quinta-feira, 31 de julho de 2008

lar

Lembro-me da terrina de loiça, barroca, com a sua tampa escultoricamente florida e as pegas de relevos fartos, da colher que irrompia, curvilínea, pela saliência da tampa e da travessa onde assentava o conjunto, de rebordos pomposos e padrões condizentes. Tudo numa enjoativa harmonia, por cima de um naperon desenhado, de fio simples, muito branco. De um lado, o cinzeiro pesado, de mármore esverdeada, em nuances. Do outro, a cigarreira alta, ainda mais pesada, de textura ondulada, da mesma cor. A mesa de madeira escura. As cadeiras imponentes, de pilaretes orgulhosos, pesadas, esculpidas. Os móveis altos, tão escuros como a mesa e as cadeiras, com puxadores brancos, de plástico, tristemente grandes e pobres de enfeites.
Gosto de voltar hoje à mesma sala onde vejo agora uma decoração mais fresca, que procura encontrar-se, harmonizar-se mais, todos os dias, em busca da combinação perfeita que (sei) nunca vai existir! E ainda bem, porque para onde quer que os rios corram, sei que tenho sempre aquela sala. Sei que aquela sala se compara, de alguma maneira, à minha evolução constante. E sei, sobretudo, que tal como eu, aquela sala vai ter sempre encerrada em si, a velha terrina e o cinzeiro de mármore.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

rua de estrasburgo

porque adoro caleidoscópios enquanto objectos ou porque ainda reside em mim algum saudosismo da caleidoscópio, deixo aqui um rasto da minha antiga "casa"..

considerações de quem abdica das séries da FOX, para mais tarde se arrepender...

Podia dizer que perdi ontem grande parte do Frente-a-Frente, na Sic Notícias, mas o pouco que vi faz-me concluir que não perdi nada. Ando a evitar ver e ouvir coisas absurdas e inaceitáveis da parte de pessoas que deviam dizer e fazer o bem pelo País, ainda que apenas como militantes ou deputados políticos. O caso da Joana Amaral Dias e da Teresa Caeiro é flagrante. Primeiro, porque o perfil político de cada uma delas está tão bem delineado que não precisamos que abram sequer a boca para automaticamente as encaixarmos no bloco partidário a que pertencem. Torna-se tão fisicamente óbvio que chateia! Depois porque é gritantemente permissível que programas potencialmente interessantes, como é o caso deste, sejam corrompidos pela ausência de conteúdo. Pior do que uma luta de lama entre PS e PSD só mesmo um debate pseudo-cordial entre gajas ou doutoras do Bloco de Esquerda e do CDS.
Valeu de qualquer coisa o Mário Crespo (que é tão frustrante como dizer que o homem do jogo é o árbitro).
E como o futebol parece surgir sempre de mãos dadas com a política, não tenho conseguido deixar de pensar ultimamente nos balúrdios inacreditáveis que se movimentam através das irreguláveis contratações de jogadores profissionais - que, cada vez me convenço mais, não deveriam ter este estatuto - e na imaculada impunidade do Sr. Pinto da Costa que, para todos os efeitos, é intocável no que à lei diz respeito.

terça-feira, 29 de julho de 2008

PRECISA-SE:

URGENTE!
Comentadores desportivos inteligentes e objectivos.
Não se aceitam candidaturas de autarcas ou ex-futebolistas.

Vaga actualmente preenchida por Quique Flores. Carácter: Temporário

OPORTUNIDADE:
c/ ou s/ experiência (preferencialmente mediático), para exercer funções indefinidas, com capacidade de discurso optimista e vencedor. Exige-se aos candidatos capacidade de fingir liderança e aceitação de lugar de risco com iminência de rescisão e possível abundância de periodos de humilhação semanal.

S. José

Madrugada de domingo, com o sol a querer nascer lentamente, num céu rosado.
Fui ao Hospital. A S. José, que é, no meu imaginário, o hospital dos Hospitais. É um dos mais velhos hospitais de Lisboa, para onde nos reencaminham quando a especialidade que precisamos não é contemplada nos outros, da periferia.
Passei no Martim Moniz adormecido e fui de encontro ao mundo morto-vivo de um amanhecer calmo nas urgências do hospital.
Depois das burocracias e de ver negada qualquer possibilidade de resolverem o meu problema, resignei-me a ser encaminhada para uma sala de observação, só porque sim. Percorri um corredor escuro, onde me cruzei com pessoas que gemiam, deitadas em macas estreitas e muito altas, desconfortáveis nos seus lençóis de goma, como que abandonadas. Lembrei-me dos hospitais de campanha dos filmes de guerra.
Por ali fiquei mais de meia hora, sentada na obscura sala, a ver o paracetamol pingar pacientemente.
Agradeci o facto de ter saúde. De ter saúde para trabalhar, para viver.
Pensei, uma vez mais, que não quero chegar a velha.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

a day like today

Hoje é um dia triste.
Amanheceu feio, sem luz, molhado de chuviscos abafados.
Lembrei-me da Susana. Uma véspera assim, em Julho, é desesperante para uma noiva.
Mas a previsão metereológica segreda-me que a Susana não tem de se preocupar.
~
O dia continuou feio, o sol subiu e rodou mas sem se notar. A mesma luz opaca e sem cores.
As nuvens esfarrapadas aqui e ali deixam ver que, lá muito no fundo, há um céu muito azul mas num dia como hoje, não se acredita em céus azuis.
~
Hoje roubei uma vida. Sem querer... a vida, o alimento, a liberdade, a esperança, a música, o movimento.
Um pardal. Um pardalito pequenino que não voou acrobaticamente no último minuto, apenas porque lhe pesava o regalo que apanhava do chão. Era demasiado pesado.
Não percebi. Devia ter visto ao longe, quando avistei o pardalito, que ele não conseguia ser acrobata com aquele peso imenso no bico. Devia ter previsto e alertá-lo.
Ele também não soube prever...
Matei-o mas a sua morte também me matou a mim, um bocadinho.
Um dia que começou tão feio não podia anunciar nada de bom.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Dave Matthews Band (& Tim Reynolds)



Até nem sou grande fã do senhor, mas devo confessar que esta música me entra pela alma dentro...

terça-feira, 22 de julho de 2008

breu II

Disseste-me que era o karma, ou castigo ou que eu tinha o que merecia... lá na Rua dos Pescadores, naquela loja de coisas giras que não podia comprar porque não cabem lá em casa.
Se calhar é o que mereço.
A mim soou-me pouco dignificante que o karma - que agora se me depara com frequência - assuma a sua potencialidade em algo tão pouco profundo como o sofrimento físico de uma recuperação de extracção dentária. Mas esta recuperação tem que se diga por isso se calhar é um exponencial máximo muito bem pensado.
No escuro em que me encontro (rodeada de frágeis cristais...) é-me muito mais difícil ter discernimento e clareza se estiver, ainda por cima, mergulhada no desespero desta dor insuportável.

breu

Não sei se precisas que fale ou que cale.
Não sei se queres espaço ou sufoco.
Não sei que faça que possa surtir efeito e aniquilar esse olhar inexpressivo.
Ainda se pudesse ter a certeza de que passa com o tempo... mas não sei.
Aguardo expectante, num espaço amplo onde não quero estar sozinha mas onde devo permanecer. Onde, pelo menos, não incomódo.
Estou num espaço gigante, enorme, mas a toda a minha volta existem cristais e tenho medo de me mover.
Tenho receio do que mais possa quebrar...

sexta-feira, 18 de julho de 2008

repasto

Fui a casa almoçar:
fiquei a saber que o processo Apito Dourado terminou sem condenações, a não ser uma mão cheia de árbitros, coisa pouca, para dar o exemplo - porque Loureiros já são peixe graúdo;
fiquei a conhecer a história de um fulano a quem rebocaram o automóvel, estacionado no sítio do costume e com o dístico de autorização em vigor e bem exposto no vidro, e que anda às avessas com a EMEL para recuperar os noventa euros que teve de pagar há meses, para levantar a viatura;
soube também da (brilhante!) conclusão do FMI que diz que os portugueses vivem acima das suas possibilidades económicas (nunca diria!, eu, a única portuguesa que não tem um único cartão de crédito);
no seguimento desta informação, seguiu-se um especial sobre os saldos (reportagem normalmente feita em lojas do OeirasParque ou do CascaiShopping onde mostram um par de sapatos que custava €175 agora a €125, como boa opção para a carteira - acho mal passarem isto no Jornal da Tarde quando, para além de mim, quem está a assistir é uma população com pensões de €236, à espera da Júlia Pinheiro);
diz, ao que parece, que a novela ciganos vs negros também está para durar em Loures. Se a moda pega, estamos feitos;
e também disseram qualquer coisa sobre a Maddie que não me lembra: os meus ouvidos começaram a rejeitar de forma autónoma a 'informação' que já não toleram;
ainda fui a tempo de ver o Aimar fortemente aplaudido, de águia em punho e dá-me a ideia que a minha admiração pelo Rui Costa entrou num decréscimo irreversível.
Enfim, a noite passada acordei às duas horas para vomitar.
Hoje, após esta experiência, tomei a resolução de almoçar na cozinha, com os olhos pregados nos meninos ranhosos do calendário da Unicef.
Corro menos riscos de que a comida me caia mal.

defuntos

A minha mãe foi ao cemitério de Santa Íria levantar os ossos do meu avô. Acho esta expressão horrível, mas é assim que se diz na gíria funerária. Pagou uma batelada por este processo e vai juntá-los aos da minha avó, no cemitério da Amadora. Vão reencontrar-se, os meus avós, volvidos trinta anos.
Gosto de pensar que é um acto bonito. Consola-me.
Tenho receio de morrer e não ser cremada. Espero que me sobrevivam entes-queridos com vontade de satisfazer o meu derradeiro desejo.
Depois podem fazer de 'mim' o que quiserem. Em cinza já não serei nada e nenhuma perspectiva me angustia.
(Tudo isto daqui a muitos anos e depois de uma vida preenchida)

dor

Os efeitos de uma simples anestesia podem ser imensamente assustadores.
Ontem experimentei a aflição de chorar involuntariamente quando o que me apetecia era chorar com vontade e com expressão.
Chorar de um olho sem vida, que não pestaneja, não é chorar e não alivia a alma.
É castrador vermo-nos privados do nosso direito de chorar desalmadamente.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

soporífero sentimental

(ao deitar...)

Ela: Somos muito felizes não somos?
Ele: Somos, amor...
Ela: Quer dizer, apesar de termos os nossos problemas, personalidades diferentes e de nos zangarmos de vez em quando... temos muitas coisas boas, não é?
Ele: É bom sermos diferentes. Por isso é que somos tão felizes! Eu completo-te e tu completas-me...
Ela: Adoro-te!
Ele: E eu a ti, fofinha.

(a poesia apresentada em forma de fast-food... mas não deixa de ser poesia)

ver & ouvir - old fashioned way


Onde gostava de ter estado recentemente.
Fotos em: Tangra Mega Rock.

solicito que:

parem, por favor, de me enviar e-mails sobre os benefícios concedidos aos filhos de papás e mamãs das entidades públicas e governamentais, pela extensa lista de motivos que passo a enumerar:
1) Estou licenciada há mais de 5 anos e não exerço (nem de perto, nem de longe) a actividade profissional que era suposto;
2) Como agravante à 1ª alínea, isto não acontece por opção mas porque as alternativas metiam dó e chumbei à cadeira de masoquismo;
3) Não me sinto realizada com o meu trabalho;
4) Como forte agravante à 3ª alínea, este emprego também foi conseguido através de cunha (cunhazita, vá, que isto não é um tacho nem nada que se assemelhe) embora me reconforte pensar (nos melhores dias) que já justifiquei merecer o meu lugar e que sou eu que o mantenho e ele não me dá nada de garantido;
5) Tenho tendência para me enraivecer (à laia de Hulk, embora não fique verde) com o conteúdo desses e-mails, não por mim mas por aqueles que tiraram cursos universitários realmente difíceis e tiveram de estudar muito (nada o meu caso), e se vêem privados de revelar ao mundo o seu brilhantismo;
6) Porque fazer circular esses e-mails e ficar à espera de um milagre me deixa frustrada (fica aqui já o apelo para os que lerem: se quiserem uma manif radical - nada do tipo professores ou sindicalistas - para insultarmos esses chupistas e ganharmos direito a tempo de antena para revelar, sem censura, certas coisinhas... eu estou lá);
7) Porque tenho tendência para a depressão (e como já manifestei o meu emprego não ajuda);
8) Porque estão 30º lá fora e um sol maravilhoso e estou no tal emprego, sem perspectivas de férias para tão cedo e com algumas tarefas condicionadas pela ineficácia de outros e pela inércia associada à falta de estímulo.
...
Aparentando não manifestar uma real preocupação e reconhecendo a nula diferença que este post faz, a verdade é que nunca pensei, como agora, na verdadeira embrulhada em que este país está metido.

no segredo está a alma do negócio

... ou pelo menos que se dê crédito ao bocadinho de mistério que nos pode tornar menos previsíveis.
(Avisem alguém do Departamento de Comunicação do Benfica que isto de especular negócios promissores que depois caem por terra já começa a ser um bocado repetitivo - obrigam-me a dar como "bom exemplo" o Futebol Clube do Porto que só fala quando já sabe do que fala!)
Detesto que me obriquem a falar bem do FCP!

silogismos

Argumentação lógica perfeita, para Aristóteles.
Para mim, a forma mais fácil e conveniente de argumentar sem recorrer à razão.

terça-feira, 15 de julho de 2008

karma

Gosto de acreditar que há coincidências. É mais racional e mais simples acreditar que há acontecimentos estranhos que sucedem por acaso, do que tentar descortinar os misteriosos desígnios que se levantam quando parece que as coisas têm uma explicação transcendente. É menos complicado admitir que são 'coincidências' do que assumir que há na sua ironia qualquer coisa de maquiavélico.
O conceito de Karma banalizou-se na nossa sociedade; apresenta-se como a noção do 'cada um tem o que merece' e utilizamo-lo para justificar as consequências das acções de alguém e a contrapartida das mesmas. As doutrinas Filosófica, Religiosa e Científica esforçam-se por sintetizar este conceito. As suas origens sânscritas apontam para uma tradução simples: karma significa acção. Se não fosse por mais nada, só por aqui se via que a religião católica não adopta de forma alguma este termo. Primeiro porque apela aos seus fiéis que dêem a outra face ao inimigo, recusando a crença de que a bofetada seja devolvida ao seu praticante com a mesma intensidade (embora fique sempre a pairar a ameaça de uma potencial recepção no Inferno, na hora do julgamento final); depois porque as orações nos incentivam a confessar os pecados por pensamentos, palavras, actos ou omissões...
Ora o Karma implica acção. O Karma deixa-nos livres para sentirmos, pensarmos e omitirmos o que quisermos. Do Karma pensado não podem resultar castigos, forças inversas, proporcionais aos nossos maus pensamentos. Nem irónicas coincidências.
Não é o Karma que me faz temer pela justiça divina e pela maldicência ou perversidade.
É a minha consciência.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

In your dreams!

Será que não há nos hipermercados os típicos bombons de Natal, da Ferrero e afins? Não tenho reparado nisso, mas espero que haja para aí uns restos, no Modelo ou qualquer coisa. Não importa se a qualidade não for excelente e não preciso de tabuleiros dourados, Ambrósios ou limusines. O que dava mesmo jeito era uma caixa de Baci (!), inteirinha, para comer até poder substituir este estado de espírito por uma culpa qualquer, tipo pecado da gula.
Dispenso é as dores de barriga que daí possam advir, era o que faltava!
E não é nada que duas aulas de Core ABS não resolvam..
Na quarta-feira à noite vou estar impecável.

pessoas II

Como é que se adquire o hábito de dar apenas um beijo na face, num país onde é tradição um par de beijos? Nasce com algumas pessoas, em determinados círculos?
Há no ritual de saudação de certos grupos esta distinção, onde todos, de uma forma natural e inata, se entendem com este código.
Não é chocante. Mas quando um outsider se infiltra, intencionalmente ou não, sente-se logo um atrito desconfortável, que começa exactamente aí, no segundo beijo que solta sem resposta.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Peppermint Patty


A Peppermint sempre foi a minha preferida.
Em miúda tive uma pequena Peppermint Patty de borracha, muito rija. Costumava entreter-me a mordiscar-lhe a franja saliente. A borracha era mesmo resistente porque nunca se estragou, mas não sei o que lhe fiz. Gostava de reaver a Peppermint.
Um dia vou criar uma personagem de BD famosa!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

liberdade de (ex)pressão

Indigna-me o fundamentalismo.
A democracia é a melhor forma de justificar o fundamentalismo, nos dias de hoje. O espírito da liberdade democrática permite a proliferação da ditadura opinativa e, tal como no tempo da censura mas por motivos opostos, não podemos fazer nada. Se antigamente existia um controlo rígido das massas e o fundamentalismo era proveniente de focos específicos e devidamente credenciados para tal, hoje - felizmente para as gargantas sequiosas - todos somos líderes de opinião e ouvem-se coisas do arco da velha.
Há teorias inacreditáveis, justificadas ou não - porque não é preciso -, pessoas que clamam para si o direito de fazer julgamentos com base no seu próprio exemplo e se insurgem contra as injustiças do mundo, normalmente em prol do seu umbigo e, de um modo geral, partem sempre de bons "princípios" (tenho muita dificuldade em compreender esta expressão).
Irrita-me particularmente que as pessoas afirmem determinada coisa em relação ao que o outro faz e lhe atribuam um motivo e um efeito, sem contemplações, como se fosse assim, líquido, dois mais dois. Irrita-me porque sou ambígua e gosto de o ser. Significa que não sou obtusa.
Não gosto do fundamentalismo que encontro na igreja católica e nas demais religiões; não gosto do fundamentalismo que rege os "princípios políticos" (a expressão assim ganha ainda mais corpo); não gosto do fundamentalismo considerado institucional. Mas este tipo de fundamentalismo é quase aceitável porque se herdou, é tradicional, tem raízes remotas.
Aquele que me aborrece mesmo, é o fundamentalismo que encontro em todo o lado, nas mentalidades: o de algumas pessoas casadas (as que vêem na união de facto uma desculpa para a irresponsabilidade e recusa de compromisso), o de algumas pessoas solteiras (as que vêem no casamento clausura e renúncia à própria liberdade), o de alguns heterossexuais (os que olham outras opções como desvios), o de alguns homossexuais (os que vêem na imposição de desfiles e paradas uma forma de se integrarem), o dos machistas e das feministas - normalmente pelos mesmos motivos.
(Cansa-me, enfim, enumerar o que me aborrece nesta sociedade de colunistas amadores.
Já quis ser colunista. Hoje em dia a ideia de impor as minhas opiniões faz-me perder essa vontade. Prefiro ser bloguista.)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

extensões


Não, este não é o Fox. Os olhos são maiores e é muito mais aprumadinho. Não coloco acessórios ao meu cão macho (ele já tem problemas que cheguem para competir com os bull lá da rua)! Mas tenho de admitir que até aqui o Lulu está mais bonito com o seu penteado natural do que o meu infeliz, vítima do Barbeiro de Sevilha em fúria!

gueixa


O espírito de sacrifício que a cultura nipónica ostenta é impressionante.
Não sou uma pessoa de pormenores e o detalhe causa-me, ao mesmo tempo, inquietação e fascínio.

oração do dia

Se eu conseguisse, se eu soubesse que todos quantos precisam de o ouvir, de o ler, de o saber, visitavam o meu blogue, faria das tripas coração para demonstrar que não se morre de amor. Que me perdoem os poetas; não os quero boicotar com a realidade - não quando eu própria, em alturas desatinadas, procuro na poesia cumplicidade para os meus lamentos - mas simplesmente não se morre de amor.
Isto não é novidade, é algo que todos sabemos mas que, em alguma altura das nossas vidas, para todos sem excepção, parece perder o seu carácter de verdade absoluta.

rotinas

Reparei há um tempo que existem nesta terra, vários estabelecimentos onde podemos registar o boletim do Euromilhões. Não sei se isto é necessariamente sintomático do que quer que seja. Há, claramente, muitos emigrantes, retornados de vidas passadas em França e na Suiça, que, obstinadamente, voltaram para construir as suas casas ricas, monstrengas e sem gosto, na sua terra natal. A periferia é composta, quase na totalidade, por pequenas indústrias: pedra, madeira, terraplanagem, serralharia... Em todos os restaurantes e tascas abunda gente da construção civil e vêem-se nos passeios mulheres de avental, que varrem diariamente as entradas das suas casas. Há escola, bombeiros, o jardim principal e até um coreto. Fosse esta uma terra que visse de passagem e até poderia considerá-la engraçada e pitoresca, com o seu pequeno mundo a pulsar sempre ao mesmo ritmo. Mas esta é uma terra que visito com regularidade e já me cansam as suas ruas, as suas gentes, a sua pequenez. Custa até a acreditar que o hábito não faz o monge quando, todos quantos lá pertencem, me parecem monotonamente iguais.

decisões

Fico vulnerável ao adormecer. À noite, quando me deito, a sentir o peso reconfortante da sua mão na minha anca, apetece-me sempre soltar algumas palavras antes que o sono me roube a possibilidade de o fazer. Coisas que se querem libertar ao longo do dia e que só têm aquela pequena margem de tempo para ser partilhadas. Inevitavelmente, quando acordo de manhã, a sensação que tenho é a de que sou submissa à lamechice.
Ontem fiz uma revelação. Contei-lhe o meu desejo. Rendi-me à perseguição de uma vontade que me esforço por contrariar em nome do bom-senso. Apetecia-me que esta vontade continuasse a ser só minha e não uma revelação pública, como se tivesse usado e abusado da única forma de desinibição que me estava vedada, por minha própria imposição. Agora já não é a minha vontade. Perdi-a, sem certezas de ter pensado nela o suficiente. Mais do que isso, fiz planos, cálculos mentais, contas de somar sobre esta sede crescente que devia permanecer platónica e que agora se transformou numa meta a atingir.
Não estou triste. Estou receosa e insegura. Agradava-me pensar sobre o assunto, era uma forma de regozijo interior que me alimentava. Agora desmistificou-se e obriga-me a dar um passo, do qual sei que é impossível arrepender-me, mas que assume proporções imensas, que me assustam.
...
(Só escrevo coisas desinteressantes e ilegíveis. São assim, os meus pensamentos constantes: enleados e confusos. Gosto de escrevê-los para, com sorte e alguma preocupação gramatical, tentar compreender-me melhor).

terça-feira, 8 de julho de 2008

pessoas

Incomodam-me as pessoas inexpressivas, que ostentam sempre o mesmo olhar indecifrável. Conheço pessoas assim, que me intimidam. Não são necessariamente carrancudas. Algumas, usam uma expressão de constante ironia, com uma espécie de ligeiro sorriso armado, independentemente do assunto que abordem. Não lhes consigo denotar stress, emoção, tristeza ou entusiasmo, a não ser quando soltam um desabafo de irritação ou uma frase divertida que, mesmo assim, contrasta sempre com a máscara constante que não deixa adivinhar o que lá vem. Intimidam-me quando olham fixamente, simplesmente porque olhar fixamente, a elas, não as perturba. Porque são imunes a emoções e nunca, jamais, se denunciam, a não ser que queiram mesmo. Dá-me ideia que nessas alturas perdem a cabeça e pensam "que se lixe! Um dia não são dias! Deixa-me lá soltar uma gargalhada!"
Mas chateiam-me mais as pessoas que, antagonicamente, se exprimem com alarido, que soltam gargalhadas estrondosas em situações que não o justificam, mostrando a quem está por perto que estão interessadas em dar nas vistas ou soltam palavrões ao mundo, para todos e para ninguém, porque lhes apetece partilhar o que sentem e o que não sentem. Ou então ralham, discutem e batem com as portas, sem pudor, porque lhes pisam os calos, sem atentar à sensibilidade de quem está presente. Entendo que, em relação aos primeiros, se podem esconder mistérios interessantes por debaixo da carcaça inflexível que lhes é inata, enquanto os segundos quase nunca têm nada cujo interesse justifique um espalhafato que fere.
Eu, como diz o poeta, não sei quantas almas tenho. Sinto-me almadiçoada com a capacidade de odiar alguém, ainda que por fracções de segundo, apenas porque dão gargalhadas despropositadas ou porque as suas expressões imutáveis não me permitem adivinhar-lhes o sorriso. Será que há quem me odeie como eu consigo odiar?
Gosto daquela franja de pessoas que consegue viver a vida com a classe de quem não se impõe aos outros na sua expressividade ávida mas cuja moldura física mostra as emoções que por dentro - onde está aquilo que realmente somos - se operam.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

life's good

Este fim-de-semana foi pecaminoso.
Começo pela delícia de jantar no vegetariano da Praça da Alegria http://www.jardimdosentidos.com/, que culminou com um fondue de chocolate daqueles de não se conseguir parar, sem esquecer o almoço de 'mar' no Clube Naval da Assenta, com muito peixe, muita salada e muito alto-astral e, por entremeio destas experiências sensoriais de excelência, muito sol e muita Praia - de S. Lourenço - com exfoliação de pés q. b. e até um imprevisto banho no "lago dos patos" (com água castanha, devidamente sinalizada com aviso de proibição recreativa mas capaz do milagre da multiplicação das bolas - de volley - e, estamos à espera, do milagre do rejuvenescimento capilar - confirmarei após resultados comprovados).
Os restantes pecados de fim-de-semana não são aqui de referir...
São estes fins-de-semana que fazem das segundas-feiras carrascos!

sexta-feira, 4 de julho de 2008

falso índigo

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_cores

Digam o que disserem, o invólucro do centauro do Banif é muito mais magenta ou roxo do que índigo. Na lista de cores da Wikipédia, confirma-se a minha teoria.

E isto revolta-me!

velhos hábitos, novos vícios

Tenho saudades dos tempos em que andava de transportes públicos e observava, fascinada, as pessoas à minha volta. Andar de transportes, para além de ser actualmente muito mais económico, tem a vantagem de nos alargar os horizontes muito para além do que estamos habituados quando conduzimos os nossos carros, sempre pelos mesmos percursos, a resmungar com quem anda muito devagar porque tem tempo, ou com quem anda a rasgar porque é cromo.
O comodismo de conduzir um automóvel em nada se compara à sensação deliciosa de nos deixarmos cair num lugar vago do autocarro, ao fim do dia de trabalho, e não ter de mexer um músculo, enquanto usufruimos dos cenários que se nos deparam. Ou sou eu que o digo, apenas por ter saudades de andar de transportes.
O que eu lia nas minhas viagens de metro para a estação de Arroios! Ansiava depois pelos finais de tarde em que passava a Portugália, de novo de livro na mão, até ao subterrâneo ou à paragem do 16, conforme a vontade, o trânsito ou os horários (que sabia de cor). Somos muito mais expeditos e desenrascados quando andamos de transportes públicos. Quando nos agarramos a um automóvel perdemos a criatividade e ficamos uns estúpidos, limitados a rádios medíocres, felizes por não termos de esperar 10 minutos numa paragem e realizados com a nossa perícia em conseguir estacionamento a uma distância de 10 metros da entrada do prédio, que tem 10 andares e onde cada vizinho tem, pelo menos, um carro.
O passe social é o nosso bilhete para a liberdade e só percebemos isso quando já fomos engolidos pelo comodismo enganador.

quotidiano

De tudo se devia conseguir fazer arte. Cada gesto devia ser sublime, cada palavra dita devia soar musical. Na sua simplicidade e por vezes até rudeza na forma de estar, há pessoas que me cativam. É como um cheiro que não se identifica, quase como acontece entre os animais; como um cio psicológico que nos prende reféns.
A rapariga da limpeza, no seu jeito singelo e até um pouco saloio, arrasta apressadamente a esfregona, com vigor, de um lado para o outro, deixando no ar um aroma a detergente floral, por vezes misturado com o odor bolorento dos fios gastos da Vileda. Outras vezes, em correria, circula de gabinete em gabinete com o seu pano e esfrega os vidros para lhes remover as dedadas. Recolhe o lixo dos caixotes da mesma forma pensada que o faz sempre, dando alguma lógica ao seu circuito diário. Enquanto isto, vai sempre falando, em tom de cavaqueira brincalhona e curiosa. Sempre recolhe algumas novidades e espalha outras tantas. Mete-se com as pessoas nos gabinetes, atira-lhes piadas e pisca o olho. Dá risadinhas e aparenta aquela alegria conformada das pessoas que se regem pela máxima de que tristezas não pagam dívidas mas, de vez em quando, lá vai soltando um suspiro ou outro e murmurando "é assim a vida!".
Não gosto que se meta comigo. Não me apetece dar-lhe as respostas efusivas e estridentes que ela gosta. Apetecia-me ser invisível para poder simplesmente observá-la, na sua agitação normal, com as suas piadas fáceis. É esse o seu desígnio misterioso que me faz refém e não a sua proximidade exagerada. Quando se aproxima muito e se ri para mim com os seus dentes pouco tratados, perde-se toda a magia da sua presença ali.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

facto

"Os miúdos de hoje nunca vão saber o que é vir da escola, de autocarro, a rebobinar uma cassete com uma bic para não gastar as pilhas do walkman..." *
* sábia observação do meu marido

Santa Marina di Bitinia

Não sabia que existia uma Santa com o meu nome. De toda a maneira, quis saber a sua história.
Descobri uma narrativa sobre o percurso desta milagreira, nomeadamente o seu disfarce de homem - Marino - para poder ingressar no Mosteiro, e o sacrifício de assumir, sob acusação injusta, a paternidade de uma criança, que - por motivos óbvios - não poderia ser sua. Que argumento!
Para acabar, remato com a citação final:
(...)
"Muitos milagres aconteceram por intercessão de Santa Marina e em 17 de Julho de 1230, as suas relíquias foram transportadas para Veneza, na Itália, onde se conservam até hoje, na Igreja Santa Maria Formosa. E assim, Santa Marina, exemplo de humildade e fidelidade a Deus, é invocada pelos fiéis como poderosa intercessora diante de Jesus, nos casos de maiores provações, doenças ou calúnias."

Sempre gostei de Santos e das principais virtudes que a religião lhes atribui. Num sentido prático, são como diferentes departamentos e convém estar informado da especialidade de cada um.

Literatura - fragmentos

"(...) Foi por essa ocasião que adquiriu o hábito de falar sozinho, passeando pela casa sem se incomodar com ninguém, enquanto Úrsula e as crianças suavam em bica na horta cuidando da banana e da taioba, do aipim e do inhame, do cará e da berinjela. De repente, sem anúncio prévio, a sua actividade febril se interrompeu e foi substituída por uma espécie de fascinação. Esteve vários dias como que enfeitiçado, repetindo para si mesmo em voz baixa um rosário de assombrosas conjecturas, sem dar crédito ao próprio entendimento. Por fim, numa terça-feira de Dezembro, na hora do almoço, soltou de uma vez todo o peso do seu tormento. As crianças haviam de recordar pelo resto da vida a augusta solenidade com que o pai se sentou na cabeceira da mesa, tremendo de febre, devastado pela prolongada vigília e pela pertinácia da sua imaginação, e revelou a eles a sua descoberta: - A terra é redonda como uma laranja. Úrsula perdeu a paciência. "Se você pretende ficar louco, fique sozinho", gritou. "Não tente incutir nas crianças as suas ideias de cigano." José Arcadio Buendía, impassível, não se deixou amedrontar pelo desespero da mulher que, num impulso de cólera, destroçou o astrolábio contra o solo. Construiu outro, reuniu no quartinho os homens do povoado e demonstrou a eles, com teorias que acabaram sendo incompreensíveis para todos, a possibilidade de regressar ao ponto de partida navegando sempre para o Oriente. A aldeia inteira já estava convencida de que José Arcadio Buendía tinha perdido o juízo, quando Melquíades chegou para pôr a coisa em pratos limpos. Ressaltou em público a inteligência daquele homem que, por pura especulação astronômica, construíra uma teoria já comprovada na prática, se bem que desconhecida até então em Macondo, e como uma prova da sua admiração deu-lhe um presente que havia de exercer uma influência decisiva no futuro da aldeia: um laboratório de alquimia."

Excerto do livro "Cem Anos de Solidão", Gabriel García Márquez

Este livro é uma verdadeira obra-prima. Lamento ter copiado um excerto brasileiro. A sonoridade da língua é uma delícia, mas a escrita é pavorosa.

"In" Extremis



TOM COCHRANE - Life Is A Highway



GERRY RAFFERTY - Baker Street (E alguns covers posteriores...)

Músicas que me lembram noites passadas na Extremis, em Sesimbra, onde acordei para a existência da paixão, independente de amores platónicos. Corria o ano de 93 (?)

quarta-feira, 2 de julho de 2008

essências

Poucas coisas me fascinam como a Gastronomia. Alguns dos melhores programas que vejo na televisão, resultam de acasos de zapping que acabam por me prender a meio da frenética preparação de uma delícia culinária. É quase impossível resistir. Acho que a cozinha pode ser simultaneamente terapêutica, divertida e artística. Também pode ser chata ou frustrante, mas para mim é sempre um daqueles desafios hipnotizantes. Tenho pena de quase nunca ter o tempo que gostaria de ter para dedicar à aprendizagem desta arte. É verdade que ainda dispendo tempo a ver a dita televisão, o que me rouba barbaramente uma ou duas horitas diárias importantes, mas continuo a justificar esse entretenimento como distracção necessária (já não deixo, no entanto, que me roube o tempo imprescindível dedicado à leitura portanto creio que estou a evoluir qualquer coisa).
Agora lembrei-me de ervilhas, bem redondinhas, de um verde forte e textura suave e cremosa no interior; com um leve sabor adocicado, a condizer com as cenouras, mas a contrastar com a sua cor quase laranja. Com chouriço, daquele escuro, de carne tenra, atado nos fumeiros alentejanos e pedaços de entrecosto daquele que se solta do osso. E com ovos. Escalfados, claro.
Entretanto vou até ao ginásio, porque se faz tarde, e lá para as nove da noite, com o Fox muito mais contente e aliviado, estarei a comer uma salada grande, feita à pressa, com milho e queijo fresco. Também não é mau e faz tantas vezes as minhas delícias. Nem sei porque me lembrei das ervilhas, eu, a mulher da fava-rica!

curiosidades

Por muito pouca riqueza literária que isto tenha, tinha de o postar aqui. Tropeço nesta verdadeira panóplia de adjectivos várias vezes, por força do meu trabalho, e acho curiosa a minúcia desta lista de profissões/categorias profissionais a atribuir a cada caso (muito embora duvide que a maioria seja sequer utilizada já que, se excluirmos os estudantes, os desempregados e os reformados, pouca população nos resta para tantas classificações).
Deixo aqui um cheirinho da gigantesca lista de actividades, de entre as quais, aleatoriamente, escolhi as de maior brio (sem ofensa para aqueles que executam cada uma delas - sejam lá o que forem!):
Comprador
Debuxador
Posticeiro
Taxidermista
Soleteiro
Vibradorista
Trefilador manual
Santeiro
Brochador manual
Tripeiro
Esfarrapador
Abatjoureiro (a minha preferida)
Meadeiro (Sarilheiro)
Pisoeiro (Bataneiro)
Apanhador de algas
Sobrescriteiro
...
Tudo verídico.
p.s. O meadeiro e o pisoeiro escusavam de ser enxovalhados com aquele parêntesis (que ainda por cima não é nada esclarecedor!)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

não sei de mim

Hoje assomou-se-me uma desinspiração atroz. Eu, que tenho andado numa azáfama constante nestas últimas semanas, por urgências profissionais que me exigem prontidão, dou por mim vencida pela inquietude que este clima me provoca. Acho eu, que é do clima.
Tenho saudades de sítios que nunca vi. Olho para paisagens que não conheço com uma vontade augada de me transportar para lá e não sei se esta urgência de alma poderia justificar umas férias terapêuticas (?)
Mas não. Claro que não justifica. Já me sinto mal q. b. por este mal de alma me roubar a produtividade da qual dependo para sentir aquele cansaço bom de fim de dia.
De qualquer maneira, estou convencida que tudo isto é resultado de um 'problema' de hormonas, o que significa que, mais do que um mal de alma, há aqui algo de físico-químico (do qual apenas a minha amiga (força) centrípeta tem conhecimento - ainda bem que ela é das ciências) que me está a distorcer o raciocínio muito mais do que seria desejável. Acho que já me afecta o sono: durante a noite manifesta-se nas voltas consecutivas que me enleiam desconfortavelmente na roupa; durante o dia, na distracção impaciente de um amontoado de pensamentos, de prós e contras. Bem aventurados os que têm apenas o diabo num ombro e um anjo no outro: eu tenho centenas de gárgulas bifurcadas que me invadem o cérebro!
Continuo a não acreditar quando as pessoas caladas, de olhar perdido, me respondem que não estão a pensar em nada! É algo que, simplesmente, não pode ser verdade.

Amores assim...

Pedi-lhe qualquer coisa que me acalmasse o espírito inquieto.
Ofereceu-me esta canção, pela qual se apaixonou.



"Há amores assim
Que nunca têm início
Muito menos têm fim
Na esquina de uma rua
Ou num banco de jardim
Quando menos esperamos
Há amores assim

Não demores tanto assim
Enquanto espero o céu azul
Cai a chuva sobre mim
Não me importo com mais nada
Se és direito ou o avesso
Se tu fores o meu final
Eu serei o teu começo

Não vou ganhar
Nem perder
Nem me lamentar
Estou pronta a saltar
De cabeça contra o mar

Não vou medir
Nem julgar
Eu quero arriscar
Tenho encontro marcado
Sem tempo nem lugar

Je t'aime j'adore
Um amor nunca se escolhe
Mas sei que vais reparar em mim
Yo te quiero tanto
E converso com o meu santo
Eu rezo e até peço em latim

Quando te encontrar sei que tudo se iluminará
Reconhecerei em ti meu amor, a minha eternidade
É que na verdade a saudade já me invade
Mesmo antes de te alcançar
É a sede que me mata
Ao sentir o rio abraçar o mar

Sem lágrima caída
Sou dona da minha vida
Sem nada mais nada
De bem com a vida"

"Há Amores Assim" Donna Maria Letra: Miguel Majer / Música: Miguel Majer e Ricardo Santos

Gostei tanto deste presente!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

respira

Alterno entre comboio a vapor e TGV. O corre-corre, de quando em vez, por imposição do bio-ritmo, é substituído por um estranho abrandar. Depois fico embrenhada no meu próprio fumo negro, a sentir o pouca-terra... pouca-terra... até despertar outra vez para viagens alucinantes, de diferentes gares e para diversos destinos. Apetecia-me não ser comboio nestes dias sem tempo para fôlego!
Queria ser um barquinho à vela, a espalhar ócio, a caminho do nada...
(Que bom ter o fim-de-semana quando sentimos que estamos mesmo a precisar).

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Humanos



Nutro pelo Variações uma profunda admiração. Não creio que alguma vez tenha sido suficientemente homenageado pela extraordinária visão que tinha do mundo.
Incompreendido, acho que soube aproveitar a vida que nele latejava, por vezes, de forma desmedida.
Os Humanos ressuscitaram valiosas mensagens.
A voz ameninada da Manuela Azevedo dá um toque 'colorido' à canção. Sempre que a oiço, dá-me vontade de mandar tudo às urtigas.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Venenos de Deus, Remédios do Diabo

"O médico Sidónio Rosa encolhe-se para vencer a porta, com respeitos de quem estivesse penetrando num ventre. Está visitando a família de Bartolomeu Sozinho, o mecânico reformado de Vila Cacimba. À porta, a esposa, Dona Munda, não desperdiça palavra, nem despende sorriso. É o visitante quem arredonda o momento, inquirindo:
- Então, o nosso Bartolomeu está bom?
- Está bom para seguir deitado, de vela e missal…
A voz rouca parece distante, contrariada como se lhe custasse o assunto. O médico acredita não ter entendido. Ele é português, recém – chegado a África. Refaz a questão:
- Perguntava eu, Dona Munda, sobre o seu marido…
- Está muito mal. O sal já está todo espalhado no sangue.
- Não é sal, são diabetes.
- Ele recusa. Diz que se ele é diabético, eu sou diabólica.
- Continuam brigando?
- Felizmente, sim. Já não temos outra coisa para fazer. Sabe o que penso, Doutor? A zanga é a nossa jura de amor."
Couto, Mia in Venenos de Deus Remédios do Diabo. Edições Caminho
"Roubei" este excerto de outro bloguista interessado no assunto, como eu.
Esta escrita é deliciosa: lembra-me as eternas dinastias dos Buendía, de Gabriel García Márquez. E lembra-me o nosso amor.
Mia Couto vai estar hoje na Prova Oral, às 19h, para falar do seu novo romance. Sinto um imenso fascínio por este escritor e por Moçambique, o que, por si só, justifica comprar o livro. E gostava muito de ouvir o que o autor tem para dizer. Pela primeira vez estou num dilema pertinente entre ceder a esta vontade e o meu compromisso com o ginásio.

Samuel Favarica

Por curiosidade, googlei a expressão favarica.
Encontrei um site, http://www.favarica.com/, de webdesign, grafismo e multimédia, estridentemente artístico. Dessin vectoriel...
A língua francesa soa-me tão agressiva como a italiana me soa sensual.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Teletubbies


Tenho um trauma com os Teletubbies. Acho-os palermas, tolinhos e inúteis. E o facto de terem sido criados a pensar numa faixa etária até aos três anos de idade não diminui a repulsa que me provocam. A minha sobrinha, que tem dois anos, é muito mais expedita e "crescida" do que aqueles extra-terrestres saltitões, com fatos de pano com televisões (?) incorporadas.
Mesmo que tente ver as coisas de uma perspectiva extraordinariamente infantil (ao ponto de considerar o Noddy como o melhor da sua classe), não consigo descortinar nesta série nada de entusiasmante: o cenário é estático e horrível, com dunas verdes até perder de vista e coelhos indiferentes e monótonos. Os bonecos usam símbolos indecifráveis na cabeça e, mesmo existindo uma menina, quem usa uma pochette cor-de-rosa é um dos rapazes. Quem se terá lembrado disto? Quando a minha sobrinha mais velha assistia a este programa, eu costumava ralhar com a minha irmã por ela permitir tão medonha influência na criança. E espicaçava-a, dizendo que aqueles bonecos eram uns gays. Ela chamava-me parva e abanava a cabeça. Eu falava a sério! E era tão óbvio para mim como para toda a gente, senão vejam lá o que diz a Wikipédia:

"Teletubbies é um programa de televisão infantil produzido pela BBC, para crianças de um a três anos de idade.

Tinky Winky, Dipsy, Laa-Laa e Po são os personagens da série. Este é um programa para crianças se divertirem com os vários personagens divertidos e engraçados no fantástico mundo deles. Em seu dia há vários eventos, como a hora de ver televisão em suas telas, situadas na suas barrigas, e a hora de dar tchau.

Tinky Winky (tal como Bob Esponja) foi apontado como símbolo gay pelo fundamentalista cristão Jerry Falwell. O programa também foi investigado em 2007 pelas autoridades da Polónia mas, aparentemente, sem consequências práticas."

Ele há coisas!
Esse Tinky Winky a mim nunca me enganou! Daí a levantarem-se inquéritos vai um grande passo mas os Americanos são mesmo assim. E os Polacos também, pelos vistos..
Uma coisa é certa, se a Íris foi influenciada por estas criaturas pavorosas, o mesmo não sucederá à Ritinha. I object!

coisas

Não me esqueço daquelas tardes de Inverno, em que chegava da escola era já noite escura, antes dos meus pais e da minha irmã.
Encontrava lá o meu avô, a ver televisão, depois de passar a tarde sentado perto do parque ou do campo de futebol. Lembro-me de ver a Rua Sésamo: o Ferrão, com a sua voz rouca; o Conde de Contarrrr, com o nariz afiado; o Egas e o Becas nos seus confrontos hilariantes e o Poupas, enorme, cor-de-laranja. Lembro-me da Alexandra Lencastre, com jeans clarinhos, à meia canela, e ténis brancos. Muito mais gira do que a Alexandra Lencastre com pele gloss das actuais novelas da TVI.
Sentava-me muito perto da televisão, a comer toneladas de queijo e a ver a Rua Sésamo. Também dava o Bocas naquela altura, sempre em guerra com as toupeiras da horta.
O meu avô fumava ininterruptamente Kentucky's. Continuo a achar que o fumo do meu avô me fez muito pior do que os cigarros que fumei até hoje.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

manias

Detesto lojas, bancos e outros sítios públicos vigiados por circuitos de televisão ou com seguranças estáticos, de ar sinistro. Deixam-me pouco à vontade e forçam-me a alterar o meu comportamento como se tivesse de racionalizar cada gesto e mostrar, claramente, que não estou a fazer nada de mal.
E detesto alarmes que apitam à saída, sem motivo aparente. Fico sempre com a sensação de que tenho de me justificar.

catequese

Lembrei-me há pouco de uma catequista que tive quando era miúda. Chamava-se Corina (D. Corina, porque o hábito assim o exige para quem não a concebia com outra designação). Sempre tive a suspeita de que os meus catequistas começavam por depositar em mim grandes esperanças, para cedo se aperceberem que se enganavam, porque acho que a minha descrença sempre me denunciou. Nunca tive culpa de não ser crente e até me esforçava por ser mais responsável e dedicada a estes assuntos, como era a minha irmã, mas nunca fui muito bem sucedida. De qualquer maneira, lá em casa nunca ninguém foi muito religioso. Somos aquilo que eu posso chamar de católicos por imposição moral.
Acabava por gostar de ir à catequese, aos sábados de manhã, e sentar-me nos bancos baixinhos, formando uma rodinha com os outros meninos e a paciente D. Corina. Nunca saía de casa entusiasmada mas depois de lá estar sentia-me bem e saía com uma agradável sensação de dever cumprido. Ganhei também o hábito de passar sempre pela padaria da D. Rosa para comprar um suspiro gigante, que lambia até chegar a casa da Nani, a caminho da igreja. E ficava mais contente ainda quando a D. Corina, pouco instruída mas cheia de meiguice, nos dizia a todos no final das sessões semanais que corriam melhor, que estava muito "sast'feita" connosco.

santos populares

Como diz a canção, o Santo António já se acabou mas ainda vem lá o S. Pedro e eu já comecei a festejá-lo este fim-de-semana na mística e invariavelmente nublada Serra de Sintra. O Verão é isto mesmo. O cansaço mais saudável é o dos longos dias de praia - até às nove da noite!! - seguido de serões barulhentos, num cenário de música, vozes, luzes e cheiro a sardinhas e farturas, em pátios ou praças da freguesia.
Hoje tinha duas opções: escrever sobre a deprimente ausência de férias nestes meses de Verão que se seguem, que constitui o sacrifício necessário para a desejada partida para o México num Dezembro que parece longínquo demais, ou realçar os momentos alegres dos fins-de-semana, sempre tão curtos, mas espremidos ao máximo, para condensar em cada um deles, a essência das (ausentes) férias de Verão.
Optei pela segunda. Este fim-de-semana, o sol e o mar fizeram as minhas delícias e ainda tive tempo para fechar em grande o meu Domingo, saboreando umas sardinhas gordinhas, como se quer, ao som da pior performance possível: a especial actuação do tal Tino de Rans (verdadeiro suplício para os ouvidos dos presentes).
Fica por isso apenas esta nota negativa, que dirijo ao Senhor Presidente da Junta de Freguesia de S. Pedro de Penaferrim, para que atente com mais consideração ao programa das festas de Sintra. Quer dizer, a musiquinha de bolso, cantada por acordeonistas adolescentes, com rimas fáceis e de mau gosto até dá brilho às festas populares mas não queiramos ofender o nosso Santinho com estes mediáticos da televisão nacional.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

www.irrequietos.com


Estive a ver o seu perfil! Vote no Selo de Marisa Araújo


Hoje foi o último dia para votar.
Uma amiga aconselhou-me um dos presentes a concurso, bem bonito, por sinal, e que também mereceu o meu voto. Mas o meu amor pelos animais - no geral - e pelos cães - em particular - falou mais alto.

Não deixem de visitar!

lado lunar

Quando fui fechar as persianas para ir dormir fiquei presa pelo brilho que a lua cheia propagava. A sua luz imensa inundava o quarto e não resisti a abrir a janela para sentir melhor aquela luz, sim porque a luminosidade de uma lua cheia como a que estava ontem sente-se, arrebata.
Não sei como há quem consiga ficar indiferente à lua. Não tenho grande inclinação para o esoterismo ou para acreditar no poder dos astros, e até me incomoda esta minha fragilidade, que chega a roçar a fraqueza, mas a verdade é que não me apetece fechar os olhos a esta força da Natureza, como se a noite fosse muito mais rica e não pudesse ser desperdiçada com coisas menores, como o sono.
A lua é mágica do meu sétimo andar da mesma forma que é deslumbrante por cima da serra, a iluminar o palácio, ou a banhar os bairros velhos e irregulares da minha Lisboa, imbutida no céu negro. Gosto do campo, onde à lua se juntam triliões de estrelas, daquelas que não vemos por cá. Gosto de noites de praia cheias de lua - adorei as noites de praia que já vivi até hoje - em que podemos mergulhar no seu reflexo ou apenas contemplá-lo...
Caramba! Acho que nunca escrevi nada tão lamechas..
(agora ando com a mania do 'caramba' - por causa da minha vizinha de cima. Faz-me parecer mais adulta!)

a "energia positiva" das quinas

Escrevo repetidamente sobre a minha tendência para ser uma pessoa negativa nos aspectos mais práticos que se referem à minha vida pessoal, mas a verdade é que, inevitavelmente, essa conotação se reflecte em tudo o mais. Prefiro dizer que sou realista, mas já não contrario quem me diz que sou uma "deprê"...
Como milhares de pessoas pela blogosfera, vou dedicar hoje um bocadinho do meu tempo ao futebol.
Gosto muito de futebol. Percebo alguma coisa sobre as equipas, as classificações gerais, as regras do jogo em si. Interesso-me mais do que uma larga maioria das mulheres, mas não tanto quanto algumas outras. Tenho um clube de coração - claro! - que me faz "sofrer" muito mais do que a selecção, devo confessar. Há quem censure esta visão e eu estou-me borrifando. De qualquer das formas, o futebol constitui hoje em dia mais uma profunda desilusão e já deixou de ser desporto, entretenimento e paixão, para ser política, negócio, trend e corrupção... E por isso, muito tenho a apontar ao meu próprio clube. E evito contribuir financeiramente para enriquecer os seus cofres seja de que forma for. Não consigo é abdicar da imensa devoção que desde sempre senti, sem saber muito bem sob que influência - em minha casa não se falava nem se percebia muito de futebol.
Desde o Euro 2004, apesar de ter aproveitado alguns jogos para convívio com os amigos e ter também mergulhado nas multidões, que nunca percebi o favoritismo da nossa Selecção, quer para os portugueses, quer para a crítica internacional. Talvez não seja a melhor altura para escrever sobre isto, mas não é uma revelação e alguns amigos chamavam-me mau agoiro muitas vezes, só porque manifestava a minha opinião. Eu calava-me: não queria estragar a festa a ninguém e, claro, como todos, queria que ganhassem. Não tinha era tanta certeza se mereciam.
Actualmente, com uma equipa renovada e uma nova geração de jogadores, será que as pessoas que acompanharam a selecção ao longo deste Euro 2008 assistiram também aos jogos de preparação? Pergunto-me se a forma como a selecção se apresentou em determinados desafios agoirava grandes perspectivas..(?)
Temos o Cristiano Ronaldo, os brasileiros, um guarda-redes que brilhou sem luvas, num momento decisivo, miúdos com 'potencial' (para se tornarem multimilionários!) e, às tantas, não sabem jogar em equipa, pelo menos fora das suas equipas...
Fica a desilusão para todos, a compaixão dos sempre-fiéis emigrantes e, para mim, a não-surpresa. Para mim, fica o sentimento de que se fez justiça. Não fizeram o suficiente para ir mais longe e cometeram demasiados erros para se safarem. Estou há muito tempo convencida de que a selecção precisa SER grande, em vez de apenas PARECER a melhor..

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Golf prata de 2002 (II)

Levaram ontem o Golf. Nem de propósito. Veio o reboque e levou-o. E nunca saberei nada sobre a sua "estória".

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Golf prata de 2002

Ando atormentada com aquele homem que tem dormido dentro do carro, no meio do descampado em frente à minha casa. Penso no homem todos os dias e vejo-o muitas vezes, de relance, quando chego a casa a horas tardias e ele já se recolheu, ou quando passeio o cão na rua bem cedo e ele ainda dorme. Não o vejo bem, por isso não me familiarizei com o seu rosto.
É intrigante, o homem e a situação. Não é um vagabundo comum, com mau aspecto - vi quando o reboque deixou lá o Golf (bem estimado!), apenas com um pneu furado, e nessa altura lembro-me de olhar para o senhor, jovem - mas não lhe fixei os traços por não me ter chamado muito a atenção. O certo é que o carro lá está, coberto de pó, agora com plásticos a cobrir uma janela, com o seu peluche pequenino do Sporting pendurado num dos vidros.
Gostava de conhecer a história deste homem. Ainda que não me diga respeito e que possa ser uma parva ilusão, não consigo resistir à tentação do drama que construi.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Pontos de vista

No outro dia dei por mim a pensar no que passa pela cabeça de um homem que pretende seguir a especialidade de Obstetrícia-Ginecologia, como carreira profissional, e como se caracteriza o fascínio que o puxa para essa área específica. É possível que um jovem estudante de Medicina não contemple a conotação sexual que é intrínseca a esta opção, ou será que o chamamento deriva exactamente desta conotação? Os médicos são (devem ser) homens da ciência, (supostamente) impermeáveis a influências sensitivas que possam condicionar o seu desempenho, mas todo o processo de escolha desta especialidade me faz uma certa confusão.
(Não que as histórias de uma amiga Urologista e dos exames de rastreio aos seus pacientes não me provocassem um profundo choque... mas a ginecologia parece-me o melhor exemplo do meu assumido preconceito de não-pessoa-da-ciência)
Diverti-me sobretudo quando os meus pensamentos sobre este assunto começaram, infantilmente a construir cartoons. Qual é a reacção de uma mãe quando um filho lhe revela, obstinado e confiante, que pretende ser Obstetra? É sempre bom ter um filho médico - sei lá... por mil e uma razões - mas assumo que neste caso a mãe exclua a hipótese de vir a beneficiar directamente com esta escolha e que não se entusiasme com a ideia de lhe apresentar os ovários enquanto relembra, nostalgicamente, as inúmeras vezes que este lhe perguntou com voz infantil: Mamã, de onde vêm os bébés?
Isto é tudo muito engraçado, mas correndo o risco de soar a preconceito e de passar eu por pervertida, prefiro continuar a não ver barbas rijas a espreitar cá para onde não devem.

Dentista

Prefiro viver realidades duras do que doces ilusões, e detesto que me mandem areia para os olhos com teatrinhos de que "não vai doer nada". Claro que vai doer! Arrancar um dente que aqui está há anos a tentar crescer, num maxilar pequeno demais e que, obstinadamente, se decide a não entrar nem sair do sítio, tem de doer!! É normal que doa. E continua a doer (talvez por ter sido 'escavado' e 'arrancado' a ferros). A arte de ladrilhar é mais graciosa, palavra de honra!
O Ibuprofeno vai continuar em cima da minha pilha de livros de cabeceira, para me ajudar a manter a sanidade mental..

quarta-feira, 11 de junho de 2008

"Tété"

Ser tia faz-me sentir, virtualmente, um enorme sentimento de maternidade: um amor imenso e incondicional, sempre atormentado pelo desejo de não perder um sorriso e pelo medo de que algum mal aconteça.. Não se metam com as minhas pseudo-crias!

wish..

Que bom seria podermos banir das nossas vidas a presença de algumas pessoas, com ou sem motivo válido para tal, apenas porque nos "fazem mal" ao espírito, nos doem na alma e chegam a provocar ligeira azia... Refiro-me, por exemplo, aos políticos (no geral) e a outras pessoas, que infelizmente, se impõem também fisicamente e não apenas através da comunicação social.

Heróis do Mar

Metade dos Telejornais (espaços noticiosos, seja qual for o canal ou designação dos mesmos) é dedicada ao Euro 2008, a outra metade, às consequências da greve dos camionistas e, no geral, à situação vergonhosa (política, económica e social) que o nosso País atravessa.
O sucesso dos nossos futebolistas é, neste momento, inversamente proporcional à nossa condição de Estado democrático saudável e organizado. Tudo gira em função destes fenómenos antípodas que o Povo utiliza conforme o seu humor e conveniência.
Sinto-me tão profundamente infeliz e pouco patriótica!
E tenho muito medo que, também no Euro, Portugal comece a desiludir... É que assim acaba-se o engodo que neste momento distrai as mentes mais felizes. E depois é ver o folião português a virar-se agressivamente contra tudo e todos, para descarregar a sua frustração, legítima ou nem por isso!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Loja do Cidadão (II)

Quando nos resignamos ao facto de que temos mesmo de esperar por duzentas senhas à frente da nossa, principalmente se entretanto conseguimos um lugar sentado, num sítio estratégico, de onde podemos avistar o quadro electrónico e observar as pessoas que passam, a coisa deixa de parecer assim tão má. Gosto principalmente da parte do observar... Gosto de ver maldicência em tudo. Quer dizer, faço jogos e julgamentos morais inconsequentes sobre as pessoas e as coisas que vejo e isso ajuda-me a passar o tempo.
Há aquele homem de feições agradáveis, fato cuidado, a entrar nos quarentas, que ostenta uma barriga disforme quando se levanta. Uma barriga daquelas é estranhamente desproporcional àquela cara-de-corpo-magro!
Depois há a senhora Channel, num tailleur impecável de vermelho rubi e preto, com um penteado e uma maquilhagem irrepreensíveis. Não lhe sinto o perfume mas aposto que é forte.
Mas o que mais se vê é gente terrivelmente mal vestida e barulhenta. Mulheres na casa dos trinta, com o filho ou a filha adolescente e um ou dois netos ranhosos pela mão ou ao colo. Fazem-se acompanhar também da nora (ou genro) porque tratar de alguns assuntos é motivo de peregrinação familiar. De qualquer maneira são todos desempregados e normalmente esperam vez na Segurança Social ou no Instituto de Emprego. Elas são normalmente gordas, usam roupas justas, de mau gosto. Têm cabelos compridos, amarrados em rabos-de-cavalo, com pontas espigadas. Mal-dispostas ou galhofeiras, a mim parecem-me sempre crianças, mesmo que os rostos aparentem muito mais idade do que a que têm na realidade. Acho que estas mães e avós precoces nunca chegaram a crescer de facto. Chegam a parecer-me mesmo mais imaturas que os filhos. Esses, são por defeito miúdos ou miúdas cheios de um estilo indefinido e empastado. Os rapazes costumam ser magros e as miúdas gordas. Em comum têm a tendência para os acessórios, piercings, cabelos oleosos e usam roupas que se vêm muito na Praça de Espanha.
Há também aquela personagem que se senta muito perto de nós, acompanhada de um familiar ou amigo e que pode não ter nenhuma característica especial, daquelas que nem chamam a atenção, não fosse o facto de estar demasiado perto para podermos evitar ouvir a sua conversa. Conversa que perturba muitas vezes o prazer de observar em paz e sossego. Desta vez calhou-me um senhor. Sexagenário. Falava que se fartava. A esposa, ao seu lado, respondia de quando em quando, com um calmo pois é, mas aposto que na alma residia uma paciente resignação, fruto de uma jura eterna que a gasta aliança testemunhava. Primeiro pensei que no lugar dela já tinha cortado os pulsos. Depois, apoderou-se de mim uma sensação agradável ao imaginar uma companhia interessada e vivida, numa idade em que as nossas vidas já não pedem muitas outras emoções e pensei que aquela senhora era uma mulher de sorte. Lembrei-me de um e-mail curriqueiro que já recebi tantas vezes, daqueles que circulam por todo o mundo, que dizia que não se deve partilhar a vida com alguém de quem não se seja amigo, confidente e que não saiba conversar, pois vai chegar um dia em que valorizaremos isso mais do que tudo.

Loja do Cidadão

Há quatro cadeiras e duas mulheres sentam-se uma em cada ponta, viradas uma para a outra, com as malas em cima das cadeiras do meio.. Quem vê, diz que se conhecem e que devem estar a conversar, alheias ao facto de que, com as suas bolsas roubam dois lugares, num local onde quem consegue sentar-se devia uivar de alegria. Incomodada mas decidida, avanço para um dos lugares ocupado pelas malas. Vou separá-las, criar uma fronteira entre elas, mas estou-me nas tintas. Não se sentassem assim! Com ares de enfado, ambas recolhem as malas quando me vêem avançar. Ocupo só um lugar, mas rio-me para dentro a pensar que agora era eu quem devia pousar a mala no lugar ao lado. Constato a seguir que as senhoras nem sequer se conhecem.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Indiana Jones - O Regresso

Voltou com a Caveira de Cristal e eu gostei.
No meio de tanta fantasia a que assistimos no cinema, é bom reviver heróis do passado, mesmo rodeados de ficção algo 'infantil', e reconhecermos um Indiana Jones espantosamente bem conservado.
Também gosto do ar de Nikita da Cate Blanchett. Em excelente forma, a actriz.
Mas acima de tudo, gosto do que o misticismo do Indiana Jones faz renascer em mim: a paixão de miúda pela Arqueologia.

Dá que pensar

Basta passarmos os olhos pelas "gordas" de uma qualquer edição noticiosa para termos assunto q.b. para pensar e debater. Hoje, na versão on-line de um conhecido diário nacional, deparei-me de imediato com dois temas interessantes.
O primeiro - e tentarei controlar o mais possível a vontade de inventar piadas sobre o assunto -, diz respeito a três jogadores de futebol da selecção da Eritreia, que encontraram asilo político português depois da sua deslocação a Angola, na fase de apuramento para o Campeonato Africano das Nações. Dizem os jogadores que (como não podia deixar de ser...) o seu sonho é jogar no Benfica, apesar de o desespero ditar que qualquer clube em Portugal - país sem injustiças e desigualdades - é mais do que bem vindo!
Isto pode trazer novas perspectivas para o Benfica, atenção! É bom estar alerta a estas coisas.
O segundo tema é título de Editorial e reza assim: "Desigualdades sociais revelam país de injustiças", e não estão a falar da Eritreia, mas sim do que dizem as estatísticas sobre Portugal.
Diz que sim...
Quer dizer, não ponho em causa que a situação da Eritreia seja mais complicada para quem lá vive e que muita gente tenha vontade de fugir à sua realidade. Mas para estes jovens jogadores de futebol, asilados no Centro de Refugiados da Bobadela, e que nem duvido que até sejam estudados como hipótese para o Benfica ou outro qualquer clube "de sonho", Portugal vai-lhes parecer daqui por uns tempos um pouco diferente do paraíso que agora se lhes depara. Talvez até comecem a reivindicar e tudo!
Parece-me que deveriam considerar a hipótese de um pedido de asilo a outro país qualquer. É azar que tenham "optado" pelo que, também em relação à desigualdade social, está na cauda da Europa (expressão que já é prata da casa).
Mas nada disto é coincidência: os jogadores escapuliram-se ao controlo da selecção e dirigiram-se ao gabinete do Alto-Comissariado das Nações Unidas. O Sr. Engº António Guterres apenas fez as honras da casa..

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Sometimes you can't make it on your own

Hoje o sol brilha para ti, amiga.
Para ti, que carregas o fruto de um amor que nasceu cedo, no seio do universo escolar e de uma adolescência entre o rebelde e o tradicional.
Já passaram anos e o que alcançaste hoje parecia, naquela altura, uma coisa só para "gente crescida", como pensávamos. E é. É para gente crescida. Somos crescidas, efectivamente. Adultas, casadas, independentes, trabalhadoras, autónomas. Tudo aquilo que, naquela adolescência que ficou para trás, nos deslumbrava.
O que não sabíamos é que ser crescido não significa ser mais forte; que ser adulta não significa ser feita de ferro. Não sabíamos que crescer implica ter de possuir a coragem para esconder que ainda se sente fragilidade e medo, e que temos muitas vezes de usar a armadura do faz de conta.
Consegue-se estar completamente feliz durante alguns periodos de tempo mas não é possível ser plenamente feliz o tempo todo.
Queremos sempre mais, queremos sempre melhor e nem sempre conseguimos ter a lucidez para olhar para o que temos com gratidão. E isso é bom. Não te convenças do contrário. Isso significa que vais sempre reclamar o que queres para ti e batalhar pelas coisas que ambicionas. Acho que é a isso que chamam viver.
Mas também vais sempre precisar de chorar desesperadamente e sem motivo, de te irritar com pormenores que não são importantes, de nem sempre te sentires bem acompanhada ou de muitas vezes precisares de um colo presente. Tudo o que temos é feito de momentos. Diferentes.
Fico feliz que não sejas sempre sorridente para mim. Fico feliz se precisares de chorar no meu ombro. Porque sei. Sei como é..
Sometimes you can't make it on your own.. Ninguém consegue.
Gosto muito de ti.
(Para a Nani)

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Mea culpa

A declaração mais patética que já ouvi ser proferida pelo nosso Primeiro Ministro, Engº José Sócrates, chegou-me pela rádio ontem, ao final da tarde, a caminho do ginásio.
Ouvida tem outro impacto, mas achei que se transcrevesse, todos conseguiriam facilmente construir uma imagem da "personagem", com o seu olhar condescendente e a sua voz nasalada:
"Quero fazer-vos uma declaração sobre o facto de ter fumado no avião. De facto fumei, com o ministro da Economia [Manuel Pinho] enquanto conversávamos, mas no convencimento de que se podia fumar, porque assim sempre aconteceu nas outras viagens anteriores"... "Estava convencido que não estava a violar nenhuma lei nem nenhum regulamento. Infelizmente há essa polémica em Portugal e eu quero lamentar essa polémica. Se por algum motivo violei algum regulamento, alguma lei, lamento e peço desculpa, não voltará acontecer".
Na altura, não sei o que mais me incomodou: se a hipocrisia mal disfarçada, se a atitude extrema de (falsa) modéstia que reforça uma vez mais a minha teoria de que os políticos estão convencidos de que somos todos completamente idiotas, se o suposto estoicismo da atitude de deixar de fumar em consequência desta situação...
Começa por ser ridículo que o Primeiro-Ministro não saiba onde pode ou não fumar, isto partindo do princípio que acreditamos de boa-fé nas suas declarações. A partir daqui, a situação tende a piorar conforme se desenrola o processo jornalístico que traz até nós este tipo de informação.
Constata-se, por um lado, que os empresários que viajavam com a comitiva do Primeiro-Ministro, são um bando de queixinhas, provavelmente fumadores sem os mesmos privilégios no vôo, que acham que denunciar esta situação escalabrosa (como se fosse inédita), é fazer serviço público. Por outro lado, e a julgar pela equipa de reportagem que nos faz chegar esta notícia, parece que um assunto destes é de importância terminal para o nosso país (sinceramente quando ia a ouvir a notícia na rádio ia bem mais preocupada com o 15º aumento do gasóleo este ano!!).
Finalmente, vem o mais interessante. Nos diversos espaços destinados ao comentário virtual do cidadão comum - em tudo semelhantes a este blogue - dividem-se as opiniões entre o que é mais condenável: o imperdoável facto de o Engº José Sócrates fazer algo que o seu próprio Governo proibiu recentemente e sobre o qual o próprio admite não ter conhecimento ou a lamentável atitude dos jornalistas que continuam pelo bom caminho, sempre à procura de transformar novelas em notícias, porque as novelas têm mais audiências...
Eu confesso que também estou dividida, mas de uma coisa tenho a certeza: quase todos os portugueses sabem neste momento que o Primeiro-Ministro infringiu a lei do tabaco a bordo de um avião, mas muito poucos saberão sequer o que foi ele fazer à Venezuela. E se calhar nem interessa nada...
... (Já agora, Sr. Primeiro Ministro, desde quando dizer que não sabia que não podia fazer determinada coisa porque até aí era permitido é um argumento válido ou credível?? E reforçar as desculpas aos portugueses SE infringiu algum regulamento, como se ainda nem tivesse bem a certeza do que fez? Mais vale espetar logo com um cone na testa!!)

A Insustentável Leveza do Ser

(os sonhos... Meu Deus, os sonhos!)



Baseado naquele que é, certamente, um dos melhores romances de sempre, e protagonizado por dois dos mais expressivos actores que conheço:
"The Unbearable Lightness of Being", com Juliette Binoche e Daniel Day-Lewis.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Hallelujah (by Jeff Buckley)

Post da Mãe

Com alguns dias de atraso e depois de muito fermentada, não me passou a vontade de homenagear a minha mãe.
Não é muito importante para mim que não o faça no dia habitualmente dedicado às mães. Pelo contrário, creio que mais se destaca, em toda a sua grandeza, por não ser uma dedicatória no meio de muitas outras, que se fazem em massa e se materializam em frases feitas.
A sensação que tenho, agora que começo a escrever, é a de que estou a ser injusta com o meu pai. Não lhe prestei uma homenagem destas, nem no dia do Pai, nem antes ou depois. Mas logo me passa esta sensação esquisita quando penso que isto é espontaneidade e que o que sinto por ambos não se resume nunca ao que possa aqui testemunhar sobre cada um.
Vi ontem no Daily Show, do Jon Stewart, uma breve entrevista que ele fez ao ex-Presidente dos E. U. A. Jimmy Carter, a propósito de um livro que este último escreveu em homenagem à sua mãe.
Assistir ao programa fez-me pensar novamente nesta vontade que trazia comigo.
Gostei da forma como Carter descreveu certos episódios vividos em família e de como sublinhava o facto de a mãe ser uma mulher muito forte e que, em muito, lhe devia o cargo de Presidente que alcançou. A determinada altura contou um episódio engraçado em que alguém entrevistava a sua mãe, depois de um acontecimento público protagonizado pelo filho, já Presidente, e lhe perguntavam: Está orgulhosa do seu filho? Ao que ela respondia: Qual deles?
Foi apenas um à parte, mas tem a ver com aquilo que eu admiro na maternidade, na sua força e na sua capacidade de ter sempre mais para dar aos seus filhos.
A minha mãe não foi nem é uma mulher da política, nunca foi uma activista de lutas estudantis ou de direitos humanos, não foi sequer estudante universitária e não tem uma cultura geral elevada. Percebe pouco de História, de Matemática, de Línguas. Lia muito quando era nova, lembro-me bem. Mas lia livros de bolso, quase sempre romances, pouco profundos. Sempre se interessou muito por Medicina, um sonho que uma juventude com limitações não a deixou perseguir. Ainda hoje vaticina diagnósticos para alguns sintomas, com bases o mais científicas que consegue apurar nas suas enciclopédias, que gosta de consultar.
Casou e foi mãe muito nova, como era costume na sua geração, e sempre trabalhou.
Sempre soube fazer saias e vestidos, muitos deles gravados apenas nas velhas fotos minhas e da minha irmã, as saias e vestidos que usávamos, muitas vezes com pena de serem feitos em casa e não comprados na loja. Tolas!
A minha mãe é provavelmente uma mulher muito diferente da mulher que foi a mãe do Presidente Jimmy Carter.
Mas quando olho para trás, quando vejo quem sou, mesmo sabendo que pouco provavelmente serei algum dia presidente do que quer que seja, sei que um dia, daqui a muito tempo - se o tempo permitir - terei tanto para escrever sobre a minha mãe como o Presidente.
A mãe do Presidente não foi, certamente, mais do que a minha.

As Leis de Murphy e o resto do Mundo

Sempre achei que o drama da minha vida eram as Leis de Murphy. Compreendo agora, que elas não foram feitas a pensar em mim, mas sim em probabilidades trágico-cómicas que não são, de todo, fatalidades. Se lermos meia dúzia delas, percebemos que não somos uns infelizes, ainda que existam estatísticas concretas de que a nossa vida está balanceada para as suas conclusões negativas. A mim, pessoalmente, a confirmação destas leis, deixa-me (quase sempre) um sorriso no rosto, mesmo que seja um sorriso de escárnio ou irritação localizada, daquele tipo que ilustramos com um palavrão. Mas já convivo melhor com a sua presença constante e não me sinto tão perseguida.
Hoje, por exemplo, dei uma vista de olhos pelo Internacional do DN on-line, e isso fez-me pensar onde está o drama na lei que diz "A outra fila sempre anda mais rápido" ou "A possibilidade do pão cair com o lado da manteiga para baixo é directamente proporcional ao valor do tapete". Não posso sentir-me perseguida por 'infortúnios' tão fúteis quando em Sichuan milhares de pessoas morrem e outros milhares vivem a tragédia de um sismo cujas repercussões a minha imaginação não consegue nem alcançar, ou quando se sucedem atentados irracionais em nome de religiões "santas", por grupos radicais sunitas, como a mais recente em Jaipur que nos traz imagens de civis desmembrados.
Não posso sentir que o cúmulo da ironia reside num trocadilho de Murphy quando leio que, depois do devastador ciclone de Nargis, entre os escombros de Myanmar, a Birmânia vive o horror de ver os órfãos traumatizados, serem sofregamente procurados por traficantes de órgãos...
Numa vida simples, que não conhece a guerra, o terrorismo, o medo, a solidão, a fome, a censura, as catástrofes, faço (fazemos) drama porque "Nunca há horas suficientes num dia, mas há sempre muitos dias antes do sábado".

terça-feira, 6 de maio de 2008

Dia da Rita!!

Hoje é o dia da Rita!
É dia feliz, mesmo com nuvens. Dia de celebrar a perfeição.
A Rita é o objecto subjectivo do perfeito, porque a nossa noção de perfeito é subjectiva.
É a palmada e a carícia, o sorriso e a lágrima, a palavra imitadora ou a risada que reclama a atenção.
São covinhas nas bochechas e gritinhos eufóricos. São braços abertos e beijos que se soltam, ruidosos, antes de tocar a face.
É um xi, dois xis, muitos xis apertadinhos!

Eu conheço a mulher que deu colo e vida à perfeição.
No dia da Rita, parabéns a ti, mana!


Hoje é o dia da Rita!
É dia feliz, mesmo com nuvens. Dia de celebrar a perfeição.
A Rita é o objecto subjectivo do perfeito, porque a nossa noção de perfeito é subjectiva.
É a palmada e a carícia, o sorriso e a lágrima, a palavra imitadora ou a risada que reclama a atenção.
São covinhas nas bochechas e gritinhos eufóricos. São braços abertos e beijos que se soltam, ruidosos, antes de tocar a face.
É um xi, dois xis, muitos xis apertadinhos!

Eu conheço a mulher que deu colo e vida à perfeição.
No dia da Rita, parabéns a ti, mana!


(Fica giro o mesmo post em duas línguas: a nossa e a da Rita!)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Alentejo

O Alentejo, para mim, eram campos rasos e salpicados de papoilas a perder de vista, sob um céu azul e aberto.
Era cheiro a lareira e a lenha queimada.
Era um mar de estrelas a iluminar noites quentes.
Era bafo quente e sol impiedoso de meio-dia.
Era almofariz com cheiro a sumo de coentro e alho.
Era silêncio ou canto de cigarras e gado preguiçoso e pingos de uma fonte.
Era uma canção de sotaques deliciosos e descobertas em cada rosto e em cada ruga.
Agora descobri que também é centopeias.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

De fugida

Dispo-me de mim, esquecendo a frustração ligeira que me faz franzir a testa, para me alegrar com boas novas que outros partilham comigo. Notícias de felicidade e êxtase que me alegram em momentos em que faço uma pausa na minha felicidade e no meu êxtase, porque sentimentos menos nobres se impõem.
E assim, resta-me esperar que estes sentimentos se afastem.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Pim, Pam, Pum (24 horas depois...)

Assim me sinto e assim sou, tão incerta como este tempo de que não gosto. Este tempo em que agora chove e as coisas são baças, para mais logo o sol empurrar com força as nuvens e encher tudo de cores e alegrias exfusiantes.

Mas continuo a não gostar do circo. Já passei hoje bem perto da gigantesca marca no solo, deixada pela estrutura metálica das bancadas e pensei que me esqueci de referir uma coisa importante. Aquele semi-círculo gravado no solo rochoso, recusa-se a ir embora e no meio da poeira esbranquiçada do chão, deixou um rasto de relva verdinha que teima em impôr-se.
Aquela relva é como eu. E como este tempo incerto. De vez em quando, não se dá por ela, depois sem saber porquê, resplandece e ganha o verde mais bonito de todos.

O circo já foi há muito, mas deixou ficar uma raíz.
Nesta vida que desponta de vez em quando, de forma incerta, a relva brilha mais verde. Ou sou apenas eu que empurro as nuvens com força e vejo as cores mais exfusiantes.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Pim, Pam, Pum

Não gosto do Circo. Gosto de preservar a magia que ele, supostamente, representa para os mais pequenos mas não gosto dos artificialismos que lhe estão por detrás.
Lembro-me de gostar do circo quando era pequena, principalmente dos animais e dos trapezistas. Dos palhaços nunca gostei.
Hoje em dia, o que me fascina no circo é a triste e lenta rotina que o envolve.
Em frente à minha casa, há um recinto perfeito para as tendas de circo e, de longe a longe, encontro-os lá, com a sua tralha e a tenda meio montada, ao regressar do trabalho.
Quando saio de manhã, nada. Mas ao fim da tarde, vindos não sei de onde, lá estão eles, instalados, a invadir todo o espaço. Ocupam uma extensa área mas tenho a sensação de que ninguém os vê. Ou então são apenas considerados estorvo.
Gosto de espreitar, pela minha janela, a jaula dos leões e o recinto onde se amontoam várias espécies de animais, como se de uma quintinha se tratasse. Faço-o com um misto de pena e de fascínio.
Também gosto de olhar as diferentes roullotes e imaginar a vida lá dentro, por trás das maquilhagens gastas e dos cetins e lantejoulas.
Nunca os vejo na rua. Onde se enfiam as pessoas do circo? Montam rapidamente a sua tenda e somem-se para as suas caravanas velhas, sem se importar com os leões e os outros animais, ou assim parece.
Entristece-me olhar este cenário, da mesma forma que me entristece um Caravaggio: o seu realismo fere.
Às vezes, o circo em frente à minha casa enche-se de gente ao fim-de-semana. São filas e filas de crianças ansiosas e pais impacientes, e uma parte de mim fica contente. Significa que os leões não estiveram ali a semana toda, dando voltas na sua jaula, para nada. Pelo menos, alguém vai vê-los.
Mas na última vez que esteve lá o circo, não havia filas de gente. As crianças já não queriam ir e os pais agradeceram, ao que parece. Acho que nem chegou a haver espectáculo.
Já foi há bastante tempo, mas ainda hoje, quando passeio o cão no recinto, vejo as marcas na terra, das bancadas outrora ali enterradas com ferros. E entristece-me que, dessa última vez, tenha voltado para casa ao final de mais uma tarde, e já não tenha encontrado o circo...

TERRA!


Hoje é o Dia Mundial da Terra. Da Terra.

A TERRA..

Não pensamos na Terra como ela merece, não a vemos como deve ser vista e, definitivamente, não a tratamos como deveríamos.

Da Terra temos tudo. Ela dá-nos, sem cobrar, o que precisamos. E todo o mal que dela possa advir, somos nós que semeamos.
É bom que lhe dediquem um dia. Melhor seria que se pensasse mais nela todos os dias, mas isso ninguém faz.

Ainda bem que ainda consigo sentir o cheiro da relva molhada depois da chuva, ver a Lua brilhante quando as nuvens dão tréguas, sentir o mar frio e salgado na pele.
Por enquanto, ainda temos tudo isto.
A Terra ainda pulsa vida.






segunda-feira, 21 de abril de 2008

Um dia não são dias

Saudades do meu cão, saudades do sofá e do cadeirão que gira, saudades de um livro e de fechar os olhos e perder lentamente a consciência...
Saudades de um abraço, de sossego e de silêncio.
Não sinto tristeza, nem melancolia mas sinto um nó na garganta, de vez em quando. Estou vulnerável. Vulnerável ao bom e ao mau.
Hoje estou à mercê de um gesto carinhoso ou de uma palavra amarga, em igualdade de influência.
O mínimo que me pode fazer feliz, é exactamente proporcional ao que me pode entristecer.
Hoje não sou mordaz, nem crítica. Não estou vibrante ou cheia de humor.
Estou dependente de afectos.
Vou correr ao encontro deles, dos meus afectos.
Vou pedir-lhes que me envolvam.
Que bom é fazer-me ao mar mas ter sempre para onde voltar!

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Serviço Público

Partidarismos à parte, até porque assumo uma postura desprezista em relação ao culto das nossas políticas e à proliferação massiva de oportunismos, passo a divulgação deste interessante e-mail que recebi.

Parece-me bem.

Tem uma imagem tipo O.K. Teleseguro, ou Logo... essas companhias de seguros novas e de imagem jovial que parecem convidar ao sinistro automóvel, de tão descomplicadas que são...

Por outro lado, não posso ignorar o slogan que enfatiza o Civismo, a Justiça e a Prosperidade.

É pena eu ser tão céptica, desde que descobri o conceito de Marketing Político.

De qualquer forma, parece-me que, com um nome destes, já conseguiu o voto dos mais novos. Ainda há-de vir o Partido LOL e o BUE já devia ter assento parlamentar!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

April

E esta chuva que não pára. Cai incessantemente de um céu inexpressivo, que não mostra quando vai dar tréguas.
O céu não está azul e nublado, nem carregado de nuvens cinzentas. Está esbranquiçado, compacto. Parece mais perto da nossa cabeça, limita-nos o horizonte e não nos deixa olhar para longe, para a serra, para o mar...
Amanhã é sexta-feira, amanhã é sexta-feira, amanhã é sexta-feira...
Repito maquinalmente este pensamento, na ânsia de um fim de semana que sei que vai voar.

E esta chuva que não pára.
E este céu inexpressivo.
Faz-nos perder o rumo.
Que maçada, não encontro o horizonte...