quarta-feira, 15 de abril de 2009

Audrey


Desde miúda que é assim: quando a L. está presente, não consigo tirar-lhe os olhos de cima.
Não sei como casou com aquele sonso e desfigurado do Dr. A.
Até nisso me lembra a Audrey Hepburn e os melodramas cinematográficos.

percebo que...

... sou uma pessoa ingénua, ainda em fase de maturação.
Dou-me conta disso quando ainda me surpreendem as anedotas inadvertidas da tvi (principalmente as da recente 24) e as 'inovações' instituidas, da noite para o dia, com que me deparo quando chego ao trabalho.

terça-feira, 14 de abril de 2009

de onde me encontro

Irritam-me pessoas sem modos, sem charme natural, sem aqueles pequeninos pudores dignificantes. Pessoas abruptas, agressivas, sem jeito, sem tacto. Pessoas sem sensibilidade, sem talento, sem encanto. Irritam-me as pessoas pouco escrupulosas, cheias de razão, de ênfase, de peito feito. Não é a rudeza campónia que me incomoda, é a grosseria cosmopolita.
Pena é que o dinheiro não compre, efectivamente, as maiores virtudes.

barraca

Sem querer chover no molhado das críticas fáceis ou nas conclusões elementares que se podem retirar sobre a intemporal adequação do conteúdo da peça à realidade social, também a mim me apraz enaltecer a excelente capacidade de adaptação teatral desta obra de Gógol, muito embora raramente me tenha abstraído da impressionante semelhança eloquente entre João D'Ávila e a D. Isabel aqui da limpeza, quer nas similaridades físicas, quer no discurso enfatizado e sufocante. Mas o interessante que advém destes eventos lúdico-culturais, e que já nada tem a ver com as qualidades do mesmo, são as suas promoções sociais e as críticas póstumas(?) de quem tem como 'missão' analisar e interpretar, recorrendo aqui e ali a nomes ou situações reais, para satirizar e se mostrar expert naquilo que diz. E escreve.
Não fossem os erros ortográficos e o facto de se valer de sinopses e googlagens sobre as virtudes do autor e até estávamos, no exemplo referido, perante um texto... 'maneirinho', vá.

gertrudes

Com um título destes, dir-se-ia que poderia postar aqui alguma coisa relacionada com a minha tia que vive em Moscavide, mas não. Descobri hoje que há uma gertrudes muito mais influente na capital. Eu e milhares de lisboetas.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

sangue azul

Sangrei azul de corpo e de mente. Um certo brainstorming, exigente, de certeza, e muito bem conseguido, levantou-me da cadeira. Elevei-me ao mais alto skyscraper espiritual. And it felt good! Carreguei os lábios de vermelho escuro, parecendo adivinhar a feliz combinação com a opacidade azul da maquilhagem. Parece-me que alguma da magia teve a ver com uns certos e determinados acordes que muito me dizem, a proximidade física também denuncia responsabilidade, mas mais que tudo, houve ali uma mensagem muito pessoal. A carapuça serviu-me. De regresso, vinha com um apetite voraz, daqueles pós-orgásmicos, reveladores de cansaços bons. E apetecia-me comprar um batôn Lancôme. Lembrei-me até da Isabella Rossellini! Parece que o vermelho carregado é bom agoiro.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

febre de quinta-feira à noite


"The General-Inspector is a national institution. To place a purely literary valuation upon it and call it the greatest of Russian comedies would not convey the significance of its position either in Russian literature or in Russian life itself. There is no other single work in the modern literature of any language that carries with it the wealth of associations which the Inspector-General does to the educated Russian. The Germans have their Faust; but Faust is a tragedy with a cosmic philosophic theme. In England it takes nearly all that is implied in the comprehensive name of Shakespeare to give the same sense of bigness that a Russian gets from the mention of the Revizor"

Estai atentos. Qualquer similaridade com o real será aqui devidamente reportada.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

vindo de quem vem não admira

Não me perturba a falta de tacto diplomático de Berlusconi, muito menos me espanta. Acho até que o seu sentido prático pode ser muito útil aos italianos nesta altura difícil (a nós, Deus nos proteja, calhava-nos um ministro que, de momento, nem mãos tem para tanto magalhães). Não obstante, acho que lhe dava jeito um conselheiro que ajudasse a tornar mais oportuna a sua intervenção, se aliada aos recursos cintilantes de um discurso obamístico, por exemplo.

divina inspiração política

Disserta-lhe, verborreico Tavares, disserta-lhe, com arroubo e inebriante clamor!

Conta-se que Bocage, ao chegar a casa um certo dia, ouviu um barulho estranho vindo do quintal.
Chegando lá, constatou que um ladrão tentava levar os seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com os seus amados patos, disse-lhe:
- Oh, bucéfalo anácrono!
Não te interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo acto vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa.
Se fazes isso por necessidade, transijo...
Mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada…
E o ladrão, confuso, diz:
- Doutor, afinal levo ou deixo os patos?

(obrigada, Tânia Fadário, pela consideração à minha caixa do correio)

terça-feira, 7 de abril de 2009

e porque não há duas sem três

enquanto botava abaixo a açordinha, assistia fascinada ao programa Cuidado com a Língua!
Não tenho palavras para comentar tão preciosos quinze minutinhos. E também confesso algum receio de que me apareça aqui a Maria Flôr Pedroso, sentada no parapeito da janela, a dizer, com aquele ar entre o severo e o condescendente: "O que escreveste não está correcto".
Graças a Deus que hoje tenho dose dupla de Donas de Casa Desesperadas no cabo. Palavra de honra que há dias em que só preciso de um bocadinho de lixo comercial.

as notas soltas

Ontem à noite, enquanto cirandava nos meus rituais de início de serão, ia ouvindo as notícias na rtp1. Ainda me prostrei em frente à televisão, uma meia no pé e outro pé descalço, entre o despir e o tomar banho, em frente ao Fernando Mendes para ver se a mulher de ar acriançado e cabelo muito comprido acertava no preço da montra final, em euros, mas não, e não arranquei logo para a banheira porque as chamadas dos noticiários, tal como as gordas dos jornais, existem é para nos prender, e por ali fiquei mais um pouco, a baloiçar no sofá-baloiço, atenta aos desenvolvimentos sobre o sismo em Itália, por ser sismo e por ser em Itália, consciente de que o número avultado de mortos das guerras e das fomes não constitui chamada nem manchete, porque "estórias" dessas já não nos detêm de caminhar directamente para o duche. Depois o José Alberto Carvalho trouxe em directo de L'Aquila um estudante de erasmus e tentou, inutilmente, arrancar-lhe alguma coisa de novo e emocionante, e foi aí que me fiz à casa de banho. Preparei depois a minha açorda instantânea e, entretida na cozinha, por entre o cheiro dos coentros e as investidas do cão que queria festa, iam-me chegando da sala risadinhas cúmplices e infantis, e comentários sobre a primeira dama americana e as peripécias da sua vinda à Europa. Pensei para mim, "esta Judite de Sousa gosta mesmo deles carecas e roliços!"

segunda-feira, 6 de abril de 2009

chocostat

Não dou muita credibilidade às estatísticas. São uma espécie de astrologia disfarçada de matemática, manipuladoras e manipuláveis e a sua razão de ser tem muito mais a ver com influenciar do que com informar. Depois há a questão da forma como as estatísticas são apresentadas, que condiciona ainda mais a sua interpretação, de acordo com o efeito pretendido desse anúncio. Além disso, as estatísticas vêem as pessoas como números, o que demonstra uma grande falta de sensibilidade e permite a obtenção de alguns resultados idiotas que nos dizem, por exemplo, que em 100 portugueses 7,8 estão confiantes na economia mundial - muito embora isto também já implique uma mistura entre percentagens e números inteiros que não me cheira que devam andar de mãos dadas. Sou muito pouco dada a esta área.
Tudo isto porque ouvi hoje dizer que cada português consome, em média, quilo e meio de chocolate por ano. Isto andaria na ordem das quinze mil toneladas anuais? Qualquer coisa assim.
Não consegui evitar pensar que há por aí muita gente a servir de bode expiatório à gulodice alheia. Mas creio que me senti tomada pelo sentimento de culpa que m&m's e amêndoas de chocolate às sacadas me provocaram. É que, assim de repente, quilo e meio parece-me um número irrisório e a estatística nacional, assim apresentada, despenaliza o meu recorde pessoal de gula.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

patti smith

"O futuro? Sim, absolutamente. Tenho imenso trabalho pela frente: um álbum, exposições, gostava de escrever uma ópera, um milhão de ideias. O futuro para mim é trabalho novo. E viajar. A vida é fantástica. É difícil e temos de negociar todo o tipo de coisas: assuntos de saúde, a perda de pessoas que amamos, aflições financeiras, fome física, solidão. Mas estar vivo é maravilhoso. É infinitamente interessante."
Ípsilon, 03 de Abril de 2009
Inspirador, magnífico, and yet, não me passa este torpor espiritual.

Luisão lesionado no 'escrete'

A malta d'A Bola vale-se de critérios bastante infelizes na escolha dos seus títulos.
Ou sou eu que associo diferentes conceitos sem qualquer tipo de pudor.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

pára-brisas

Acho giro que tenham feito os anúncios radiofónicos da Carglass com técnicos a sério.
Acho muito honesto e pouco habitual. O costume é ouvir-se mulheres de voz hipnótica a contar-nos experiências reais sobre diuréticos milagrosos tão naturais e tão benéficos que nos apetece, de facto, engoli-los à litrada, como se fossem vitaminas. Mas a Carglass opta pela autenticidade.
A única coisa que soa falsa é a entoação. Mas também é isso que comprova que eles são, de facto, técnicos da Carglass!

g20

Onde há sorrisos de circunstância, há silêncios incómodos.
Humm...

a idade

Há uns anos atrás, que me parecem muitos, muitos, achava que não havia nada pior que cortar os dedos com papel o dia todo e pincelar cola líquida em envelopes, bem como contactar telefonicamente ilustres desconhecidos para congratulá-los pela aquisição do seu Honda Concerto, que na maioria das vezes não possuiam, como, não possui? - Já lhe disse, nunca tive nenhum Honda Concerto na vida! - Mas não é o Sr. Tal e coiso!? - Sou sim senhor, mas não tenho nem nunca tive nenhum Honda Concerto - Ah... pois, então desculpe lá. Deve ser engano da base de dados... Mas não participou num concurso, de certeza..? - Oh, menina, já lhe disse..., mas volvido este tempo há dias que não suporto os afazeres administrativos que se me afiguram todos os dias, que não são mais do que um sem fim de burocraciazinhas que me fazem pensar que a minha utilidade é tão menor ou inferior à da miúda que almoçava no jardim do príncipe real e aí fumava uns cigarros e enxotava os pombos, antes de voltar para os envelopes, a cola, a base de dados e o telefone. Depois ponho-me a pensar que, não obstante a falta de paciência que já me caracteriza permanentemente, devo estar grata por me ver rodeada de Natureza, pessoas que gostam de andar no meio da estrada e parecem olhar para os carros como se lhes dissessem aqui mandamos nós! A aldeia já era nossa antes de vos inventarem! e por um micro clima inexplicável. É que as saudades que tenho de Lisboa são tendenciosas e não incluem uma série de contratempos que me fariam subir os níveis de stress e acentuada depressão já de si perigosamente elevados. Dá-me ideia que a única coisa que me assiste reclamar com toda a legitimade é a minha memória de adolescente. Estou convencida de que entrei numa precoce e vertiginosa ascendência ao pico do monte Alzheimer.

carnaval

Alguém que se fantasia de puta reles e espalhafatosa e encontra na sua indumentária do dia-a-dia e no seu estojo de cosmética tudo o que precisa, deve repensar toda uma série de coisas. Não vos parece?

terça-feira, 31 de março de 2009

al pasar la barca

Al pasar la barca me dijo el barquero
las niñas bonitas no pagan dinero.
Yo no soy bonita, ni lo quiero ser,

yo pago dinero como otra mujer.

Al volver la barca me volvió a decir
las niñas bonitas no pagan aquí.
Yo no soy bonita, ni lo quiero ser,

yo pago dinero como otra mujer.

Já não há barqueiros imberbes, de músculo rural e sorriso trocista.

segunda-feira, 30 de março de 2009

ontem

De manhã, dormi.
De tarde, li a morte do tio Fiodór, da senhora e da árvore.
À noite, vi um filme muito parvo chamado Sexo até à Morte.

Antes de dormir fui passear o cão. Quando, por fim, saí à rua tive a sensação que estava a pisar outro planeta.