quinta-feira, 30 de abril de 2009

bom como o milho

Faz-me espécie aquelas pessoas tacanhas e cheias de veneno que têm no abrigo do anonimato cobarde da blogosfera um escudo para exprimir livremente o seu rancor existencial, ou porque Deus os presenteou com uma verruga colada à narina, ou porque não sabem fazer nada de útil com o pouco talento que lhes assiste.
Não tenho desses problemas. Sou arraia miúda neste meio e ninguém tem interesse em vir desancar-me com comentários desagradáveis à parcimónia dos meus escritos. Contudo, também não valia a pena porque claro está que se isso acontecesse, eu filtrava os ditos cujos e reservava-lhes o direito a publicação que nessas coisas não vou em democracias: só cá debica quem eu deixo.
Depois há blogues que são verdadeiras seitas e muito facilmente conseguiriam movimentar um número recorde de massas a concretizar qualquer coisa de útil. Ou apenas qualquer coisa. Podem não ser mais do que números enormes, grotescos, de opiniões viscosas de clones que aplaudem um traque do líder com o mesmo entusiasmo que lhe gabam a escolha do perfume.
Conheci há tempos este espaço admirável, que combina calhandrice cor-de-rosa com exemplos práticos de como se ser bajulador até à quinta casa. Não sei o que é mais digno de interesse: se o pastor, se as ovelhas.
Que foi?

clarice lispector

Este mês de Abril até agonia. Só a vegetação sazonal, que insiste em contrariar este ambiente invernoso, com tulipas e camomila, ou as andorinhas e outros passarocos da estação, que encontro a cantar onde menos espero, me convencem de que é de facto chegada a primavera.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

rua sem saída

Sou muito melhor do que esta rua sem saída. Vejo-me uma avenida larga, com espaço para respirar, onde circula gente bonita e também há, a espaços, aquele sossego quebrado por chilreios. Mas sinto-me um beco sujo de lixos que outros vão deixando. Vejo-me com árvores e calçada, passeios largos com arbustros recortados de relvados urbanos, construções antigas, robustas e recuperadas do seu passado arquitectónico, livrarias, muitas. Sou uma fraude da avenida da liberdade. Uma espécie de rua da rosa, ao acordar de uma madrugada povoada.
Estou farta de gente estúpida e do cheiro vomitado que dela se desprende.

terça-feira, 28 de abril de 2009

o elefante polémico

Estou extenuada. Só me apetece marchar daqui para casa com fé de a encontrar silenciosa e saber o cão aliviado de chichis e cócós e, já agora, perdoa-me querido, contigo já ausente para a tua 'peladinha'. Trabalhei por dez ou vinte e ajudar, ajudar nem a Primavera, nem o primaver@. Adiante. Ainda por aqui passei muito a custo para deixar uma nota importante, numa altura em que poucos bloguistas se compadecem do sr. Fernando Fernandes que, para além do infortúnio com um nome que os pais hão-de ter achado engraçadinho, vê-se a braços com uma crucificação intelectual cerradíssima. Deixai-o estar, peço-vos eu. Afinal, também para estas liberdades serviu o 25 de Abril, há tão pouco tempo comemorado por entre cravos e brados. Deixai que a auto-censura colha os seus próprios frutos, se assim tiver de ser. De toda a maneira, não creio que o episódio sirva de publicidade negativa para quem é fiel ao elefante.
Para mais, o grave na organização do Auchan está longe do seu bom julgamento literário (estamos a falar de escaparates de Susanna Tamaro e Nicholas Sparks). O que é feio, mas feio, é a forma como misturam a secção de pronto-a-vestir pelo meio dos legumes e dos detergentes. O Jumbo nunca foi um espaço agradável.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Anos depois

Fernanda Torres "A Casa dos Budas Ditosos", de Ubaldo Ribeiro
Com a polémica reinstalada, mais ainda do que a vontade de ler o livro (que não li), apetecia-me ouvir o monólogo.
(quem tiver vontade de litigar esta obra para o meu aniversário também será muito agraciado. Ou isto ou aqueles adidas encarnados bem giros que eu conheci em santo tirso. mas isto é melhor. e mais barato.)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

a professora do charlie brown

No outro dia ele disse-me que eu às vezes soava-lhe exactamente como a professora do charlie brown.
Foi deveras ofensivo!
Mas também foi provavelmente a coisa mais engraçada, agora que penso nisso.
E não constituiu novidade.
Ambos sabemos quem é o adulto e quem é a criança nesta relação.

desassossego

- Mas porque pensas sempre que falar sobre determinados assuntos terá de ser uma forma de acordar fantasmas?
- (...)
- Sim, tudo bem, nem todos os assuntos são agradáveis e alguns podem ser mesmo indesejáveis.... mas mesmo que sejam fantasmas, será que nunca te apeteceu exorcisar certas coisas e quebrar-lhes o tabu através do diálogo?
- (...)
- Mas então... não te faz sentir melhor partilhar com alguém certas perturbações, mesmo que sejam inevitabilidades, nem que seja só para reconfortar a alma?
- (...)
- Pois eu preciso de ter amigos com quem possa soltar lamentos espontâneos, seja em tormenta ou de forma amena, e sentir que eles se interessam também por isso. Preciso que demonstrem interesse por mim e não apenas pelo meu bom humor.
- (the end)
- (... mas porquê?)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

em dia de celebrar a leitura...

«Nunca me hão-de obrigar a entrar num automóvel! Terei sempre medo de ter um desastre! Mesmo quando não se morre, fica-se traumatizado para a vida inteira!», dizia o escultor, agarrando maquinalmente no indicador que quase serrara a esculpir madeira. Só por milagre é que os médicos tinham conseguido salvar-lhe o dedo.«Mas de maneira nenhuma!, proclamou uma Marie-Claude em excelente forma. Quando eu tive o meu desastre foi magnífico! Como não conseguia pregar olho, lia ininterruptamente, de dia e de noite!»
A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

Pelo contexto emocional que atravessava ou pela sua extraordinária capacidade de nos despir perante os nossos próprios temores e fraquezas, talvez nunca outro livro consiga exercer em mim o mesmo efeito.

caetano veloso (o mundo não é chato)

Como o meu aniversário se aproxima e precisarei, este ano mais do que nunca, de sério consolo pela efeméride assinalada, apelo aos meus amigos que por aqui encontro: atentem neste regalo para me mimar.
(conversai entre vós pois só irei precisar de um exemplar)

dia da terra

Quem entrava ontem na CGD on-line, que bonito que era!
Foi assim que fiquei a saber que era dia da terra.
Hoje, já lá não está...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

hoje

Tenho para mim que hoje trabalhei demais. Acho que o trabalho (por conta de outrém, sobretudo) deve ser regrado, moderado, sob pena de darmos por nós exaustos, explorados e, pior de tudo, tomados como certos. Devemos dar um gostinho da nossa eficiência, manter as coisas controladas, mas sem excessos, para ninguém se acostumar e ousar concluir que se calhar até nem temos muito que fazer porque tudo o que nos pedem é concretizado, inconscientes de que respondemos a várias solicitações, de várias proveniências, e que talvez estejamos a fazer-nos em oito para conseguir apresentar aqueles resultados.
É isso mesmo.
Trabalhei demais.
Trabalhei por três dias.
Já merecia o fim de semana.
Não..?
Está bem, então.

(há depois quem não se reveja aqui. Esses, gostam do que fazem e padecem de cansaços felizes)

terça-feira, 21 de abril de 2009

outros lamentos

Quando caímos, não caímos de pé. Isso foi uma patranha optimista inventada por alguém que ganha a vida a escrever livros de títulos firmes e sorridentes. A verdade é que caímos sempre de joelhos, prostrados, vergados. Muitas vezes caímos de bruços, com espalhafato, e há até quem nunca se levante. As minhas quedas (à excepção das justificadas por falta de valproato) têm sido quase sempre resultado de entregas excessivas e confianças cegas, não necessariamente aos outros mas à ideia que construo deles.

A desilusão.

Porque não? É um tema como outro e que nos une em comunhão, quer pela experiência partilhada, quer pela sobrevivência a que nos forçamos.

Isto soa a psicanálise. Vou meter por outro caminho.

Gostava de perceber a correlação existente entre a surpresa das pequenas grandes desilusões e as dores de estômago. Certamente existirá essa causalidade e meia dúzia de palavras difíceis, dispersas entre substâncias libertadas pelo cérebro e efeitos provocados no organismo, devem explicá-la muito bem.

A desilusão e a injustiça.

Há alturas em que temos dúvidas se merecemos que aquela atitude provoque em nós aquela sensação. Deve existir então um mal-entendido entre as partes, um curto-circuito, qualquer coisa fortuita ou acidental, que não envolve responsabilidades ou culpas e faz parte do percurso.
Mas somos, ocasionalmente, confrontados com a injustiça com que nos julgam e com a desilusão que isso provoca. Nesta altura, em que sabemos nomear a atitude e a sensação, sabemos que não tropeçámos no caminho, mas que alguém nos rasteirou.

Às vezes canso-me de cair e de me levantar.

...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

cultura comercial

Esta promoção da Fnac diz, da forma mais explícita possível, 'quem lê um, lê todos' (para o caso das imagens por si só não serem já demasiado óbvias).
A pergunta é: que tipo de pessoa considera esta campanha uma grande oportunidade para adquirir variada literatura de qualidade?

Estava a pensar dar um saltinho esta semana e até algo esperançosa de um ou outro achado, mas agora já não sei. Acabo é a gastar dinheiro em cds, por culpa deles que me defraudam as expectativas e enchem os bolsos à custa da minha fraqueza de espírito.

james franco


um, é o vulgar Harry Osborn, vilão do Spiderman.
o outro, é... Scott Smith (i arrest my case)

dá-se então que:

para compensar a patética e inconvenientemente chuvosa tarde de sábado (da qual se escapou a fantástica performance gímnica da minha piolhinha magriça devidamente documentada em VHS e a actuação fabulosa de outros meninos, mormente os de Algés - muito bons! - e do Real Clube, que despertaram em mim o dormente fascínio dos velhos tempos pela ginástica rítmica, e arcos, e fitas, e massas, e cambalhotas, e esparregatas), o domingo foi dia solarengo que, à excepção de uma pequena fuga para aquisição do Shiseido - porque afinal a Lâncome não tem assim um rouge tão absolut como o que pretendia - foi dedicado à prática de home-cinema. Pois que é.
E os escolhidos foram os fabulosos documentários que se seguem:


and...

worten dix it

É mais um aparelho, assim uma espécie-de-box, para empilhar sobre dvd, playstation, box tvcabo e amplificador. Mais uns cabos e umas fichas scart (raios partam se percebo alguma coisa de electrónica) e dá-se o milagre de chamar a mim a Lusomundo: dezenas de ficheiros, entre os quais, as legendas!! dos filmes que tenho em calha há já alguns meses (porque me fazem falta as legendas e não me habituo nem por nada que seja de outra forma, não obstante a minha boa percepção do idioma da grande maioria das películas). Assim, o único inconveniente é saber que relego, quase de certeza, para segundo plano a pilha de livros por ler - não porque uma coisa substitua a outra mas porque o tempo se mostra escasso para realizar certos anseios e cumprir ainda com os deveres matrimoniais. Pois.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

boas leituras

É por coisas destas que, ocasionalmente, dou graças por estar aqui, à beira da pedreira.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

arte

A primeira pincelada é incerta, tímida, sem saber ao certo onde quer chegar. Transmite uma espécie de vibração sensorial que se espalha pelas artérias e se sente em todo o corpo. A côr é inebriante, a substância espessa e luminosa marca a tela em relevo, num desperdício pecaminoso de tinta farta. Não importa de onde vem, para onde vai, se condiz ou faz sentido. Importa dar-lhe expressão e movimento. Tem muito mais a ver com sentimento que com lógica, muito mais com exteriorizar gestos que com chegar ao detalhe. A precisão é antípoda ao prazer e à terapêutica da arte plástica.

Sempre gostei de pintar. Desisti apenas porque receei que me sugasse toda a energia que me mantinha sã. E agora, escrevo. E quando não escrevo, penso.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

casino

Ali as pessoas são todas diferentes: altas e baixas, gordas e magras, feias e bonitas, pretas, brancas, asiáticas, ciganas, homens ou mulheres, novas e velhas, pobres e abastadas, elegantes ou nem tanto. Fumam, bebem, falam pouco, murmuram ou apenas gesticulam, olham fixamente para um sítio, para um objectivo, não se observam entre si, movimentam-se como se não houvesse mais ninguém em volta, concentradas, tensas. Usam objectos de 'rotina' como se fosse o missal na eucaristia: sejam a pochette dourada, uma carteira em pele ou uma bolsa de cintura, onde carregam fichas, notas, moedas. Fumam mais. Os empregados movimentam-se com cerimónia e as croupiers suspiram, com pompa e algum enfado, entre uma e outra aposta. O chão é suave. Sinto-me diferente, deslocada, mas continuo, obcecada e confortavelmente, a observar os fantasmas que por ali se movem. São só fantasmas, não me vêem, nem me fazem mal. O barulho e as luzes como fundo. O brilho que se reflecte na curva da roleta e se renova, noite após noite, concluo, é roubado daqueles olhares vazios, sem expressão, que se debruçam diariamente sobre o abismo.
Afinal, ali as pessoas são todas iguais.