sexta-feira, 31 de outubro de 2008

visão nº2

Que delícia sentir no seu olhar uma pontada de receio, de medo, de verdadeiro pânico por julgá-la incerta, livre, desejada. Que bom poder prolongar aquele olhar pelo tempo preciso e suficiente que rebenta em gargalhada de entrega, confiança e alívio. Ela está lá, ao lado, para onde sempre volta ou onde sempre espera. Sabe que, se tentasse sair, levaria a caixa de sapatos, os livros e o álbum mas para trás deixaria a alma.

visão nº1

Não pode vê-lo nem pintado a lápis de cera.
Aquele ar de cordeiro manso, a voz melosa, a figura atarracada e a postura submissa e bajuladora são-lhe insuportáveis. Às vezes até tem pena dele. Deseja que nunca ninguém sinta por si a compaixão dolorosa que ele lhe desperta.
Esgota a paciência ao longo da semana de trabalho, ocupado que anda a lamber botas, na sua doente subserviência. Ao fim de semana fica por casa, o mais possível, e tem como única missão tentar ler o jornal e saber qualquer coisa sobre futebol para poder mandar umas piadas porreiras na segunda-feira, se a sua equipa tiver mais sorte que a dos colegas.
Ela acha que ele é infeliz mas o que sabe ela sobre a felicidade?

poesia de ensinamento

calduço ou cachaço?

Só um cheirinho:
'A determinada altura do julgamento de hoje, a tentativa de esclarecimento da intensidade da agressão sofrida por José Ramalho originou uma discussão semântica em redor das expressões "calduço e cachaço" utilizados por alguns depoentes. Uma dúvida que levou o juiz a questionar por diversas vezes: "Mas foi um calduço ou um cachaço?" '
Valentina Marcelino Expresso Edição On-line 21:10 Terça-feira, 28 de Out de 2008
Nem tenho palavras.
Tem mesmo de se ir à fonte porque sintetizar seria de uma grande injustiça para o conteúdo hilariante de todo o artigo.
Não hesitem portanto em clicar.... AQUI!!
p.s. O sr. José Ramalho é que está muito em baixo, coitado. Ainda a semana passada vi um árbitro de campeonato amador levar uma solha no final do jogo e não se passou nada. Deve ter comido um coirato com uma mini depois do duche e pronto. Sem direito a psicólogos e a indemnização.

não sei, mas vou descobrir

"João era fabulista? fabuloso? fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? Projetava na gravatinha a quinta face das coisas, inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar, para farçar o que não ousamos compreender? Tinha pastos, buritis plantados no apartamento? no peito? Vegetal ele era ou passarinho sob a robusta ossatura com pinta de boi risonho? Era um teatro e todos os artistas no mesmo papel, ciranda multívoca? João era tudo? tudo escondido, florindo como flor é flor, mesmo não semeada? Mapa com acidentes deslizando para fora, falando? Guardava rios no bolso, cada qual com a cor de suas águas? sem misturar, sem conflitar? E de cada gota redigia nome, curva, fim, e no destinado geral seu fado era saber para contar sem desnudar o que não deve ser desnudado e por isso se veste de véus novos? Mágico sem apetrechos, civilmente mágico, apelador e precipites prodígios acudindo a chamado geral? Embaixador do reino que há por trás dos reinos, dos poderes, das supostas fórmulas de abracadabra, sésamo? Reino cercado não de muros, chaves, códigos, mas o reino-reino? Por que João sorria se lhe perguntavam que mistério é esse? E propondo desenhos figurava menos a resposta que outra questão ao perguntante? Tinha parte com... (não sei o nome) ou ele mesmo era a parte de gente servindo de ponte entre o sub e o sobre que se arcabuzeiam de antes do princípio, que se entrelaçam para melhor guerra, para maior festa? Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar."

"Um chamado João", Carlos Drummond de Andrade - 22/11/1967 - Versiprosa

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

seda

É conhecida a cudelaria que dá fama a Alter, mas da pequena aldeia, pouco se ouve. Quando avisto ao longe a sua ribeira e a pequena ponte quase perdida, é nessa altura que sinto a saudade. É o regressar à terra que me traz a nostalgia dos tempos em que, miúda, ia ao baile do largo. Havia muito mais gente, gente mais nova, música, petiscos e barulho das festas de verão que traziam de volta os filhos da terra e acordavam os seus habitantes. Durante o dia passeava-se, se o sol deixasse. Descia-se a rua onde viveu a minha mãe, passava-se à porta da casa que a viu nascer e que tinha, como ela me contava, uma porta diferente naquela altura. Já lá em baixo, na fonte, desfiava-se mais uma mão cheia de histórias de tempos que não conheci. Uma vizinha chamava para a conversa, na morna calma do seu terraço, à sombra da árvore com laranjas cor de sangue. Descia-se a colina até à ribeira e apanhava-se com facilidade peixe miúdo que, com pena, eu devolvia às águas do rio. As águas eram mais altas, a nascente mais viva. Agora, a ponte não faz falta e o curso que corre é fraco. Não há peixes. Agora, há uma melhorada casa do povo, porque a população está envelhecida, e uma piscina, para chamar os mais novos da terra e de outras terras ao redor. Mas em mim, o amargo de visitar a terra de longe a longe para ver os mortos, só me traz à lembrança as gargalhadas que aquele chão já me deu. As pedras da calçada só permitem recordações, porque o solo, esse está agora estéril do risos dos gaiatos.

profanar o sexo com... literatura

(retirado de um dos outros)
Não gosto de agridoce.
Há coisas que não se misturam.

Miguel Sousa Tavares

Há já um tempo que ando para depositar aqui algumas notas soltas sobre o Miguel Sousa Tavares mas não se tem revelado nada fácil. O homem, senhor - "doutor", como dirá o Manuel Serrão - não é pessoa de simples interpretação. Não li nenhuma obra que tenha escrito, não sei nada de plágios e o que observo baseia-se, sobretudo, no que costumava acompanhar da sua presença assídua nos Telejornais da TVI e em algumas crónicas que leio por aí. Devo confessar que a sua pessoa não me inspira grande confiança ou simpatia. A sua postura, quer na oralidade quer na escrita, ostenta sempre superioridade, mesmo quando desce ao mais baixo nível argumentativo e isso não é, de todo, agradável. Isto não significa que discorde de todas as suas tomadas de posição, mas fica-me sempre a impressão que, debaixo daquela carcaça aristocrática, há um treinador de bancada de bigode farfalhudo ou uma nascida e criada varina do bulhão. Outra coisa curiosa é que, quando olho para o homem Miguel Sousa Tavares, vejo o menino Miguel, criança educada e inteligente, mais dotada de etiqueta do que de consciência, incapaz de resistir à tentação de molestar outras crianças, se o seu elucidado espírito detectar nelas um fio de matéria criticável. Existe, neste colunista, por excelência, uma capacidade inata que é simultaneamente assustadora e admirável: o ser naturalmente e sem pudores um crítico severo de certezas absolutas e deliberações convictas sobre temáticas que são, no mínimo, discutíveis. É precisamente esta característica que me faz oscilar na visão que tenho da sua pessoa e me impede de formar uma opinião tão célere e contundente como as que lhe são características: o facto de acompanhar o seu discurso ou a sua escrita numa toada inconstante que varia entre o "tu estás lá" e o "és mesmo uma besta".

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

sonho

O sítio era em Marrocos. Não que já lá tenha estado, mas lembro-me de que era esse o destino programado. Lembro-me de que houve uma véspera, preparativos, compras apressadas ao cair da noite. Por qualquer motivo, havia bolos de pastelaria fresca e doces. Escolhíamos: havia um bolo de mármore, sólido, enorme, com óptimo aspecto; outro com uma cobertura brilhante e cremosa, aspecto guloso; e também um doce, que parecia de claras e gemas de ovo, com uma apresentação divinal, como se fossem farófias em organizadas formas de madalenas. Escolhemos um dos bolos. Não era o de mármore como eu queria. Nunca é o que EU teria escolhido, lembro-me de pensar. E pensei também que desconhecia a existência de tão simpática pastelaria mesmo ao lado de casa. Depois, desapareceu a pastelaria. Num salto lá estávamos nós em Marrocos. E vou dizer o que é para mim Marrocos. Calor e cor de barro. Guias turísticos que elaboram percursos sinuosos e difíceis. Casinhas e mais casinhas, encastradas em colinas, com pátios e ruelas em escadaria, viradas para o mar, qual Santorini africana. Mas o mar, o mar é bravo, temível. O mar é medonho. Pensei que nunca conseguiria dormir numa daquelas casas de terraços simpáticos debruçados sobre o mar, fustigadas pelas impiedosas ondas que atingiam com violência as portas, janelas, todas as fachadas. Será que mais ninguém reparava na violência assustadora daquele mar? Nos meus sonhos, só eu me assusto com o mal evidente. Os outros estão sempre a conversar e a rir, em dialectos que não entendo. Só se dirigem a mim de forma perceptível para repetir, incansavelmente, num tom reprovador, que se dependesse da minha cabeça de vento, a camera fotográfica teria ficado para trás. Sinto-me terrivelmente injustiçada. Apetece-me fugir daquele mar e voltar para casa, para perto da sossegada pastelaria que, até há pouco, desconhecia.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

quereres

Chegada a casa, vou dar um jeito neste cabelo que não lembra a ninguém, desfiando-lhe um impiedoso golpe tórrido nos caracóis desarranjados. Cresce-me água na boca, de pensar no alívio que sinto ao passar as mãos por cabelo liso. Inquieta-me o cabelo ondulante e rebelde, que parece oscilar com o meu humor. Acho-lhe piada enquanto, ainda húmido, exibe canudos perfeitos, quase infantis, mas que depressa desaparecem depois de secos e expostos às intempéries. Restam-lhe depois vestígios de caracóis e um volume que desprezo. O desprezo que exaspera a minha mãe, a quem, se eu pudesse, dava metade da cabeleira, para regozijo de ambas. Também estou em pulgas para uma leitura de serão. A calma da leitura é o proveito retirado de horas tardias de frequente solidão imposta, coisas da vida que também têm de ter um lado positivo. Este vento uivante, raivoso, que oiço e me incómoda tal e qual os cabelos ondulantes, faz-me querer mais ainda este serão já próximo.

espírito de Natal

Hoje é, oficialmente, o dia em que abro as minhas montras ao Natal.

Faço-o cedo, bem sei, mas há quem a mim se tenha antecipado.

Porque o Natal é quando o homem quiser e que Bolsa nenhuma deste mundo se atreva a pôr isso em causa.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

bilingue

Não posso deixar de reparar na quantidade de pequenas expressões estrangeiras que vou depositando nos meus posts (cá está mais uma!), sendo obrigada a admitir que estas são de grande utilidade linguística, para uma fluência bonita e cosmopolita do texto. Ao mesmo tempo, isto faz-me perder credibilidade quando censuro os media (outra!) por adoptarem o termo car-jacking quando se referem a assaltos a/em carros, ou bullying para designar a intemporal relação de conflito entre o grupo dos fixes e o dos marrões (com o dos fixes a dominar. Invariavelmente).

assimetrias

Ando para concluir que os recentes desgostos do Miguel Sousa Tavares são inversamente proporcionais ao boom literário do José Rodrigues dos Santos. Se esta inversa proporcionalidade continuar, e começarmos a incluir nos desgostos do MST os insucessos do FCP, qualquer dia o pivôt de olhar expressivo apresenta-nos a sequela d'Os Lusíadas.

Max "Pain", ou a arte de fazer mau cinema

Duvido muito que seja um problema de criteriosa infexibilidade da minha parte, até porque me considero uma saudável consumidora de muita porcaria comercial, mas a verdade - e no seguimento da minha recente crítica musical aqui postada - é que só vejo lixo nas salas de cinema actualmente. Claro está que uma pitada de inércia associada à falta da companhia desejada também têm sido responsáveis pela recorrência ao Shopping mais próximo, em detrimento de outros mundos alternativos e menos percorridos, porventura bem mais apetecíveis, mas ainda assim era de se esperar mais da sorte. O Max Payne, acima propositadamente distorcido para dar uma ideia mais objectiva da dolorosa experiência que 1h38 nos podem proporcionar, tem de tudo, como na farmácia. Péssimas representações, condizentes com um script muito, muito fraquinho; história entediante, previsível, quase naif para um realizador de quem se pedia mais qualquer coisa; cenários pirosos, exagerados, carregados de efeitos de luz surreal e teatral. Para conferir (ou não!), numa sala Lusomundo perto de si...

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

fraude

Hoje, ao ler o que escrevo, tenho a real percepção de como sou moralista. É-me fácil falar, e sobretudo escrever, baseada nas conclusões de experiências passadas ou através de assumpções em que julgo ter a perspicácia que dispensa a vivência das coisas. É tão mais difícil fazer uso dessa sabedoria quando se afiguram cruciais as decisões importantes. Estou destroçada. E ainda por cima sou uma fraude.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

música portuguesa

Mas será que só a mim é que isto me soa, assim... digamos... terrivelmente mal?

(sem título)

Não há na culinária nada que se assemelhe ao poder sublime de uma erva aromática. Saber cozinhar é saber entender, de todas as escolhas possíveis, qual a que torna distinta uma receita. É, sobretudo, saber dosear essa distinção. É não deixar aquém ou exagerar no condimento. É adivinhar a quantidade que faz a perfeição. Depois é, subtilmente, utilizá-la na sua forma de expressão mais pura: disfarçá-la por entre a comida ou realçar o seu contraste dos outros ingredientes. Enfim, saber extrair de si o que de mais valioso contém.
O amor é a especiaria no prato da nossa vida. Não devemos subestimar a sua importância, pois ele é, simultaneamente, o manjericão e a pimenta, a canela e o açafrão, o caril e a noz moscada. Dele provêm a côr e a magia das nossas experiências. Encerra em si, tantas vezes, paladares sem nome, aromas que não sabemos classificar, dos quais nada precisamos saber, a não ser que existem.
Há que experimentar este amor e os segredos, por vezes amargos, que nele se escondem. Há que saber dosear o amor, saber que condimento escolher para cada momento. Há que ousar roubar-lhe a vaidade da sua expressão e ostentá-la sem pudores.
E há que ter cuidado.
A melhor das especiarias, na errada proporção, pode ser veneno.

"O elixir da vida é o olhar de beleza com que presenteamos cada botão, então ele abrirá para nós, revelando assim toda a exuberância do seu ser..."

(algures p'los jardins do Solar de Mateus...)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

dizem-me os últimos posts que...

estou a ficar velha e chata.
mas também muito sábia!

estar viva

Doces e amargas, assim se querem as recordações, para que possamos valorizá-las bem.
A verdade é que experimento de novo uma série infindável de emoções e, mais importante, regressam fisicamente (ou quase) à minha vida pessoas que julguei perdidas.
It's all coming back to me, como diz a canção.
Ainda hoje pensei que reprimir sensações e recusar viver certas experiências representa um duplo perigo: um primeiro, mais imediato, que nos limita o conhecimento e a acumulação saudável de recordações; e um segundo, a longo prazo, que se manifesta quando procuramos recuperar um tempo perdido e a vida já nos pede outras coisas.
Recusei experiências que queria mesmo viver, só pela necessidade incoerente de me contrariar e já encontrei a frustração ao procurar reencontrá-las.
Preciso de encontrar um equilíbrio saudável entre o passado e o presente.
É difícil dar sentido a coisas que perdemos e que se vão tornando cada vez mais desajustadas, mas as pessoas, mais do que os momentos, marcam-nos a ferro e fogo e é bom voltar a sentir ferver certas cicatrizes.

hilarious

Depois de Sarah Palin, o desespero das sondagens negativas lança para a ribalta a sacrificada do rebanho