sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

tenho de dizer isto

... sem ansiedade, sem ansiedade, mas o balanço foi muito positivo! Sete (7!) livros! E uma gabardina preta.
E a filmografia das jornadas: Shrek, Cidade de Deus, Day After Tomorrow (again!) e um bocadinho do James B(l)ond.
Hoje acordei a sentir a cabeça latejar e pensei na toalha ensopada no Barca Velha de 1999.

"filhoses" e outras neuroses

O Natal já passou e sem ansiedade pelas prendas. Foi quentinho, quase sempre ao abrigo de quatro paredes e de um aquecimento invejável. Os pensamentos mais negativos que tive foram exactamente os que tentaram calar a minha consciência, quando esta deixou, uma ou outra vez, repassar a frustração de saber tantos ao frio e com fome.
O costume, de todos os anos. Braços cruzados, indiferentes ao gesto possível mas considerado vão. Assim sendo, não choremos pelo que deveríamos.
Hoje é o último dia "útil" do ano, para mim.
Tenciono ser literalmente uma "inútil" durante alguns dias que espero que sejam confortavelmente compridos como uma boa espreguiçadela. E, antes de recomeçar, quero uma vendetta que -não obstante a fome no mundo e a abençoada vida que me calhou em sorte- acho que mereço. Por isso, atravesso o oceano e rumo ao equador, em busca de climas quentes e de chilli picante.
Se isto não é uma despedida, daquelas que não gosto de ver nos blogues a anunciar pausa para férias, então não sei o que seja. Talvez não. Talvez os alertas amarelos e laranjas me privem de passeios de Inverno e me confinem ao teclado caseiro algures, durante a próxima quinzena.
Voltarei. Não sei é se antes ou depois do sombrero...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

segunda II

Hoje é segunda e acordei bem-disposta.
Talvez porque não há dias tão bonitos como os dias frios e de céu limpo.
E era assim que estava hoje, quando acordei...

segunda I

Gostava de não ser céptica, assim a roçar o pessimista, e gostava que as segundas-feiras não fossem sempre tão cinzentas ao acordar, como se a semana fosse um comboio negro e interminável que tenho que enfrentar.
Gostava antes de ser uma pessoa sorridente, daquelas inexplicavelmente bem-dispostas e muito espirituais, com uma boa aura, para quem cada dia é uma dádiva.
Se eu fosse antes esta pessoa, não escrevia posts como o último.
Pelo contrário, seria ignorantemente feliz e gritaria a plenos pulmões que o meu Benfica há-de ser sempre o maior.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

a crónica que o Benfica já merecia

Há, na minha vida aparentemente estúpida e sem significado, uma dúvida que se assume com uma enormidade e uma importância desmesuradas, de carácter quase existencial. Quanto mais tento encontrar uma resposta satisfatória, mais a dúvida se levanta em toda a sua gigantesca imponência e mistério. Passa-se então que não consigo descortinar o que é que, de há muitos (demasiados) anos para cá, tem vindo a acontecer com o Benfica, a tal instituição gigantesca, mundial, cujo número de adeptos, todos bem juntinhos, ocupam no planeta uma mancha visível do espaço.
Desde há muito tempo que me tornei uma adepta preocupada com algo muito para além de derrotas pontuais.
É com tristeza que reconheço que este Benfica, que tem vindo a sobreviver magistralmente à custa de glórias quase pré-históricas, não tem ponta por onde se lhe pegue. Desde a direcção, sem carisma, sem liderança, sem estratégia, sem vontade, passando por equipas técnicas que deixam sempre muito a desejar, não esquecendo os médicos e preparadores físicos que valha nosso senhor a quem tenha de passar por eles, nunca mais são jogadores na vida (e isto é misteriosamente recorrente), ninguém se escapa.
Reconheço, tristemente, que não há maneira a dar a volta à coisa e que o Futebol Clube do Porto e o seu Pinto da Costa é que a sabem toda porque ali ninguém pia mais do que deve ou do que sabe. E, incrivelmente, confirma-se que fenómenos inversos se passam nos rivais lisboetas e invictos: o que o Benfica consegue melhor (transformar vedetas do futebol internacional e propensas estrelas em jogadores medíocres) é inversamente proporcional ao que o Porto faz com arte (transformar desconhecidos em grandes jogadores e fazer de treinadores como Jesualdo bons treinadores). São as antípodas do futebol. Aqui, nem o Sporting entra: os seus dilemas caseiros e as suas dores de cabeças não andam neste palmarés que opõe o Porto ao Benfica.
No Benfica, toda a gente manda e não manda ninguém. Há bem intencionados. Há uma estátua do Eusébio, que lá vai sobrevivendo. E há, sistematicamente, no início de cada época, jogadores que chegam, com gana de se mostrar num dos "grandes" da europa. São os mesmos jogadores que, poucas semanas depois se revelam um fracasso, quer pelas suas qualidades duvidosas, quer por um fraco aproveitamento dessas qualidades (este é outro quebra-cabeças). São os mesmos que regridem, ao longo da época, para comportamentos pouco dignificantes da camisola que vestem e do investimento que neles é feito, são os mesmos que se tornam indisciplinados, que afirmam não 'entender' as decisões do mister, que reclamam um lugar ao sol e que eu vejo, inexplicavelmente, de ombros caídos.
Tem sido isto o Benfica. Um clube grande porque o reza a História, em cuja principal modalidade vinga um fracasso anunciado. Começa um novo periodo, em cada mês de Agosto, com uma mentalidade ganhadora e confiante meramente ilusória: um olhar mais atento e facilmente se detectam botas que não batem com as perdigotas. Desde cedo. Mas a massa de gente acredita e deixa-se enganar por torneios amigáveis. No início, admite-se estar em todas as frentes. Depois surgem as más opções, o excesso de confiança, a pouca sorte ou a desculpa das más arbitragens. Acumulam-se maus resultados e, pouco a pouco, vão-se adiando conquistas, até estar apenas em jogo a prova principal que não é eliminatória e se torna muitas vezes pouco competitiva e previsível. Quando menos se espera abdicou-se da Europa, da Taça e a Liga está em risco.
Costuma dizer-se que pior do que aquele que é cego é o que não quer ver.
Com alguma angústia constato que para se acreditar neste Benfica tem de se fechar os olhos a evidências que me recuso a ignorar. Há, neste Benfica, um mal residente, confortavelmente instalado. Há uma apropiação desleal de uma instituição que teve em tempos objectivos concretos e cujas prioridades não eram o aproveitamento económico de uma imagem de marca. Há um orgulho despropositado na exploração financeira da instituição, em detrimento da decadente impressão que o seu futebol mostra ao mundo. E há em cada benfiquista um pretenso orgulhoso, prostrado na vã ilusão de um clube que já não é o melhor do seu País, muito menos do mundo.
Em resposta ao senhor Pinto da Costa, não é o sucesso do seu Porto que me incomoda.
É com um Benfica em que não me revejo, que não consigo conformar-me.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

parti um salto e aterrei na pantufa

É sempre um risco. Tudo é um risco.

Quem diz que não é importante sentirmo-nos tão bem, tão bem, que não resistimos a olhar para as montras apenas para contemplar o nosso reflexo? Usar aqueles sapatos disfuncionais pode ser raro mas resultar perfeitamente.
Então imaginemos o cenário da velha e cosmopolita Avenida. Imaginemos uma Anne Hathaway ou a Charlize Theron. Imaginemos um anúncio de um perfume que nos faz chegar o cheiro através do aspecto elegante das imagens.

Arriscar partir um salto por uma boa impressão.
Valer a pena o risco.

Então por que raio é que só me consigo imaginar dentro de um pijama com pés!?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

mia ao quadrado

Num mundo um bocadinho melhor, não teria apenas dois livros de Mia Couto (ironicamente duas cópias do mesmo título).
E com alguma sorte, não corria o risco de ver (uma vez mais) Pedro Santana Lopes nos destinos da nossa Lisboa.

num mundo perfeito

Deixaste-me esta sugestiva frase.
E é uma permissa para tantas coisas!

Gosto de pensar que num mundo perfeito todos davam o suficiente, ninguém precisaria de mais. Mas acontece que todos pedem mais e poucos conseguem dar que chegue.
Num mundo perfeito, querer e precisar teriam um peso diferente e quem precisa receberia mais do que quem apenas quer por querer.
Num mundo perfeito, começariamos por não almejar a perfeição. Nesse mundo, reconheceríamos como perfeitos apenas alguns momentos, alguns gestos, algumas palavras, uma ou outra fotografia, um cheiro aqui e ali, um dia de sol ou de chuva.
Nesse mundo, com essa humildade, seríamos plenos, que é bem mais importante do que perfeitos.

Na prática, o mundo perfeito neste momento, não nos exigiria nada. Dava-nos tudo de mão beijada. E depois, o nosso destino não era uma conquista e em vez de chorarmos de cansaço e de alegria pelo fim da jornada, enterrávamos de vez o entusiasmo que é viver.


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

let's call her... Rachel

A vida está sempre a impedi-la de ser uma pessoa apaixonada.
Quando quer gritar em delírios saudáveis, a racionalidade chama-a à razão como uma âncora inflexível.
Quando anseia por serenidade, surgem não se sabe de onde os gritos de desespero, de que tanto se arrepende.
É caprichosa e doentia a forma como a vida lhe mina a vontade própria.
O que pode ela fazer à vida, quando é a própria vida que a controla?
Nunca tomou uma decisão que contrariasse as imposições de um destino aceite.

Tem um marido, uma filha, um carro e um cão.
Não ama mais umas coisas que outras. Não distingue o material do afectivo.
É assídua, eficiente e profissional.

(custa-me tanto ver gente que vai sobrevivendo.
a minha insatisfação constante não admite conformismos.
ao menos isso.)

a reflexão inútil

Acho que o frio me congelou por completo.
Estou congelada até às entranhas. Até o pensamento está congelado.
Detesto o frio relativo que faz em Portugal.
O que é que são dez graus?
Dez graus é o tipo de temperatura que ainda nos permite pensar em moda. Naquela moda para a qual dez graus já não permitem calor e conforto. É a temperatura que nos inviabiliza considerar roupa de neve. Ridículo.
Estou encurralada.
E mexo no rato com muita dificuldade.
Ar condicionado? Bah!
A minha fraca circulação sanguínea não se deixa enganar por vinte e oito graus que aparecem no display.
E eu até tenho vergonha de temperar o ar na casa dos trinta.
Já olham para mim de lado.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

a língua inglesa soa sempre bem e a americana então!

As 'estórias' de gangs e grupos rivais que se confrontam em negócios obscuros, com uma pitada de assassinatos à queima-roupa a surgir em catadupa, não são muito comuns em Portugal. Pelo menos as notícias não vivem disso. O ano passado, a noite do Porto foi a excepção à regra e o terror andava espalhado pela Ribeira. Desenrolou-se uma investigação por parte da polícia judiciária que parece andar a dar frutos. O nome de código desta operação é 'Noite Branca'. Operação não. Processo. Em Portugal diz-se processo. Muito mais burocratizador, na minha opinião. O nome 'Noite Branca' até soa bem. O pior é quando chegamos aos envolvidos. Isto se fosse na América, tinha muito mais impacto. Consigo pensar numa variedade de nomes e nicks sonantes para esta malta. Jack, Frank, Tony, Louie, Nicky, Ty, Joe, 'Hammer', Bergman, Rick, todos adequados. Mas isto era se fosse uma 'operação' na América. Mas não. É um 'processo' e é em Portugal, no Porto. Ora os nomes dos envolvidos andam nesta onda: 'Berto Maluco', Aurélio Palha, 'Pidá', Natalino, Ilídio Correia, Mauro, Ângelo, e 'Beckham'.
Dito isto, I arrest my case.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

dolce di cocco i tartufo

o que eu gosto é do raffaello... da ferrero.
é uma chatice é o coco ralado que se espalha por toda a parte.
de chocolate, as trufas.
sublimes.

entretanto...

... vieram oferecer-me uma serenata. Das docinhas, não das cantadas. Não é o meu bombom preferido, devo confessar. É demasiado grande. Se isto fosse mesmo uma serenata, seria o equivalente a um stairway to heaven ou a um hotel california. De toda a maneira, gosto de todo o tipo de comida que traga papelinhos com mensagens ou brindes e outras paneleirices (o que eu gosto de pacotes de açucar com dizeres, anedotas e jogos. Até das mensagens em espanhol que vêm em alguns invólucros de pensos higiénicos. E devo dizer que por causa dos cuidados com a saúde e a higiene, a ausência da fava e do brinde do bolo-rei é um pecado capital! Foi-se o único elo de ligação entre mim e o dito). Adiante. A minha serenata reza assim:
"Acho que está rolando uma química entre nós... e olha que essa nunca foi a minha matéria predileta"
São dizeres brasileiros mas olha, terá que servir!
(e até sempre gostei mais de Química do que de Física...)

o que não é fácil de entender

Na época do menino Jesus, é fácil tentar fazer o povo acreditar em pequenos milagres. É fácil fazer-nos acreditar que todos os donativos que damos chegam ao seu destino, porque nós próprios gostamos de encher o ego com a sensação de que fizemos o bem. Fizemo-lo, para todos os efeitos, independentemente do rumo dos acontecimentos. Disso, a nossa consciência liberta-se facilmente.
O que não é assim tão fácil é compreender o raciocínio da economia global.
Eu sei que economia e finanças são coisas diferentes e havia muito para dizer sobre isso, mas nós não temos tempo (nem vontade). O que apetecia mesmo era respostas simples, breves, sem gargarejos intelectuais, sem tecnicismos que o português pequenino e iletrado, o cidadão migrante e trabalhador, não entende de todo. Porque são estas as pessoas afectadas pela crise.
Os bancos, em época de crise, recorrem - excepcionalmente - ao estado que lhes faculta uns trocados. A intenção é boa. As pessoas dependem dos bancos, entre outras coisas. Mas o que na realidade acontece com esses empréstimos traduz-se num serviço de crédito muito mais comprometedor entre o banco e o cliente, aumentos das taxas e piores condições de financiamento. E não se pense que não sou totalmente contra o empréstimo desenfreado a todo o pé descalço que gosta de trocar de carro em anos ímpares. Mas reconheço, obviamente, que precisamos dos bancos. Porque, ao contrário dos seus administradores, os nossos vencimentos não nos permitem ter uma casa assim do pé para a mão. E já não pedia mais nada. Normalmente é assim: a alternativa ao banco seria o Euromilhões e o magano anda por perto mas teima em boiocotar-nos a esperança, quando tudo o que nós dizemos é 'ao menos que desse para pagar a casinha!' Enfim. Há também a indústria automóvel que precisa de ajuda. Porque é importante fazer carros, vendê-los, levá-los para casa e enfiar o Smart dentro do Golf dentro da C-Max (porque já não há estacionamento que resista e um lugar na cave custa umas milhenas e só la cabe mesmo o Smart). Pelo desemprego até voto a favor mas a verdade é que as ajudas são aprovadas e nos despedimentos não há volta a dar. Esperem lá. Estou a descobrir que isto da crise é um periodo fértil é para o fornicanço entre a classe alta. Não hão-de faltar aí criancinhas em 2009 (ano de recessão ou de prosperidade, sr. ministro?) a nascer de rabinho virado para a lua!
Esta constipação e o telefone sempre a tocar não me dão um segundo (para quem pensa que tou a laurear a pevide e não a ser fustigada ao longo do meu desabafo) ...

o idioma que a generalidade entende

" (...)
- Já reparaste que este ano quase não se vêm os Pais-Natal nas janelas aqui nesta zona?
- Pois é...
E assim, se deu conta de que se entrava, de facto, em recessão."

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

anotações da semana

- para quem dizia que nunca se engripava, aqui fica um número a registar: 39,2º, que foi o meu pico de febre este feriado (descobri que sou mariquinhas, do tipo de andar sempre a gemer e a murmurar. Audazes aqueles que todos os anos passam por isto!);
- diferença entre cento e noventa e poucos e dois mil e tal euros: estrela nº 5 do Euromilhões;
- diferença entre cento e noventa e poucos e sessenta mil euros euros: número 21 (em vez do 26) do Euromilhões;
- número de bofetadas virtuais que dou ao Tony Rabbit lá do escritório todos os dias: 8 (se não ouvir muitas vezes a muletazinha a passarinhar para lá e para cá);
- tempo médio que aguento a ver um filme deitada no sofá (ultimamente): 45 min.;
- número de golos que o glorioso dá (ou leva!) num só jogo: 6
- almoços e jantares de festas até ao fim do ano: cerca de 2 por semana. Com direito a tudo. Para saciar o palato e distrair a cabecinha de coisas menores, como a fome no mundo.

(Ainda em convalescença e já a querer ser mordaz. Depois as coisas não saem bem.)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

amizades III

Dito isto, é surpreendentemente bom descobrir, passados anos, que tenho amigos que não sabia que o eram.

(daqueles a quem os olhos brilham só de me ver)

amizades II

Depois há as outras pessoas.
Essas, abundam na minha vida.

(porque tudo o que não é importante, é desnecessário)

amizades

Estou convencida de que é realmente difícil fazer boas amizades. É complicado conhecer gente interessante e ter a capacidade para gerir relações de uma forma intensa, duradoura e que valha a pena. É difícil ter a disponibilidade, o empenho, a boa-vontade, a entrega e o estado de espírito que uma relação de amizade exige. Quem acredita que a amizade é um 'sentimento' bonito e espontâneo está redondamente enganado. A amizade é um ofício doloroso para muita gente. Exige sacrifício. E depois, claro, dá os seus frutos. Mas para lá de todo o esforço e dedicação, é preciso sorte com as pessoas e com as circunstâncias.
Eu não sou muito empenhada. E também nunca fui muito sortuda.
Tenho poucos amigos graças a uma conjunção fatal de preguiça e meia dúzia de leis de Murphy.
Vivo - amargamente - bem com isso.

pompa e circunstância

Estive na ante-estreia de "Amália - O filme".
Ia na expectativa de me saber rodeada de algumas pessoas que privaram com a artista e com a mulher por detrás dela. Estavam lá algumas pessoas que encaixam nessa franja. Muito poucas.
Não sei se esperava uma profunda presença espiritual.
De resto, foi uma passerela do cinema português.
Uma produção que rompe qualquer coisa com o tradicional, mas cuja mediatização é mais inflaccionada pela promoção comercial do que pelo valor artístico.
Salvo raras excepções, e talvez porque mais atenta a alguns pormenores técnicos, acho que o processo de produção denota mais brio que o processo de representação. O que, infelizmente, não deixa de ser comum no cinema português.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

contas

Num dia em que mal tenho tempo para respirar, faço, inadvertidamente, balanços.
Preocupa-me o conflito emergente entre a Índia e o Paquistão.
Preocupa-me este frio, por quem não tem como se proteger.
Preocupa-me o contraste hipócrita entre as minhas preocupações pessoais e as coisas que deviam realmente ocupar o meu espírito.
Preocupa-me não saber se, como e para onde irei hibernar por uns dias, religiosamente deixados de parte.
Preocupa-me esta ansiedade boa e estranha que me tem distraído.
Preocupa-me que o tempo me dê cabo do fim-de-semana.
Não me preocupa nada a ladaínha cansativa dos professores e dos sindicatos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

sax or not to sax

gosto do sax na careless whisper.
não gosto do sax cansativo dos instrumentais do dave mattews.

i know, i'm an ordinary and tasteless person.

contra factos...

Agora até concordo com o M.S.T. quando ele fala mal do meu clube.

!!

Também, não é novidade. Os conteúdos são os mesmos: ele fala mal (como sempre falou) e eu não me revejo no espírito de euforia infundada e sou, assumidamente, uma inimiga interna de há muito tempo a esta parte.

boas colheitas

apenas Março e Abril foram meses de produtividade 'par' no meu blogue.
talvez 2009 até nem seja um mau ano para avistar esse pássaro de bocarra grande!
por outro lado, há o problema da recessão...

flirt

Era um bar pequeno, escuro, com néons incaracterísticos, máquinas de jogos, grupos de miúdos novos espalhados pelas mesas e um empregado com pinta de fuzileiro. Lembra-vos alguma coisa? Claro que não. Podia ser antes um clube de jazz ou um piano-bar, sofisticado e amplo, com um bar comprido, de madeira polida e espelhos. Podia estar a beber um Manhattan em vez de um Baileys e a coisa assim tinha mais classe, mas não foi assim. Na verdade, não havia na porta da rua um porteiro que nos sorria enquanto saíamos para a noite cosmopolita e iluminada de uma fine avenue. Havia uma porta pesada, que abri a pulso, que dava para um passeio vulgar, em frente a um cabeleireiro e a uma loja de ferragens, numa tarde cinzenta, tão incaracterística como os néons do bar. Também não havia um carro de luxo. Mas lembro-me do cheiro dos estofos envelhecidos e empoeirados do Fiat.
Entretanto acordei e apercebi-me que não sou uma gaja de flirts. Otherwise, as coisas teriam sido muito diferentes...

domingo, 30 de novembro de 2008

cat s. - sad lisa



Não sei porquê, tenho estado a pensar nesta música.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

jorge palma II

"a dependência é uma besta
que dá cabo do desejo
a liberdade é uma maluca
que sabe quanto vale um beijo

enquanto houver estrada para andar
a gente vai continuar
enquanto houver estrada para andar
enquanto houver ventos e mar
a gente não vai parar
enquanto houver ventos e mar"

Depois, de vez em quando olhamos e parece que a estrada acabou mesmo e que temos de ser nós a compôr o resto da canção...

supremacia

Nós, portugueses, habituámo-nos a dizer que pior que nós só os gregos. Eles dizem o mesmo a nosso respeito.
A diferença é que eles têm razão.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

vicky cristina barcelona



Quase perco a vontade de ir ver o filme.
Tanta beijoquice.
Não se deviam expor beijos desta forma, aos quilos, aos litros, aos molhos.
Os beijos são qualquer coisa de muito especial. Nada como o sexo.
Fico pouco à vontade com muita beijoquice à minha volta.

vitor constâncio

Ao ouvir ontem o Dr. Vitor Constâncio em entrevista à RTP, lembrei-me de uma anedota que a minha irmã costumava contar. É um bocado ordinária e portanto não avanço por aí. Ainda assim, e como acontece na dita, o Vitor Constâncio ia falando e eu, sozinha em frente ao écran, ia alvitrando, incontrolavelmente, alguns palavrões ao doutor (tal como faz a sujeita da referida anedota). Ocorreu-me também que, pela primeira vez, compreendi a necessidade da existência nos nossos canais televisivos de pessoas como a Manuela Moura Guedes. Por momentos, desejei que fosse ela ali, no lugar da exemplar e sempre impecável Judite de Sousa.

azeitonas fritas

Há dias, a caminho do trabalho, vi-o em frente ao restaurante onde trabalha. Atravessou a estrada com dificuldade, arrastando um enorme recipiente do lixo. O avental justo ao corpo, amarrado em três voltas, a denunciar a sua silhueta débil, quase linear. Lembra-me um screen-bean. Vem-me à memória aquele fim de tarde de verão, entre caracóis e pica-pau, em que me deparei com a personagem. Os seus gestos delicados, a voz arrastada e demasiado afectada, a aparente descalcificação dos pulsos e a postura de mulher-a-dias. Não me esqueço. Gostava de o ver em família. Deve ser caricato.
(Às vezes apetecia-me ser daquelas pessoas que não têm pudor em ficar a olhar, embasbacadas, diante de uma aberração. Mas não consigo. Chatice!)

fio condutor (quando o novo dia é a continuação do anterior)

Apetecia-lhe insultá-lo, gratuitamente, sem dar explicações.
Mas não o faz e sabe porquê. O insulto gratuito não lhe dá o sossego de uma discussão fundamentada. Ele é que é dado aos silêncios. Ela disseca os motivos.
No entanto, também sabe que em si os humores pousam em placas de esferovite a boiar. Já nele, há normalmente uma razão para a desarmonia.
Sempre achou curioso que reconheça em si a inexplicabilidade, enquanto exige dele uma justificação para tudo. Não é apenas por saber que nele há motivos e em si apenas mistério. É por querer encontrar nele a razão que, nela, é ocupada pelos labirintos da alma.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

contra golpe à apatia

No momento em que entrou, agarrei o elefante e, com toda a minha força, arremessei-o contra o móvel da sala. Não foi como nos meus sonhos. Nos meus sonhos o habitual é insurgir-se contra mim uma espécie de campo magnético que me desarma quando tento reagir. Cada gesto de força impulsionado pela ira é, normalmente, travado por uma barreira invisível. Frustrada, acabo por ver os meus próprios movimentos em câmara lenta, esgotados, inversos ao que ao que me pede a vontade interior. Não foi nada assim. O elefante (como elefante que é) atingiu estrondosamente a madeira e o vidro do móvel, estilhaçando os objectos outrora organizadamente dispostos.
A sensação de alívio.
Tão bom sentir que, por uma vez, tive a força que me falta nos sonhos.
Durante breves segundos gozei do silêncio de espanto e medo à minha volta.
Depois, aliviada, deixei-me cair no sofá com um sorriso nos lábios.

apatia

Os meus males, concluí recentemente (há poucos minutos, para ser precisa), são maioritariamente, para não dizer na totalidade, psicológicos. Não no sentido de paranóicos ou imaginários mas no sentido de resultantes do foro mental, emocional, metafísico quase. A minha resistência imunológica de ferro (nomeadamente às constipações, como já referi aqui noutros contextos) é a grande responsável pela minha debilidade espiritual, sempre tão exposta e influenciável numa proporcionalidade assustadoramente inversa à da fraca sujeição ao vírus gripal. Mas há mais factores que favorecem esta minha non-grata permeabilidade. A instabilidade e o desequilíbrio, que ainda não estou certa de coexistirem numa relação de irmandade ou de hierarquia causa-efeito e que provocam imensos danos. De tal forma que não estou muito certa se, tudo isto que há minutos concluí, terá o carácter absoluto e definitivo que gostaria que tivesse. Sabe bem, contudo, permitir-me serenamente estas considerações. Normalmente, tudo isto se manifesta de forma sobejamente neurótica no meu dia-a-dia.

dito isto

nada a acrescentar!

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

pó de arroz

para cobrir o nariz
para esconder o coração
para rir cá dentro do milagre da vida

os homens não usam pó de arroz

há coisas de que só nós somos capazes...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

oração

rogo-vos:
fechai-me num calabouço e deitai ao rio a chave, no dia em que eu fizer uso (e abuso) da preciosa palavra para dizer tão pouco, como aqui se verifica...

controvérsias

Ainda estou à espera que me expliquem qual a grande obscenidade na afirmação de Manuela Ferreira Leite acerca de não poderem ser os jornalistas a escolher as notícias.
Não é uma declaração fascista, nem polémica, nem é nenhum drama social ou uma terrível ameaça ao bom funcionamento da nossa grande sociedade democrática.
Infelizmente, os "jornalistas" (que dito assim representam de um modo geral toda uma linha editorial) acabam por ser sempre controlados por dissimuladas forças de poder.
Isto significa que muitas vezes há, na política como em todos os sectores sociais de peso, desigualdade na abordagem e discussão pública de assuntos de interesse.
O que foi dito pela líder social-democrata foi devidamente contextualizado, na sequência de uma notícia considerada pela própria demasiado breve e secundária em relação ao alinhamento noticioso. Podemos sempre pôr em causa os seus critérios de protagonismo mediático mas acusá-la de querer controlar ou limitar o trabalho da comunicação social? Tenham juízo!
Para mim, quem não percebe o que ela quer dizer, é estúpido.

(que sociedade de abutres mal-paridos, sempre a ver se apanham algum bocadinho de carne fétida que possam transformar numa tragédia socio-política)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

a fava ditadora

ando muito repetitiva.
e armada em activista (quase como se a política me dissesse alguma coisa!)
pior ainda: ando com tendência para pensar que o que se chama hoje de democracia não é mais do que libertinagem, numa sociedade sem disciplina de qualquer espécie.
sim, acho a disciplina e a formação moral necessárias.
e não sou salazarista.

só restarão vencidos*

Já o tinha dito antes. Harmonia e discórdia andam de mãos dadas no meu relacionamento sensitivo com Miguel Sousa Tavares. Mas dou a mão à palmatória ao ler o seu último artigo do Expresso, que revela algumas considerações sobre o actual panorama do sistema educativo. E devo confessar que me sinto satisfeita ao ver reflectido nas suas palavras o rigor da minha opinião. Não porque procure espelhar-me na sua narrativa intelectual, mas porque já começava a sentir-me sozinha na minha tomada de posição em relação a esta crise que se tem vindo a revelar tão conveniente para tanta gente.

Além do festival circense criado por milhares de professores, com a ajuda da comunicação social, que me deixa profundamente descrente nas suas capacidades, há uma exploração política global, que se marimba para a qualidade da educação. Os estudantes andam à deriva entre a alienação sobre o problema e o aproveitar o embalo para, também eles, contestarem a ministra, as políticas, o Sócrates, e tudo o mais que sirva de pretexto para uma manifestação.

No outro dia ouvi (várias vezes, em vários noticiários) uma professora que afirmava, com ar de orgulhosa ironia, que não gostava da ministra porque ela "era feia" e porque a "ofendia sempre que falava em público" e que, por isso, não gostava dela. Pensei para mim que a ministra (que nunca defendi) também não se deve sentir muito bem quando a retratam em posters menos lisonjeiros, quando a insultam pelas ruas, em frente às televisões, como os professores têm feito, ou quando lhe atiram ovos e tomates, como pegou moda entre os alunos. Pensei que àquela professora tão determinada, deveria ter sido colocada uma questão pertinente depois do seu comentário, como por exemplo, que alternativa válida sugeria ela, enquanto docente, à proposta de avaliação avançada pela ministra da educação.

Também me parece que o Sr. Mário Nogueira tem tido demasiado protagonismo, ostentando sempre uma postura intolerante face ao ministério, postura esta que nada tem de construtivo e começa a roçar uma arrogância insuportável. A FENPROF aparenta estar determinada numa tarefa que não deveria, de todo, ser a sua: fazer o papel de opositor político. Tem, circunstancialmente, o apoio de vários partidos que não medem esforços para competir entre si, na devoção à causa anti-Maria de Lurdes Rodrigues, mais uma vez, por uma questão de estratégia política. Creio que haverá no PSD uma ligeira contenção, pelo menos por parte de Manuela Ferreira Leite, o que faz todo o sentido: rejeitar este tipo de reforma através da contestação popular é fácil, mais difícil é apresentar uma alternativa satisfatória. Obviamente que o principal partido da oposição não quererá tomar uma posição que vá contra a população, a quem deve aliar-se, não podendo contudo admitir que em relação a este assunto o melhor é deixar tudo como está (o que certamente irá acontecer).

A realidade é que, por desconcertante ignorância ou pura teimosia, esta ministra da educação tem passado por provações mais difíceis que os seus últimos antecessores. Tem declarada guerra aberta por parte de um sector que mediatiza a sua causa sem qualquer pudor e não se poupa a esforços para convencê-la a desistir, mas mais importante que isso, não tem no seu partido ninguém com o estofo necessário que lhe possa valer. E não creio que esta ministra tenha alguma ilusão relativamente ao chefe do governo: está mais do que provado que não será ele a abdicar da () escassa margem de manobra que (ainda) tem para fingir que governa.

* título do artigo de Miguel Sousa Tavares

dia de Sereia*

Hoje é um dia especial.
Do mar, cantam os seres.
Ouvem-se raias e medusas;
polvos, lulas e chocos;
Ouvem-se os tubarões, as baleias e os golfinhos;
Ouvem-se estrelas e ouriços do mar;
tartarugas centenárias, medusas e peixes-palhaço.
Ouvem-se, de outras sereias*, melodias de cristal.

Querem saber de ti.

Eu também quero saber de ti.
Queria-te próxima, hoje.
Se pudesse, ia dar um passeio contigo pela manhã. Podíamos ir à fnac, ver livros e mais livros e cds. Depois íamos à natura, ver se têm pantufas giras, e comprávamos dois pares iguais (sendo que as tuas seriam mais pequenitas...). Depois almoçávamos juntas. Numa esplanada de inverno, à beira da praia. Nas azenhas, nas maçãs, na praia grande... a aproveitar o sol que ainda se sente quente. E levávamos a bolota e o fox, para correrem até cair para o lado. Havíamos de rir muito. Por fim, íamos a um qualquer cinema, ver o John Travolta a dançar (estou certa de que se arranja sempre um filme com o John Travolta a dançar...).

À noite, juntávamos um mundo de amigos e partilharíamos o néctar dos deuses (que é como quem diz, faríamos um jantar com o pessoal todo) para que pudesses matar as saudades - que eu sei que tens!

Finalmente oferecer-te-ia o melhor presente do mundo: tempo. O Tempo.
Dava-te de novo o dia para poderes estar com aqueles de quem te sentes tão afastada. Para mimares e seres mimada. Para poderes parar, e ficar a contemplar os sorrisos que se soltam, as palavras que se perdem, os olhares que te dirigem.
Era o que faria, não andasses tu perdida pelos teus oceanos; não andasse eu absorta nesta minha vida terrena...

Sereia*

Neste teu dia, desejo que o futuro se desenhe com traços definidos e cores alegres.
Desejo que possas sempre fazer as tuas escolhas, sem medo.
Desejo que a tua felicidade se sobreponha a todas as dificuldades que surjam.
Desejo que o teu mar se preencha de corais fantásticos.

Muitos parabéns, neste TEU dia!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

coisinhas

já não gostava tanto de um toque de mensagem desde o ti ri ri - ti ri ri - ti ri ri do Motorola d520 do primeiro ano da faculdade*. nem me importo quando as mensagens são do operador ou do holmes place! gosto do som cristalino do message 4.aac, pronto! lembra-me sushi, origamis e espanta-espíritos.

* a teresa compreende-me como ninguém!
(bolas! não pensei que rever o meu primeiro telemóvel me emocionasse! Lembrei-me de coisas que nunca imaginaria...)

assim de repente...

... ocorreu-me que se este blogue fosse fruto de uma concepção biológica, eu estaria prestes a dar à luz.

bloqueio céptico

Sofro de uma incapacidade patológica de confiar.
Não consigo deixar-me cair de costas, cegamente, no colo de alguém. Sou descrente em relação a tudo o que implica depender da minha entrega total a algo.
Quando assim não parece, é apenas porque dissimulo bem a minha dificuldade em acreditar ou opto por me resignar à felicidade de não querer saber de desenganos.
Não é tristeza, nem mágoa, nem esterilidade.
É uma espécie de frigidez emocional que às vezes me atormenta, mas que aceitei fazer parte de mim.
Chamo-lhe bloqueio céptico.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

coen e kusturica

... estiveram lado a lado no meu cinema de fim-de-semana.
Foi um bom elixir cerebral para varrer o lixo cinematográfico que andava a acumular.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

simulacros

O que eu gosto de um bom simulacro!
É uma daquelas coisas em que 'boa intenção' e 'utilidade' se aplicam tão bem como 'Magalhães' e 'inovação nacional'...

press: um dos títulos da semana

Fucile: "Comi uma cotovelada nos dentes"

voz-múmia

O Aurélio Gomes e a Teresa Gonçalves fizeram ontem a experiência de apresentar o Janela Aberta, no Rádio Clube Português, de olhos vendados, em ode à estreia cinematográfica do Ensaio sobre a Cegueira. Foram quatro horas de emissão às cegas.
Louvo a experiência. Ainda mais porque deve ter sido medonho ouvir, de súbito, a voz de Saramago. Apenas ouvi a repetição desse momento único e, mesmo preparada para o que iria ouvir, imaginei o susto que apanhava quando ressoasse no estúdio, de surpresa, aquela voz-múmia.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

apontamentos..

* ninguém como nós para agendar um jogo, entre Portugal e o Brasil, a realizar em Brasília, a meio da semana e entre jogos da liga, com transmissão em Portugal por volta da meia-noite, cuja organização (entre aviões fretados, instalações de luxo e medidas de segurança) ascende a um milhão de euros.

* ninguém como Berlusconi para misturar, sem pudores, política e futebol (em jeito de surpresa).

(Como diria o Dr. Mário Soares, "o mundo é cada vez mais um só", mas partido em duas partes terrivelmente desiguais, digo eu.)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

D. Leonor

Dizia-me a parvinha assim: "Agora vai clicar onde diz 'setep' (set up...) e depois abre-se uma página. Tem as instruções e tal para o 'deulôd' (download...), não interessa, vem para baixo, até ao fim da página e depois diz Topo. Clica em Topo e abre-se outra página (???). É aí que encontra o programa de validação que tem de instalar. Depois fica com ele no meio (?) ambiente de trabalho."
Dizia-lhe eu, mentalmente: "A senhora é tão tolinha, tão idiota, tão infinitamente burra, que não se apercebe de como é irritante ouvi-la a pensar que está a usar termos em inglês, enquanto vai engolindo várias vezes a saliva acumulada por esse mastigar incomodativo de pastilha elástica; como é insuportável perceber que no meio de tanta tagarelice não está a dizer nada de nada; como é patético que não perceba que, quando clica em Topo não se abre uma nova página, volta sim para o Topo da página a que acedeu e que arrastou até abaixo; e, sobretudo, como tenho vontade de a sacudir, como se faz às melgas, de lhe gritar que se cale e dizer-lhe que devia ser grata a deus nosso senhor das telecomunicações por não falar ainda por equipamentos 3G que lhe permitissem ser reconhecida na rua. Assim sempre pode ir para casa descansada, pois há por aí um mundo que não lhe reconhece a estupidez personificada."
Rematava com um: "Passe bem".

jorge palma



No Rádio Clube Português, por volta das 13h30... (quando já perdia a esperança de ouvir qualquer coisinha de jeito numa qualquer estação de rádio. Também ando farta de música. E de gente. Preciso de férias.)

vitrúvio e a proporcionalidade

Gostava de ter em mim a rigorosa proporcionalidade do homem de vitrúvio. Do ponto de vista racional/emocional, claro.

BdP

E o que eu gosto de ouvi-los dizer coisas do género: "Em França, ninguém discutiu uma falha de supervisão"*, a propósito de um buraco financeiro qualquer...
"... porque me crucificam desta maneira, quando os nossos parceiros europeus, tão mais inteligentes e desenvolvidos do que nós, praticam fraudes inconsequentes? Não é justo!"**

* isto foi o Vítor Constâncio
** isto sou eu
Que giro seria o nosso Vivi numa cela com o (guloso) Bibi...

amêndoa amarga

Não há pachorra para noticiários, para a nossa política, para o nosso futebol, para o nosso sistema financeiro, para a nossa administração interna e para o oportunismo generalizado, tanta é a falta de pudor e de competência.
O nosso PM é uma anedota, mesmo dentro do seu partido, e finge não perceber. O PR, com o devido respeito, é um pachá, daqueles que fazem jus ao nome: mole, molinho como uma lesma, cuja principal preocupação é cumprir o seu mandato sem levantar grandes ondas. Se o primeiro só faz aparato de grandes feitos que não passam de fantochadas de auto-promoção que não surtem efeito nenhum, o segundo tem a displicência de um presidente de uma nação estável e calma, que navega em águas brandas. Têm em comum o facto de viverem as suas ilusõezinhas pessoais e aparentarem com isso uma felicidade intocável.
Neste país, a democracia é qualquer coisa que se invoca para justificar erros crassos e transformá-los em alternativas governativas.
Estou quase tão farta disto como da Brandi Carlile com a sua story.
Felizes os que bebem com sofreguidão os Morangos com Açucar e acompanham com interesse jornalístico as caretas teatrais da M. M. G. e as imposições opinativas do todo-poderoso M. S. T.
Quando conseguir acompanhar um serão televisivo da tvi serei resignadamente feliz.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

toma lá, querido. Amor em estado bruto!

do que é que estás à espera?!


nas bocas dos outros

"Entramos agora numa nova fase. O mundo tornou-se multilateral e o hegemonismo americano arrogante vai desaparecer. É preciso ter isso em conta. Como o multiculturalismo e o multirracismo. O mundo é cada vez mais um só".
Mário Soares, "Diário de Notícias", 11-11-2008
Correndo o risco de estar descontextualizada, parece-me algo demasiado ingénuo, vindo de quem vem...

manifestação efusiva ou rastreio ao cancro da próstata?

Sempre achei que um balneário de futebol soava a mistura interessante de maus odores e múltiplos afectos.
Sobre a primeira não haverá grandes dúvidas e este Meireles acaba de me confirmar a segunda.
Sou uma pessoa muito observadora.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

a propósito de uma banca de artesanato em Santarém

Magalhães para toda a família. Inclui tinteiros. Não inclui corrector ortográfico.

referências

brilhante...

a meio de uma conversa...

"... não sei o que pensam de mim, mas sei que estão errados."
E também outras balelas de professores com medo de avaliação...
(Ah, pois! Até me explicar, sem cinzentos, como a coisa funciona, vou continuar a ser uma orgulhosa ignorante.)

enquanto as criancinhas continuam a crescer estúpidas....

... vai-se-lhes 'oferecendo' Magalhães (pioneiríssimos!!) desde a primária e gastando o que sobra em estudos sobre o aumento da violência entre os mais novos, as influências negativas dos conteúdos da internet e os fenómenos de morte súbita em jovens utilizadores compulsivos de jogos electrónicos.
O segredo está nas coisas simples da vida.
É o que nos ensina a experiência.
Mas continuamos a corromper os 'nossos' filhos. Todos os dias.

... e ao Soares Franco, uma palavrinha apenas:

... PAIXÃO!

(obrigada por, mais uma vez, não me desiludir com as suas hilariantes respostas. É um poço de virtuosismo este homem! E genuínamente sportinguista, com o seu ar mui nobre. Ai ai...)

monday 'sorning'

Argh!

Acabaram-se as fatias de pão saloio, barradas com manteiga, com uma fatia de tomate encarnado, generosamente cobertas com queijo e polvilhadas com garlic powder e oregãos - no forno. O cheesecake caseiro quente e frio e o bolo brigadeiro; acabou-se o abacaxi delicioso de S. Pedro; o queijinho Cachopa e os outros todos - 'nham! - e as batatas crocantes da Seara; acabou o jogo, o prolongamento e os penalties - até que enfim - e bem vinda a noite cerrada, que traz consigo o silêncio desejado e o descanso. E os pesadelos e latidos de um cão qualquer e um amanhecer precoce. E o dia traz papéis, telefone e cheiro a café forte numa sala partilhada com pessoas e números. Burocracias, cartas, horas, seguros, cheques.

Ufa!

Welcome to the jungle.
Uma boa semana para todos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

saúde

Constato, sem grande entusiasmo, que sou imune a constipações. Estou longe de compreender o que é uma verdadeira constipação, e ainda menos uma gripe. É-me impossível imaginar o padecimendo das pessoas que, em princípios de Outubro, correm aflitas a levar a vacina 'do ano', que deve mudar em função das novas vertentes da maleita. É como um up-grade do anti-vírus do pc que se vai fazendo, como é de conveniência.
Com pena minha, não sei o que isso é.
Não querendo menosprezar o sofrimento provocado pelas febres altas, pelo nariz congestionado e pelas dores no corpo, considero que as constipações até fazem falta. Senão vejamos. Ter febre, tosse, especturação, não é mais do que experimentar uma série de sintomas que nos permitem depois refortalecer os nossos anticorpos. Eu nunca sou posta à prova. Mesmo quando apanho frio, chuva ou passeio o cão de havaianas sob a lua gelada de Sintra. Até comprei em tempos um termómetro electrónico na esperança de que me viesse a dar jeito, mas não. Nada. Já desisti. Ou melhor, pela experiência do meu rico paizinho, coitado, que não há vacina que lhe valha, até já pensei em vacinar-me também, a ver se a coisa invertia. Mas acho que isso também já é profanar este meu dom alienígena.
Estou convencida que a mim, quando me der alguma, vou de charola...

Porta 17 Sector 14 Fila J Lugar 8

A noite de ontem foi de caminhadas a passo largo, a passo de corrida. Foi de reencontro com o mundo social que se mistura entre si, no regresso a casa, fora do habitáculo impenetrável do automóvel. Adaptação às diferenças.
Foi noite de esperar, irrequieta, por um comboio enquanto outros passavam. Pressa e espera. Pressa emergente, espera impotente.Foi noite de precipitação e desejo de voltar o tempo atrás. Noite de acumular de bilhetes, uns grátis, outros nem por isso. Noite que, mais tarde, alguém chamou de 'desinspirada'.
Foi noite de resignação. Noite de apanhar o comboio e voltar para onde tudo havia começado. Noite de, ao chegar, fingir que nunca tinha partido.
Como se consegue tornar romântica uma noite de frustração....
Se as matemáticas não me falham: um bilhete a uma média de vinte euros, com entrada apenas na segunda metade, passa para dez; com saída antes do final, tiram-se mais uns cêntimos; descontando cinco e quarenta para transportes públicos sobram aí uns dois ou três euros que não compensam o dolo pessoal.
Terminei a noite com saldo negativo.
There's no such thing as free lunches!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

e agora?

Ganhar foi fácil: os republicanos utilizaram uma série de estratégias erradas que os levou a auto-boicotarem-se e a comunicação social fez o resto. Agora vem a parte difícil, a de corresponder às expectativas.
Os seus opositores - que ainda são muitos - só têm de esperar para vê-lo cair ou ser bem sucedido e, embora acredite nas suas melhores intenções, atingir todas as metas é um fim impossível, pelo menos a curto prazo, ao contrário do que muitos parecem esperar. A campanha republicana para as próximas eleições começou no momento em que foi anunciada a vitória de Obama, assim como uma contagem decrescente vertiginosa que terá de ser muito bem gerida. A euforia mundial depressa se converterá em revolta contra a mão que a alimentou, se as decisões tomadas não forem consensuais.
O mais complicado, contudo, são os adversários silenciosos que Obama tem pela frente. O que temos visto são manifestações políticas quase globais de apoio e esperança. Que isso não nos impeça de reconhecer que existe meio mundo a quem este homem não agrada. Espero que o novo Presidente dos Estados Unidos possua realmente a presença de espírito e a convicção que tem demonstrado para saber enfrentar o que o espera, ainda que para isso tenha de abdicar do consenso mundial relativamente à sua imagem, em benefício de decisões acertadas.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

este ano o pai natal chegou a 4 de Novembro

para mim pode ser um cheque-prenda ilimitado da fnac e um tanque novo para a otária do aquário vasco da gama (que aquilo é realmente desumano)

os caminhos da educação

"A educação não gera o desenvolvimento. Só a boa educação o faz. A má, aqui como em tudo, é apenas um desperdício de tempo e recursos. A principal diferença entre a boa e a má educação é o bom senso."

João César das Neves, Diário de Notícias (07/03/2005)


Preocupa-me a ignorância de certas reformas da educação tomadas pelos governos e preocupa-me a leviandade com que se criticam essas medidas. Preocupa-me que, actualmente, exista um fosso tão grande a separar as diferentes noções do que é o ideal no sistema de ensino. Preocupa-me que as crianças e os jovens, sobre quem deviam pender as grandes preocupações, sejam completamente esquecidas em todo o processo de evolução desta 'nova sociedade tecnológica'. Preocupa-me que uma grande parte dos professores constitua tão mau exemplo ao facilmente desistir mediante as barreiras burocráticas interpostas por mais uma medida governativa.


O que vejo hoje nas escolas, tal como o que observo na educação parental, é uma tentativa de ocupar os jovens e não de preencher as suas lacunas. Há uma grande preocupação em facilitar às crianças um acesso precoce à informação, ao entretenimento, ao auto-desenvolvimento. Deixou de haver interesse em acompanhá-las e orientá-las até uma idade em que consigam, com base em conhecimentos adquiridos, construir o carácter que lhes permitirá servir, de uma forma positiva, a sociedade em que se integrem.


A educação nas escolas está a ser boicotada por interesses políticos e económicos que fazem com que nos esqueçamos constantemente que gerações de estudantes estão a ser irreversivelmente prejudicadas. Os professores deixam clara a ideia de que lhes são incómodas as medidas tomadas e os que não abandonam a carreira antecipadamente, permanecem contrariados nos seus postos de trabalho. Se juntarmos a classe mais conservadora em relação a novas medidas tomadas pelo governo e a classe de jovens professores que se debatem com as fracas regalias que lhes são concedidas, resta-nos uma franja muito pouco significativa de educadores cuja grande motivação seja a paixão pelo ensino.


As coisas mudaram muito desde que fui aluna. A minha revolta contra o Governo termina quando, com tristeza, observo que os professores mudaram. Um cargo na função pública permite a reivindicação de direitos, a manifestação pública de desagrado, a organização de greves gerais e, em muitos casos, reformas antecipadas que, mesmo com cortes percentuais, possibilitam aos profissionais do sector que virem as costas a quem mais depende deles.


Como as medidas tomadas são deficientes e inadequadas, os professores abandonam os alunos como os polícias abandonam as vítimas porque a lei lhes veta o direito a disparar sobre um agressor. É assim que funciona o sistema. E é desta sociedade que nascem os governantes do futuro.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

la resistencia a "El Pibe"

Parece que o Maradona anda às voltas com um problema que conhecemos bem em Portugal. Após conseguir ficar à frente da selecção argentina, apenas por se ter mostrado disponível para isso na comunicação social, tem de ultrapassar complicações que não se anteviam: a resistência de Julio Grondona à sua intenção de garantir no comando técnico alguns 'jobs for the boys' ...

fome política

Se a intenção da JSD não é a de associar o partido ao Banco Alimentar, então não percebo a iniciativa.
Claro que isto é tudo uma questão de rigor semântico.
O que a JSD quer não é associar o seu nome ao Banco Alimentar, embora fosse a organização mais sonante para o efeito pretendido. A intenção do partido é associar-se a uma causa, seja ela qual for, que contribua para uma missão política concreta.
Com a efectiva quantidade de pessoas carenciadas, não faltam certamente instituições a aceitar de bom grado a ajuda, indiferentes à verdadeira moral por detrás do gesto.

Bartoon

Público, Edição 4 Nov 2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

iN & oUT

oUT:
-Engº Sócrates
-Teixeira dos Santos
-Vicente Moura
-Sarah Palin (estou a contar que entre para os iN lá para 2010)
-Bibi
-Luís Filipe Menezes/Manuela Ferreira Leite/Pedro Santana Lopes (ex-aequo)
-Pinto da Costa (só porque sim)
-barbeiro de Barack Obama
iN:
-humm... agora assim de repente... só se for o Lampião, de Évora, que tinha um stand na Feira de Santarém com umas migas bem boas!

em tempo de crise...

vale de qualquer coisa ser colunista - as pessoas não se cansam de ler a mesma coisa, todos os dias, escrita por pessoas diferentes. Também se pode aplicar às eleições americanas. Aliás, melhor para vender opiniões do que a recessão ou eleições nos Estados Unidos é as duas coisas ocorrendo em simultâneo. Se um candidato for preto e o outro republicano com histórico de combatente de guerra, tanto melhor;

vale de qualquer coisa ser mau administrador de alguma empresa com cotação na bolsa, principalmente na área da banca - o Estado e o Banco de Portugal encarregam-se de garantir a subsistência das empresas que se servem da crise como bode expiatório para o seu fracasso. Para alguns empresários, mais do que conveniente é um golpe de sorte;

vale de muito ter olho para o negócio e tomates para correr riscos - constroem-se impérios em três tempos;

mas a grande mais valia numa altura destas é ser comediante.

a utilidade do secundário completo

(ao balcão do governo civil da loja do cidadão)

a menina: agora assinas e pões ali os dois dedos. Depois olhas para ali e tiras uma fotografia. Eu já tirei a minha.

eu: ai sim? Vais viajar?

a menina: sim, para o Canadá. Com o meu pai.

eu: que giro! E estás a ajudar a senhora a fazer os passaportes para estas pessoas? Gostavas de trabalhar aqui?

a menina: sim. Mas quando for grande não vou trabalhar aqui.

eu: então, vais ser o quê quando fores grande?

a menina: vou trabalhar na Zara do Vasco da Gama...

serviço público

Por estas e por outras é que a minha carreira jornalística não medrou... (o que eu gosto do verbo 'medrar'!)

http://sic.aeiou.pt/online/scripts/2007/videopopup2008.aspx?videoId={E06D1533-A5EF-4E4F-8805-F70BBDAB6BB7}
(vídeos SIC)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

visão nº2

Que delícia sentir no seu olhar uma pontada de receio, de medo, de verdadeiro pânico por julgá-la incerta, livre, desejada. Que bom poder prolongar aquele olhar pelo tempo preciso e suficiente que rebenta em gargalhada de entrega, confiança e alívio. Ela está lá, ao lado, para onde sempre volta ou onde sempre espera. Sabe que, se tentasse sair, levaria a caixa de sapatos, os livros e o álbum mas para trás deixaria a alma.

visão nº1

Não pode vê-lo nem pintado a lápis de cera.
Aquele ar de cordeiro manso, a voz melosa, a figura atarracada e a postura submissa e bajuladora são-lhe insuportáveis. Às vezes até tem pena dele. Deseja que nunca ninguém sinta por si a compaixão dolorosa que ele lhe desperta.
Esgota a paciência ao longo da semana de trabalho, ocupado que anda a lamber botas, na sua doente subserviência. Ao fim de semana fica por casa, o mais possível, e tem como única missão tentar ler o jornal e saber qualquer coisa sobre futebol para poder mandar umas piadas porreiras na segunda-feira, se a sua equipa tiver mais sorte que a dos colegas.
Ela acha que ele é infeliz mas o que sabe ela sobre a felicidade?

poesia de ensinamento

calduço ou cachaço?

Só um cheirinho:
'A determinada altura do julgamento de hoje, a tentativa de esclarecimento da intensidade da agressão sofrida por José Ramalho originou uma discussão semântica em redor das expressões "calduço e cachaço" utilizados por alguns depoentes. Uma dúvida que levou o juiz a questionar por diversas vezes: "Mas foi um calduço ou um cachaço?" '
Valentina Marcelino Expresso Edição On-line 21:10 Terça-feira, 28 de Out de 2008
Nem tenho palavras.
Tem mesmo de se ir à fonte porque sintetizar seria de uma grande injustiça para o conteúdo hilariante de todo o artigo.
Não hesitem portanto em clicar.... AQUI!!
p.s. O sr. José Ramalho é que está muito em baixo, coitado. Ainda a semana passada vi um árbitro de campeonato amador levar uma solha no final do jogo e não se passou nada. Deve ter comido um coirato com uma mini depois do duche e pronto. Sem direito a psicólogos e a indemnização.

não sei, mas vou descobrir

"João era fabulista? fabuloso? fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? Projetava na gravatinha a quinta face das coisas, inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar, para farçar o que não ousamos compreender? Tinha pastos, buritis plantados no apartamento? no peito? Vegetal ele era ou passarinho sob a robusta ossatura com pinta de boi risonho? Era um teatro e todos os artistas no mesmo papel, ciranda multívoca? João era tudo? tudo escondido, florindo como flor é flor, mesmo não semeada? Mapa com acidentes deslizando para fora, falando? Guardava rios no bolso, cada qual com a cor de suas águas? sem misturar, sem conflitar? E de cada gota redigia nome, curva, fim, e no destinado geral seu fado era saber para contar sem desnudar o que não deve ser desnudado e por isso se veste de véus novos? Mágico sem apetrechos, civilmente mágico, apelador e precipites prodígios acudindo a chamado geral? Embaixador do reino que há por trás dos reinos, dos poderes, das supostas fórmulas de abracadabra, sésamo? Reino cercado não de muros, chaves, códigos, mas o reino-reino? Por que João sorria se lhe perguntavam que mistério é esse? E propondo desenhos figurava menos a resposta que outra questão ao perguntante? Tinha parte com... (não sei o nome) ou ele mesmo era a parte de gente servindo de ponte entre o sub e o sobre que se arcabuzeiam de antes do princípio, que se entrelaçam para melhor guerra, para maior festa? Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar."

"Um chamado João", Carlos Drummond de Andrade - 22/11/1967 - Versiprosa

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

seda

É conhecida a cudelaria que dá fama a Alter, mas da pequena aldeia, pouco se ouve. Quando avisto ao longe a sua ribeira e a pequena ponte quase perdida, é nessa altura que sinto a saudade. É o regressar à terra que me traz a nostalgia dos tempos em que, miúda, ia ao baile do largo. Havia muito mais gente, gente mais nova, música, petiscos e barulho das festas de verão que traziam de volta os filhos da terra e acordavam os seus habitantes. Durante o dia passeava-se, se o sol deixasse. Descia-se a rua onde viveu a minha mãe, passava-se à porta da casa que a viu nascer e que tinha, como ela me contava, uma porta diferente naquela altura. Já lá em baixo, na fonte, desfiava-se mais uma mão cheia de histórias de tempos que não conheci. Uma vizinha chamava para a conversa, na morna calma do seu terraço, à sombra da árvore com laranjas cor de sangue. Descia-se a colina até à ribeira e apanhava-se com facilidade peixe miúdo que, com pena, eu devolvia às águas do rio. As águas eram mais altas, a nascente mais viva. Agora, a ponte não faz falta e o curso que corre é fraco. Não há peixes. Agora, há uma melhorada casa do povo, porque a população está envelhecida, e uma piscina, para chamar os mais novos da terra e de outras terras ao redor. Mas em mim, o amargo de visitar a terra de longe a longe para ver os mortos, só me traz à lembrança as gargalhadas que aquele chão já me deu. As pedras da calçada só permitem recordações, porque o solo, esse está agora estéril do risos dos gaiatos.

profanar o sexo com... literatura

(retirado de um dos outros)
Não gosto de agridoce.
Há coisas que não se misturam.

Miguel Sousa Tavares

Há já um tempo que ando para depositar aqui algumas notas soltas sobre o Miguel Sousa Tavares mas não se tem revelado nada fácil. O homem, senhor - "doutor", como dirá o Manuel Serrão - não é pessoa de simples interpretação. Não li nenhuma obra que tenha escrito, não sei nada de plágios e o que observo baseia-se, sobretudo, no que costumava acompanhar da sua presença assídua nos Telejornais da TVI e em algumas crónicas que leio por aí. Devo confessar que a sua pessoa não me inspira grande confiança ou simpatia. A sua postura, quer na oralidade quer na escrita, ostenta sempre superioridade, mesmo quando desce ao mais baixo nível argumentativo e isso não é, de todo, agradável. Isto não significa que discorde de todas as suas tomadas de posição, mas fica-me sempre a impressão que, debaixo daquela carcaça aristocrática, há um treinador de bancada de bigode farfalhudo ou uma nascida e criada varina do bulhão. Outra coisa curiosa é que, quando olho para o homem Miguel Sousa Tavares, vejo o menino Miguel, criança educada e inteligente, mais dotada de etiqueta do que de consciência, incapaz de resistir à tentação de molestar outras crianças, se o seu elucidado espírito detectar nelas um fio de matéria criticável. Existe, neste colunista, por excelência, uma capacidade inata que é simultaneamente assustadora e admirável: o ser naturalmente e sem pudores um crítico severo de certezas absolutas e deliberações convictas sobre temáticas que são, no mínimo, discutíveis. É precisamente esta característica que me faz oscilar na visão que tenho da sua pessoa e me impede de formar uma opinião tão célere e contundente como as que lhe são características: o facto de acompanhar o seu discurso ou a sua escrita numa toada inconstante que varia entre o "tu estás lá" e o "és mesmo uma besta".

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

sonho

O sítio era em Marrocos. Não que já lá tenha estado, mas lembro-me de que era esse o destino programado. Lembro-me de que houve uma véspera, preparativos, compras apressadas ao cair da noite. Por qualquer motivo, havia bolos de pastelaria fresca e doces. Escolhíamos: havia um bolo de mármore, sólido, enorme, com óptimo aspecto; outro com uma cobertura brilhante e cremosa, aspecto guloso; e também um doce, que parecia de claras e gemas de ovo, com uma apresentação divinal, como se fossem farófias em organizadas formas de madalenas. Escolhemos um dos bolos. Não era o de mármore como eu queria. Nunca é o que EU teria escolhido, lembro-me de pensar. E pensei também que desconhecia a existência de tão simpática pastelaria mesmo ao lado de casa. Depois, desapareceu a pastelaria. Num salto lá estávamos nós em Marrocos. E vou dizer o que é para mim Marrocos. Calor e cor de barro. Guias turísticos que elaboram percursos sinuosos e difíceis. Casinhas e mais casinhas, encastradas em colinas, com pátios e ruelas em escadaria, viradas para o mar, qual Santorini africana. Mas o mar, o mar é bravo, temível. O mar é medonho. Pensei que nunca conseguiria dormir numa daquelas casas de terraços simpáticos debruçados sobre o mar, fustigadas pelas impiedosas ondas que atingiam com violência as portas, janelas, todas as fachadas. Será que mais ninguém reparava na violência assustadora daquele mar? Nos meus sonhos, só eu me assusto com o mal evidente. Os outros estão sempre a conversar e a rir, em dialectos que não entendo. Só se dirigem a mim de forma perceptível para repetir, incansavelmente, num tom reprovador, que se dependesse da minha cabeça de vento, a camera fotográfica teria ficado para trás. Sinto-me terrivelmente injustiçada. Apetece-me fugir daquele mar e voltar para casa, para perto da sossegada pastelaria que, até há pouco, desconhecia.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

quereres

Chegada a casa, vou dar um jeito neste cabelo que não lembra a ninguém, desfiando-lhe um impiedoso golpe tórrido nos caracóis desarranjados. Cresce-me água na boca, de pensar no alívio que sinto ao passar as mãos por cabelo liso. Inquieta-me o cabelo ondulante e rebelde, que parece oscilar com o meu humor. Acho-lhe piada enquanto, ainda húmido, exibe canudos perfeitos, quase infantis, mas que depressa desaparecem depois de secos e expostos às intempéries. Restam-lhe depois vestígios de caracóis e um volume que desprezo. O desprezo que exaspera a minha mãe, a quem, se eu pudesse, dava metade da cabeleira, para regozijo de ambas. Também estou em pulgas para uma leitura de serão. A calma da leitura é o proveito retirado de horas tardias de frequente solidão imposta, coisas da vida que também têm de ter um lado positivo. Este vento uivante, raivoso, que oiço e me incómoda tal e qual os cabelos ondulantes, faz-me querer mais ainda este serão já próximo.

espírito de Natal

Hoje é, oficialmente, o dia em que abro as minhas montras ao Natal.

Faço-o cedo, bem sei, mas há quem a mim se tenha antecipado.

Porque o Natal é quando o homem quiser e que Bolsa nenhuma deste mundo se atreva a pôr isso em causa.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

bilingue

Não posso deixar de reparar na quantidade de pequenas expressões estrangeiras que vou depositando nos meus posts (cá está mais uma!), sendo obrigada a admitir que estas são de grande utilidade linguística, para uma fluência bonita e cosmopolita do texto. Ao mesmo tempo, isto faz-me perder credibilidade quando censuro os media (outra!) por adoptarem o termo car-jacking quando se referem a assaltos a/em carros, ou bullying para designar a intemporal relação de conflito entre o grupo dos fixes e o dos marrões (com o dos fixes a dominar. Invariavelmente).

assimetrias

Ando para concluir que os recentes desgostos do Miguel Sousa Tavares são inversamente proporcionais ao boom literário do José Rodrigues dos Santos. Se esta inversa proporcionalidade continuar, e começarmos a incluir nos desgostos do MST os insucessos do FCP, qualquer dia o pivôt de olhar expressivo apresenta-nos a sequela d'Os Lusíadas.

Max "Pain", ou a arte de fazer mau cinema

Duvido muito que seja um problema de criteriosa infexibilidade da minha parte, até porque me considero uma saudável consumidora de muita porcaria comercial, mas a verdade - e no seguimento da minha recente crítica musical aqui postada - é que só vejo lixo nas salas de cinema actualmente. Claro está que uma pitada de inércia associada à falta da companhia desejada também têm sido responsáveis pela recorrência ao Shopping mais próximo, em detrimento de outros mundos alternativos e menos percorridos, porventura bem mais apetecíveis, mas ainda assim era de se esperar mais da sorte. O Max Payne, acima propositadamente distorcido para dar uma ideia mais objectiva da dolorosa experiência que 1h38 nos podem proporcionar, tem de tudo, como na farmácia. Péssimas representações, condizentes com um script muito, muito fraquinho; história entediante, previsível, quase naif para um realizador de quem se pedia mais qualquer coisa; cenários pirosos, exagerados, carregados de efeitos de luz surreal e teatral. Para conferir (ou não!), numa sala Lusomundo perto de si...

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

fraude

Hoje, ao ler o que escrevo, tenho a real percepção de como sou moralista. É-me fácil falar, e sobretudo escrever, baseada nas conclusões de experiências passadas ou através de assumpções em que julgo ter a perspicácia que dispensa a vivência das coisas. É tão mais difícil fazer uso dessa sabedoria quando se afiguram cruciais as decisões importantes. Estou destroçada. E ainda por cima sou uma fraude.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

música portuguesa

Mas será que só a mim é que isto me soa, assim... digamos... terrivelmente mal?

(sem título)

Não há na culinária nada que se assemelhe ao poder sublime de uma erva aromática. Saber cozinhar é saber entender, de todas as escolhas possíveis, qual a que torna distinta uma receita. É, sobretudo, saber dosear essa distinção. É não deixar aquém ou exagerar no condimento. É adivinhar a quantidade que faz a perfeição. Depois é, subtilmente, utilizá-la na sua forma de expressão mais pura: disfarçá-la por entre a comida ou realçar o seu contraste dos outros ingredientes. Enfim, saber extrair de si o que de mais valioso contém.
O amor é a especiaria no prato da nossa vida. Não devemos subestimar a sua importância, pois ele é, simultaneamente, o manjericão e a pimenta, a canela e o açafrão, o caril e a noz moscada. Dele provêm a côr e a magia das nossas experiências. Encerra em si, tantas vezes, paladares sem nome, aromas que não sabemos classificar, dos quais nada precisamos saber, a não ser que existem.
Há que experimentar este amor e os segredos, por vezes amargos, que nele se escondem. Há que saber dosear o amor, saber que condimento escolher para cada momento. Há que ousar roubar-lhe a vaidade da sua expressão e ostentá-la sem pudores.
E há que ter cuidado.
A melhor das especiarias, na errada proporção, pode ser veneno.

"O elixir da vida é o olhar de beleza com que presenteamos cada botão, então ele abrirá para nós, revelando assim toda a exuberância do seu ser..."

(algures p'los jardins do Solar de Mateus...)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

dizem-me os últimos posts que...

estou a ficar velha e chata.
mas também muito sábia!

estar viva

Doces e amargas, assim se querem as recordações, para que possamos valorizá-las bem.
A verdade é que experimento de novo uma série infindável de emoções e, mais importante, regressam fisicamente (ou quase) à minha vida pessoas que julguei perdidas.
It's all coming back to me, como diz a canção.
Ainda hoje pensei que reprimir sensações e recusar viver certas experiências representa um duplo perigo: um primeiro, mais imediato, que nos limita o conhecimento e a acumulação saudável de recordações; e um segundo, a longo prazo, que se manifesta quando procuramos recuperar um tempo perdido e a vida já nos pede outras coisas.
Recusei experiências que queria mesmo viver, só pela necessidade incoerente de me contrariar e já encontrei a frustração ao procurar reencontrá-las.
Preciso de encontrar um equilíbrio saudável entre o passado e o presente.
É difícil dar sentido a coisas que perdemos e que se vão tornando cada vez mais desajustadas, mas as pessoas, mais do que os momentos, marcam-nos a ferro e fogo e é bom voltar a sentir ferver certas cicatrizes.

hilarious

Depois de Sarah Palin, o desespero das sondagens negativas lança para a ribalta a sacrificada do rebanho

terça-feira, 21 de outubro de 2008

2001

Deposito aqui um bocadinho do meu coração porque, já que nunca vou esquecer, quero a prova irrefutável de que vocês não foram apenas fruto da minha imaginação. É precisamente assim que me lembro.

dar um tempo

deixar para trás.
abdicar.
despromover.
retirar carácter prioritário.
desvalorizar.
desistir.
dei um tempo a este projecto antes de lhe dar uma oportunidade de vingar.
quero que a regra permita a excepção e que dar um tempo não signifique desistir.
não sem antes dedilhar a cannonball.

biografia

"Quando trabalhei num alfarrabista – lugar facilmente idealizável, quando não se trabalha lá, como uma espécie de paraíso onde cavalheiros encantadores procuram incansavelmente volumes encadernados a pele – aquilo que mais me surpreendeu foi a escassez de pessoas verdadeiramente livrescas. A livraria tinha um catálogo excepcionalmente interessante, mas duvido de que sequer dez por cento dos nossos clientes fosse capaz de distinguir um bom de um mau livro. Os snobes das primeiras edições abundavam mais dos que os amantes da literatura. Muitas das pessoas que apareciam eram daquele género que seria um transtorno em qualquer outro sítio, mas que têm magníficas oportunidades numa livraria. Por exemplo, a amorosa velhinha que deseja «um livro para uma inválida» ou a outra amorosa velhinha que leu um livro óptimo em 1897 e pergunta se será possível arranjar-lhe um exemplar. Infelizmente, não se lembra do título do livro nem do nome do autor nem propriamente da história, mas lembra-se, isso sim, que a capa era vermelha. Para além destas, há duas outras pragas bem conhecidas que assombram todos os alfarrabistas. Uma é a pessoa decadente que cheira a côdea de pão velho e que aparece diariamente, com frequência várias vezes ao dia, tentando vender livros inúteis. A outra é a pessoa que encomenda grandes quantidades de livros e não tem qualquer intenção de algum dia vir a pagá-los. Chega e solicita um qualquer livro raro e caro, obriga-nos a prometer vezes sem conta que lho guardaremos, e depois desaparece para não mais voltar. "

identificar fonte de citação, s.f.f.

burn after reading

"Depois do Billy Bob Thornton ter trabalhado connosco, entrou num filme de Barry Levinson e nós dissemos-lhe para não dizer ao Barry nenhum dos nossos segredos. O Billy Bob virou-se para mim: 'Vocês não têm segredos!'. 'Sim', respondi-lhe, 'mas não digas isso ao Barry Levinson!' "

Joel e Ethan Coen (sobre o seu método de trabalho enquanto realizadores)