terça-feira, 28 de outubro de 2008

quereres

Chegada a casa, vou dar um jeito neste cabelo que não lembra a ninguém, desfiando-lhe um impiedoso golpe tórrido nos caracóis desarranjados. Cresce-me água na boca, de pensar no alívio que sinto ao passar as mãos por cabelo liso. Inquieta-me o cabelo ondulante e rebelde, que parece oscilar com o meu humor. Acho-lhe piada enquanto, ainda húmido, exibe canudos perfeitos, quase infantis, mas que depressa desaparecem depois de secos e expostos às intempéries. Restam-lhe depois vestígios de caracóis e um volume que desprezo. O desprezo que exaspera a minha mãe, a quem, se eu pudesse, dava metade da cabeleira, para regozijo de ambas. Também estou em pulgas para uma leitura de serão. A calma da leitura é o proveito retirado de horas tardias de frequente solidão imposta, coisas da vida que também têm de ter um lado positivo. Este vento uivante, raivoso, que oiço e me incómoda tal e qual os cabelos ondulantes, faz-me querer mais ainda este serão já próximo.

espírito de Natal

Hoje é, oficialmente, o dia em que abro as minhas montras ao Natal.

Faço-o cedo, bem sei, mas há quem a mim se tenha antecipado.

Porque o Natal é quando o homem quiser e que Bolsa nenhuma deste mundo se atreva a pôr isso em causa.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

bilingue

Não posso deixar de reparar na quantidade de pequenas expressões estrangeiras que vou depositando nos meus posts (cá está mais uma!), sendo obrigada a admitir que estas são de grande utilidade linguística, para uma fluência bonita e cosmopolita do texto. Ao mesmo tempo, isto faz-me perder credibilidade quando censuro os media (outra!) por adoptarem o termo car-jacking quando se referem a assaltos a/em carros, ou bullying para designar a intemporal relação de conflito entre o grupo dos fixes e o dos marrões (com o dos fixes a dominar. Invariavelmente).

assimetrias

Ando para concluir que os recentes desgostos do Miguel Sousa Tavares são inversamente proporcionais ao boom literário do José Rodrigues dos Santos. Se esta inversa proporcionalidade continuar, e começarmos a incluir nos desgostos do MST os insucessos do FCP, qualquer dia o pivôt de olhar expressivo apresenta-nos a sequela d'Os Lusíadas.

Max "Pain", ou a arte de fazer mau cinema

Duvido muito que seja um problema de criteriosa infexibilidade da minha parte, até porque me considero uma saudável consumidora de muita porcaria comercial, mas a verdade - e no seguimento da minha recente crítica musical aqui postada - é que só vejo lixo nas salas de cinema actualmente. Claro está que uma pitada de inércia associada à falta da companhia desejada também têm sido responsáveis pela recorrência ao Shopping mais próximo, em detrimento de outros mundos alternativos e menos percorridos, porventura bem mais apetecíveis, mas ainda assim era de se esperar mais da sorte. O Max Payne, acima propositadamente distorcido para dar uma ideia mais objectiva da dolorosa experiência que 1h38 nos podem proporcionar, tem de tudo, como na farmácia. Péssimas representações, condizentes com um script muito, muito fraquinho; história entediante, previsível, quase naif para um realizador de quem se pedia mais qualquer coisa; cenários pirosos, exagerados, carregados de efeitos de luz surreal e teatral. Para conferir (ou não!), numa sala Lusomundo perto de si...

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

fraude

Hoje, ao ler o que escrevo, tenho a real percepção de como sou moralista. É-me fácil falar, e sobretudo escrever, baseada nas conclusões de experiências passadas ou através de assumpções em que julgo ter a perspicácia que dispensa a vivência das coisas. É tão mais difícil fazer uso dessa sabedoria quando se afiguram cruciais as decisões importantes. Estou destroçada. E ainda por cima sou uma fraude.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

música portuguesa

Mas será que só a mim é que isto me soa, assim... digamos... terrivelmente mal?

(sem título)

Não há na culinária nada que se assemelhe ao poder sublime de uma erva aromática. Saber cozinhar é saber entender, de todas as escolhas possíveis, qual a que torna distinta uma receita. É, sobretudo, saber dosear essa distinção. É não deixar aquém ou exagerar no condimento. É adivinhar a quantidade que faz a perfeição. Depois é, subtilmente, utilizá-la na sua forma de expressão mais pura: disfarçá-la por entre a comida ou realçar o seu contraste dos outros ingredientes. Enfim, saber extrair de si o que de mais valioso contém.
O amor é a especiaria no prato da nossa vida. Não devemos subestimar a sua importância, pois ele é, simultaneamente, o manjericão e a pimenta, a canela e o açafrão, o caril e a noz moscada. Dele provêm a côr e a magia das nossas experiências. Encerra em si, tantas vezes, paladares sem nome, aromas que não sabemos classificar, dos quais nada precisamos saber, a não ser que existem.
Há que experimentar este amor e os segredos, por vezes amargos, que nele se escondem. Há que saber dosear o amor, saber que condimento escolher para cada momento. Há que ousar roubar-lhe a vaidade da sua expressão e ostentá-la sem pudores.
E há que ter cuidado.
A melhor das especiarias, na errada proporção, pode ser veneno.

"O elixir da vida é o olhar de beleza com que presenteamos cada botão, então ele abrirá para nós, revelando assim toda a exuberância do seu ser..."

(algures p'los jardins do Solar de Mateus...)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

dizem-me os últimos posts que...

estou a ficar velha e chata.
mas também muito sábia!

estar viva

Doces e amargas, assim se querem as recordações, para que possamos valorizá-las bem.
A verdade é que experimento de novo uma série infindável de emoções e, mais importante, regressam fisicamente (ou quase) à minha vida pessoas que julguei perdidas.
It's all coming back to me, como diz a canção.
Ainda hoje pensei que reprimir sensações e recusar viver certas experiências representa um duplo perigo: um primeiro, mais imediato, que nos limita o conhecimento e a acumulação saudável de recordações; e um segundo, a longo prazo, que se manifesta quando procuramos recuperar um tempo perdido e a vida já nos pede outras coisas.
Recusei experiências que queria mesmo viver, só pela necessidade incoerente de me contrariar e já encontrei a frustração ao procurar reencontrá-las.
Preciso de encontrar um equilíbrio saudável entre o passado e o presente.
É difícil dar sentido a coisas que perdemos e que se vão tornando cada vez mais desajustadas, mas as pessoas, mais do que os momentos, marcam-nos a ferro e fogo e é bom voltar a sentir ferver certas cicatrizes.

hilarious

Depois de Sarah Palin, o desespero das sondagens negativas lança para a ribalta a sacrificada do rebanho

terça-feira, 21 de outubro de 2008

2001

Deposito aqui um bocadinho do meu coração porque, já que nunca vou esquecer, quero a prova irrefutável de que vocês não foram apenas fruto da minha imaginação. É precisamente assim que me lembro.

dar um tempo

deixar para trás.
abdicar.
despromover.
retirar carácter prioritário.
desvalorizar.
desistir.
dei um tempo a este projecto antes de lhe dar uma oportunidade de vingar.
quero que a regra permita a excepção e que dar um tempo não signifique desistir.
não sem antes dedilhar a cannonball.

biografia

"Quando trabalhei num alfarrabista – lugar facilmente idealizável, quando não se trabalha lá, como uma espécie de paraíso onde cavalheiros encantadores procuram incansavelmente volumes encadernados a pele – aquilo que mais me surpreendeu foi a escassez de pessoas verdadeiramente livrescas. A livraria tinha um catálogo excepcionalmente interessante, mas duvido de que sequer dez por cento dos nossos clientes fosse capaz de distinguir um bom de um mau livro. Os snobes das primeiras edições abundavam mais dos que os amantes da literatura. Muitas das pessoas que apareciam eram daquele género que seria um transtorno em qualquer outro sítio, mas que têm magníficas oportunidades numa livraria. Por exemplo, a amorosa velhinha que deseja «um livro para uma inválida» ou a outra amorosa velhinha que leu um livro óptimo em 1897 e pergunta se será possível arranjar-lhe um exemplar. Infelizmente, não se lembra do título do livro nem do nome do autor nem propriamente da história, mas lembra-se, isso sim, que a capa era vermelha. Para além destas, há duas outras pragas bem conhecidas que assombram todos os alfarrabistas. Uma é a pessoa decadente que cheira a côdea de pão velho e que aparece diariamente, com frequência várias vezes ao dia, tentando vender livros inúteis. A outra é a pessoa que encomenda grandes quantidades de livros e não tem qualquer intenção de algum dia vir a pagá-los. Chega e solicita um qualquer livro raro e caro, obriga-nos a prometer vezes sem conta que lho guardaremos, e depois desaparece para não mais voltar. "

identificar fonte de citação, s.f.f.

burn after reading

"Depois do Billy Bob Thornton ter trabalhado connosco, entrou num filme de Barry Levinson e nós dissemos-lhe para não dizer ao Barry nenhum dos nossos segredos. O Billy Bob virou-se para mim: 'Vocês não têm segredos!'. 'Sim', respondi-lhe, 'mas não digas isso ao Barry Levinson!' "

Joel e Ethan Coen (sobre o seu método de trabalho enquanto realizadores)

com os azeites

Não me surge nada engraçado que possa dizer a propósito da polémica da carta de azeites e do veto aos galheteiros. Na rádio comercial até fizeram uma música para satirizar a polémica, agora que o ministro da agricultura dá um passo atrás na sua decisão. Na verdade isto não tem mesmo piada nenhuma. É apenas mais um fait-divers de quem não sabe o que faz no governo e não tem ideia das necessidades prioritárias do país. Por mais que dê volta à cabeça, nada me ocorre. Estou desprovida de humor.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

pergunta do dia

O que fazer para impedir a minha vizinha de me invadir a cozinha com a Bimby às costas?

(sou uma besta quadrada: além de permitir que tentem profanar a minha noção sagrada do que é cozinhar, abdico também de duas preciosas horas da minha quinta-feira. Se soubesse não teria segurado o elevador)

any given sunday

Experimentei ontem alguns daqueles sentimentos que mais tememos e que, habitualmente, não atacam assim todos em simultâneo, sem aviso prévio.
A percepção de que um dia não vai correr bem afigura-se-me, infelizmente, infalível na maioria das vezes. E o acordar costuma ser determinante neste processo premonitório. Já nem falo dos sonhos bizarros que nunca são bons, na melhor das hipóteses são apenas estranhos. Aos sonhos já me habituei. Percebo que fazem parte de mim. Mas a concretização das premonições, a essa não me acostumo.
Acordar de um pesadelo com a sensação de que o melhor remédio para limpar a alma e apagar a sensação de que algo ruim se avizinha é um banho imenso, de água tépida, corrente e abundante e constatar que não há água no cano é a primeira prova de que não se devem encarar certos avisos de ânimo leve.
Mas o dia passa. Vive-se. Lida-se com a neura e com os acasos que não parecem, de todo, acasos. Até que a premonição começa a fazer sentido de uma forma assombrosa e já não apetece dizer que sabíamos que o dia ia ser assim porque, na realidade, não sabíamos. Há coisas que não se prevêem, que nos atingem como uma bola no estômago, vinda não se sabe de onde. Perguntamo-nos porquê mas não há resposta. E temos de aceitar que, ainda assim, o dia continua a passar e continua a viver-se, mesmo quando nos apetece desligar a ficha e fazer uma pausa na vida que corre, indiferente às boladas no estômago.
E o grande receio que me toma é saber-me tão pouco preparada para suportar o inevitável impacto de outros arremessos, tão violentos e imprevisíveis como este.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

aldeia global

Desde a faculdade que o conceito não se me afigurava de forma tão clara e evidente como hoje: cruzei-me com uma senhora, arianíssima, com uma enorme túnica africana, de generosos estampados verdes e azuis, calçando uns crocs que faziam o pan dan cromático perfeito.

estética capilar

Já pensei várias vezes que o Paulo Bento devia fazer carreira no estrangeiro. Por dois fortes motivos. Em primeiro lugar, acredito muito nas suas potencialidades como treinador (a sério que sim) e acho que o sporting tem-no prejudicado muito mais do que ele ao sporting. Depois porque ele precisa mesmo de mudar aquele penteado. É que já nem as sátiras humorísticas justificam tamanho ridículo. E pelo que vi do que conseguiram com o Ricardo Carvalho em Inglaterra, estes milagres acontecem mesmo.
(sei o que estão a pensar mas o Nuno Gomes é diferente. O homem não olha muito à imagem e no contexto actual isso até abona a seu favor, já que é dos poucos que estão lá para jogar à bola. Além disso, ele tem piada pelo seu ar de miúdo simpático do norte. Um estudo recente concluiu que a alcunha de amélia não é mais do que o resultado do elevado despeito de um grupo secreto de Ultras - como gostam de ser chamados - que não vêem no Liedson magricelas um grande exemplo de comparação.)