sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Porta 17 Sector 14 Fila J Lugar 8

A noite de ontem foi de caminhadas a passo largo, a passo de corrida. Foi de reencontro com o mundo social que se mistura entre si, no regresso a casa, fora do habitáculo impenetrável do automóvel. Adaptação às diferenças.
Foi noite de esperar, irrequieta, por um comboio enquanto outros passavam. Pressa e espera. Pressa emergente, espera impotente.Foi noite de precipitação e desejo de voltar o tempo atrás. Noite de acumular de bilhetes, uns grátis, outros nem por isso. Noite que, mais tarde, alguém chamou de 'desinspirada'.
Foi noite de resignação. Noite de apanhar o comboio e voltar para onde tudo havia começado. Noite de, ao chegar, fingir que nunca tinha partido.
Como se consegue tornar romântica uma noite de frustração....
Se as matemáticas não me falham: um bilhete a uma média de vinte euros, com entrada apenas na segunda metade, passa para dez; com saída antes do final, tiram-se mais uns cêntimos; descontando cinco e quarenta para transportes públicos sobram aí uns dois ou três euros que não compensam o dolo pessoal.
Terminei a noite com saldo negativo.
There's no such thing as free lunches!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

e agora?

Ganhar foi fácil: os republicanos utilizaram uma série de estratégias erradas que os levou a auto-boicotarem-se e a comunicação social fez o resto. Agora vem a parte difícil, a de corresponder às expectativas.
Os seus opositores - que ainda são muitos - só têm de esperar para vê-lo cair ou ser bem sucedido e, embora acredite nas suas melhores intenções, atingir todas as metas é um fim impossível, pelo menos a curto prazo, ao contrário do que muitos parecem esperar. A campanha republicana para as próximas eleições começou no momento em que foi anunciada a vitória de Obama, assim como uma contagem decrescente vertiginosa que terá de ser muito bem gerida. A euforia mundial depressa se converterá em revolta contra a mão que a alimentou, se as decisões tomadas não forem consensuais.
O mais complicado, contudo, são os adversários silenciosos que Obama tem pela frente. O que temos visto são manifestações políticas quase globais de apoio e esperança. Que isso não nos impeça de reconhecer que existe meio mundo a quem este homem não agrada. Espero que o novo Presidente dos Estados Unidos possua realmente a presença de espírito e a convicção que tem demonstrado para saber enfrentar o que o espera, ainda que para isso tenha de abdicar do consenso mundial relativamente à sua imagem, em benefício de decisões acertadas.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

este ano o pai natal chegou a 4 de Novembro

para mim pode ser um cheque-prenda ilimitado da fnac e um tanque novo para a otária do aquário vasco da gama (que aquilo é realmente desumano)

os caminhos da educação

"A educação não gera o desenvolvimento. Só a boa educação o faz. A má, aqui como em tudo, é apenas um desperdício de tempo e recursos. A principal diferença entre a boa e a má educação é o bom senso."

João César das Neves, Diário de Notícias (07/03/2005)


Preocupa-me a ignorância de certas reformas da educação tomadas pelos governos e preocupa-me a leviandade com que se criticam essas medidas. Preocupa-me que, actualmente, exista um fosso tão grande a separar as diferentes noções do que é o ideal no sistema de ensino. Preocupa-me que as crianças e os jovens, sobre quem deviam pender as grandes preocupações, sejam completamente esquecidas em todo o processo de evolução desta 'nova sociedade tecnológica'. Preocupa-me que uma grande parte dos professores constitua tão mau exemplo ao facilmente desistir mediante as barreiras burocráticas interpostas por mais uma medida governativa.


O que vejo hoje nas escolas, tal como o que observo na educação parental, é uma tentativa de ocupar os jovens e não de preencher as suas lacunas. Há uma grande preocupação em facilitar às crianças um acesso precoce à informação, ao entretenimento, ao auto-desenvolvimento. Deixou de haver interesse em acompanhá-las e orientá-las até uma idade em que consigam, com base em conhecimentos adquiridos, construir o carácter que lhes permitirá servir, de uma forma positiva, a sociedade em que se integrem.


A educação nas escolas está a ser boicotada por interesses políticos e económicos que fazem com que nos esqueçamos constantemente que gerações de estudantes estão a ser irreversivelmente prejudicadas. Os professores deixam clara a ideia de que lhes são incómodas as medidas tomadas e os que não abandonam a carreira antecipadamente, permanecem contrariados nos seus postos de trabalho. Se juntarmos a classe mais conservadora em relação a novas medidas tomadas pelo governo e a classe de jovens professores que se debatem com as fracas regalias que lhes são concedidas, resta-nos uma franja muito pouco significativa de educadores cuja grande motivação seja a paixão pelo ensino.


As coisas mudaram muito desde que fui aluna. A minha revolta contra o Governo termina quando, com tristeza, observo que os professores mudaram. Um cargo na função pública permite a reivindicação de direitos, a manifestação pública de desagrado, a organização de greves gerais e, em muitos casos, reformas antecipadas que, mesmo com cortes percentuais, possibilitam aos profissionais do sector que virem as costas a quem mais depende deles.


Como as medidas tomadas são deficientes e inadequadas, os professores abandonam os alunos como os polícias abandonam as vítimas porque a lei lhes veta o direito a disparar sobre um agressor. É assim que funciona o sistema. E é desta sociedade que nascem os governantes do futuro.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

la resistencia a "El Pibe"

Parece que o Maradona anda às voltas com um problema que conhecemos bem em Portugal. Após conseguir ficar à frente da selecção argentina, apenas por se ter mostrado disponível para isso na comunicação social, tem de ultrapassar complicações que não se anteviam: a resistência de Julio Grondona à sua intenção de garantir no comando técnico alguns 'jobs for the boys' ...

fome política

Se a intenção da JSD não é a de associar o partido ao Banco Alimentar, então não percebo a iniciativa.
Claro que isto é tudo uma questão de rigor semântico.
O que a JSD quer não é associar o seu nome ao Banco Alimentar, embora fosse a organização mais sonante para o efeito pretendido. A intenção do partido é associar-se a uma causa, seja ela qual for, que contribua para uma missão política concreta.
Com a efectiva quantidade de pessoas carenciadas, não faltam certamente instituições a aceitar de bom grado a ajuda, indiferentes à verdadeira moral por detrás do gesto.

Bartoon

Público, Edição 4 Nov 2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

iN & oUT

oUT:
-Engº Sócrates
-Teixeira dos Santos
-Vicente Moura
-Sarah Palin (estou a contar que entre para os iN lá para 2010)
-Bibi
-Luís Filipe Menezes/Manuela Ferreira Leite/Pedro Santana Lopes (ex-aequo)
-Pinto da Costa (só porque sim)
-barbeiro de Barack Obama
iN:
-humm... agora assim de repente... só se for o Lampião, de Évora, que tinha um stand na Feira de Santarém com umas migas bem boas!

em tempo de crise...

vale de qualquer coisa ser colunista - as pessoas não se cansam de ler a mesma coisa, todos os dias, escrita por pessoas diferentes. Também se pode aplicar às eleições americanas. Aliás, melhor para vender opiniões do que a recessão ou eleições nos Estados Unidos é as duas coisas ocorrendo em simultâneo. Se um candidato for preto e o outro republicano com histórico de combatente de guerra, tanto melhor;

vale de qualquer coisa ser mau administrador de alguma empresa com cotação na bolsa, principalmente na área da banca - o Estado e o Banco de Portugal encarregam-se de garantir a subsistência das empresas que se servem da crise como bode expiatório para o seu fracasso. Para alguns empresários, mais do que conveniente é um golpe de sorte;

vale de muito ter olho para o negócio e tomates para correr riscos - constroem-se impérios em três tempos;

mas a grande mais valia numa altura destas é ser comediante.

a utilidade do secundário completo

(ao balcão do governo civil da loja do cidadão)

a menina: agora assinas e pões ali os dois dedos. Depois olhas para ali e tiras uma fotografia. Eu já tirei a minha.

eu: ai sim? Vais viajar?

a menina: sim, para o Canadá. Com o meu pai.

eu: que giro! E estás a ajudar a senhora a fazer os passaportes para estas pessoas? Gostavas de trabalhar aqui?

a menina: sim. Mas quando for grande não vou trabalhar aqui.

eu: então, vais ser o quê quando fores grande?

a menina: vou trabalhar na Zara do Vasco da Gama...

serviço público

Por estas e por outras é que a minha carreira jornalística não medrou... (o que eu gosto do verbo 'medrar'!)

http://sic.aeiou.pt/online/scripts/2007/videopopup2008.aspx?videoId={E06D1533-A5EF-4E4F-8805-F70BBDAB6BB7}
(vídeos SIC)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

visão nº2

Que delícia sentir no seu olhar uma pontada de receio, de medo, de verdadeiro pânico por julgá-la incerta, livre, desejada. Que bom poder prolongar aquele olhar pelo tempo preciso e suficiente que rebenta em gargalhada de entrega, confiança e alívio. Ela está lá, ao lado, para onde sempre volta ou onde sempre espera. Sabe que, se tentasse sair, levaria a caixa de sapatos, os livros e o álbum mas para trás deixaria a alma.

visão nº1

Não pode vê-lo nem pintado a lápis de cera.
Aquele ar de cordeiro manso, a voz melosa, a figura atarracada e a postura submissa e bajuladora são-lhe insuportáveis. Às vezes até tem pena dele. Deseja que nunca ninguém sinta por si a compaixão dolorosa que ele lhe desperta.
Esgota a paciência ao longo da semana de trabalho, ocupado que anda a lamber botas, na sua doente subserviência. Ao fim de semana fica por casa, o mais possível, e tem como única missão tentar ler o jornal e saber qualquer coisa sobre futebol para poder mandar umas piadas porreiras na segunda-feira, se a sua equipa tiver mais sorte que a dos colegas.
Ela acha que ele é infeliz mas o que sabe ela sobre a felicidade?

poesia de ensinamento

calduço ou cachaço?

Só um cheirinho:
'A determinada altura do julgamento de hoje, a tentativa de esclarecimento da intensidade da agressão sofrida por José Ramalho originou uma discussão semântica em redor das expressões "calduço e cachaço" utilizados por alguns depoentes. Uma dúvida que levou o juiz a questionar por diversas vezes: "Mas foi um calduço ou um cachaço?" '
Valentina Marcelino Expresso Edição On-line 21:10 Terça-feira, 28 de Out de 2008
Nem tenho palavras.
Tem mesmo de se ir à fonte porque sintetizar seria de uma grande injustiça para o conteúdo hilariante de todo o artigo.
Não hesitem portanto em clicar.... AQUI!!
p.s. O sr. José Ramalho é que está muito em baixo, coitado. Ainda a semana passada vi um árbitro de campeonato amador levar uma solha no final do jogo e não se passou nada. Deve ter comido um coirato com uma mini depois do duche e pronto. Sem direito a psicólogos e a indemnização.

não sei, mas vou descobrir

"João era fabulista? fabuloso? fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? Projetava na gravatinha a quinta face das coisas, inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar, para farçar o que não ousamos compreender? Tinha pastos, buritis plantados no apartamento? no peito? Vegetal ele era ou passarinho sob a robusta ossatura com pinta de boi risonho? Era um teatro e todos os artistas no mesmo papel, ciranda multívoca? João era tudo? tudo escondido, florindo como flor é flor, mesmo não semeada? Mapa com acidentes deslizando para fora, falando? Guardava rios no bolso, cada qual com a cor de suas águas? sem misturar, sem conflitar? E de cada gota redigia nome, curva, fim, e no destinado geral seu fado era saber para contar sem desnudar o que não deve ser desnudado e por isso se veste de véus novos? Mágico sem apetrechos, civilmente mágico, apelador e precipites prodígios acudindo a chamado geral? Embaixador do reino que há por trás dos reinos, dos poderes, das supostas fórmulas de abracadabra, sésamo? Reino cercado não de muros, chaves, códigos, mas o reino-reino? Por que João sorria se lhe perguntavam que mistério é esse? E propondo desenhos figurava menos a resposta que outra questão ao perguntante? Tinha parte com... (não sei o nome) ou ele mesmo era a parte de gente servindo de ponte entre o sub e o sobre que se arcabuzeiam de antes do princípio, que se entrelaçam para melhor guerra, para maior festa? Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar."

"Um chamado João", Carlos Drummond de Andrade - 22/11/1967 - Versiprosa

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

seda

É conhecida a cudelaria que dá fama a Alter, mas da pequena aldeia, pouco se ouve. Quando avisto ao longe a sua ribeira e a pequena ponte quase perdida, é nessa altura que sinto a saudade. É o regressar à terra que me traz a nostalgia dos tempos em que, miúda, ia ao baile do largo. Havia muito mais gente, gente mais nova, música, petiscos e barulho das festas de verão que traziam de volta os filhos da terra e acordavam os seus habitantes. Durante o dia passeava-se, se o sol deixasse. Descia-se a rua onde viveu a minha mãe, passava-se à porta da casa que a viu nascer e que tinha, como ela me contava, uma porta diferente naquela altura. Já lá em baixo, na fonte, desfiava-se mais uma mão cheia de histórias de tempos que não conheci. Uma vizinha chamava para a conversa, na morna calma do seu terraço, à sombra da árvore com laranjas cor de sangue. Descia-se a colina até à ribeira e apanhava-se com facilidade peixe miúdo que, com pena, eu devolvia às águas do rio. As águas eram mais altas, a nascente mais viva. Agora, a ponte não faz falta e o curso que corre é fraco. Não há peixes. Agora, há uma melhorada casa do povo, porque a população está envelhecida, e uma piscina, para chamar os mais novos da terra e de outras terras ao redor. Mas em mim, o amargo de visitar a terra de longe a longe para ver os mortos, só me traz à lembrança as gargalhadas que aquele chão já me deu. As pedras da calçada só permitem recordações, porque o solo, esse está agora estéril do risos dos gaiatos.

profanar o sexo com... literatura

(retirado de um dos outros)
Não gosto de agridoce.
Há coisas que não se misturam.

Miguel Sousa Tavares

Há já um tempo que ando para depositar aqui algumas notas soltas sobre o Miguel Sousa Tavares mas não se tem revelado nada fácil. O homem, senhor - "doutor", como dirá o Manuel Serrão - não é pessoa de simples interpretação. Não li nenhuma obra que tenha escrito, não sei nada de plágios e o que observo baseia-se, sobretudo, no que costumava acompanhar da sua presença assídua nos Telejornais da TVI e em algumas crónicas que leio por aí. Devo confessar que a sua pessoa não me inspira grande confiança ou simpatia. A sua postura, quer na oralidade quer na escrita, ostenta sempre superioridade, mesmo quando desce ao mais baixo nível argumentativo e isso não é, de todo, agradável. Isto não significa que discorde de todas as suas tomadas de posição, mas fica-me sempre a impressão que, debaixo daquela carcaça aristocrática, há um treinador de bancada de bigode farfalhudo ou uma nascida e criada varina do bulhão. Outra coisa curiosa é que, quando olho para o homem Miguel Sousa Tavares, vejo o menino Miguel, criança educada e inteligente, mais dotada de etiqueta do que de consciência, incapaz de resistir à tentação de molestar outras crianças, se o seu elucidado espírito detectar nelas um fio de matéria criticável. Existe, neste colunista, por excelência, uma capacidade inata que é simultaneamente assustadora e admirável: o ser naturalmente e sem pudores um crítico severo de certezas absolutas e deliberações convictas sobre temáticas que são, no mínimo, discutíveis. É precisamente esta característica que me faz oscilar na visão que tenho da sua pessoa e me impede de formar uma opinião tão célere e contundente como as que lhe são características: o facto de acompanhar o seu discurso ou a sua escrita numa toada inconstante que varia entre o "tu estás lá" e o "és mesmo uma besta".

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

sonho

O sítio era em Marrocos. Não que já lá tenha estado, mas lembro-me de que era esse o destino programado. Lembro-me de que houve uma véspera, preparativos, compras apressadas ao cair da noite. Por qualquer motivo, havia bolos de pastelaria fresca e doces. Escolhíamos: havia um bolo de mármore, sólido, enorme, com óptimo aspecto; outro com uma cobertura brilhante e cremosa, aspecto guloso; e também um doce, que parecia de claras e gemas de ovo, com uma apresentação divinal, como se fossem farófias em organizadas formas de madalenas. Escolhemos um dos bolos. Não era o de mármore como eu queria. Nunca é o que EU teria escolhido, lembro-me de pensar. E pensei também que desconhecia a existência de tão simpática pastelaria mesmo ao lado de casa. Depois, desapareceu a pastelaria. Num salto lá estávamos nós em Marrocos. E vou dizer o que é para mim Marrocos. Calor e cor de barro. Guias turísticos que elaboram percursos sinuosos e difíceis. Casinhas e mais casinhas, encastradas em colinas, com pátios e ruelas em escadaria, viradas para o mar, qual Santorini africana. Mas o mar, o mar é bravo, temível. O mar é medonho. Pensei que nunca conseguiria dormir numa daquelas casas de terraços simpáticos debruçados sobre o mar, fustigadas pelas impiedosas ondas que atingiam com violência as portas, janelas, todas as fachadas. Será que mais ninguém reparava na violência assustadora daquele mar? Nos meus sonhos, só eu me assusto com o mal evidente. Os outros estão sempre a conversar e a rir, em dialectos que não entendo. Só se dirigem a mim de forma perceptível para repetir, incansavelmente, num tom reprovador, que se dependesse da minha cabeça de vento, a camera fotográfica teria ficado para trás. Sinto-me terrivelmente injustiçada. Apetece-me fugir daquele mar e voltar para casa, para perto da sossegada pastelaria que, até há pouco, desconhecia.