segunda-feira, 27 de abril de 2009

Anos depois

Fernanda Torres "A Casa dos Budas Ditosos", de Ubaldo Ribeiro
Com a polémica reinstalada, mais ainda do que a vontade de ler o livro (que não li), apetecia-me ouvir o monólogo.
(quem tiver vontade de litigar esta obra para o meu aniversário também será muito agraciado. Ou isto ou aqueles adidas encarnados bem giros que eu conheci em santo tirso. mas isto é melhor. e mais barato.)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

a professora do charlie brown

No outro dia ele disse-me que eu às vezes soava-lhe exactamente como a professora do charlie brown.
Foi deveras ofensivo!
Mas também foi provavelmente a coisa mais engraçada, agora que penso nisso.
E não constituiu novidade.
Ambos sabemos quem é o adulto e quem é a criança nesta relação.

desassossego

- Mas porque pensas sempre que falar sobre determinados assuntos terá de ser uma forma de acordar fantasmas?
- (...)
- Sim, tudo bem, nem todos os assuntos são agradáveis e alguns podem ser mesmo indesejáveis.... mas mesmo que sejam fantasmas, será que nunca te apeteceu exorcisar certas coisas e quebrar-lhes o tabu através do diálogo?
- (...)
- Mas então... não te faz sentir melhor partilhar com alguém certas perturbações, mesmo que sejam inevitabilidades, nem que seja só para reconfortar a alma?
- (...)
- Pois eu preciso de ter amigos com quem possa soltar lamentos espontâneos, seja em tormenta ou de forma amena, e sentir que eles se interessam também por isso. Preciso que demonstrem interesse por mim e não apenas pelo meu bom humor.
- (the end)
- (... mas porquê?)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

em dia de celebrar a leitura...

«Nunca me hão-de obrigar a entrar num automóvel! Terei sempre medo de ter um desastre! Mesmo quando não se morre, fica-se traumatizado para a vida inteira!», dizia o escultor, agarrando maquinalmente no indicador que quase serrara a esculpir madeira. Só por milagre é que os médicos tinham conseguido salvar-lhe o dedo.«Mas de maneira nenhuma!, proclamou uma Marie-Claude em excelente forma. Quando eu tive o meu desastre foi magnífico! Como não conseguia pregar olho, lia ininterruptamente, de dia e de noite!»
A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

Pelo contexto emocional que atravessava ou pela sua extraordinária capacidade de nos despir perante os nossos próprios temores e fraquezas, talvez nunca outro livro consiga exercer em mim o mesmo efeito.

caetano veloso (o mundo não é chato)

Como o meu aniversário se aproxima e precisarei, este ano mais do que nunca, de sério consolo pela efeméride assinalada, apelo aos meus amigos que por aqui encontro: atentem neste regalo para me mimar.
(conversai entre vós pois só irei precisar de um exemplar)

dia da terra

Quem entrava ontem na CGD on-line, que bonito que era!
Foi assim que fiquei a saber que era dia da terra.
Hoje, já lá não está...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

hoje

Tenho para mim que hoje trabalhei demais. Acho que o trabalho (por conta de outrém, sobretudo) deve ser regrado, moderado, sob pena de darmos por nós exaustos, explorados e, pior de tudo, tomados como certos. Devemos dar um gostinho da nossa eficiência, manter as coisas controladas, mas sem excessos, para ninguém se acostumar e ousar concluir que se calhar até nem temos muito que fazer porque tudo o que nos pedem é concretizado, inconscientes de que respondemos a várias solicitações, de várias proveniências, e que talvez estejamos a fazer-nos em oito para conseguir apresentar aqueles resultados.
É isso mesmo.
Trabalhei demais.
Trabalhei por três dias.
Já merecia o fim de semana.
Não..?
Está bem, então.

(há depois quem não se reveja aqui. Esses, gostam do que fazem e padecem de cansaços felizes)

terça-feira, 21 de abril de 2009

outros lamentos

Quando caímos, não caímos de pé. Isso foi uma patranha optimista inventada por alguém que ganha a vida a escrever livros de títulos firmes e sorridentes. A verdade é que caímos sempre de joelhos, prostrados, vergados. Muitas vezes caímos de bruços, com espalhafato, e há até quem nunca se levante. As minhas quedas (à excepção das justificadas por falta de valproato) têm sido quase sempre resultado de entregas excessivas e confianças cegas, não necessariamente aos outros mas à ideia que construo deles.

A desilusão.

Porque não? É um tema como outro e que nos une em comunhão, quer pela experiência partilhada, quer pela sobrevivência a que nos forçamos.

Isto soa a psicanálise. Vou meter por outro caminho.

Gostava de perceber a correlação existente entre a surpresa das pequenas grandes desilusões e as dores de estômago. Certamente existirá essa causalidade e meia dúzia de palavras difíceis, dispersas entre substâncias libertadas pelo cérebro e efeitos provocados no organismo, devem explicá-la muito bem.

A desilusão e a injustiça.

Há alturas em que temos dúvidas se merecemos que aquela atitude provoque em nós aquela sensação. Deve existir então um mal-entendido entre as partes, um curto-circuito, qualquer coisa fortuita ou acidental, que não envolve responsabilidades ou culpas e faz parte do percurso.
Mas somos, ocasionalmente, confrontados com a injustiça com que nos julgam e com a desilusão que isso provoca. Nesta altura, em que sabemos nomear a atitude e a sensação, sabemos que não tropeçámos no caminho, mas que alguém nos rasteirou.

Às vezes canso-me de cair e de me levantar.

...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

cultura comercial

Esta promoção da Fnac diz, da forma mais explícita possível, 'quem lê um, lê todos' (para o caso das imagens por si só não serem já demasiado óbvias).
A pergunta é: que tipo de pessoa considera esta campanha uma grande oportunidade para adquirir variada literatura de qualidade?

Estava a pensar dar um saltinho esta semana e até algo esperançosa de um ou outro achado, mas agora já não sei. Acabo é a gastar dinheiro em cds, por culpa deles que me defraudam as expectativas e enchem os bolsos à custa da minha fraqueza de espírito.

james franco


um, é o vulgar Harry Osborn, vilão do Spiderman.
o outro, é... Scott Smith (i arrest my case)

dá-se então que:

para compensar a patética e inconvenientemente chuvosa tarde de sábado (da qual se escapou a fantástica performance gímnica da minha piolhinha magriça devidamente documentada em VHS e a actuação fabulosa de outros meninos, mormente os de Algés - muito bons! - e do Real Clube, que despertaram em mim o dormente fascínio dos velhos tempos pela ginástica rítmica, e arcos, e fitas, e massas, e cambalhotas, e esparregatas), o domingo foi dia solarengo que, à excepção de uma pequena fuga para aquisição do Shiseido - porque afinal a Lâncome não tem assim um rouge tão absolut como o que pretendia - foi dedicado à prática de home-cinema. Pois que é.
E os escolhidos foram os fabulosos documentários que se seguem:


and...

worten dix it

É mais um aparelho, assim uma espécie-de-box, para empilhar sobre dvd, playstation, box tvcabo e amplificador. Mais uns cabos e umas fichas scart (raios partam se percebo alguma coisa de electrónica) e dá-se o milagre de chamar a mim a Lusomundo: dezenas de ficheiros, entre os quais, as legendas!! dos filmes que tenho em calha há já alguns meses (porque me fazem falta as legendas e não me habituo nem por nada que seja de outra forma, não obstante a minha boa percepção do idioma da grande maioria das películas). Assim, o único inconveniente é saber que relego, quase de certeza, para segundo plano a pilha de livros por ler - não porque uma coisa substitua a outra mas porque o tempo se mostra escasso para realizar certos anseios e cumprir ainda com os deveres matrimoniais. Pois.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

boas leituras

É por coisas destas que, ocasionalmente, dou graças por estar aqui, à beira da pedreira.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

arte

A primeira pincelada é incerta, tímida, sem saber ao certo onde quer chegar. Transmite uma espécie de vibração sensorial que se espalha pelas artérias e se sente em todo o corpo. A côr é inebriante, a substância espessa e luminosa marca a tela em relevo, num desperdício pecaminoso de tinta farta. Não importa de onde vem, para onde vai, se condiz ou faz sentido. Importa dar-lhe expressão e movimento. Tem muito mais a ver com sentimento que com lógica, muito mais com exteriorizar gestos que com chegar ao detalhe. A precisão é antípoda ao prazer e à terapêutica da arte plástica.

Sempre gostei de pintar. Desisti apenas porque receei que me sugasse toda a energia que me mantinha sã. E agora, escrevo. E quando não escrevo, penso.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

casino

Ali as pessoas são todas diferentes: altas e baixas, gordas e magras, feias e bonitas, pretas, brancas, asiáticas, ciganas, homens ou mulheres, novas e velhas, pobres e abastadas, elegantes ou nem tanto. Fumam, bebem, falam pouco, murmuram ou apenas gesticulam, olham fixamente para um sítio, para um objectivo, não se observam entre si, movimentam-se como se não houvesse mais ninguém em volta, concentradas, tensas. Usam objectos de 'rotina' como se fosse o missal na eucaristia: sejam a pochette dourada, uma carteira em pele ou uma bolsa de cintura, onde carregam fichas, notas, moedas. Fumam mais. Os empregados movimentam-se com cerimónia e as croupiers suspiram, com pompa e algum enfado, entre uma e outra aposta. O chão é suave. Sinto-me diferente, deslocada, mas continuo, obcecada e confortavelmente, a observar os fantasmas que por ali se movem. São só fantasmas, não me vêem, nem me fazem mal. O barulho e as luzes como fundo. O brilho que se reflecte na curva da roleta e se renova, noite após noite, concluo, é roubado daqueles olhares vazios, sem expressão, que se debruçam diariamente sobre o abismo.
Afinal, ali as pessoas são todas iguais.

Audrey


Desde miúda que é assim: quando a L. está presente, não consigo tirar-lhe os olhos de cima.
Não sei como casou com aquele sonso e desfigurado do Dr. A.
Até nisso me lembra a Audrey Hepburn e os melodramas cinematográficos.

percebo que...

... sou uma pessoa ingénua, ainda em fase de maturação.
Dou-me conta disso quando ainda me surpreendem as anedotas inadvertidas da tvi (principalmente as da recente 24) e as 'inovações' instituidas, da noite para o dia, com que me deparo quando chego ao trabalho.

terça-feira, 14 de abril de 2009

de onde me encontro

Irritam-me pessoas sem modos, sem charme natural, sem aqueles pequeninos pudores dignificantes. Pessoas abruptas, agressivas, sem jeito, sem tacto. Pessoas sem sensibilidade, sem talento, sem encanto. Irritam-me as pessoas pouco escrupulosas, cheias de razão, de ênfase, de peito feito. Não é a rudeza campónia que me incomoda, é a grosseria cosmopolita.
Pena é que o dinheiro não compre, efectivamente, as maiores virtudes.

barraca

Sem querer chover no molhado das críticas fáceis ou nas conclusões elementares que se podem retirar sobre a intemporal adequação do conteúdo da peça à realidade social, também a mim me apraz enaltecer a excelente capacidade de adaptação teatral desta obra de Gógol, muito embora raramente me tenha abstraído da impressionante semelhança eloquente entre João D'Ávila e a D. Isabel aqui da limpeza, quer nas similaridades físicas, quer no discurso enfatizado e sufocante. Mas o interessante que advém destes eventos lúdico-culturais, e que já nada tem a ver com as qualidades do mesmo, são as suas promoções sociais e as críticas póstumas(?) de quem tem como 'missão' analisar e interpretar, recorrendo aqui e ali a nomes ou situações reais, para satirizar e se mostrar expert naquilo que diz. E escreve.
Não fossem os erros ortográficos e o facto de se valer de sinopses e googlagens sobre as virtudes do autor e até estávamos, no exemplo referido, perante um texto... 'maneirinho', vá.

gertrudes

Com um título destes, dir-se-ia que poderia postar aqui alguma coisa relacionada com a minha tia que vive em Moscavide, mas não. Descobri hoje que há uma gertrudes muito mais influente na capital. Eu e milhares de lisboetas.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

sangue azul

Sangrei azul de corpo e de mente. Um certo brainstorming, exigente, de certeza, e muito bem conseguido, levantou-me da cadeira. Elevei-me ao mais alto skyscraper espiritual. And it felt good! Carreguei os lábios de vermelho escuro, parecendo adivinhar a feliz combinação com a opacidade azul da maquilhagem. Parece-me que alguma da magia teve a ver com uns certos e determinados acordes que muito me dizem, a proximidade física também denuncia responsabilidade, mas mais que tudo, houve ali uma mensagem muito pessoal. A carapuça serviu-me. De regresso, vinha com um apetite voraz, daqueles pós-orgásmicos, reveladores de cansaços bons. E apetecia-me comprar um batôn Lancôme. Lembrei-me até da Isabella Rossellini! Parece que o vermelho carregado é bom agoiro.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

febre de quinta-feira à noite


"The General-Inspector is a national institution. To place a purely literary valuation upon it and call it the greatest of Russian comedies would not convey the significance of its position either in Russian literature or in Russian life itself. There is no other single work in the modern literature of any language that carries with it the wealth of associations which the Inspector-General does to the educated Russian. The Germans have their Faust; but Faust is a tragedy with a cosmic philosophic theme. In England it takes nearly all that is implied in the comprehensive name of Shakespeare to give the same sense of bigness that a Russian gets from the mention of the Revizor"

Estai atentos. Qualquer similaridade com o real será aqui devidamente reportada.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

vindo de quem vem não admira

Não me perturba a falta de tacto diplomático de Berlusconi, muito menos me espanta. Acho até que o seu sentido prático pode ser muito útil aos italianos nesta altura difícil (a nós, Deus nos proteja, calhava-nos um ministro que, de momento, nem mãos tem para tanto magalhães). Não obstante, acho que lhe dava jeito um conselheiro que ajudasse a tornar mais oportuna a sua intervenção, se aliada aos recursos cintilantes de um discurso obamístico, por exemplo.

divina inspiração política

Disserta-lhe, verborreico Tavares, disserta-lhe, com arroubo e inebriante clamor!

Conta-se que Bocage, ao chegar a casa um certo dia, ouviu um barulho estranho vindo do quintal.
Chegando lá, constatou que um ladrão tentava levar os seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com os seus amados patos, disse-lhe:
- Oh, bucéfalo anácrono!
Não te interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo acto vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa.
Se fazes isso por necessidade, transijo...
Mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada…
E o ladrão, confuso, diz:
- Doutor, afinal levo ou deixo os patos?

(obrigada, Tânia Fadário, pela consideração à minha caixa do correio)

terça-feira, 7 de abril de 2009

e porque não há duas sem três

enquanto botava abaixo a açordinha, assistia fascinada ao programa Cuidado com a Língua!
Não tenho palavras para comentar tão preciosos quinze minutinhos. E também confesso algum receio de que me apareça aqui a Maria Flôr Pedroso, sentada no parapeito da janela, a dizer, com aquele ar entre o severo e o condescendente: "O que escreveste não está correcto".
Graças a Deus que hoje tenho dose dupla de Donas de Casa Desesperadas no cabo. Palavra de honra que há dias em que só preciso de um bocadinho de lixo comercial.

as notas soltas

Ontem à noite, enquanto cirandava nos meus rituais de início de serão, ia ouvindo as notícias na rtp1. Ainda me prostrei em frente à televisão, uma meia no pé e outro pé descalço, entre o despir e o tomar banho, em frente ao Fernando Mendes para ver se a mulher de ar acriançado e cabelo muito comprido acertava no preço da montra final, em euros, mas não, e não arranquei logo para a banheira porque as chamadas dos noticiários, tal como as gordas dos jornais, existem é para nos prender, e por ali fiquei mais um pouco, a baloiçar no sofá-baloiço, atenta aos desenvolvimentos sobre o sismo em Itália, por ser sismo e por ser em Itália, consciente de que o número avultado de mortos das guerras e das fomes não constitui chamada nem manchete, porque "estórias" dessas já não nos detêm de caminhar directamente para o duche. Depois o José Alberto Carvalho trouxe em directo de L'Aquila um estudante de erasmus e tentou, inutilmente, arrancar-lhe alguma coisa de novo e emocionante, e foi aí que me fiz à casa de banho. Preparei depois a minha açorda instantânea e, entretida na cozinha, por entre o cheiro dos coentros e as investidas do cão que queria festa, iam-me chegando da sala risadinhas cúmplices e infantis, e comentários sobre a primeira dama americana e as peripécias da sua vinda à Europa. Pensei para mim, "esta Judite de Sousa gosta mesmo deles carecas e roliços!"

segunda-feira, 6 de abril de 2009

chocostat

Não dou muita credibilidade às estatísticas. São uma espécie de astrologia disfarçada de matemática, manipuladoras e manipuláveis e a sua razão de ser tem muito mais a ver com influenciar do que com informar. Depois há a questão da forma como as estatísticas são apresentadas, que condiciona ainda mais a sua interpretação, de acordo com o efeito pretendido desse anúncio. Além disso, as estatísticas vêem as pessoas como números, o que demonstra uma grande falta de sensibilidade e permite a obtenção de alguns resultados idiotas que nos dizem, por exemplo, que em 100 portugueses 7,8 estão confiantes na economia mundial - muito embora isto também já implique uma mistura entre percentagens e números inteiros que não me cheira que devam andar de mãos dadas. Sou muito pouco dada a esta área.
Tudo isto porque ouvi hoje dizer que cada português consome, em média, quilo e meio de chocolate por ano. Isto andaria na ordem das quinze mil toneladas anuais? Qualquer coisa assim.
Não consegui evitar pensar que há por aí muita gente a servir de bode expiatório à gulodice alheia. Mas creio que me senti tomada pelo sentimento de culpa que m&m's e amêndoas de chocolate às sacadas me provocaram. É que, assim de repente, quilo e meio parece-me um número irrisório e a estatística nacional, assim apresentada, despenaliza o meu recorde pessoal de gula.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

patti smith

"O futuro? Sim, absolutamente. Tenho imenso trabalho pela frente: um álbum, exposições, gostava de escrever uma ópera, um milhão de ideias. O futuro para mim é trabalho novo. E viajar. A vida é fantástica. É difícil e temos de negociar todo o tipo de coisas: assuntos de saúde, a perda de pessoas que amamos, aflições financeiras, fome física, solidão. Mas estar vivo é maravilhoso. É infinitamente interessante."
Ípsilon, 03 de Abril de 2009
Inspirador, magnífico, and yet, não me passa este torpor espiritual.

Luisão lesionado no 'escrete'

A malta d'A Bola vale-se de critérios bastante infelizes na escolha dos seus títulos.
Ou sou eu que associo diferentes conceitos sem qualquer tipo de pudor.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

pára-brisas

Acho giro que tenham feito os anúncios radiofónicos da Carglass com técnicos a sério.
Acho muito honesto e pouco habitual. O costume é ouvir-se mulheres de voz hipnótica a contar-nos experiências reais sobre diuréticos milagrosos tão naturais e tão benéficos que nos apetece, de facto, engoli-los à litrada, como se fossem vitaminas. Mas a Carglass opta pela autenticidade.
A única coisa que soa falsa é a entoação. Mas também é isso que comprova que eles são, de facto, técnicos da Carglass!

g20

Onde há sorrisos de circunstância, há silêncios incómodos.
Humm...

a idade

Há uns anos atrás, que me parecem muitos, muitos, achava que não havia nada pior que cortar os dedos com papel o dia todo e pincelar cola líquida em envelopes, bem como contactar telefonicamente ilustres desconhecidos para congratulá-los pela aquisição do seu Honda Concerto, que na maioria das vezes não possuiam, como, não possui? - Já lhe disse, nunca tive nenhum Honda Concerto na vida! - Mas não é o Sr. Tal e coiso!? - Sou sim senhor, mas não tenho nem nunca tive nenhum Honda Concerto - Ah... pois, então desculpe lá. Deve ser engano da base de dados... Mas não participou num concurso, de certeza..? - Oh, menina, já lhe disse..., mas volvido este tempo há dias que não suporto os afazeres administrativos que se me afiguram todos os dias, que não são mais do que um sem fim de burocraciazinhas que me fazem pensar que a minha utilidade é tão menor ou inferior à da miúda que almoçava no jardim do príncipe real e aí fumava uns cigarros e enxotava os pombos, antes de voltar para os envelopes, a cola, a base de dados e o telefone. Depois ponho-me a pensar que, não obstante a falta de paciência que já me caracteriza permanentemente, devo estar grata por me ver rodeada de Natureza, pessoas que gostam de andar no meio da estrada e parecem olhar para os carros como se lhes dissessem aqui mandamos nós! A aldeia já era nossa antes de vos inventarem! e por um micro clima inexplicável. É que as saudades que tenho de Lisboa são tendenciosas e não incluem uma série de contratempos que me fariam subir os níveis de stress e acentuada depressão já de si perigosamente elevados. Dá-me ideia que a única coisa que me assiste reclamar com toda a legitimade é a minha memória de adolescente. Estou convencida de que entrei numa precoce e vertiginosa ascendência ao pico do monte Alzheimer.

carnaval

Alguém que se fantasia de puta reles e espalhafatosa e encontra na sua indumentária do dia-a-dia e no seu estojo de cosmética tudo o que precisa, deve repensar toda uma série de coisas. Não vos parece?

terça-feira, 31 de março de 2009

al pasar la barca

Al pasar la barca me dijo el barquero
las niñas bonitas no pagan dinero.
Yo no soy bonita, ni lo quiero ser,

yo pago dinero como otra mujer.

Al volver la barca me volvió a decir
las niñas bonitas no pagan aquí.
Yo no soy bonita, ni lo quiero ser,

yo pago dinero como otra mujer.

Já não há barqueiros imberbes, de músculo rural e sorriso trocista.

segunda-feira, 30 de março de 2009

ontem

De manhã, dormi.
De tarde, li a morte do tio Fiodór, da senhora e da árvore.
À noite, vi um filme muito parvo chamado Sexo até à Morte.

Antes de dormir fui passear o cão. Quando, por fim, saí à rua tive a sensação que estava a pisar outro planeta.

gaveta da preguiça

Tenho na minha gaveta da preguiça um rol de coisas: fotos que não tirei, pessoas que não vi mais, sítios que não conheci, muito dinheiro que não poupei, pouco que não gastei, coisas que não escrevi que se misturam com as que escrevo, planos que não segui, objectivos que não alcancei. Estou sempre a depositar lá mais e mais coisas: quando me esqueço, quando ignoro, quando negligencio, quando não cumpro, quando não faço, quando não sou. De vez em quando faço uma limpeza. Tiro dois ou três projectos poeirentos e dou-lhes uma razão de ser. Nessas alturas penso que é fácil e agradável. Penso, sobretudo, que faz sentido e que deveria ser sempre assim porque esses projectos poeirentos, encerrados numa gaveta, num gavetão, transformam-se em ornamentos, em molduras na minha vida. E até é simples. Mas depois vem outro surto e a gaveta volta a encher-se, como se as concretizações abrissem espaços para novos armazenamentos. E a gaveta nunca está vazia ou arrumada: misturam-se o doce e o salgado, o quente e o frio, o pensado e o dito. Às vezes a gaveta é enorme, transforma-se num baú. Cabe lá a bicicleta imóvel, a bola de basquete que não vê as tabelas, os aplausos da peça de teatro e a música daqueloutro concerto. Mas quando está mesmo grande, quase inamovível de tão pesada, é quando deixo passar muito tempo e vou lá descobrir-me a mim, enroscada numa dormência conformada.

sexta-feira, 27 de março de 2009

para quem não tem onde dormir



música de fim-de-semana, para baloiçar a perninha.
(Oxalá não se lembrem de adoptá-la em massa como toque de telemóvel, aqueles que só recentemente se deram conta que ela existe!).
o sigmatismo dá-lhe (à Amy) um ar giro e está na moda (falta-lhe só o aparelho nos dentes).

quinta-feira, 26 de março de 2009

mariage médiane

o homem quer (pelo menos) um mínimo de sexo e o máximo de silêncio.
a mulher quer (pelo menos) um mínimo de carinho e o máximo de estabilidade.
o segredo da felicidade remediada.

iris

A caminho de casa ia, sonâmbula, a ouvir na rádio os goo goo dolls com a sua iris e a pensar como é possível ter-se como filme de eleição a cidade dos anjos. Tão meloso, tão comoventezinho na sua mensagem, tão estranho na sua abordagem dos sentidos, do pressentimento. O ET tem mais de vinte anos e talvez tenha tido o seu impacto exactamente por isso: volveram-se entretanto duas décadas.
O Nicolas Cage faz lembrar o Bender Bending e como é triste para um robot não ter sentimentos (excepto que no futurama a observação é para ter piada efectivamente). A Meg Ryan, por sua vez, tem a morte cinematográfica mais estranha e violenta de todos os tempos, mas sempre rodeada de uma aura angelical completamente inadequada à realidade; e não me esqueço daquela falha de raccord tremenda quando a actriz se deita com uma camisola e acorda a meio da noite com outra.
Pior é que até gosto da iris dos goo goo dolls. Ou gostava, não fora o caso de associá-la sempre ao estafermo do filme.

(im)pertinente

Acho que isto justifica um debate televisivo.
A questão que se coloca é: o que faria o Lucílio?

futebol e outras religiões

Ainda bem que a tentação de fugir à chafurdice mundana não me levou no passado fim-de-semana à eucaristia dominical da Igreja do Rato. É que esta coisa de me forçar a aceitar que o Bento XVI se vê limitado a uma visão humanitária condicionada pelas contingências históricas da religião, leva-me a pensar que a estagnação do catolicismo deveria aplicar-se com muito mais rigidez à postura 'brincalhona' que alguns párocos assumem na homilia.
Para mais, parece-me que quem fala em nome de outrém, ou melhor, de Outrém, não devia ser tão tendencioso. Embora comece a fazer algum sentido a "aparente" coincidência dos fumos negros do Vaticano e de Alvalade anunciarem dois Bentos para comandar os seus apóstolos. Quase me atrevia a concluir que a Maria Madalena no repasto do Soares Franco é o Miguel Veloso, disfarçado de jogador de futebol.

quarta-feira, 25 de março de 2009

na'an

Ontem fui jantar ao Indiano. Comi naan com queijo e alho. Tinha mais ervas do que o costume. Estava melhor do que nunca.
Pensei que tenho de ir à Índia.
Tenho de ultrapassar os fantasmas da pobreza, da sujidade e, principalmente, os da diferença.
Se para me apaixonar pela Índia tiver de me fustigar primeiro, não hesitarei (como não hesitei em queimar as pontas dos dedos na lanterna por teimar em tocar-lhe a beleza).
O caril de camarão estava muito bom mas naan recheado com queijo... ah! naan recheado com queijo...

terça-feira, 24 de março de 2009

segunda-feira, 23 de março de 2009

porque no enfiamento do poste é que se tiram bem os foras de jogo

Fico ursa quando percebo que, por mais água que corra debaixo da ponte, o Miguel Sousa Tavares e o futebol terão sempre em mim uma influência negativa. Pior ainda quando se trata do Miguel Sousa Tavares e de futebol, em simultâneo. Do dito senhor, já evito ler as crónicas, medida que constitui o passo mais importante na minha auto-infligida terapia; já o futebol não é coisa que se evite facilmente, muito por culpa da forte proliferação de comentadores desportivos, à espreita, cíclica e cansativamente, em todos os noticiários, na televisão, na rádio e nos jornais. Depois deste grande evento que foi a final da Taça Carlsberg, mina de ouro da sic para as audiências de sábado, estou fartinha de ouvir opiniões, bitaites, comentários, picardias, "análises" e promessas de ajustes de contas... porque há coisas graves que não devem ficar impunes. Com trinta mil putas! Eu, que tentava evitar aqui, no meu refúgio de disparates comedidos e sempre censurados pela minha consciência, qualquer tipo de impropério pouco digno da minha regrada educação, apetece-me - ora por imaginar o sorriso retrocido de ironia do sôr MST, ora por me ecoarem na lembrança os maiores disparates proferidos pelos ditos comentadores - largar, uma vez mais, o Foda-se! redondo e rubicundo que disse, duas vezes de seguida, a noite passada, mesmo antes de adormecer.
É que andam aqui estes tipos, que são pagos para nada mais do que jogar futebol (e nada mal pagos por sinal: não venham com conversas de ligas estrangeiras milionárias que há toda uma lista de argumentos perfeitamente válidos a comprovar que dinheiro não significa necessariamente talento e bons resultados - se assim fosse nem as participações consecutivas nas competições europeias salvavam a vida ao FCP que, em braço de ferro económico com o Benfica, talvez saísse a perder) e mesmo assim têm de se sacrificar os árbitros para justificar a falta de jeito que paira por estes relvados. Aguçam-se os espíritos críticos para que, horas antes dos jogos, não se anseie por uma grande jogatana mas por saber para que lado irá pender o juíz da partida (como lhe chamam os ditos comentadores, férteis na atribuição de adjectivos e nomes alternativos, para desenjoar na repetição das mesmas ladaínhas criticistas) e fazem-se solenes e avisados votos, por parte de dirigentes com a mania da supra-sapiência, para que o árbitro nomeado esteja à altura da grandiosidade do encontro, olvidando que talvez o não estejam os jogadores.
Foda-se! Foda-se! Só alivía à segunda.
É que é de uma pessoa perder a paciência. Palavra de honra.

sexta-feira, 20 de março de 2009

reflexo da divergência política internacional ou a confirmação da regra que diz...

... por detrás de um (grande) homem, está sempre uma GRANDE mulher.
Regra que raramente admite excepções.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Mila

A Mila que eu conheci em miúda, feia, baixinha e gorda, com olhinhos de tartaruga velha e óculos de míope conseguiu sempre destronar do meu pódio imaginário todas as Milas que se lhe seguiram: lembro-me de repente da Mila do Netinho brasileiro, um mito musical e certamente uma brasa carioca, ou da Jovovich, qualquer uma delas sempre assombrada pelo fantasma da primeiríssima Mila da minha vida. As primeiras coisas são as que deixam marcas. Não posso evitar de não gostar de Mários, Duartes e Betos pelas experiências ou impressões pouco indeléveis que os primeiros deixaram em mim, pelo que nunca teria um filho a quem chamasse Mário, Duarte ou qualquer nome que pudesse originar a suspeita alcunha Beto.
Eis-me aqui chegada a um outro tema que, apenas aparentemente, nada tem a ver com isto. Esta manhã acordei a pensar em vilipendiar. Simplesmente. Não que vilipendiava alguém, ou que fosse vilipendiada ou que assistisse a algum vilipêndio. Acordei com a palavra a latejar-me na cabeça, a pressionar-me. Foi mais ou menos um acordar cinematográfico, em que a pessoa se levanta e grita qualquer coisa, com a excepção de não me levantar como que impulsionada por molas - coisa que considero pouco coerente com o que normalmente acontece no despertar de um pesadelo, apesar de ter um efeito bonito -, apenas balbuciei a palavra, certamente com uma expressão aparvalhada.
Partindo assim das duas permissas iniciais, permito-me concluir o silogismo da forma mais lógica que agora me ocorre. Não obstante não ver a Mila nº 1 há uma mão cheia de anos (não conhecer a nº 2 e apenas estar mais em contacto com a nº 3 através da L'Oreal), a minha interpretação da obrigatoriedade de usar os óculos novos, interpretação muito própria que lhes reconhece a função de prótese acessória completamente dispensável e inconveniente, faz brotar em mim esta tendência subconsciente para vilipendiar a Mila-feia em função de uma ligeira crise patológica que tem estado a levedar brandamente de há uns dias a esta parte.

quarta-feira, 18 de março de 2009

hormonas ou outra coisa qualquer

Hoje, pela manhã, num frenético acumulado de energia negativa desde segunda-feira, pensava "fosse eu de arrancar unhas a sangue frio ou estropiar animais inocentes e esta era a altura perfeita para fazê-lo".
Agora só me apetece adormecer sem data prevista para recuperar os sentidos.

terça-feira, 17 de março de 2009

tudo o que precisamos saber



já sabemos que a distribuição gratuita de preservativos e as campanhas para a sua utilização não ajudam a combater a Sida (pelo contrário, agravam o problema).
já sabemos que a solução passa pela abstinência e por um 'despertar espiritual e humano'.
já sabemos que a 'amizade pelos que sofrem' também ajuda (terapêutica de solidariedade?).
já sabemos que a utilidade da igreja passa por dar sugestões 'espirituais e morais' e contribuir para a 'ética das estruturas económicas' em défice.

ainda bem que Bento XVI sabe como solucionar o flagelo da Sida em África.

esta é, oficialmente, uma semana de merda

... apesar de ser ainda terça-feira.

eu? eu acho lindo!

o homem português (ao contrário do irlandês) não fica na esquina, desgraçado da vida, à espera do reencontro.
como não percebe de solidó, faz só o script...
"é tão bonito ouvir dizer com alegria, olá bom dia..."

sexta-feira, 13 de março de 2009

trois choses indésirables

o Vítor Pereira (principalmente quando fala com pouco à-vontade sobre o "aparecimento" da Sida e da obrigatoriedade do uso de caneleiras como consequência disso - por causa dos acidentes e do sangue e de evitar o contacto com a pele...);
a cansativa missão-magalhães, mais as embaraçosas entrevistas dos jornalistas peregrinos que interrogam os pretinhos de Cabo Verde, como se fosse Natal em terra de pobre, para obterem respostas monossilábicas e pouco entusiastas de crianças que (sim!) já tinham um computador em casa;
spams na minha caixa electrónica com o título: erecções prolongadas.

quinta-feira, 12 de março de 2009

o reinado actual

Na última edição da Visão on-line, aprendi imenso sobre a história da monarquia portuguesa, eu, uma leiga no que respeita às nossas dinastias, tanto que nunca me atrevi a concorrer ao elo mais fraco, ou ao quem quer ser milionário (certamente desperdiçaria a ajuda dos 50/50 numa pergunta sobre reinados e ainda assim teria apenas 50% de hipóteses) ou ao jogo duplo (embora o Malato também pese nesta decisão), com receio do embaraço que seria dar a conhecer esta lacuna apátrida.
Mas aprendi mais coisas. Aprendi que a analogia é um conceito soberbo que nos permite, por exemplo, comparar Carolina Salgado com D. Leonor Telles de forma diabólica e ainda deixar no ar um cheirinho da nossa sensibilidade e domínio dos meandros quer da sociedade monárquica, quer da actual. Ora a mim, que sou uma ignorante filha da república, até me podem convencer que D. Leonor Telles era uma ousada e emancipada senhora dos seus tempos que, nos enleios do seu poder de sedução, conseguiu o que quis, pagando o que não quis pela sua ambição. Podem até convencer-me que a dita foi vítima de odiosas gatas borralheiras e velhos do restelo, numa mistura de personagens, que lhe causaram a desgraça. Será certamente mais difícil moldar-me a razão de forma a reconhecer qualquer um destes atributos a Carolina Salgado. Diz-me a minha sensibilidade que se a evolução nos serve de alguma coisa, admitamos então que D. Leonor Telles poderia ser vista, em pleno século XIV como a Carolina Salgado da época. Mas Deus nos livre de pensar, após tantas conquistas, sobretudo intelectuais (acredito eu), que a vulgar Carolina Salgado, tão ordinária enquanto justiceira como o foi enquanto namorada de um velho pateta, simbolize a D. Leonor Telles dos nossos dias.
Se há, porém, neste artigo da Visão alguma coisa realmente ofensiva, deixei-a propositadamente para o final. Quando diz "São as súbditas, as mulheres, quem não lhe perdoa o indecoro nem a ousadia. São elas que realmente a odeiam, insultam e vituperam, a ela que se serviu da arma feminina mais poderosa - a da sedução -, a única que nunca poderão perdoar-lhe (...) Não é a culpa dos actos que persegue Carolina: ela está a pagar pelo facto de ser mulher", Filipe Luís está a dizer uma de duas coisas: ou o seu verdadeiro machismo não reconhece numa mulher, qualquer que seja, a inteligência e a sensibilidade que lhe permitam detectar a fraude que é uma pessoa como Carolina Salgado, ou o recalcamento de nunca haver experimentado na vida o verdadeiro poder sedutor de uma Mulher tolda-lhe a noção da realidade dos factos.
Talvez sejam ambas.

acesso permitido

devia ter percebido que era só uma manobra de diversão...

quarta-feira, 11 de março de 2009

de Bragança a Lisboa

Da mesma forma que relembro com ternura a versão cantada da Larocas do: "é fácil! é barato! 'caminhões' "!, também continuo a preferir a minha versão de "queria ter um avião, p'ra lá ir mais 'a miúda' "...

boas maneiras no Japão

Foto@EPA/Franck Robichon
Apesar de conhecidos internacionalmente pelas suas boas maneiras, mesmo os japoneses têm ainda de aperfeiçoar-se, como atestam os cartazes afixados no Metro de Tóquio, com o título em japonês e inglês, "Please do it at home" (Por favor, faça-o em casa). *

* fotos do dia - http://www.noticias.sapo.pt/

Sou particularmente sensível no que respeita a deitar lixo para o chão... e a velhinha sentada ao lado também não gosta nada.

terça-feira, 10 de março de 2009

por falar em blogues

A blogosfera, o mundo das amizades virtuais ou dos chats e até mesmo os diferentes domínios para criação de contas de correio electrónico têm pelo menos uma coisa que tende a aproximá-los inevitavelmente: o desenvolvimento de aplicações que se vão afastando do carácter utilitário para se tornarem apenas acessórias e, em muitos casos, reles kitsch cibernáutico. Como os penduricalhos que se inventaram para os telemóveis, ou as bolsinhas em forma de peúga. É um mundo de possibilidades, de downloads, de up-grades, tudo palavras que me fazem sentir um pouco desconfortável, mas que permitem um sem fim de coisas curiosas.

Na blogosfera, utilizo o meu espaço como bem entendo, na simplicidade e no recato de um semi-anonimato que me deixa à vontade. Gosto de pensar que sou mais exigente comigo do que qualquer outra pessoa e que, de toda a maneira, não serei alvo de toda a crítica porque o meu humilde blogue não circula pelos meandros sociais e elitistas que se desenvolvem em círculos virtuais. Também gosto de pensar que sou exigente com os outros, e quando o que leio me causa algum tipo de repulsa, saio pela mesma porta que entrei, sorrateira, para não mais voltar.

Depois há a aquela questão da gestão que cada um de nós, bloguistas, faz do seu próprio espaço. Sem censuras. Aprecio quem se deixa comentar da mesma forma que aprecio quem não dá essas abébias, no sentido talvez de se posicionar acima de qualquer crítica, por não ser essa (de todo) a finalidade de estar "aqui".

O que me transtorna profundamente, o que é quase um choque para mim, é que alguém, cujo domínio da escrita e dos temas, cuja inteligência e sensibilidade fora de série, cujo santíssimo poder supremo lhe permita posicionar-se acima do comum mortal, bata com a porta aos indesejados que, cambaleantes pedintes, se humilham a tentar penetrar no seu imponente reino de supremacia. É como entrar numa livraria e não podermos comprar aquele livro que é, de repente, bom demais para ser sujeito à nossa apreciação. É como vedar os Lusíadas ao português menos 'digno'. É, acima de tudo, um contra-senso limitar a nossa obra a um círculo restrito, muito possivelmente aquele que nos bajula e nos converte nesse ícone em que de repente nos transformamos, sem aspirar a mais, aquele mais que verdadeiramente compensa. Mas, sem censura, procurarei outros reinos mais acessíveis (e receptivos) à minha condição inferior.

segunda-feira, 9 de março de 2009

ódio fácil

Deve ter sido por sonhar com o que sonhei. Ela, que mal me falava, de tão ofendida, acabou por confessar que o motivo da sua presença ali se devia a uma ida ao médico. Uma consulta tardia (digo eu) devida ao facto de ter abortado espontaneamente há uns meses atrás (vejam bem o cabimento). E pronto, era isto. Mas depois, já havia uma outra jogada: tatuar em toda a extensão da barriga uma espécie de anjo de grandes asas; uma coisa horrível, colossal, de péssimo gosto que, quando pensava não poder piorar, se transformou num desenho inspirado na antiga fotografia dos avós. A sua barriga ostentava, então, a cópia de um daguerreótipo de dois idosos, de contornos escuros e olhos brancos, cegos. Uma coisa para lá de medonha.
Lembrei-me de Lourenço, da conversa da véspera, dos planos de uma lista. Por prioridades. Eliminatória. Acordei com uma raiva miudinha por isto tudo junto, por não poder pôr-lhe cobro. E ouvi sussurrar: "E Vitor?"
Foi a gota de água.

sexta-feira, 6 de março de 2009

superlativo

Hoje já li a palavra grandíssimo inúmeras vezes.
É contranatura e eufemista.
Nunca terá o impacto de Grandessíssimo, este sim, o verdadeiro adjectivo no seu exponencial máximo.
É das poucas excepções em que me estou nas tintas para o rigor ortográfico.

albert

Tomou-me ontem, na minha cama, com as suas vestes gastas, os seus gestos loucos e o poder da sua música.
Adormeci com a mesma sensação pós-orgásmica que Albert deixou no salão do baile após a sua performance.
Adormeci com o violino.
Infeliz aquele que nunca experimentou o prazer sublime da literatura.

no segundo mês consecutivo de sexta-feira 13...

independentemente de tudo o resto, sexta-feira é sempre um bom dia.

achados

para conferir acoli ...

quinta-feira, 5 de março de 2009

vento

Estou cansada, cansada, cansada. Estou cansadíssima, exausta, sem fôlego. Tenho um peso nas costas, nos rins, nos ombros, ao longo do dorso. Doem-me órgãos que nem consigo nomear. O pescoço está tenso, fatigado, contraído. A cabeça está tão insuportavelmente preenchida com ideias, emoções, pensamentos, planos, objectivos, expectativas, números e letras que parece vibrar em todas as suas funções.
Mas o que mais me dói parecem ser os pulmões, o peito, a caixa toráxica. Sinto que sou eu que sopro, do infinito de mim, este vento horrível, rodopiante, frio e violento que varre a estrada, o campo, os prédios, as antenas, os telhados de zinco e sobe pelo poço do elevador e sacode as folhagens e levanta o lixo.
Cansa-me e adoece-me, este vento.

um absurdo

Ao cruzar as portas do elevador, na saída para o trabalho, deparei-me com a vizinha-avó que chegava com a netinha pela mão, em passinho de corrida, para ocupar a cabine antes que a porta se fechasse. Antes de desaparecer ainda a oiço dizer "anda, bébé. Corre, corre, que vem lá o cigano".
Eu apostaria mais no papão, é menos xenófobo e dá azo a mil e uma alternativas assustadoras.
Já para não falar no precedente para o estigma que, na idade adulta, se materializa em assobiadelas ao Quaresma...

quarta-feira, 4 de março de 2009

barroca

podia ser modernista e simples como um exposição do MoMA, minimalista.
ou colorida, objectual, simbolista, como a pop.
podia ser naïf no seu estilo não académico.
mas o que escrevo é, por vezes, enleado e entediante como o barroco que estudava na escola. enjoativo e cheio de rodeios e pormenores, como uma escultura rocócó do Aleijadinho.

impaciências

Tenho-me lembrado, com alguma insistência, de prestar tributo aos sujeitos que controlam o trânsito no acesso às obras de construção do novo traçado da CREL (que nem sei se por estes lados não será já um IC qualquer-coisa) pelo seu valioso contributo (estou certa) para o bom funcionamento de algumas coisas, sendo que nenhuma delas passará certamente por controlar o trânsito. Pois que este tributo é então, efectivamente, um irónico alerta para o perigo que estes indivíduos representam e para o qual ninguém parece estar sensibilizado, incluindo quem é responsável por atribuir-lhes essas funções e as próprias autoridades, que se marimbam para a presença deles no meio da estrada.
Vejamos. Nada tenho contra os pobres que se revezam nestes postos de vigia ao longo do dia. Com os temporais que por aqui se levantam nesta zona de árido microclima, aposto que não deve ser pêra doce estar-lhes na pele, mas os pelintras já me pregaram alguns sustos. Logo para começar, costumam enterrar a cabeça na gola do casaco e cirandam pela berma baloiçando inconsequentemente a raquete do stop na mão, quando a luz já é fraca e as condições atmosféricas não ajudam nada. Por outro lado, parece-me que começa a ser frequente entre os automobilistas habituais ignorar as suas indicações, pelo que não lhes vejo grande utilidade. Um investimento na criação de novos e ousados postos de trabalho de forma a reduzir os índices de desemprego, talvez. Seja o que for, sei que tenho de estar bem atenta a mais esta invenção da engenharia civil e obras públicas. E talvez devesse forçar-me a usar sempre os óculos, conforme prescrição médica, porque isso também evitaria algum tipo de alucinação visual que, conjuntamente com os sinaleiros sem formação, tendem a impacientar-me.
É isso e o Miguel Sousa Tavares. Muito me impacientam.

terça-feira, 3 de março de 2009

eduardo verástegui

Pelo que percebi é uma espécie de menino bonito da televisão mexicana, mas estou disposta a sujeitar-me à possível mediocridade da película por duas horas de deleite com... José.
Acho que mereço, depois de ouvir de uma amiga (por quem tenho grande estima) que o Caneira tem uma beleza invulgar. E falava a sério!
related: bella

segunda-feira, 2 de março de 2009

coisas que fazem rir

1º Shuriken school é uma miscelânea franco-nipónica, parece-me; nada o tipo de coisa com que me identifique, mas confesso que me suscitou a curiosidade. Passa nas manhãs de sábado na sic e fez-me rir bem cedo e depois de uma noite pouco e mal dormida. Não é mais do que uma série de animação estreada há uns tempos pela nickelodeon. Achei digno de registo.
2º O Rui Santos e a sua triste vidinha dedicada a dissecar jogos de futebol até ao ponto em que não se percebe o quê e o porquê de se estar a falar naquilo (como quando se repete muitas vezes a mesma palavra e às tantas ela já não faz sentido nenhum e parece totalmente inadequada).
3º (pelo menos) Duas situações no primeiro par de dias em transmissão da tvi24:
i) a afirmação do José Eduardo Moniz sobre fazer "informação séria e independente" - coisa que ninguém tomará como certa até ao seu pedido de divórcio e enquanto permitir coisas como a escolha, em estreia da nova emissora, de um programa especial apresentado pelo Paulo Salvador e cujo tema é o primeiro homem grávido.
ii) a adorável emissão do primeiríssimo jornal da manhã do estreado canal, apresentada por um simpático casal de pivots, que parecem espreitar por detrás de um balcão, o que deixa no ar a dúvida sobre se estarão as cadeiras muito baixas ou se, pelo contrário, a aerodinâmica estrutura que lhes corta o plano pelo peito é intencional, a lembrar o Cheers, na versão Lux.
4º A triste mas anedótica situação que o povo Guineense parece ver-se obrigado a enfrentar, face aos recentes acontecimentos (versão soft e modernista da história do Uganda). Mais um déja vu profundamente lamentado pelos ecos diplomáticos de todo o primeiro mundo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

kaiser

Já não existe. Desde ontem, ao final do dia.
Num ápice, de forma fácil demais, retiraram-lhe o último sopro, que apenas já se percebia com dificuldade, numa luta desigual entre a sua fraqueza e o resto das coisas à sua volta. É extremamente injusto e doloroso o que se fez, quase cruel, como cruel seria não se fazer.
Quis saber qual o procedimento seguinte, para ser mais fácil. Soube, já tarde demais, que entregar para incineração foi a solução mais simples. Gostava de ter tomado as rédeas da situação e, com a força dos românticos idiotas, ter concebido aquele que seria, dentro das circunstâncias, um final mais nobre.
Um dia falarei sobre isto, hoje não.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

carnaval no meu país

O Carnaval está para mim um pouco como a religião: ao longo dos anos fui assistindo a uns desfiles, coloquei umas máscaras para me forçar à paródia, a ver se pegava, mas nunca teve grandes resultados práticos. Da mesma forma, rezar e frequentar a igreja em ocasiões de formalidade católica também nunca fizeram de mim uma devota, de maneira que se há feriados cujo significado de peso reside na possibilidade gratificante de nos dar uma folga, o Carnaval é um deles (a época natalícia é a única, até à data, que vivo com alguma introspecção e espírito de partilha e que me diz qualquer coisa, não sei bem o quê). Voltando ao entrudo, há coisas - cada vez mais frequentes - que acabam por se fazer por amor ao próximo. No caso, o próximo são as sobrinhas lindas, de fato a rigor, porque apesar da minha descrença quero que no futuro também elas tenham histórias para contar, com mais ou menos entusiasmo, sobre este feriado. Este ano, pelo tal amor ao próximo, rumei a Loures, o que não é de todo um up-grade nos meus Carnavais pela categoria do corso, e comecei logo por achar um abuso os cinco euros de ingresso (com direito a permanecer de pé, sem vista de jeito para o que quer que seja e salve-se quem puder). Entre empurrões e com paciência e boa vontade, lá se conseguiu um lugar de categoria à beira do sambódromo, onde desfilam tractores agrícolas, conduzidos por zé-povinhos a beber minis como incentivo. Mas a parte melhor estava reservada para as mulheres que saltitando mais do que sambando, se encavalitavam nos carros alegóricos forrados a papel de prata ou seguiam às resmas, estrada fora, com sapatos desiguais, adequados à resistência de cada uma, na esperança de que a tanga prateada em forma de tiara e o soutien de enfeites metálicos distraísse a atenção de outros pormenores, como a diferença entre a sapatilha de ginástica ou a sandália da praça de espanha. E oh se distraía! Dei por mim embasbacada a olhar, com um ar certamente tão lânguido como o dos homens maravilhados por aquele mar de carne... embora não pelos mesmos motivos. Perdoem-me se há neste discurso qualquer coisa que se assemelhe a um certo preconceito pela abertura que o Carnaval permite, mas há coisas que nem a tradição desculpa, nomeadamente ostentar publicamente adolescentes obesas e semi-nuas, de pele "cor de inverno" e com má circulação por causa do frio, a fazer lembrar salsichas frescas, porque se no Brasil Carnaval é calor e samba, também por cá tem de ser assim. E foi assim que, exceptuando então alguns laivos de bom gosto e pé p'rá dança, com alívio regressei a casa, a esta vida cinzenta e sem confettis, até porque me pareceu que também as meninas herdaram o gene familiar que não liga a fanfarronadas e só acham piada até se fartarem, que isto do bom gosto nasce connosco. Vou começar a fazer o que faziam os meus pais no Carnaval e a levar as crianças para o relvado da torre de Belém para acabarmos a tarde de Domingo na fila dos pastéis.

generosidade egoísta

Se alguma fiabilidade existe na recriação da personagem de Marcia Gay Harden no filme Pollock, então aprendi com Lee Krasner o conceito de generosidade egoísta.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

voz-off

Nunca, até agora, tinha ouvido falar do... Quimbé.

Hoje, ao fazer uma pequena e curiosa pesquisa mais ou menos fidedigna para um post, deparei-me com esta descoberta verdadeiramente... gritante. O Quimbé é nada menos do que o gajo que, da pior forma possível, chama a atenção de todos para o MediaMarkt. Por vezes, quando o ouvia na rádio, tinha a sensação de que o tipo estaria realmente prestes a rebentar, de que lhe saltavam botões da camisa, de que lhe fugiam perdigotos da boca em ascendente histeria, de que os olhos, raiados de vermelho, inchavam como o balão de uma super gorila até quase saltarem das órbitas. É um espectáculo hediondo mas, em lugar de pensar nos fantásticos preços baixos dos lcd's, é esta a imagem que o Quimbé me apresenta nos seus sketches publicitários.

Como se isso não bastasse, fazem parte do seu currículo os programas de televisão de maior qualidade e o gajo tem uma pintarola de fazer corar de inveja. Além disso chama-se Quimbé, que é a última machadada. Pelo ar saudável, aposto que é o cidadão mais feliz de toda a Parvónia!

sonhos bons e sonhos maus

por entre os disparates que me surgem em sonhos, raramente posso dizer que tenho pesadelos. mas quando tenho não são para brincadeiras. esta noite, por exemplo, sonhei com o diabo em pessoa. o capeta, personificado de forma muito pouco original, numa espécie de al pacino. mas era na história e não nos personagens que residia o interesse do sonho. o dito sujeito apareceu-me então do nada, enquanto estava em casa. sei que foi algo que fiz que o fez aparecer, mas não me recordo do que foi, o que não é lá muito bom. imediatamente, a minha vida sofreu uma reviravolta impressionante. não sei porquê, as portas ficaram de repente sem fechaduras, como se apenas se pudessem abrir pelo outro lado, e eu tinha de tentar desenrascar-me. e estava escuro. e era basicamente isto. não me perguntem porquê, mas esta pérola da psicanálise, fez com que acordasse aterrorizada.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

brincadeira nazi com sotaque brasileiro

Foi por acidente que descobri a reviravolta.
Numa situação normal, seria necessário recorrer ao génio surreal de Alan Shore para reconstruir a perfeitamente razoável jiga-joga que nos leva do antes ao depois.
E ainda acabarmos por gostar dela.

hipocrisias ii

Havia também na minha rua um sujeito homossexual. Apenas um, que se soubesse, até porque este não saberia esconder as suas tendências diferentes. Era por isso carinhosamente apelidado, mas aceite. As pessoas estavam habituadas a tê-lo com parte da sua comunidade. Mas para todos, será sempre o t. c.... maricas.
Para muitos, será sempre assim.
Dá-me ideia que não será no meu tempo que escreverei sobre a estatística de comportamentos sociais de indivíduos cuja educação tenha resultado de uma harmoniosa ou falhada relação entre pessoas do mesmo sexo.
Naqueles dias, lá pela minha rua, era coisa impensável. Era só pensar no t. c.... maricas!
Mas hoje, já se discute. Com sorte, daqui por um tempo... Com sorte!

hipocrisias i

Viviam na minha rua, num ambiente de bairro em que as pessoas se conhecem quase pelo próprio cheiro e onde se passa algum tempo à janela, reconhecendo sempre as caras e as rotinas, dois tipos distintos de famílias. Podia caracterizá-las assim, de uma forma geral, por muito mais que houvesse a dizer acerca das pequenas singularidades de cada clã. Um dos tipos de família a que me considero pertença era o mais "equilibrado", por assim dizer. Depois havia o segundo tipo, ao qual pertenciam crianças com as quais brinquei e com quem me relacionava sem descriminações, mesmo percebendo as subtis diferenças que existiam no caos harmonioso das suas casas. Não conheci muitos filhos de pais separados. Os lares eram, na generalidade, hierarquica e religiosamente compostos pelo pai, pela mãe e pelos filhos, e até pelo ocasional avô ou avó. Já a vida familiar variava muito, de caso para caso.
Alguns dos meus companheiros de infância morreram prematuramente, na sequência de acidentes, incidentes, ou outras influências mais ou menos previsíveis. Alguns viveram experiências relacionadas com estupefacientes e têm um cadastro vitalício que parece fazer-lhes sombra e minar-lhes o presente e o futuro. Outros tantos foram pais muito cedo e, negligentes, pouco sabem dessa condição. Uma boa parte conseguiu juntar todas estas experiências numa mesma pessoa e partir sem um legado de realização pessoal do qual se possam orgulhar.
Gostava de poder olhar para trás e dizer que estes filhos não foram necessariamente os que cresceram num ambiente de ausência de calor familiar. Preferia não ter a certeza de que os seus pais, que passavam grande parte do tempo pelos cafés e aí alimentavam os filhos com snacks e batatas fritas, enquanto investiam potencialmente em cigarros os subsídios de desemprego, não foram os grandes responsáveis pelo fracasso que resultou das suas vidas. Mas não posso.
Hoje, quando por lá passo, reconheço na minha rua, alguns rostos. Há uma familiaridade nos hábitos e nos gestos dos que por lá permanecem. Continuam a existir os tais dois tipos de famílias. Reconheço-os de longe e não os menosprezo. As minhas sobrinhas brincam com meninos diferentes delas, tal como eu brincava, e não me parece mal detectar diferenças. Não sou xenófoba, nem elitista, nem desinformada por fazê-lo. Pior seria não reconhecer que há famílias tradicionais que, ainda assim, não proporcionam um ambiente onde seja fácil crescer e criar objectivos positivos.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

eucaliptal

Este ambiente que respiro começa a tornar-se um eucaliptal que bebe o suco do meu êxtase até à última gota. Não me posso dar ao luxo de, como de todas as outras vezes, sucumbir à sede dos eucaliptos da minha vida.
Tenho de me sujeitar a uma potente diálise psicológica. Renovar-me. É emergente. Tenho de me fixar naquele sítio onde poderei largar as cinzas* e respirar com alívio.

*

É esperar que passe a recessão.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

afinal vejo uma luz (ainda que ténue) ao fundo do túnel

É que nem de propósito! Foi preciso dedicar-lhe este cantinho de desprezo no meu espaço de desabafos para ele se dignar a ligar-me de volta. Afinal sempre têm outbounding service! Eu já pensava que as chamadas eram one way only e que aquilo de entrar em contacto mais tarde era uma maneira de dizer...

o que é preciso para se ter internet fixa num país de gabarito tecnológico com'ó nosso portugal, heim?

Curioso que Apolónia (a santa) seja a padroeira da ortodôncia e afins, já que a minha vontade é a de partir os dentes ao rapaz do call center, que herdou o nome da dita cuja, e assim ele já não poderia dizer por aí à boca cheia (de dentes, claro) que é gestor do que quer que seja.

sujeito a alterações a qualquer instante

Quiz roubado de um grafitti em baixo relevo (aparentemente com escopro) numa mesa de tasca do bairro alto... ou não. Quando a única regra é a finalidade em si mesma: recorrer a nomes de músicas para 'acertar' na resposta.
1. És homem ou mulher: It doesn't matter
2. Como te descrevem: Ray of light (dá para acreditar?)
3. Como és (agora a sério): Nevermind
4. Um relacionamento marcante: We might as well be strangers
5. Sexo e Amor: Four letter word
6. Onde querias estar agora: Where angels fear to tread
7. O maior de todos os sonhos: Sunrise
8. Como é a tua vida: Rearview mirror
9. Uma frase sábia: The show must go on
10: Medo de: Bitter tears
p.s. Estou certa de que a Sereia* se sentirá convidada a experimentar, da mesma forma que um dia destes prometo corresponder ao convite que me foi dirigido. A seu tempo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

correcção pertinente

Afinal a cartolina é vermelha, assim como os coraçõezinhos soltos.
Romântico e picante!

a decorrer, numa marisqueira perto de si

colada a uma janela corrida, mesmo rente à estrada, uma cartolina côr-de-rosa, rodeada de pequenos corações cartonados fuschia, diz-nos o seguinte: Dia dos Namorados 14 de Fevereiro Campanha da Sapateira.
Mais romântico, impossível...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

die, die!

será que sim...?

será que finalmente sacio a minha esgotável fonte de paciência?

acumular inimigos? tu? com esse feitiozinho? naa!

eu própria te matava, se desse um pulinho a Miami


ainda assim, este parágrafo não é muito claro...

WHAT do you mean, 'aparentemente moribundo' ?

estou em agonizante dúvida.

outros motores

De acrescentar que o aspecto mais interessante do autódromo do estoril é, de facto, o 2001.

clichés

Sem qualquer reserva, afirmo categoricamente que não há nada mais desinteressante para mim do que revistas de automóveis, prenhes de carros berrantes e mulheres vistosas. As próprias manchetes, que encavalitam vinte imagens, de vários ângulos, num tamanho A4, onde sobrepõem mais alguns nomes, modelos, características e teasers afugentam-me logo o olhar para os títulos do futebol.
Nada é menos sexy do que um homem que veste a roupinha mais catita para ir a uma exposição de automóveis e, com um sorriso de orelha a orelha, passa o dia agarrado às meninas dos castings e a pousar para as polaroid.

provocaçãozinha

Estou desejosa de "pedir um tempo" ao Tolstoi que tem vindo a aborrecer-me com os seus contos trágicos e doentios. Mas não queria desistir dele. Tenho muito receio que isto de dar um tempo funcione como nas relações amorosas e eu acabe por ceder às pressões externas e dedicar-me, de corpo e alma, à literatura de peões-boiadeiros...

méxico


















Mergulhei precisamente aqui.
E não é tão bom como parece. É melhor.
...
Regressemos então à vista da pedreira (não é assim tão mau).

provavelmente, no mesmo baú onde depositaram o livro do M.S.T.

ainda a recuperar da perda do meu último post, desaparecido ontem, pelas 19h, quando todo o corpo já me dizia deixa-te de merdas e vai para casa pôr roupa na máquina e passear o cão e eu teimava em terminar aquele chorrilho de palavras gastas, com algumas frases que faziam todo o sentido e das quais já não me lembro, mas que se calhar até foi pelo melhor, porque mesmo chamando à gaja Esperança, era obviamente demasiado auto-biográfico e entitulava-se a fingir.

mais tarde, no duche e já mais refeita e resignada a aceitar o sumiço, lembrei-me deste trocadilho que tão bem se me aplica não sou tão triste como pareço, nem pareço tão triste como sou, e pensei que tudo depende dos olhos de quem me vê. não sejam presunçosos, nem ousem pensar que no vosso julgamento está a verdade.

agora, hoje, tenho estado aqui a pensar nesta merda dos blogues e dos sites e o diabo a sete.
quando se escreve numa folha de papel, os riscos são menores. c'um carago, pelo menos a folha pode perder-se se um dia para o outro, ou molhar-se ou voar com o vento. mas não desaparece desta maneira por causa de erro informático (expressão utilizada pelas máquinas quando querem repousar - mais valia serem honestas porque ninguém é de ferro e o écran também deve estar cansado de olhar para mim todo o dia). ainda estou convencida que o meu post foi aterrar a qualquer lado, talvez num blogue na China onde alguém terá perguntado que diabo será isto?... em mandarim, claro.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

lift me up


yes, please.

chamem a polícia

Não me sai da cabeça este maldito refrão, não sei se por causa do horrível anúncio à seguradora, se como resultado do total desprezo por certos dias de trabalho, com os seus procedimentozinhos nauseabundos e os sapos inflamados que, engolidos, provocam lesões na epiglote. Logo hoje, que vesti o look once-a-year de executiva.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

de inveja se fala por aí

Sentirmos inveja de alguém, enfraquece a nossa fibra e reduz a nossa virtude enquanto seres humanos, do ponto de vista lógico, intelectual e até religioso. É uma triste constatação social. A nossa atitude em relação a nós próprios é mecanicamente defensiva quando se trata de tentar justificar aquela sensação de azia que experimentamos ao invejar coisas fúteis, ou não tanto. Muitas vezes este inevitável sentimento de que o ser humano padece é reprimido pela moral e pelo rigor que a religião ou outros princípios nos incutem. Ou até mesmo pela argumentação lógica e bem justificada de que não conhecemos tão bem assim os outros para saber se lhes devemos ter inveja. Nós próprios a reprimimos por um embaraço que vem de dentro. Mas a inveja não é uma coisa pensada, que apenas se deve sentir se soubermos que existe do outro lado algo de plenamente perfeito que possamos almejar sem pensar nas diferentes infelicidades e frustrações que se escondem por trás de alguma coisa aparente.
A mim sempre se mostrou óbvio que as pessoas que mais facilmente dizem ter inveja de qualquer coisa, de uma forma directa e apreciativa, são as que menos vivem essa inveja de forma nefasta ou mal intencionada. Nem tão pouco de forma ignorante. De todas as (poucas) vezes que alguém me disse directamente que tinha inveja de alguma coisa em mim, recebi o comentário com alguma lisonja (e pouca crença de que proviesse de um sentimento realmente feio), uma vez que me parece, quase certo, que é uma forma de elogiar mais do que uma demonstração de dor de cotovelo.
Acho preferível ver nesta inveja uma forma de expressar o elogio, a admiração, a apreciação pelo feito conseguido, pelas virtudes inatas de alguém ou pela harmonia do seu aspecto. Considero até que a inveja, por mais natural e frequente que seja entre as pessoas, raramente chega a ser obssessiva ou radical. Normalmente inveja-se qualquer coisa aqui ou ali. Querer ser-se outra pessoa não me parece que seja inveja, será outra coisa mais além e consideravelmente mais grave, certamente mais triste e, possivelmente, patológica.
Eu admito que sou invejosa, naquilo que me é permitido ser, mesmo sem orgulho nenhum nisso. Já me reprimi por invejar e já tentei esconder (até de mim mesma) que o fazia, mas mesmo isso me permitiu aprender alguma coisa. Eu invejo algumas coisas, em muitas pessoas e se juntasse tudo construiria alguém que duvido muito que pudesse existir, por isso sei que a minha inveja é, quando muito, infantil e só me prejudicará na medida em que lhe der importância para tal. Adorava saber ter a postura para me impôr a certas pessoas e situações e invejo as mulheres que sabem, gostam e andam naturalmente com qualquer tipo de saltos; quero ter a voz da Rita Blanco desde que a ouvi dobrar a Dori; tenho uma raiva saudável a todas as mulheres que podem dar-se ao luxo de ir à praia sem se preocupar muito com a depilação (e que mesmo assim se mostram muito aflitas); queria conseguir ter a força de vontade que algumas pessoas têm e não inventar tantas desculpas como faço ou, em alternativa, reconhecer a minha inércia como algo que aceito de bom grado em vez de permanecer, em várias ocasiões, numa área cinzenta; tantas vezes gostava de ser homem e invejo, sem pudores, quem tenha subido a mais alta pirâmide de Chichen Itza porque (já) não pude fazê-lo, ainda que consciente de que não quero necessariamente viver a vida de mais ninguém que não a minha.

citação em '2nd hand'

Aceito a inveja. O que não gosto é da forma como certas pessoas a vivem, diariamente. Não gosto do olhar de inveja de quem prescruta o outro como se lhe quisesse sugar algo. É isso que acho doentio. Não gosto, sobretudo, de quem desafia as leis do universo para se adequar a uma vida que não é a sua, com base na imagem dos que a rodeiam. Isso é triste.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

cores quentes

Há semanas assim, em que cinco dias parecem caber num só, comprimindo-se em tensas e extenuantes vinte e quatro horas.
Esta luz difusa que se mistura com o cheiro da madeira a arder na lareira aqui ao lado e o aroma do sabão natural que vem da lavandaria improvisada, transformam este momento em qualquer coisa surreal.
É perfeito esperar por ti assim. Se quero um gelado de nata envolvido em caramelo quente...? Olho para a orquídea ali ao lado do bambu, mesmo por baixo da fragrância de figo que de vez em quando me envolve e penso para mim: sim, é perfeito.

amor aos tentáculos (o e-mail da semana)

Há coisas com piada.

E depois há aquelas realmente bestiais.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

a derradeira prova de (in)sanidade

'Dearest,

I feel certain I am going mad again. I feel we can't go through another of those terrible times. And I shan't recover this time. I begin to hear voices, and I can't concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don't think two people could have been happier till this terrible disease came. I can't fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can't even write this properly. I can't read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that - everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can't go on spoiling your life any longer.
I don't think two people could have been happier than we have been.
V.'

Virgínia Woolf

Que as minhas neuroses nunca resultem num rasgo de lucidez extrema que me leve a procurar um generoso pedaço de mármore (abundante na região) e deixar-me levar pelo Lizandro (que até nem fica longe).

Marion Coutillard



Já a seguir vem La vie en rose, na versão da Celine Dion. Ou não.

the phantom

o fantasma do M.S.T. voltou para assombrar os meus posts.

quando é que a derrota dos outros é mais gostosa que a nossa vitória?

ojesualdopareciaontemumhomemmaispreocupadoempreparararsenalbélicoparaesmagarobenficadoqueematentaràhumilhaçãoquefoiaquelajogatana.secalharestouenganadamaseraoqueparecia.oqueeunãopercebo(casoasminhassuspeitasseconfirmemoporquêdetantapreocupaçãocomobenfica,queandamuitoabaixodonível(daequipaprincipal)portista.secalharandareceosodaarmasecretaangolana.écasoparatal!
"
acrescente-se, em jeito de conclusão, que já Miguel Sousa Tavares preconizava, há cerca de quinze dias, o desfecho da taça da liga com uma final entre benfica e sporting. parece que, pela sua óptica, a organização desta prova -de importância equivalente ao torneio do guadiana- em tudo apontava nesse sentido. saliente-se agora que o empurrãozinho que faltava foi dado pelo jesualdo, com o seu brilhante banco alternativo. mas parece que para o porto, as longas distâncias nos torneios menores são um fardo insuportável. então muito bem. conseguiram poupar as perninhas para os jogos "a sério" e evitam a maçada de se deslocar a terras mouras (deus os livre!)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

lisboa

Que previlégio será este, o de ter uma vida familiar e profissional tão suburbana? A tranquilidade cénica. Ou a pacatez das pessoas. Talvez um ambiente não tão poluído? Não sei. Sei que sinto falta do movimento de Lisboa. É viciante Lisboa. Entranha-se em nós. A Mouraria do supermercado indiano e as ruas estreitas por onde fugi com três malucas num carro demasiado largo, a Rua Augusta com os seus sons e os passeios pelas lojas de pronto-a-vestir (quando ainda não eram Bershkas, mas talvez apenas Zaras e Por-fí-ri-os), o Teatro D. Maria, a ginjinha e o restaurante onde se comia o panado de pé. O Brás & Brás. A subida íngreme pela Praça da Alegria até ao Príncipe Real, bem cedo, com o cigarro na mão a desafiar um estoiro aos pulmões, no cimo da escadaria. Os almoços por baixo da grande árvore, no meio dos pombos. O metro de Arroios. A Portugália. A Guerra Junqueiro com a insossa Délifrance. E Benfica, da loja das carteiras, do 388 onde comprava os Risqués. Da pastelaria com a vitrine interminável. Da CGD e do prédio onde morava a patroa da mãe. Do otorrinolaringologista onde íamos com a Lara e o Filipe. Das matinés no Fonte Nova, do blind date da Guida com aquele gajo de barba. Da Escola Superior.
Tenho bilhete duplo para ir hoje ao S. Jorge ver o Valquíria. Não vou. Fico por casa.
Há dias em que parece que a principal característica do subúrbio é ter a capacidade de me afastar cada vez mais da minha cidade.
"
(acho que me estreei a escrever a palavra insossa)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

o que se quer da vida

É assim tão difícil alcançar-se qualquer coisa como isto e tudo o que se imagina a partir daqui?

E fica a referência, para picar o ponto... diariamente.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

mini-mercado

A miúda da caixa, que deve rondar os vinte e poucos - sou má a avaliar idades - tem um ar de humildade entranhada. Sabem qual é? Não digo por mal, mas nota-se, salta à vista. Tem modos rudes e uma apresentação descuidada. Os cabelos são compridos e grossos, como se lavados com sabão azul e branco uma vez por semana - e isto já é a minha imaginação a ditar. A pele é clara, manchada de pequenas rosáceas - daquelas que fazem os homens parecer parolos mas que a ela apenas desnudam a má circulação que o ar frio agrava. Tem mãos grosseiras, de dedos inchados e unhas irremediavelmente estragadas. É rapariga de trabalho. Não é de estudos, nem de leituras. Não distingue estilos literários, nem escritores. Talvez já tenha lido um livro do Paulo Coelho que, por falta de alternativa, é o seu preferido.
A senhora de idade observa, com ar antipático, os produtos que vão desfilando com um bip, pela leitura óptica. Não mexe uma palha. A miúda da caixa vai arrumando nos sacos as mercearias e os detergentes, com ar contrariado. Aparece, de um corredor, o marido da senhora com um frasco de canela em pau, que a mulher observa com azedume: 'Isso é muito caro!' e pergunta à menina da caixa quanto custa. O velho fica em suspenso, a aguardar pela aprovação dos paus de canela. A miúda, diz em tom de impaciência: 'Sessenta e sete cêntimos'. 'Até nem é assim tão caro, afinal...', resigna-se a senhora, enquanto a jovem regista e enfia o frasco no fundo de um saco, sem esperar aprovação. O marido segue satisfeito para o carrinho e a miúda despacha o troco para se ver livre da mulher, que fica mais algum tempo a olhar para o comprido talão da registadora, à procura de um descuido. Finalmente, diz-me boa tarde. 'Estava a ver que queria que também lhe levasse as compras a casa', diz para mim em desabafo, enquanto me aceita o cartão. 'Quando as pessoas estão atrapalhadas até dá vontade de ajudar mas quando ficam de braços cruzados apetece-me deixar-lhes tudo espalhado'. Rio-me. Não há mais ninguém na fila. Diz-me boa tarde e segue aliviada para perto da colega que aprovisiona as prateleiras. Ali não se usam lenços azuis com saias vermelhas, nem se olha para as unhas de gel nos periodos mortos. Repõe-se o estabelecimento, faz-se a caixa e até se amanha peixe. Até à noitinha.