sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

bom português

A pérola que encontrei no ciberdúvidas.sapo:

Pergunta: "Existe a palavra "dozestavado" para definir um objecto de doze lados, como se diz "sextavado" para um de seis lados? Se não, como se diz?"

Resposta: "Na palavra sextavado figura o antepositivo latino sex-, «seis», mais o termo verbal –avado de –avar (terminação de verbos regulares).
Então, como o antepositivo latino que significa «doze» é duodec-, podemos arbitrar a palavra duodecavado para falar dum polígono com doze lados.
No entanto, não recomendo o uso desta palavra, pois não a encontrei na documentação que possuo.
Alguns escritores de antanho andavam em busca de termos regionais ou esotéricos para mostrar erudição. Ora, não é esse o meu critério. O pensamento literário pode ter valor na mensagem, mesmo sem recurso a um vocabulário muito amplo, desde que empregado correctamente e com perfeita propriedade.
Além disso, amplia-se o número de destinatários quando se evitam palavras que corram o risco de não serem entendidas; demais a mais quando não se encontram ainda estabilizadas no léxico.
Recomendo que escreva simplesmente: «com doze lados»".

É um conceito interessante e muito democrático, este de D' Silvas Filho. Falar de forma a que todos compreendam.
Talvez por isso devesse dizer escritores do passado, em vez de escritores de 'antanho' ou mesmo vasto conhecimento, em vez de 'erudição'.
Digo eu. Que sou um bocado 'quadrada'. Quer dizer, tenho quatro lados.

tédio



Se em Portugal houvesse ao menos este tipo de entretenimento...!
Mas não. Por cá, ignorantes e intelectuais são igualmente entediantes.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

médicos

Acho o cúmulo da incoerência um médico retesado, com ar nervoso e perturbado, que se sente invadido pela confiança do paciente. Um bom médico tem de ser sempre seguro de si. A alguns até lhes perdoo a arrogância, mas a fragilidade e o embaraço deixam-me logo de pé atrás.
São bons para fazer carreira a "colaborar" em ginásios, onde os tratam por "doutor" e onde carimbam declarações médicas.

último post

... o meu avô não era assim tão má pessoa.

elderly

Vi ontem uma parte da grande reportagem que se seguiu ao Telejornal acerca da negligência e dos abusos cada vez mais comuns sobre os idosos. Lembrei-me do meu avô. Mais do que tomar atenção ao que se dizia, a reportagem fez-me pensar no meu avô (paz à sua alma). Claro que é angustiante ouvir pessoas velhas, doentes e praticamente indefesas, de olhos lacrimejantes, a narrar histórias de maus tratos, coisas quase inenarráveis, por parte dos próprios filhos. Mas eu só me conseguia lembrar das aldrabices do meu avô.
O meu avô sempre viveu connosco e hoje lembro-me de episódios dignos dos trompetes do Kusturica; coisas que na altura não tinham piada nenhuma - como as férias no Algarve com ele e com a gaiola do periquito (não queiram saber).
A verdade é que o meu avô foi sempre a prova viva de que as pessoas mais velhas não são necessariamente umas desgraçadas, mais ainda quando o apregoam aos quatro ventos.
Lembro-me com precisão, como se fosse ainda hoje um gesto do quotidiano, dos pequenos-almoços levados à cama, do tabuleiro do almoço com um copo (só meio!) de vinho branco (que uma vez, por engano, foi de bagaço caseiro e ele só se queixou no fim. Dormiu toda a tarde!) e de muitas outras coisas que, por comodidade, se iam tornando hábito. Lembro-me sobretudo da casa de banho sempre ocupada nas alturas mais inconvenientes e de pensar que eu chegaria atrasada às aulas, enquanto ele poderia tratar da sua higiene à hora que quisesse. Fui tomando consciência de que, talvez para ele, ter todo o tempo do mundo não fosse algo assim tão bom. Mas o meu avô não era de se aborrecer, nem que para isso tivesse de inventar... coisas desagradáveis, quase sempre. Ele era pequenino e, como diz o ditado, ou velhaco ou dançarino (sempre justifiquei a sua malvadez pela exclusão de hipóteses - não creio que dançasse bem!).
Acima de tudo, lembro-me que costumava pensar, é meu avô. E era desta forma que o amava (mesmo que não fosse segredo para nenhum dos netos que a minha irmã era a sua preferida).
Era o meu avô, com o seu kispo. Com o aparelho auditivo sempre a dar problemas e a sofrer influências magnéticas da televisão. Com o queijo e o pão. Com as sopas de cação e cheiro a poejo. Com os patinhos de plasticina, perfeitinhos como origamis. Com o cigarro sempre aceso, a intoxicar-nos, numa época em que não havia sensibilidade que incomodasse umas boas fumaças na sala. Às vezes, via-lhe nos olhos um franco cansaço de viver. Acho que teve a morte perfeita, se isso existe. Era um velhaco. Mas era o meu avô.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

traumatismo craniano

"Se no final do mês de Fevereiro estivermos na liderança, ganhamos o campeonato."
Vukcevic
Com este tipo de dedução lógica, torna-se fácil adivinhar que se trata de alguém em convalescença de um traumatismo craniano...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

aguardela

Quando algum pequeno pormenor do dia-a-dia me traz à lembrança a morte do João Aguardela, sinto um desconsolo muito difícil de explicar. E têm sido frequentes os pequenos pormenores, desde que soube da notícia. Parece que as rádios andam, em macabro conluio, a prestar-lhe homenagem. Hoje ouvi pela primeira vez - palavra! - 'A Noite', que só conhecia na versão dos Resistência. Isto porque, na verdade, não lhe seguia com atenção o percurso artístico e quase olvidei, nos últimos anos, uma deslocação a um concerto dos Sitiados, na saloia Caneças, numa sala em frente ao coreto, pelos meus quinze anos. Acho que o desconsolo vem da recusa em aceitar que a morte (precoce, para mais) e uma tal carga energética, pudessem andar de mãos dadas. Não é choque provocado por um saudoso fétiche adolescente ou por alguma paixoneta idílica, porque lembro-lhe bem o colete de napa na pele clarinha e o corpo franzino com rosto invulgar (versão masculina da Sarah Jessica Parker) e parece-me que só mesmo a minha irmã para lhe descobrir deslumbramento (e se ela o achava o máximo!). Não sei a que se deve este transtorno de alma. Se calhar é ao facto de me fazer recuar tanto no tempo e trazer-me à lembrança os moshes ao som da vida de marinheiro que acabavam com dores de barriga de tanto rir. Ao tempo que eu não faço um bom mosh.

spam

Andam a chegar-me ao Outlook conteúdos tais como "moças pendentes em pénises enormes", remetidos por uma tal Mia Addison.
Ora Addison só conheço a Dr.ª da tv e não chega a ser conhecer. Sei apenas das suas neuroses e cadilhos amorosos que, ainda assim, não fazem dela a prosti-pêga desta tal de Mia.
Estou convencida de que um grande cavalo de tróia se apoderou do meu computador.
E pensar que poderei ser a única pessoa no escritório a receber estas coisas faz-me sentir um pouco perversa.
E depois... pénises?!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

you gotta be... crazy!



Há alturas em que precisava de ouvir repetidamente esta música e assimilá-la até ao tutano!
Ou entrar num qualquer call-center deste país a disparar indiscriminadamente...

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

heroísmo precoce

Já devo ter dito isto: não gosto de heróis anunciados.
Têm de me provar tudo, tudinho.
Vou esperar para saber se o Obama é capaz de fazer aquilo a que se propõe, pelo menos (já que as expectativas mundiais ultrapassam todos os limites do razoável optimismo).

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

jamie oliver

Tenho que dizer que o Jamie At Home é o meu programa preferido.
É verdadeiramente fascinante.
Fico presa quando o apanho no zapping (mesmo que saiba da Anatomia de Grey ou do House a decorrer ali ao lado).

road trip

Há uma longa estrada que se dirige ao interior e atravessa aldeolas (que nem aldeias chegam a ser), ladeada por verde e por "fantasmas" feitos de lixo que, segundo teoria sugerida, assinalam entradas para casebres, no meio daquele caminho sempre igual. Há cenotes e outros paraísos escondidos, longe da vista.
As casas que se sucedem são pintadas de cores ocres e berrantes, e a terra é vermelha. Avistam-se pátios interiores, de porta escancarada aos olhares, onde pendem camas de rede para descansar as moléstias de um dia de sol e suor.
Na berma, cães que parecem todos iguais coçam-se com vagar. Galinhas passeiam pela terra batida e desaparecem por caminhos sem destino.
Cai a noite devagar. O comércio é repetitivo, vazio, lúgubre. Os sorrisos destoam do ambiente perdido e sujo. Ouvem-se televisões, transistores.
Abarco tudo num olhar àvido, com ouvidos atentos e de narinas dilatadas.
Escrevo para não me esquecer.
E não me esqueço.

apelo: chapéu semi-marroquino

como sou optimista em relação ao alcance recordista deste meu humilde blogue, faço o apelo a algum mexicano presenteado pelo meu descuido, que faça o favor de me devolver, por fed-ex ou outro que tal, o meu chapéu de arame.

ausências

Quando se viaja, está-se ausente.
Está-se ausente do sítio que deixamos e não se chega a estar presente no local que visitamos.
O corpo e a alma dissociam-se. O pensamento foge-nos muitas vezes para as raízes que ficam para trás, queiramos ou não.
Quando partimos, não somos pertença de nada.
Mas ao regressar, sabemos que deixámos fragmentos de nós que mais ninguém sabe.
As recordações não são algo que trazemos. São reflexos de pedaços por nós deixados lá, na pedra daquele caminho, nos olhos de alguém que cruzou os nossos, no quotidiano que nos marcou e que pulsa hoje, no mesmo sítio, indiferente à nossa passagem.
Indiferente para todos, menos para nós mesmos.

O corpo move-se milhas. A alma segue-o. Atrasada.
Enquanto andamos, deixamos um rasto que luta por se despegar.
Por muito que nos custe correr, dói muito mais à alma cortar os laços que se querem deixar ficar.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

adelante...

Não sei se interessa muito mas... estou de volta.
De novo para cá de fronteiras mas com disponibilidade zero para contar histórias.
O tempo virá...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

tenho de dizer isto

... sem ansiedade, sem ansiedade, mas o balanço foi muito positivo! Sete (7!) livros! E uma gabardina preta.
E a filmografia das jornadas: Shrek, Cidade de Deus, Day After Tomorrow (again!) e um bocadinho do James B(l)ond.
Hoje acordei a sentir a cabeça latejar e pensei na toalha ensopada no Barca Velha de 1999.

"filhoses" e outras neuroses

O Natal já passou e sem ansiedade pelas prendas. Foi quentinho, quase sempre ao abrigo de quatro paredes e de um aquecimento invejável. Os pensamentos mais negativos que tive foram exactamente os que tentaram calar a minha consciência, quando esta deixou, uma ou outra vez, repassar a frustração de saber tantos ao frio e com fome.
O costume, de todos os anos. Braços cruzados, indiferentes ao gesto possível mas considerado vão. Assim sendo, não choremos pelo que deveríamos.
Hoje é o último dia "útil" do ano, para mim.
Tenciono ser literalmente uma "inútil" durante alguns dias que espero que sejam confortavelmente compridos como uma boa espreguiçadela. E, antes de recomeçar, quero uma vendetta que -não obstante a fome no mundo e a abençoada vida que me calhou em sorte- acho que mereço. Por isso, atravesso o oceano e rumo ao equador, em busca de climas quentes e de chilli picante.
Se isto não é uma despedida, daquelas que não gosto de ver nos blogues a anunciar pausa para férias, então não sei o que seja. Talvez não. Talvez os alertas amarelos e laranjas me privem de passeios de Inverno e me confinem ao teclado caseiro algures, durante a próxima quinzena.
Voltarei. Não sei é se antes ou depois do sombrero...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

segunda II

Hoje é segunda e acordei bem-disposta.
Talvez porque não há dias tão bonitos como os dias frios e de céu limpo.
E era assim que estava hoje, quando acordei...

segunda I

Gostava de não ser céptica, assim a roçar o pessimista, e gostava que as segundas-feiras não fossem sempre tão cinzentas ao acordar, como se a semana fosse um comboio negro e interminável que tenho que enfrentar.
Gostava antes de ser uma pessoa sorridente, daquelas inexplicavelmente bem-dispostas e muito espirituais, com uma boa aura, para quem cada dia é uma dádiva.
Se eu fosse antes esta pessoa, não escrevia posts como o último.
Pelo contrário, seria ignorantemente feliz e gritaria a plenos pulmões que o meu Benfica há-de ser sempre o maior.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

a crónica que o Benfica já merecia

Há, na minha vida aparentemente estúpida e sem significado, uma dúvida que se assume com uma enormidade e uma importância desmesuradas, de carácter quase existencial. Quanto mais tento encontrar uma resposta satisfatória, mais a dúvida se levanta em toda a sua gigantesca imponência e mistério. Passa-se então que não consigo descortinar o que é que, de há muitos (demasiados) anos para cá, tem vindo a acontecer com o Benfica, a tal instituição gigantesca, mundial, cujo número de adeptos, todos bem juntinhos, ocupam no planeta uma mancha visível do espaço.
Desde há muito tempo que me tornei uma adepta preocupada com algo muito para além de derrotas pontuais.
É com tristeza que reconheço que este Benfica, que tem vindo a sobreviver magistralmente à custa de glórias quase pré-históricas, não tem ponta por onde se lhe pegue. Desde a direcção, sem carisma, sem liderança, sem estratégia, sem vontade, passando por equipas técnicas que deixam sempre muito a desejar, não esquecendo os médicos e preparadores físicos que valha nosso senhor a quem tenha de passar por eles, nunca mais são jogadores na vida (e isto é misteriosamente recorrente), ninguém se escapa.
Reconheço, tristemente, que não há maneira a dar a volta à coisa e que o Futebol Clube do Porto e o seu Pinto da Costa é que a sabem toda porque ali ninguém pia mais do que deve ou do que sabe. E, incrivelmente, confirma-se que fenómenos inversos se passam nos rivais lisboetas e invictos: o que o Benfica consegue melhor (transformar vedetas do futebol internacional e propensas estrelas em jogadores medíocres) é inversamente proporcional ao que o Porto faz com arte (transformar desconhecidos em grandes jogadores e fazer de treinadores como Jesualdo bons treinadores). São as antípodas do futebol. Aqui, nem o Sporting entra: os seus dilemas caseiros e as suas dores de cabeças não andam neste palmarés que opõe o Porto ao Benfica.
No Benfica, toda a gente manda e não manda ninguém. Há bem intencionados. Há uma estátua do Eusébio, que lá vai sobrevivendo. E há, sistematicamente, no início de cada época, jogadores que chegam, com gana de se mostrar num dos "grandes" da europa. São os mesmos jogadores que, poucas semanas depois se revelam um fracasso, quer pelas suas qualidades duvidosas, quer por um fraco aproveitamento dessas qualidades (este é outro quebra-cabeças). São os mesmos que regridem, ao longo da época, para comportamentos pouco dignificantes da camisola que vestem e do investimento que neles é feito, são os mesmos que se tornam indisciplinados, que afirmam não 'entender' as decisões do mister, que reclamam um lugar ao sol e que eu vejo, inexplicavelmente, de ombros caídos.
Tem sido isto o Benfica. Um clube grande porque o reza a História, em cuja principal modalidade vinga um fracasso anunciado. Começa um novo periodo, em cada mês de Agosto, com uma mentalidade ganhadora e confiante meramente ilusória: um olhar mais atento e facilmente se detectam botas que não batem com as perdigotas. Desde cedo. Mas a massa de gente acredita e deixa-se enganar por torneios amigáveis. No início, admite-se estar em todas as frentes. Depois surgem as más opções, o excesso de confiança, a pouca sorte ou a desculpa das más arbitragens. Acumulam-se maus resultados e, pouco a pouco, vão-se adiando conquistas, até estar apenas em jogo a prova principal que não é eliminatória e se torna muitas vezes pouco competitiva e previsível. Quando menos se espera abdicou-se da Europa, da Taça e a Liga está em risco.
Costuma dizer-se que pior do que aquele que é cego é o que não quer ver.
Com alguma angústia constato que para se acreditar neste Benfica tem de se fechar os olhos a evidências que me recuso a ignorar. Há, neste Benfica, um mal residente, confortavelmente instalado. Há uma apropiação desleal de uma instituição que teve em tempos objectivos concretos e cujas prioridades não eram o aproveitamento económico de uma imagem de marca. Há um orgulho despropositado na exploração financeira da instituição, em detrimento da decadente impressão que o seu futebol mostra ao mundo. E há em cada benfiquista um pretenso orgulhoso, prostrado na vã ilusão de um clube que já não é o melhor do seu País, muito menos do mundo.
Em resposta ao senhor Pinto da Costa, não é o sucesso do seu Porto que me incomoda.
É com um Benfica em que não me revejo, que não consigo conformar-me.