com exceção ao intemperismo físico, conseqüência das variações térmicas diuturnas) e a erosão não são fenômenos preponderantes na modelagem do relevo. A falta de atmosfera e a conseqüente ausência de ventos e chuvas produzem uma situação ímpar: as montanhas, salvo pequenas alterações, parecem estar preservadas, apresentando-se conservadas desde a época de suas formações. As grandes cordilheiras receberam nomes iguais às marcantes cadeias de montanhas da Terra, como é o caso dos Alpes, dos Apeninos, do Cáucaso, dos Pirineus, etc.

Por fim, há as crateras, estruturas com formas circulares ou elípticas, provenientes principalmente da colisão de corpos celestes das mais variadas dimensões com o solo lunar. Cada cratera representa uma cicatriz, uma marca de um evento catastrófico. Há milhares de crateras na superfície da Lua com diâmetros que variam de alguns milímetros até grandes estruturas com mais de uma centena de km de diâmetro. Além das crateras de impacto, acredita-se que algumas sejam remanescentes de antigos vulcões."

Não há nada que mais admire do que a Lua... Não me cansa olhá-la. Serena, Agitada, Brilhante, Mate, Grande e Nula... É difícil existir algo mais bonito e misterioso ao alcance da vista Humana. Será que vou tocá-la um dia?

segunda-feira, 10 de março de 2008

Sabedoria

Nem todo o bom senso do mundo se sobrepõe às fraquezas que caracterizam a condição humana e, consequentemente, à irracional vontade de romper com as fronteiras que nos separam legitimamente dos outros.
Quantos de nós nunca sentiram vontade de conhecer os desejos secretos daquela pessoa, os seus pensamentos mais íntimos, principalmente daqueles que nos são chegados e que muitas vezes receamos não conhecer como achamos que temos direito? Mas nós não temos, de facto, esse direito. E seremos tanto mais virtuosos quanto melhor soubermos aceitar esta realidade.

Felizmente, os "direitos reservados" relativamente aos nossos pensamentos e àquilo que sentimos estão garantidos, em igualdade e sem descriminação para cada pessoa. É por isso que um dos mais valiosos e impenetráveis tesouros que possuímos é o nosso mundo de memórias, que não pode ser-nos "arrancado" por ninguém, nem com a melhor das tecnologias, e tem a magia de, ainda que seja da nossa vontade, não ser sentido por ninguém como é sentido por nós, mesmo que o partilhemos.

Aquilo que considero ser a verdadeira sabedoria é o resultado de uma estreita relação entre as nossas memórias e o que a imaginação nos permite construir com as memórias dos outros. Quantas mais recordações guardarmos, quantas mais experiências vivermos e acumularmos e quantas mais forem as memórias que aqueles que se cruzam nas nossas vidas partilhem connosco, maior e melhor será o saldo da nossa sabedoria.
Faz sentido que a idade seja um factor de peso para se chegar a sábio.
Mas mais do que isso, faz todo o sentido que, independentemente da distância entre o ponto de partida e o ponto de chegada, a nossa vida seja recheada de acontecimentos, experiências, boas e más recordações, razão e emoção e, sobretudo, de muitas relações, pessoas, 'estórias' e Imaginação, para podermos reconstruir as memórias dos outros e entrelaçarmo-las com as nossas próprias memórias...

Sinto que sou um pouco mais sábia conforme o tempo vai passando e vou aprendendo a refrear a vontade de "invadir" aquilo que, nos outros, não me pertence. Ao mesmo tempo, vou conseguindo gerir melhor as minhas próprias memórias, as que, felizmente, vão crescendo e que vou arrumando em gavetinhas separadas e me ensinaram tanta coisa que aplico no presente.

Quero um dia olhar para trás e descobrir que o meu passado é uma grande sala, cheia de gavetas com imagens, cheiros, lágrimas, desejos e sorrisos. Gavetas com rostos, nomes, sensações, músicas e sabores. Gavetas das quais ninguém tem a chave.

E dessas gavetas talvez eu retire qualquer coisa para partilhar com alguém; alguém que reconstrua, com a sua Imaginação, o objecto das minhas memórias..

sexta-feira, 7 de março de 2008

Menina...

Conheço uma menina franzina e pequena; trigueira de natureza, de nariz arrebitado e cabelinhos escuros e finos. Tem dentinhos desalinhados - ainda de leite! -, que mostra atrevidamente quando sorri. Tem uma voz meiga e doce, mais infantil que a de muitas outras meninas da mesma idade, mas que apetece congelar no tempo e ouvir sempre! Ai, se eu pudesse! Se fosse legítimo conservar numa "caixinha" esta voz melodiosa e ouvi-la sempre que apetece, sem gastar!
Atrapalha-se a falar, esta menina. É esperta e brincalhona, mas cresce sem pressa nenhuma. Não é a mais inteligente dos meninos da sala, lá no colégio; nem tão pouco a mais crescida ou desembaraçada. É emocionalmente frágil, como as crianças devem ser e apetece abraçá-la, protegê-la, pedir-lhe que não cresça.
É tão fácil sentir tantas coisas por esta menina e, contudo, tão difícil descrevê-la para além daquilo que os olhos vêm.
Sei que, seja qual for o rumo que a vida tome ou quantas mais meninas conheça, esta menina vai ser sempre a minha menina especial.
Vou querer um dia dizer a esta menina, talvez quando já for uma Mulher, o quanto ela é importante para mim. Vou querer contar-lhe das vezes que tentei adormecê-la sem sucesso, porque era muito selectiva no colo; vou dizer-lhe quantas vezes a apelidei carinhosamente de disléxica pela forma deliciosa como trocava as sílabas a proferir as palavras, por mais simples que fossem, e como lhe disse tantas vezes que era muito esquisita por se sentir apertada e desconfortável com collants que se enrolavam nos sapatos e ficavam torcidos nas suas pernitas de bailarina... Vou mostrar-lhe as inúmeras fotos de todas as suas fases e contar-lhe banalidades sobre o dia em que foram tiradas. Se mudar no futuro, saberá que no passado não gostava de sentir a areia da praia nas mãos e muito menos que esta entrasse pelas aberturas das sandálias! Que aborrecimento! Não saía do sítio enquanto não a limpassem e transportassem ao colo até uma toalha bem sacudida e com um diâmetro de segurança razoável... Como a compreendo!
Mas isso é um dia... mais tarde. Muito mais tarde, se puder escolher. Porque, por enquanto, vou abraçar esta menina e contemplar o seu sorriso matreiro, inebriada pela sua voz de bébé, esperando que o passar do tempo nos dê tréguas e me permita guardar muitos mais momentos para contar um dia, muito mais tarde, à minha menina...

quarta-feira, 5 de março de 2008

A fava... rica!

Era assim que devia ter sido iniciado este blog:

"O termo culinário fava-rica designa a «fava seca, que, depois de cozida, é refogada com azeite, alhos e pimenta» (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa). É apreciada por muitas pessoas, pois é base de sopas deliciosas. Assim, as vendedeiras são bem recebidas por quem gosta de fava-rica. Portanto, «até vir a mulher da fava-rica» significa: «poderemos ter de esperar muito tempo, mas vai valer a pena».
A. Tavares Louro :: 26/04/2007 "
in http://www.ciberduvidas.pt/

Ou com qualquer outro tipo de esclarecimento sobre o nome do blog e, eventualmente, uma explicação para a expressão popular que lhe está na origem. Não que considere que tudo tem de ter uma justificação ou que esta tenha de ser do conhecimento público, mas afinal de contas este é um espaço de partilha.
O que não consigo é explicar muito bem a minha adopção do termo. A expressão "até vir a mulher da fava rica" sempre me soou muito engraçada e logo que a ouvi pela primeira vez questionei-me sobre o 'pano de fundo' do seu aparecimento. Afinal de contas, a mulher da fava rica é uma espécie de salvação das almas? É a toda-poderosa das criaturas, por quem todos esperam e cuja chegada implica sempre uma espera que parece interminável? Quem não quer ser assim tão desejado? Pois.. Posso afirmar, sem falsas modéstias, que não gosto desse conceito aparente de centro das atenções, mas gosto de pensar que, seja em termos culinários ou noutro contexto mais profundo, saber que é opinião unânime que vale realmente a pena esperar por mim o tempo que for preciso, faz-me querer ser a mulher da fava rica para todas as pessoas que são importantes para mim.
Ah! Quase me esquecia! Não gosto de favas guisadas...