terça-feira, 23 de junho de 2009

terça à tarde reza assim...

Como dizê-lo? Não é que me aborreça, mas afecta-me; também não me tira o sono, mas retarda-o ligeiramente, enquanto me deixa a remoer brandamente. Faz-me debater sobre a sua pertinência, e tenho a certeza que aqui as opiniões se dividem. Pois claro que há quem pense que sim, senhor, é lícito, é legítimo! e há quem encolha os ombros a estes disparates.
(suspiro)
Sei que metade de mim tem a argúcia para apanhar do ar as feromonas e outras hormonas que se libertam dos seres quando determinadas situações ocorrem. E sei que a outra metade tem tendência para inflamar coisas de nada. Da primeira, sinto um grande orgulho. A segunda é basicamente inútil: um volumoso saco de bolas de esferovite a ocupar-me um lote de cérebro que poderia ser muito melhor rentabilizado para outros fins. E se a primeira às vezes me custa dissabores, a segunda é um gigantesco ponto de interrogação.
(longo suspiro)

E agora que tento traduzir o que quer que seja em palavras, na vã tentativa de aliviar o meu perturbado adormecer, só consigo pensar numa coisa, obcecadamente: que gosto ainda menos do João Loureiro do que do seu pai e que a grande vergonha nacional deveria ser o facto de alguma vez os Ban terem sido considerados uma banda musical portuguesa, por tantos motivos que não saberia por onde começar.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

toda a diferença




É frágil, muito frágil, aquilo de que somos feitos.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

bola de espelhos

É para muitos impensável que carcacinhas velhas como a "Should have known better", do Jim Diamond ou a "We've got tonight", do Bob Seger (ainda) me comovam. Mas é verdade. Ainda insisto em cantarolá-las com deleite quando as oiço nas resistentes frequências fm que (ainda) se dedicam a estas velharias. E tento, com alguma dificuldade, não passar indiferente a grande parte dos novos êxitos, mas não consegui (ainda) o desmame com o (ultra)passado.
Este ainda constante deixa-me sempre a sensação de que me falta um bocadinho assim para atingir o próximo patamar da evolução da espécie (o que na casa dos trinta se revela já mais complicado).

(Olha, está a passar agora Century! Why, lover why? Why do flowers die?)

Não tenho remédio.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

the big picture

A alternativa do Benfica aos bichinhos, às larvas que o minam, às térmitas que lhe tentam corroer o betão inexpressivo que a tantos fere a vista, é um mergulho no pântano lamacento dos crocodilos que se avizinham. A coisa não está nada fácil. Depois há o Cissokho, que parece já não valer tanto dinheiro porque o seguro de saúde do Porto negligenciou-lhe o tratamento do esmalte (ou foi o próprio que não comeu relva suficiente), e agora os italianos torcem o nariz. Há também o caso do Peseiro, que se anda a esticar nos resultados à frente de outra selecção, o que deixa o Queirós ainda mais mal visto e de reputação ameaçada.
Há outros casos, como o da Ana Rita, a mãe do Martim, que não sabe bem se continua ou não a greve de fome à porta do Tribunal de Cascais (vai saber com a advogada, mas esteve vai não vai para perguntar à Rita Marrafa de Carvalho o que havia de fazer); há a situação do vice-ministro do Negócios Estrangeiros iraniano, que insiste na nobre convicção de um país fortemente democrático e desafia a que se apontem nomes dos detidos pelo regime (quem não sabe é como quem não vê), e outras coisas menores do mundo da política e da economia do país (nada que nos diga grande coisa).
É com isto que me deparo se atento um pouco mais nas notícias à hora do almoço.
Às vezes fico grata por não ter tempo para estas coisas.
E o calor que fez na semana antes de ir de férias? E o calor que faz agora?
Onde estavam nas duas últimas semanas?

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Comi sardinha um pouco por todo o lado, de Portimão à Ericeira, passando até pelo Alentejo profundo e pouco dado a tal hábito. Acabei, afinal, por não ir à Bica. Estou fatigadíssima, que é uma forma de estar cansada ainda mais superlativa que a tradicional fadiga. Fica encontro marcado com o S. Pedro, que, embora local, não é o padroeiro do meu feriado (este ano com pena minha). Adivinha-se um pouco mais de canseira e, claro, mais umas quantas sardinhas, que têm ómega, que é bem melhor do que tudo o que a entremeada possa oferecer (agora ando nesta obsessão rigorosa em torno de quantidades extra de certos ácidos, ferro e magnésio).
Estou de volta. Cansada até dizer chega.

terça-feira, 2 de junho de 2009

kit-kat (que é também o meu preferido)

Deixem-se ficar. Nós vamo-nos retirar para trocar uns dedos de conversa (e de mimos).
Até já.

o amor puro

A triste verdade é que gostaria de me sentir mais augada por sardinhas assadas e caracóis do que na realidade me sinto. Apetece-me que me apeteça. E o apetecer até está lá, obscurecido pela náusea de um certo estado de graça. Falta-me a parte melhor do petisco de Verão: a boca a salivar de gula.
Antes assim continue. Diz que é bom sinal.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

eles estão aí...

cit. "A sardinha está na brasa
Prontinha para assar,
Eu do frango quero a asa,
Para comer, não para voar"

E eu com eles.
Na Bica.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

ela por ela

Sou tão avessa a estes disparates cada vez mais frequentes por parte de alguns homens da igreja católica, como o Miguel Veloso à utilização da primeira pessoa do singular.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

rita lee 'flagra'

teresa/manuel

Sei que, por meio dos muitos que passam por aqui despropositadamente, enganados pela indescriminada recomendação dos motores de busca (grande parte oriunda do Brasil e que procura o significado do termo permissividade*, curiosamente), há quem me visite com a regularidade habitual dos amigalhaços ou por um tipo de prazer lúdico qualquer. A esta minoria, peço desculpa pela minha abstinência recente dos nossos encontros tão assíduos durante meses a fio. É que ultimamente tenho andado sonolenta por demais e, com muita pena minha, sem grande vontade de depositar inutilidades e partilhas esporádicas.
Devo acrescentar também que este estado de espírito se deve em grande parte à influência fulcral que um dos dois referidos no título, com fifty-fifty de probabilidades de ser um ou outro mas nunca os dois, dizia, a essa influência preciosa que se tem reflectido em tudo o que faço e em tudo o que sou nas últimas semanas.

* ainda estou para descobrir o porquê desta insistência na permissividade. Não me ocorre nada.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

mau começo

Às vezes tomamos decisões que nos custam a paciência. Normalmente é em nome da lei do menor esforço, ou porque, até com algum fundamento, não faz sentido nenhum ter de ir estacionar o carro no parque de estacionamento subterrâneo que fica a 500 metros e que é pago, quando só precisamos de encostar ali à beira, onde nem sequer estorvamos, para deixar uns papéis no balcão da repartição. Nem senhas, nem filas, nem espera nenhuma. Só chegar e entregar e estar de volta em dois minutos. Por exemplo.
Mas, à custa do abuso de outros e da necessidade de encher os cofres da administração interna, arriscar a paragem proibida em deterimento da sensata decisão de perder euro e meio e cinco minutos a pé, hoje fui presenteada com uma jante amarela que me custou sessenta euros.
Ficou-me a pergunta a bailar enquanto aguardava o atabalhoado preenchimento da respectiva papelada e afins dos agentes da autoridade (porque a coisa estava ainda a dar-se quando regressei à viatura), como raio é que conseguiram ser tão rápidos!? Pelo meio das lamentações dos senhores agentes 'tá ver isto agora já está registado com este número e não podemos fazer nada, tem mesmo de pagar o desbloqueio e a coima', pensava para mim 'pois, pois...'

de volta...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

picasso

Picasso, La Vida, 1903
Antes de optar por um percurso académico supostamente dedicado à objectividade e ao rigor das palavras, vagueei por um caminho muito mais cheio de possibilidades. O que as artes plásticas têm de especial é o seu carácter de objecto de fruição, que dispensa academismos. As técnicas e as correntes que nos obrigam a aprender na escola são só uma pequena parte da imensidão de interpretações que a arte tem para nos oferecer. Os pensamentos e as palavras não têm de ser obedientes e rigorosos. A arte dá-nos isto: a inesperada possibilidade de descobrir algures aquele sentimento residual que, até aí, não sabíamos explicar pela lógica das palavras...

terça-feira, 12 de maio de 2009

este dia...

... assinala um marco de conquista: do direito a muitas coisas e do dever de tantas outras (ao compasso do relógio biológico e do peso da consciência).

sexta-feira, 8 de maio de 2009

noutros tempos...

... as nossas curvas naturais não teriam sido motivo de angústia.

boas dicas

Pode ser coincidência e acho que isto vai virar uma moda generalizada e estúpida, como todas as modas, mas só dei ainda uma espreitadela ao i-online de hoje e já me conquistou, por alguns conteúdos e por uma diferente abordagem dos temas que apresenta.
Encontrei esta curiosité que me chamou logo a atenção. Muitos sabem o porquê do meu fascínio por estas descobertas do paraíso gastronómico e, ainda que o gourmet não seja necessariamente a minha fonte de inspiração culinária, é sempre lindo descobrir as inesgotáveis potencialidades da natureza e da imaginação humana.

negócio

Porque isto é, de facto, o que nos faz falta. Quer seja pela incapacidade de reconhecer nos homossexuais pessoas com os mesmos direitos e deveres que qualquer cidadão (que se cultiva desta forma com muito requinte), quer pela anedótica solução que parece apresentar para destruir os dogmas negativos da descriminação sexual, quer pela elitista proposta de facilitar a vida aos homossexuais abastados, as verdadeiras vítimas da descriminação e exclusão social.
Mas eu estou a ver a situação ao contrário. Espera-se sempre por notícias deste género que consistam em projectos ambiciosos, de cariz cívico e social irrepreensível, quando o que aqui se trata é de criar um negócio rentável que satisfaça os caprichos de uma minoria extravagante que, ao contrário da maioria gay enclausurada ou corajosamente assumida, quer apenas permanecer excluída da sociedade, no seu canto luxuoso e aristocrata.
Esta iniciativa não terá tanto a ver com homossexualidade mas antes com mais um protótipo de fosso social tão comum e muito conveniente para quem deseja morrer da mesma forma que sempre viveu: não ultrapassando as fronteiras de um mundo muito pequeno, concentrado no seu próprio umbigo.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

relações

Passam os anos e as relações acumulam-se. Vamo-nos dando conta de que estamos mais velhos, mais experientes, melhor preparados e quase sempre mais enriquecidos, através dos laços desenvolvidos. Os amigos da rua, alguns dos quais mudam de casa muito cedo deixando apenas recordações muito ténues que se confundem com a imaginação, os colegas que aprendem connosco a escrever as primeiras palavras, os que se formam ao nosso lado e, claro, os colegas de trabalho. Há pessoas que guardamos a sete chaves, que podem até não ser aquelas que mais conviveram connosco, mas cuja relação foi marcante, por um motivo ou outro, e às vezes até são recordações inadvertidas, resultantes de experiências más, que não conseguimos apagar.
As pessoas ensinam-se mutuamente a agir e reagir. Tornamo-nos mais autênticos, construimos a nossa identidade com base naquilo com que nos identificamos. As 'gentes' são o reflexo mais próximo que temos das nossas próprias acções e, com sorte, é através uns dos outros que acabamos por rejeitar o que nos desagrada e aproveitar o que reconhecemos como sendo bom, que é como quem diz a não fazer aos outros o que não gostamos que nos façam, por exemplo.
Isto obriga a que nos respeitemos, não a que tenhamos de gostar de toda a gente. Gente que gosta de toda a gente não existe e é patético tentarmos todos ser Medardos Bons* exactamente por não sermos metades, mas inteiros.
É por isso que, sem ressentimentos nem rancores, encolho os ombros à colega que, com voz afectada e melosa, de sorriso fácil e ternurento, se dirige a mim para me pedir os contactos telefónicos para um dia mais tarde, talvez... Sim talvez, respondo com um sorriso amarelo que não consigo disfarçar. Volta-me as costas e regressa ao lugar dela onde ficará por mais uns dias para depois se despedir sem que, estou segura, voltemos a cruzar-nos. Para que raio me interessa o contacto dela se sei que nada em si me aqueceu cá dentro? Aprendi, só. Foi uma relação de aprendizagem humana e não um laço afectivo consistente.
Por isso, muita sorte e tudo de bom no teu caminho que seguirá, certamente, coordenadas diferentes das minhas.
* já acabei de ler o Visconde

notícias da bola

Diz que ontem foi dia de competições europeias, coisa que (infelizmente) a mim me passa um pouco ao lado por motivos que muitos saberão serem óbvios. Na véspera também houve jogo, e já me fartei de ver aquele golo do Ronaldo - do tipo dos que parece não conseguir fazer pela selecção -, que foi um dos três que apurou os red devils para a final (ide, ide, que nós, pobres diabos - também vermelhos - portugueses ficamos a ver daqui).
Diz também que parece que ontem ao árbitro norueguês só faltavam cair-lhe notas do bolso (não fora o € e seriam pesetas, certamente) e que o Chelsea, com o embaixador português(?) Bosingwa ultrajado por tamanha roubalheira, não chegaria lá contra doze. Não sei, não vi e ao que parece também houve algum demérito dos ingleses.
O importante, todavia, é o nobre conteúdo do que se ouve e se lê, que, numa fase eliminatória importantíssima, consegue ser um pouco mais controlado e gerido pelo bom senso do que nas quezílias caseiras da nossa Ligazinha de vencedor(es) e perdedores anunciados. Ao Paulo Bento, nos sapatos do treinador Guus Hiddink, desenterrava-se-lhe o penteado do couro cabeludo, mas o treinador do Chelsea tem uma experiência e um savoir faire que fazem a diferença nestas situações.
O que vou tentar (porque só li as notícias) é ver a reportagem para poder pronunciar-me sobre os factos, mas sobretudo para ouvir o Bosingwa falar sobre isto. Ou falar apenas! Ouvir falar o Bosingwa é sempre um desafio e uma surpresa, quase como o ovo kinder: nunca se sabe o que sairá dali mas será certamente um quebra-cabeças que precisa de instruções!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

crónicas

Mais ou menos por acaso, passei também por aqui e, não fora o som de fundo das notícias da rfm, teria ouvido orquestras imensas, ribombando emocionantes e patrióticos hinos. É que nunca li nada da Inês Pedrosa que reflectisse tanta e tão profunda admiração como esta sua crónica sobre a cultura americana.
Também nunca tinha reparado antes em quaisquer anotações (aqui tão pouco subtis) sobre as "características" dos judeus e as condicionantes de ser-se branca e mulher, e todo o estatuto pseudo pop-art à volta de Obama - incluindo a sua exploração comercial tão semelhante à da nossa senhora de fátima - transformando tudo num emaranhado e forte motivo de apreciação pelo povo americano. É surpreendente e quase contagiante esta efusiva ode a um povo que anda pelos calcanhares da nossa História, mas que tem em Nova Iorque, pelas ruas de Manhattan, tudo o que se pode pedir de uma cidade.
Ah, esta bonita cultura americana, que enriquece connosco e que, em tempos de crise, sobrevive sempre, também graças a nós. Pensando bem, Inês Pedrosa tem razão. Este povo é, de facto, digno de bajulação, muito embora não seja difícil adivinhar que muito do seu optimismo provem da sua certeza de superioridade, certeza essa todos os dias reforçada pelo resto do mundo.
Gostava de ter pessoas inteligentes (talvez a própria Inês Pedrosa) a contribuir, de facto, para vivermos num país que merecesse, como alguns que se apresentam, uma realidade melhor.

talvez uma parte do grupo dispensado pelo Yahoo recentemente

google contrata 200 cabras
...

quando ganhar é perder

É por coisas destas, nas quais ocasionalmente tropeço, que penso com preocupação no tortuoso caminho que o nosso mundo percorre.
E eu que pensava não existir pior departamento de Recursos Humanos do que aquele que eu dirijo.

terça-feira, 5 de maio de 2009

cinema

um destes serões quentes, rumo a uma sala lisboeta, para me deixar levar pelas recordações deste conto...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

vasco granja (1925-2009)

Numa altura em que a sua presença era já tão longíqua que deixava melancólicas saudades, fica o adeus definitivo à voz amiga do grande teórico da animação, com quem, bem pequenina, aprendi algumas coisas.

o h1n1 (que não é um índice económico)

Comecei por pensar que ter ido ao México logo nos primeiros dias do ano tinha sido uma sorte, mas pelo andar da carruagem não tardo a fazer parte da lista de personae non gratae aos ajuntamentos. E que jeito que dava agora uma quarentena para pôr em ordem alguns assuntos caseiros e refugiar-me no meu esterilizado portátil, intercalando com a tv e a pilha de livros, banalidades de naturezas diversas.

fados e guitarradas

Se é verdade que a primeira vez que ouvi a Mariza cantar foi num serão informal no já extinto Rock City, isso não invalida que me soe estranha a sua actuação no concerto de Lenny Kravitz em Portugal.
O facto da tournée do cantor em França contar com a participação de Chris Cornell, torna ainda mais enigmática a opção portuguesa.
Mas se calhar sou eu que não tenho abertura para estas coisas.

doze

Já recebi o Caetano nos braços, uns dias antes da data de fim de licitação... Obrigada, amiga de mon coeur!
A ti, e aos bonitos momentos proporcionados no salão nobre pela gorda Yelga, hei-de prestar em breve as minhas singelas homenagens.

(para ver ou rever AQUI, sem prejuízo de outras presenças, como a 2ª circular que, diz quem sabe, estará em grande este ano. E eu, com alguma parcialidade, nem questiono!)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

bom como o milho

Faz-me espécie aquelas pessoas tacanhas e cheias de veneno que têm no abrigo do anonimato cobarde da blogosfera um escudo para exprimir livremente o seu rancor existencial, ou porque Deus os presenteou com uma verruga colada à narina, ou porque não sabem fazer nada de útil com o pouco talento que lhes assiste.
Não tenho desses problemas. Sou arraia miúda neste meio e ninguém tem interesse em vir desancar-me com comentários desagradáveis à parcimónia dos meus escritos. Contudo, também não valia a pena porque claro está que se isso acontecesse, eu filtrava os ditos cujos e reservava-lhes o direito a publicação que nessas coisas não vou em democracias: só cá debica quem eu deixo.
Depois há blogues que são verdadeiras seitas e muito facilmente conseguiriam movimentar um número recorde de massas a concretizar qualquer coisa de útil. Ou apenas qualquer coisa. Podem não ser mais do que números enormes, grotescos, de opiniões viscosas de clones que aplaudem um traque do líder com o mesmo entusiasmo que lhe gabam a escolha do perfume.
Conheci há tempos este espaço admirável, que combina calhandrice cor-de-rosa com exemplos práticos de como se ser bajulador até à quinta casa. Não sei o que é mais digno de interesse: se o pastor, se as ovelhas.
Que foi?

clarice lispector

Este mês de Abril até agonia. Só a vegetação sazonal, que insiste em contrariar este ambiente invernoso, com tulipas e camomila, ou as andorinhas e outros passarocos da estação, que encontro a cantar onde menos espero, me convencem de que é de facto chegada a primavera.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

rua sem saída

Sou muito melhor do que esta rua sem saída. Vejo-me uma avenida larga, com espaço para respirar, onde circula gente bonita e também há, a espaços, aquele sossego quebrado por chilreios. Mas sinto-me um beco sujo de lixos que outros vão deixando. Vejo-me com árvores e calçada, passeios largos com arbustros recortados de relvados urbanos, construções antigas, robustas e recuperadas do seu passado arquitectónico, livrarias, muitas. Sou uma fraude da avenida da liberdade. Uma espécie de rua da rosa, ao acordar de uma madrugada povoada.
Estou farta de gente estúpida e do cheiro vomitado que dela se desprende.

terça-feira, 28 de abril de 2009

o elefante polémico

Estou extenuada. Só me apetece marchar daqui para casa com fé de a encontrar silenciosa e saber o cão aliviado de chichis e cócós e, já agora, perdoa-me querido, contigo já ausente para a tua 'peladinha'. Trabalhei por dez ou vinte e ajudar, ajudar nem a Primavera, nem o primaver@. Adiante. Ainda por aqui passei muito a custo para deixar uma nota importante, numa altura em que poucos bloguistas se compadecem do sr. Fernando Fernandes que, para além do infortúnio com um nome que os pais hão-de ter achado engraçadinho, vê-se a braços com uma crucificação intelectual cerradíssima. Deixai-o estar, peço-vos eu. Afinal, também para estas liberdades serviu o 25 de Abril, há tão pouco tempo comemorado por entre cravos e brados. Deixai que a auto-censura colha os seus próprios frutos, se assim tiver de ser. De toda a maneira, não creio que o episódio sirva de publicidade negativa para quem é fiel ao elefante.
Para mais, o grave na organização do Auchan está longe do seu bom julgamento literário (estamos a falar de escaparates de Susanna Tamaro e Nicholas Sparks). O que é feio, mas feio, é a forma como misturam a secção de pronto-a-vestir pelo meio dos legumes e dos detergentes. O Jumbo nunca foi um espaço agradável.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Anos depois

Fernanda Torres "A Casa dos Budas Ditosos", de Ubaldo Ribeiro
Com a polémica reinstalada, mais ainda do que a vontade de ler o livro (que não li), apetecia-me ouvir o monólogo.
(quem tiver vontade de litigar esta obra para o meu aniversário também será muito agraciado. Ou isto ou aqueles adidas encarnados bem giros que eu conheci em santo tirso. mas isto é melhor. e mais barato.)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

a professora do charlie brown

No outro dia ele disse-me que eu às vezes soava-lhe exactamente como a professora do charlie brown.
Foi deveras ofensivo!
Mas também foi provavelmente a coisa mais engraçada, agora que penso nisso.
E não constituiu novidade.
Ambos sabemos quem é o adulto e quem é a criança nesta relação.

desassossego

- Mas porque pensas sempre que falar sobre determinados assuntos terá de ser uma forma de acordar fantasmas?
- (...)
- Sim, tudo bem, nem todos os assuntos são agradáveis e alguns podem ser mesmo indesejáveis.... mas mesmo que sejam fantasmas, será que nunca te apeteceu exorcisar certas coisas e quebrar-lhes o tabu através do diálogo?
- (...)
- Mas então... não te faz sentir melhor partilhar com alguém certas perturbações, mesmo que sejam inevitabilidades, nem que seja só para reconfortar a alma?
- (...)
- Pois eu preciso de ter amigos com quem possa soltar lamentos espontâneos, seja em tormenta ou de forma amena, e sentir que eles se interessam também por isso. Preciso que demonstrem interesse por mim e não apenas pelo meu bom humor.
- (the end)
- (... mas porquê?)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

em dia de celebrar a leitura...

«Nunca me hão-de obrigar a entrar num automóvel! Terei sempre medo de ter um desastre! Mesmo quando não se morre, fica-se traumatizado para a vida inteira!», dizia o escultor, agarrando maquinalmente no indicador que quase serrara a esculpir madeira. Só por milagre é que os médicos tinham conseguido salvar-lhe o dedo.«Mas de maneira nenhuma!, proclamou uma Marie-Claude em excelente forma. Quando eu tive o meu desastre foi magnífico! Como não conseguia pregar olho, lia ininterruptamente, de dia e de noite!»
A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

Pelo contexto emocional que atravessava ou pela sua extraordinária capacidade de nos despir perante os nossos próprios temores e fraquezas, talvez nunca outro livro consiga exercer em mim o mesmo efeito.

caetano veloso (o mundo não é chato)

Como o meu aniversário se aproxima e precisarei, este ano mais do que nunca, de sério consolo pela efeméride assinalada, apelo aos meus amigos que por aqui encontro: atentem neste regalo para me mimar.
(conversai entre vós pois só irei precisar de um exemplar)

dia da terra

Quem entrava ontem na CGD on-line, que bonito que era!
Foi assim que fiquei a saber que era dia da terra.
Hoje, já lá não está...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

hoje

Tenho para mim que hoje trabalhei demais. Acho que o trabalho (por conta de outrém, sobretudo) deve ser regrado, moderado, sob pena de darmos por nós exaustos, explorados e, pior de tudo, tomados como certos. Devemos dar um gostinho da nossa eficiência, manter as coisas controladas, mas sem excessos, para ninguém se acostumar e ousar concluir que se calhar até nem temos muito que fazer porque tudo o que nos pedem é concretizado, inconscientes de que respondemos a várias solicitações, de várias proveniências, e que talvez estejamos a fazer-nos em oito para conseguir apresentar aqueles resultados.
É isso mesmo.
Trabalhei demais.
Trabalhei por três dias.
Já merecia o fim de semana.
Não..?
Está bem, então.

(há depois quem não se reveja aqui. Esses, gostam do que fazem e padecem de cansaços felizes)

terça-feira, 21 de abril de 2009

outros lamentos

Quando caímos, não caímos de pé. Isso foi uma patranha optimista inventada por alguém que ganha a vida a escrever livros de títulos firmes e sorridentes. A verdade é que caímos sempre de joelhos, prostrados, vergados. Muitas vezes caímos de bruços, com espalhafato, e há até quem nunca se levante. As minhas quedas (à excepção das justificadas por falta de valproato) têm sido quase sempre resultado de entregas excessivas e confianças cegas, não necessariamente aos outros mas à ideia que construo deles.

A desilusão.

Porque não? É um tema como outro e que nos une em comunhão, quer pela experiência partilhada, quer pela sobrevivência a que nos forçamos.

Isto soa a psicanálise. Vou meter por outro caminho.

Gostava de perceber a correlação existente entre a surpresa das pequenas grandes desilusões e as dores de estômago. Certamente existirá essa causalidade e meia dúzia de palavras difíceis, dispersas entre substâncias libertadas pelo cérebro e efeitos provocados no organismo, devem explicá-la muito bem.

A desilusão e a injustiça.

Há alturas em que temos dúvidas se merecemos que aquela atitude provoque em nós aquela sensação. Deve existir então um mal-entendido entre as partes, um curto-circuito, qualquer coisa fortuita ou acidental, que não envolve responsabilidades ou culpas e faz parte do percurso.
Mas somos, ocasionalmente, confrontados com a injustiça com que nos julgam e com a desilusão que isso provoca. Nesta altura, em que sabemos nomear a atitude e a sensação, sabemos que não tropeçámos no caminho, mas que alguém nos rasteirou.

Às vezes canso-me de cair e de me levantar.

...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

cultura comercial

Esta promoção da Fnac diz, da forma mais explícita possível, 'quem lê um, lê todos' (para o caso das imagens por si só não serem já demasiado óbvias).
A pergunta é: que tipo de pessoa considera esta campanha uma grande oportunidade para adquirir variada literatura de qualidade?

Estava a pensar dar um saltinho esta semana e até algo esperançosa de um ou outro achado, mas agora já não sei. Acabo é a gastar dinheiro em cds, por culpa deles que me defraudam as expectativas e enchem os bolsos à custa da minha fraqueza de espírito.

james franco


um, é o vulgar Harry Osborn, vilão do Spiderman.
o outro, é... Scott Smith (i arrest my case)

dá-se então que:

para compensar a patética e inconvenientemente chuvosa tarde de sábado (da qual se escapou a fantástica performance gímnica da minha piolhinha magriça devidamente documentada em VHS e a actuação fabulosa de outros meninos, mormente os de Algés - muito bons! - e do Real Clube, que despertaram em mim o dormente fascínio dos velhos tempos pela ginástica rítmica, e arcos, e fitas, e massas, e cambalhotas, e esparregatas), o domingo foi dia solarengo que, à excepção de uma pequena fuga para aquisição do Shiseido - porque afinal a Lâncome não tem assim um rouge tão absolut como o que pretendia - foi dedicado à prática de home-cinema. Pois que é.
E os escolhidos foram os fabulosos documentários que se seguem:


and...

worten dix it

É mais um aparelho, assim uma espécie-de-box, para empilhar sobre dvd, playstation, box tvcabo e amplificador. Mais uns cabos e umas fichas scart (raios partam se percebo alguma coisa de electrónica) e dá-se o milagre de chamar a mim a Lusomundo: dezenas de ficheiros, entre os quais, as legendas!! dos filmes que tenho em calha há já alguns meses (porque me fazem falta as legendas e não me habituo nem por nada que seja de outra forma, não obstante a minha boa percepção do idioma da grande maioria das películas). Assim, o único inconveniente é saber que relego, quase de certeza, para segundo plano a pilha de livros por ler - não porque uma coisa substitua a outra mas porque o tempo se mostra escasso para realizar certos anseios e cumprir ainda com os deveres matrimoniais. Pois.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

boas leituras

É por coisas destas que, ocasionalmente, dou graças por estar aqui, à beira da pedreira.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

arte

A primeira pincelada é incerta, tímida, sem saber ao certo onde quer chegar. Transmite uma espécie de vibração sensorial que se espalha pelas artérias e se sente em todo o corpo. A côr é inebriante, a substância espessa e luminosa marca a tela em relevo, num desperdício pecaminoso de tinta farta. Não importa de onde vem, para onde vai, se condiz ou faz sentido. Importa dar-lhe expressão e movimento. Tem muito mais a ver com sentimento que com lógica, muito mais com exteriorizar gestos que com chegar ao detalhe. A precisão é antípoda ao prazer e à terapêutica da arte plástica.

Sempre gostei de pintar. Desisti apenas porque receei que me sugasse toda a energia que me mantinha sã. E agora, escrevo. E quando não escrevo, penso.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

casino

Ali as pessoas são todas diferentes: altas e baixas, gordas e magras, feias e bonitas, pretas, brancas, asiáticas, ciganas, homens ou mulheres, novas e velhas, pobres e abastadas, elegantes ou nem tanto. Fumam, bebem, falam pouco, murmuram ou apenas gesticulam, olham fixamente para um sítio, para um objectivo, não se observam entre si, movimentam-se como se não houvesse mais ninguém em volta, concentradas, tensas. Usam objectos de 'rotina' como se fosse o missal na eucaristia: sejam a pochette dourada, uma carteira em pele ou uma bolsa de cintura, onde carregam fichas, notas, moedas. Fumam mais. Os empregados movimentam-se com cerimónia e as croupiers suspiram, com pompa e algum enfado, entre uma e outra aposta. O chão é suave. Sinto-me diferente, deslocada, mas continuo, obcecada e confortavelmente, a observar os fantasmas que por ali se movem. São só fantasmas, não me vêem, nem me fazem mal. O barulho e as luzes como fundo. O brilho que se reflecte na curva da roleta e se renova, noite após noite, concluo, é roubado daqueles olhares vazios, sem expressão, que se debruçam diariamente sobre o abismo.
Afinal, ali as pessoas são todas iguais.

Audrey


Desde miúda que é assim: quando a L. está presente, não consigo tirar-lhe os olhos de cima.
Não sei como casou com aquele sonso e desfigurado do Dr. A.
Até nisso me lembra a Audrey Hepburn e os melodramas cinematográficos.

percebo que...

... sou uma pessoa ingénua, ainda em fase de maturação.
Dou-me conta disso quando ainda me surpreendem as anedotas inadvertidas da tvi (principalmente as da recente 24) e as 'inovações' instituidas, da noite para o dia, com que me deparo quando chego ao trabalho.

terça-feira, 14 de abril de 2009

de onde me encontro

Irritam-me pessoas sem modos, sem charme natural, sem aqueles pequeninos pudores dignificantes. Pessoas abruptas, agressivas, sem jeito, sem tacto. Pessoas sem sensibilidade, sem talento, sem encanto. Irritam-me as pessoas pouco escrupulosas, cheias de razão, de ênfase, de peito feito. Não é a rudeza campónia que me incomoda, é a grosseria cosmopolita.
Pena é que o dinheiro não compre, efectivamente, as maiores virtudes.

barraca

Sem querer chover no molhado das críticas fáceis ou nas conclusões elementares que se podem retirar sobre a intemporal adequação do conteúdo da peça à realidade social, também a mim me apraz enaltecer a excelente capacidade de adaptação teatral desta obra de Gógol, muito embora raramente me tenha abstraído da impressionante semelhança eloquente entre João D'Ávila e a D. Isabel aqui da limpeza, quer nas similaridades físicas, quer no discurso enfatizado e sufocante. Mas o interessante que advém destes eventos lúdico-culturais, e que já nada tem a ver com as qualidades do mesmo, são as suas promoções sociais e as críticas póstumas(?) de quem tem como 'missão' analisar e interpretar, recorrendo aqui e ali a nomes ou situações reais, para satirizar e se mostrar expert naquilo que diz. E escreve.
Não fossem os erros ortográficos e o facto de se valer de sinopses e googlagens sobre as virtudes do autor e até estávamos, no exemplo referido, perante um texto... 'maneirinho', vá.

gertrudes

Com um título destes, dir-se-ia que poderia postar aqui alguma coisa relacionada com a minha tia que vive em Moscavide, mas não. Descobri hoje que há uma gertrudes muito mais influente na capital. Eu e milhares de lisboetas.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

sangue azul

Sangrei azul de corpo e de mente. Um certo brainstorming, exigente, de certeza, e muito bem conseguido, levantou-me da cadeira. Elevei-me ao mais alto skyscraper espiritual. And it felt good! Carreguei os lábios de vermelho escuro, parecendo adivinhar a feliz combinação com a opacidade azul da maquilhagem. Parece-me que alguma da magia teve a ver com uns certos e determinados acordes que muito me dizem, a proximidade física também denuncia responsabilidade, mas mais que tudo, houve ali uma mensagem muito pessoal. A carapuça serviu-me. De regresso, vinha com um apetite voraz, daqueles pós-orgásmicos, reveladores de cansaços bons. E apetecia-me comprar um batôn Lancôme. Lembrei-me até da Isabella Rossellini! Parece que o vermelho carregado é bom agoiro.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

febre de quinta-feira à noite


"The General-Inspector is a national institution. To place a purely literary valuation upon it and call it the greatest of Russian comedies would not convey the significance of its position either in Russian literature or in Russian life itself. There is no other single work in the modern literature of any language that carries with it the wealth of associations which the Inspector-General does to the educated Russian. The Germans have their Faust; but Faust is a tragedy with a cosmic philosophic theme. In England it takes nearly all that is implied in the comprehensive name of Shakespeare to give the same sense of bigness that a Russian gets from the mention of the Revizor"

Estai atentos. Qualquer similaridade com o real será aqui devidamente reportada.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

vindo de quem vem não admira

Não me perturba a falta de tacto diplomático de Berlusconi, muito menos me espanta. Acho até que o seu sentido prático pode ser muito útil aos italianos nesta altura difícil (a nós, Deus nos proteja, calhava-nos um ministro que, de momento, nem mãos tem para tanto magalhães). Não obstante, acho que lhe dava jeito um conselheiro que ajudasse a tornar mais oportuna a sua intervenção, se aliada aos recursos cintilantes de um discurso obamístico, por exemplo.

divina inspiração política

Disserta-lhe, verborreico Tavares, disserta-lhe, com arroubo e inebriante clamor!

Conta-se que Bocage, ao chegar a casa um certo dia, ouviu um barulho estranho vindo do quintal.
Chegando lá, constatou que um ladrão tentava levar os seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com os seus amados patos, disse-lhe:
- Oh, bucéfalo anácrono!
Não te interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo acto vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa.
Se fazes isso por necessidade, transijo...
Mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada…
E o ladrão, confuso, diz:
- Doutor, afinal levo ou deixo os patos?

(obrigada, Tânia Fadário, pela consideração à minha caixa do correio)

terça-feira, 7 de abril de 2009

e porque não há duas sem três

enquanto botava abaixo a açordinha, assistia fascinada ao programa Cuidado com a Língua!
Não tenho palavras para comentar tão preciosos quinze minutinhos. E também confesso algum receio de que me apareça aqui a Maria Flôr Pedroso, sentada no parapeito da janela, a dizer, com aquele ar entre o severo e o condescendente: "O que escreveste não está correcto".
Graças a Deus que hoje tenho dose dupla de Donas de Casa Desesperadas no cabo. Palavra de honra que há dias em que só preciso de um bocadinho de lixo comercial.

as notas soltas

Ontem à noite, enquanto cirandava nos meus rituais de início de serão, ia ouvindo as notícias na rtp1. Ainda me prostrei em frente à televisão, uma meia no pé e outro pé descalço, entre o despir e o tomar banho, em frente ao Fernando Mendes para ver se a mulher de ar acriançado e cabelo muito comprido acertava no preço da montra final, em euros, mas não, e não arranquei logo para a banheira porque as chamadas dos noticiários, tal como as gordas dos jornais, existem é para nos prender, e por ali fiquei mais um pouco, a baloiçar no sofá-baloiço, atenta aos desenvolvimentos sobre o sismo em Itália, por ser sismo e por ser em Itália, consciente de que o número avultado de mortos das guerras e das fomes não constitui chamada nem manchete, porque "estórias" dessas já não nos detêm de caminhar directamente para o duche. Depois o José Alberto Carvalho trouxe em directo de L'Aquila um estudante de erasmus e tentou, inutilmente, arrancar-lhe alguma coisa de novo e emocionante, e foi aí que me fiz à casa de banho. Preparei depois a minha açorda instantânea e, entretida na cozinha, por entre o cheiro dos coentros e as investidas do cão que queria festa, iam-me chegando da sala risadinhas cúmplices e infantis, e comentários sobre a primeira dama americana e as peripécias da sua vinda à Europa. Pensei para mim, "esta Judite de Sousa gosta mesmo deles carecas e roliços!"

segunda-feira, 6 de abril de 2009

chocostat

Não dou muita credibilidade às estatísticas. São uma espécie de astrologia disfarçada de matemática, manipuladoras e manipuláveis e a sua razão de ser tem muito mais a ver com influenciar do que com informar. Depois há a questão da forma como as estatísticas são apresentadas, que condiciona ainda mais a sua interpretação, de acordo com o efeito pretendido desse anúncio. Além disso, as estatísticas vêem as pessoas como números, o que demonstra uma grande falta de sensibilidade e permite a obtenção de alguns resultados idiotas que nos dizem, por exemplo, que em 100 portugueses 7,8 estão confiantes na economia mundial - muito embora isto também já implique uma mistura entre percentagens e números inteiros que não me cheira que devam andar de mãos dadas. Sou muito pouco dada a esta área.
Tudo isto porque ouvi hoje dizer que cada português consome, em média, quilo e meio de chocolate por ano. Isto andaria na ordem das quinze mil toneladas anuais? Qualquer coisa assim.
Não consegui evitar pensar que há por aí muita gente a servir de bode expiatório à gulodice alheia. Mas creio que me senti tomada pelo sentimento de culpa que m&m's e amêndoas de chocolate às sacadas me provocaram. É que, assim de repente, quilo e meio parece-me um número irrisório e a estatística nacional, assim apresentada, despenaliza o meu recorde pessoal de gula.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

patti smith

"O futuro? Sim, absolutamente. Tenho imenso trabalho pela frente: um álbum, exposições, gostava de escrever uma ópera, um milhão de ideias. O futuro para mim é trabalho novo. E viajar. A vida é fantástica. É difícil e temos de negociar todo o tipo de coisas: assuntos de saúde, a perda de pessoas que amamos, aflições financeiras, fome física, solidão. Mas estar vivo é maravilhoso. É infinitamente interessante."
Ípsilon, 03 de Abril de 2009
Inspirador, magnífico, and yet, não me passa este torpor espiritual.

Luisão lesionado no 'escrete'

A malta d'A Bola vale-se de critérios bastante infelizes na escolha dos seus títulos.
Ou sou eu que associo diferentes conceitos sem qualquer tipo de pudor.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

pára-brisas

Acho giro que tenham feito os anúncios radiofónicos da Carglass com técnicos a sério.
Acho muito honesto e pouco habitual. O costume é ouvir-se mulheres de voz hipnótica a contar-nos experiências reais sobre diuréticos milagrosos tão naturais e tão benéficos que nos apetece, de facto, engoli-los à litrada, como se fossem vitaminas. Mas a Carglass opta pela autenticidade.
A única coisa que soa falsa é a entoação. Mas também é isso que comprova que eles são, de facto, técnicos da Carglass!

g20

Onde há sorrisos de circunstância, há silêncios incómodos.
Humm...

a idade

Há uns anos atrás, que me parecem muitos, muitos, achava que não havia nada pior que cortar os dedos com papel o dia todo e pincelar cola líquida em envelopes, bem como contactar telefonicamente ilustres desconhecidos para congratulá-los pela aquisição do seu Honda Concerto, que na maioria das vezes não possuiam, como, não possui? - Já lhe disse, nunca tive nenhum Honda Concerto na vida! - Mas não é o Sr. Tal e coiso!? - Sou sim senhor, mas não tenho nem nunca tive nenhum Honda Concerto - Ah... pois, então desculpe lá. Deve ser engano da base de dados... Mas não participou num concurso, de certeza..? - Oh, menina, já lhe disse..., mas volvido este tempo há dias que não suporto os afazeres administrativos que se me afiguram todos os dias, que não são mais do que um sem fim de burocraciazinhas que me fazem pensar que a minha utilidade é tão menor ou inferior à da miúda que almoçava no jardim do príncipe real e aí fumava uns cigarros e enxotava os pombos, antes de voltar para os envelopes, a cola, a base de dados e o telefone. Depois ponho-me a pensar que, não obstante a falta de paciência que já me caracteriza permanentemente, devo estar grata por me ver rodeada de Natureza, pessoas que gostam de andar no meio da estrada e parecem olhar para os carros como se lhes dissessem aqui mandamos nós! A aldeia já era nossa antes de vos inventarem! e por um micro clima inexplicável. É que as saudades que tenho de Lisboa são tendenciosas e não incluem uma série de contratempos que me fariam subir os níveis de stress e acentuada depressão já de si perigosamente elevados. Dá-me ideia que a única coisa que me assiste reclamar com toda a legitimade é a minha memória de adolescente. Estou convencida de que entrei numa precoce e vertiginosa ascendência ao pico do monte Alzheimer.

carnaval

Alguém que se fantasia de puta reles e espalhafatosa e encontra na sua indumentária do dia-a-dia e no seu estojo de cosmética tudo o que precisa, deve repensar toda uma série de coisas. Não vos parece?

terça-feira, 31 de março de 2009

al pasar la barca

Al pasar la barca me dijo el barquero
las niñas bonitas no pagan dinero.
Yo no soy bonita, ni lo quiero ser,

yo pago dinero como otra mujer.

Al volver la barca me volvió a decir
las niñas bonitas no pagan aquí.
Yo no soy bonita, ni lo quiero ser,

yo pago dinero como otra mujer.

Já não há barqueiros imberbes, de músculo rural e sorriso trocista.

segunda-feira, 30 de março de 2009

ontem

De manhã, dormi.
De tarde, li a morte do tio Fiodór, da senhora e da árvore.
À noite, vi um filme muito parvo chamado Sexo até à Morte.

Antes de dormir fui passear o cão. Quando, por fim, saí à rua tive a sensação que estava a pisar outro planeta.

gaveta da preguiça

Tenho na minha gaveta da preguiça um rol de coisas: fotos que não tirei, pessoas que não vi mais, sítios que não conheci, muito dinheiro que não poupei, pouco que não gastei, coisas que não escrevi que se misturam com as que escrevo, planos que não segui, objectivos que não alcancei. Estou sempre a depositar lá mais e mais coisas: quando me esqueço, quando ignoro, quando negligencio, quando não cumpro, quando não faço, quando não sou. De vez em quando faço uma limpeza. Tiro dois ou três projectos poeirentos e dou-lhes uma razão de ser. Nessas alturas penso que é fácil e agradável. Penso, sobretudo, que faz sentido e que deveria ser sempre assim porque esses projectos poeirentos, encerrados numa gaveta, num gavetão, transformam-se em ornamentos, em molduras na minha vida. E até é simples. Mas depois vem outro surto e a gaveta volta a encher-se, como se as concretizações abrissem espaços para novos armazenamentos. E a gaveta nunca está vazia ou arrumada: misturam-se o doce e o salgado, o quente e o frio, o pensado e o dito. Às vezes a gaveta é enorme, transforma-se num baú. Cabe lá a bicicleta imóvel, a bola de basquete que não vê as tabelas, os aplausos da peça de teatro e a música daqueloutro concerto. Mas quando está mesmo grande, quase inamovível de tão pesada, é quando deixo passar muito tempo e vou lá descobrir-me a mim, enroscada numa dormência conformada.

sexta-feira, 27 de março de 2009

para quem não tem onde dormir



música de fim-de-semana, para baloiçar a perninha.
(Oxalá não se lembrem de adoptá-la em massa como toque de telemóvel, aqueles que só recentemente se deram conta que ela existe!).
o sigmatismo dá-lhe (à Amy) um ar giro e está na moda (falta-lhe só o aparelho nos dentes).

quinta-feira, 26 de março de 2009

mariage médiane

o homem quer (pelo menos) um mínimo de sexo e o máximo de silêncio.
a mulher quer (pelo menos) um mínimo de carinho e o máximo de estabilidade.
o segredo da felicidade remediada.

iris

A caminho de casa ia, sonâmbula, a ouvir na rádio os goo goo dolls com a sua iris e a pensar como é possível ter-se como filme de eleição a cidade dos anjos. Tão meloso, tão comoventezinho na sua mensagem, tão estranho na sua abordagem dos sentidos, do pressentimento. O ET tem mais de vinte anos e talvez tenha tido o seu impacto exactamente por isso: volveram-se entretanto duas décadas.
O Nicolas Cage faz lembrar o Bender Bending e como é triste para um robot não ter sentimentos (excepto que no futurama a observação é para ter piada efectivamente). A Meg Ryan, por sua vez, tem a morte cinematográfica mais estranha e violenta de todos os tempos, mas sempre rodeada de uma aura angelical completamente inadequada à realidade; e não me esqueço daquela falha de raccord tremenda quando a actriz se deita com uma camisola e acorda a meio da noite com outra.
Pior é que até gosto da iris dos goo goo dolls. Ou gostava, não fora o caso de associá-la sempre ao estafermo do filme.

(im)pertinente

Acho que isto justifica um debate televisivo.
A questão que se coloca é: o que faria o Lucílio?

futebol e outras religiões

Ainda bem que a tentação de fugir à chafurdice mundana não me levou no passado fim-de-semana à eucaristia dominical da Igreja do Rato. É que esta coisa de me forçar a aceitar que o Bento XVI se vê limitado a uma visão humanitária condicionada pelas contingências históricas da religião, leva-me a pensar que a estagnação do catolicismo deveria aplicar-se com muito mais rigidez à postura 'brincalhona' que alguns párocos assumem na homilia.
Para mais, parece-me que quem fala em nome de outrém, ou melhor, de Outrém, não devia ser tão tendencioso. Embora comece a fazer algum sentido a "aparente" coincidência dos fumos negros do Vaticano e de Alvalade anunciarem dois Bentos para comandar os seus apóstolos. Quase me atrevia a concluir que a Maria Madalena no repasto do Soares Franco é o Miguel Veloso, disfarçado de jogador de futebol.

quarta-feira, 25 de março de 2009

na'an

Ontem fui jantar ao Indiano. Comi naan com queijo e alho. Tinha mais ervas do que o costume. Estava melhor do que nunca.
Pensei que tenho de ir à Índia.
Tenho de ultrapassar os fantasmas da pobreza, da sujidade e, principalmente, os da diferença.
Se para me apaixonar pela Índia tiver de me fustigar primeiro, não hesitarei (como não hesitei em queimar as pontas dos dedos na lanterna por teimar em tocar-lhe a beleza).
O caril de camarão estava muito bom mas naan recheado com queijo... ah! naan recheado com queijo...

terça-feira, 24 de março de 2009

segunda-feira, 23 de março de 2009

porque no enfiamento do poste é que se tiram bem os foras de jogo

Fico ursa quando percebo que, por mais água que corra debaixo da ponte, o Miguel Sousa Tavares e o futebol terão sempre em mim uma influência negativa. Pior ainda quando se trata do Miguel Sousa Tavares e de futebol, em simultâneo. Do dito senhor, já evito ler as crónicas, medida que constitui o passo mais importante na minha auto-infligida terapia; já o futebol não é coisa que se evite facilmente, muito por culpa da forte proliferação de comentadores desportivos, à espreita, cíclica e cansativamente, em todos os noticiários, na televisão, na rádio e nos jornais. Depois deste grande evento que foi a final da Taça Carlsberg, mina de ouro da sic para as audiências de sábado, estou fartinha de ouvir opiniões, bitaites, comentários, picardias, "análises" e promessas de ajustes de contas... porque há coisas graves que não devem ficar impunes. Com trinta mil putas! Eu, que tentava evitar aqui, no meu refúgio de disparates comedidos e sempre censurados pela minha consciência, qualquer tipo de impropério pouco digno da minha regrada educação, apetece-me - ora por imaginar o sorriso retrocido de ironia do sôr MST, ora por me ecoarem na lembrança os maiores disparates proferidos pelos ditos comentadores - largar, uma vez mais, o Foda-se! redondo e rubicundo que disse, duas vezes de seguida, a noite passada, mesmo antes de adormecer.
É que andam aqui estes tipos, que são pagos para nada mais do que jogar futebol (e nada mal pagos por sinal: não venham com conversas de ligas estrangeiras milionárias que há toda uma lista de argumentos perfeitamente válidos a comprovar que dinheiro não significa necessariamente talento e bons resultados - se assim fosse nem as participações consecutivas nas competições europeias salvavam a vida ao FCP que, em braço de ferro económico com o Benfica, talvez saísse a perder) e mesmo assim têm de se sacrificar os árbitros para justificar a falta de jeito que paira por estes relvados. Aguçam-se os espíritos críticos para que, horas antes dos jogos, não se anseie por uma grande jogatana mas por saber para que lado irá pender o juíz da partida (como lhe chamam os ditos comentadores, férteis na atribuição de adjectivos e nomes alternativos, para desenjoar na repetição das mesmas ladaínhas criticistas) e fazem-se solenes e avisados votos, por parte de dirigentes com a mania da supra-sapiência, para que o árbitro nomeado esteja à altura da grandiosidade do encontro, olvidando que talvez o não estejam os jogadores.
Foda-se! Foda-se! Só alivía à segunda.
É que é de uma pessoa perder a paciência. Palavra de honra.

sexta-feira, 20 de março de 2009

reflexo da divergência política internacional ou a confirmação da regra que diz...

... por detrás de um (grande) homem, está sempre uma GRANDE mulher.
Regra que raramente admite excepções.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Mila

A Mila que eu conheci em miúda, feia, baixinha e gorda, com olhinhos de tartaruga velha e óculos de míope conseguiu sempre destronar do meu pódio imaginário todas as Milas que se lhe seguiram: lembro-me de repente da Mila do Netinho brasileiro, um mito musical e certamente uma brasa carioca, ou da Jovovich, qualquer uma delas sempre assombrada pelo fantasma da primeiríssima Mila da minha vida. As primeiras coisas são as que deixam marcas. Não posso evitar de não gostar de Mários, Duartes e Betos pelas experiências ou impressões pouco indeléveis que os primeiros deixaram em mim, pelo que nunca teria um filho a quem chamasse Mário, Duarte ou qualquer nome que pudesse originar a suspeita alcunha Beto.
Eis-me aqui chegada a um outro tema que, apenas aparentemente, nada tem a ver com isto. Esta manhã acordei a pensar em vilipendiar. Simplesmente. Não que vilipendiava alguém, ou que fosse vilipendiada ou que assistisse a algum vilipêndio. Acordei com a palavra a latejar-me na cabeça, a pressionar-me. Foi mais ou menos um acordar cinematográfico, em que a pessoa se levanta e grita qualquer coisa, com a excepção de não me levantar como que impulsionada por molas - coisa que considero pouco coerente com o que normalmente acontece no despertar de um pesadelo, apesar de ter um efeito bonito -, apenas balbuciei a palavra, certamente com uma expressão aparvalhada.
Partindo assim das duas permissas iniciais, permito-me concluir o silogismo da forma mais lógica que agora me ocorre. Não obstante não ver a Mila nº 1 há uma mão cheia de anos (não conhecer a nº 2 e apenas estar mais em contacto com a nº 3 através da L'Oreal), a minha interpretação da obrigatoriedade de usar os óculos novos, interpretação muito própria que lhes reconhece a função de prótese acessória completamente dispensável e inconveniente, faz brotar em mim esta tendência subconsciente para vilipendiar a Mila-feia em função de uma ligeira crise patológica que tem estado a levedar brandamente de há uns dias a esta parte.

quarta-feira, 18 de março de 2009

hormonas ou outra coisa qualquer

Hoje, pela manhã, num frenético acumulado de energia negativa desde segunda-feira, pensava "fosse eu de arrancar unhas a sangue frio ou estropiar animais inocentes e esta era a altura perfeita para fazê-lo".
Agora só me apetece adormecer sem data prevista para recuperar os sentidos.

terça-feira, 17 de março de 2009

tudo o que precisamos saber



já sabemos que a distribuição gratuita de preservativos e as campanhas para a sua utilização não ajudam a combater a Sida (pelo contrário, agravam o problema).
já sabemos que a solução passa pela abstinência e por um 'despertar espiritual e humano'.
já sabemos que a 'amizade pelos que sofrem' também ajuda (terapêutica de solidariedade?).
já sabemos que a utilidade da igreja passa por dar sugestões 'espirituais e morais' e contribuir para a 'ética das estruturas económicas' em défice.

ainda bem que Bento XVI sabe como solucionar o flagelo da Sida em África.

esta é, oficialmente, uma semana de merda

... apesar de ser ainda terça-feira.

eu? eu acho lindo!

o homem português (ao contrário do irlandês) não fica na esquina, desgraçado da vida, à espera do reencontro.
como não percebe de solidó, faz só o script...
"é tão bonito ouvir dizer com alegria, olá bom dia..."

sexta-feira, 13 de março de 2009

trois choses indésirables

o Vítor Pereira (principalmente quando fala com pouco à-vontade sobre o "aparecimento" da Sida e da obrigatoriedade do uso de caneleiras como consequência disso - por causa dos acidentes e do sangue e de evitar o contacto com a pele...);
a cansativa missão-magalhães, mais as embaraçosas entrevistas dos jornalistas peregrinos que interrogam os pretinhos de Cabo Verde, como se fosse Natal em terra de pobre, para obterem respostas monossilábicas e pouco entusiastas de crianças que (sim!) já tinham um computador em casa;
spams na minha caixa electrónica com o título: erecções prolongadas.

quinta-feira, 12 de março de 2009

o reinado actual

Na última edição da Visão on-line, aprendi imenso sobre a história da monarquia portuguesa, eu, uma leiga no que respeita às nossas dinastias, tanto que nunca me atrevi a concorrer ao elo mais fraco, ou ao quem quer ser milionário (certamente desperdiçaria a ajuda dos 50/50 numa pergunta sobre reinados e ainda assim teria apenas 50% de hipóteses) ou ao jogo duplo (embora o Malato também pese nesta decisão), com receio do embaraço que seria dar a conhecer esta lacuna apátrida.
Mas aprendi mais coisas. Aprendi que a analogia é um conceito soberbo que nos permite, por exemplo, comparar Carolina Salgado com D. Leonor Telles de forma diabólica e ainda deixar no ar um cheirinho da nossa sensibilidade e domínio dos meandros quer da sociedade monárquica, quer da actual. Ora a mim, que sou uma ignorante filha da república, até me podem convencer que D. Leonor Telles era uma ousada e emancipada senhora dos seus tempos que, nos enleios do seu poder de sedução, conseguiu o que quis, pagando o que não quis pela sua ambição. Podem até convencer-me que a dita foi vítima de odiosas gatas borralheiras e velhos do restelo, numa mistura de personagens, que lhe causaram a desgraça. Será certamente mais difícil moldar-me a razão de forma a reconhecer qualquer um destes atributos a Carolina Salgado. Diz-me a minha sensibilidade que se a evolução nos serve de alguma coisa, admitamos então que D. Leonor Telles poderia ser vista, em pleno século XIV como a Carolina Salgado da época. Mas Deus nos livre de pensar, após tantas conquistas, sobretudo intelectuais (acredito eu), que a vulgar Carolina Salgado, tão ordinária enquanto justiceira como o foi enquanto namorada de um velho pateta, simbolize a D. Leonor Telles dos nossos dias.
Se há, porém, neste artigo da Visão alguma coisa realmente ofensiva, deixei-a propositadamente para o final. Quando diz "São as súbditas, as mulheres, quem não lhe perdoa o indecoro nem a ousadia. São elas que realmente a odeiam, insultam e vituperam, a ela que se serviu da arma feminina mais poderosa - a da sedução -, a única que nunca poderão perdoar-lhe (...) Não é a culpa dos actos que persegue Carolina: ela está a pagar pelo facto de ser mulher", Filipe Luís está a dizer uma de duas coisas: ou o seu verdadeiro machismo não reconhece numa mulher, qualquer que seja, a inteligência e a sensibilidade que lhe permitam detectar a fraude que é uma pessoa como Carolina Salgado, ou o recalcamento de nunca haver experimentado na vida o verdadeiro poder sedutor de uma Mulher tolda-lhe a noção da realidade dos factos.
Talvez sejam ambas.

acesso permitido

devia ter percebido que era só uma manobra de diversão...

quarta-feira, 11 de março de 2009

de Bragança a Lisboa

Da mesma forma que relembro com ternura a versão cantada da Larocas do: "é fácil! é barato! 'caminhões' "!, também continuo a preferir a minha versão de "queria ter um avião, p'ra lá ir mais 'a miúda' "...

boas maneiras no Japão

Foto@EPA/Franck Robichon
Apesar de conhecidos internacionalmente pelas suas boas maneiras, mesmo os japoneses têm ainda de aperfeiçoar-se, como atestam os cartazes afixados no Metro de Tóquio, com o título em japonês e inglês, "Please do it at home" (Por favor, faça-o em casa). *

* fotos do dia - http://www.noticias.sapo.pt/

Sou particularmente sensível no que respeita a deitar lixo para o chão... e a velhinha sentada ao lado também não gosta nada.

terça-feira, 10 de março de 2009

por falar em blogues

A blogosfera, o mundo das amizades virtuais ou dos chats e até mesmo os diferentes domínios para criação de contas de correio electrónico têm pelo menos uma coisa que tende a aproximá-los inevitavelmente: o desenvolvimento de aplicações que se vão afastando do carácter utilitário para se tornarem apenas acessórias e, em muitos casos, reles kitsch cibernáutico. Como os penduricalhos que se inventaram para os telemóveis, ou as bolsinhas em forma de peúga. É um mundo de possibilidades, de downloads, de up-grades, tudo palavras que me fazem sentir um pouco desconfortável, mas que permitem um sem fim de coisas curiosas.

Na blogosfera, utilizo o meu espaço como bem entendo, na simplicidade e no recato de um semi-anonimato que me deixa à vontade. Gosto de pensar que sou mais exigente comigo do que qualquer outra pessoa e que, de toda a maneira, não serei alvo de toda a crítica porque o meu humilde blogue não circula pelos meandros sociais e elitistas que se desenvolvem em círculos virtuais. Também gosto de pensar que sou exigente com os outros, e quando o que leio me causa algum tipo de repulsa, saio pela mesma porta que entrei, sorrateira, para não mais voltar.

Depois há a aquela questão da gestão que cada um de nós, bloguistas, faz do seu próprio espaço. Sem censuras. Aprecio quem se deixa comentar da mesma forma que aprecio quem não dá essas abébias, no sentido talvez de se posicionar acima de qualquer crítica, por não ser essa (de todo) a finalidade de estar "aqui".

O que me transtorna profundamente, o que é quase um choque para mim, é que alguém, cujo domínio da escrita e dos temas, cuja inteligência e sensibilidade fora de série, cujo santíssimo poder supremo lhe permita posicionar-se acima do comum mortal, bata com a porta aos indesejados que, cambaleantes pedintes, se humilham a tentar penetrar no seu imponente reino de supremacia. É como entrar numa livraria e não podermos comprar aquele livro que é, de repente, bom demais para ser sujeito à nossa apreciação. É como vedar os Lusíadas ao português menos 'digno'. É, acima de tudo, um contra-senso limitar a nossa obra a um círculo restrito, muito possivelmente aquele que nos bajula e nos converte nesse ícone em que de repente nos transformamos, sem aspirar a mais, aquele mais que verdadeiramente compensa. Mas, sem censura, procurarei outros reinos mais acessíveis (e receptivos) à minha condição inferior.

segunda-feira, 9 de março de 2009

ódio fácil

Deve ter sido por sonhar com o que sonhei. Ela, que mal me falava, de tão ofendida, acabou por confessar que o motivo da sua presença ali se devia a uma ida ao médico. Uma consulta tardia (digo eu) devida ao facto de ter abortado espontaneamente há uns meses atrás (vejam bem o cabimento). E pronto, era isto. Mas depois, já havia uma outra jogada: tatuar em toda a extensão da barriga uma espécie de anjo de grandes asas; uma coisa horrível, colossal, de péssimo gosto que, quando pensava não poder piorar, se transformou num desenho inspirado na antiga fotografia dos avós. A sua barriga ostentava, então, a cópia de um daguerreótipo de dois idosos, de contornos escuros e olhos brancos, cegos. Uma coisa para lá de medonha.
Lembrei-me de Lourenço, da conversa da véspera, dos planos de uma lista. Por prioridades. Eliminatória. Acordei com uma raiva miudinha por isto tudo junto, por não poder pôr-lhe cobro. E ouvi sussurrar: "E Vitor?"
Foi a gota de água.

sexta-feira, 6 de março de 2009

superlativo

Hoje já li a palavra grandíssimo inúmeras vezes.
É contranatura e eufemista.
Nunca terá o impacto de Grandessíssimo, este sim, o verdadeiro adjectivo no seu exponencial máximo.
É das poucas excepções em que me estou nas tintas para o rigor ortográfico.

albert

Tomou-me ontem, na minha cama, com as suas vestes gastas, os seus gestos loucos e o poder da sua música.
Adormeci com a mesma sensação pós-orgásmica que Albert deixou no salão do baile após a sua performance.
Adormeci com o violino.
Infeliz aquele que nunca experimentou o prazer sublime da literatura.

no segundo mês consecutivo de sexta-feira 13...

independentemente de tudo o resto, sexta-feira é sempre um bom dia.

achados

para conferir acoli ...

quinta-feira, 5 de março de 2009

vento

Estou cansada, cansada, cansada. Estou cansadíssima, exausta, sem fôlego. Tenho um peso nas costas, nos rins, nos ombros, ao longo do dorso. Doem-me órgãos que nem consigo nomear. O pescoço está tenso, fatigado, contraído. A cabeça está tão insuportavelmente preenchida com ideias, emoções, pensamentos, planos, objectivos, expectativas, números e letras que parece vibrar em todas as suas funções.
Mas o que mais me dói parecem ser os pulmões, o peito, a caixa toráxica. Sinto que sou eu que sopro, do infinito de mim, este vento horrível, rodopiante, frio e violento que varre a estrada, o campo, os prédios, as antenas, os telhados de zinco e sobe pelo poço do elevador e sacode as folhagens e levanta o lixo.
Cansa-me e adoece-me, este vento.

um absurdo

Ao cruzar as portas do elevador, na saída para o trabalho, deparei-me com a vizinha-avó que chegava com a netinha pela mão, em passinho de corrida, para ocupar a cabine antes que a porta se fechasse. Antes de desaparecer ainda a oiço dizer "anda, bébé. Corre, corre, que vem lá o cigano".
Eu apostaria mais no papão, é menos xenófobo e dá azo a mil e uma alternativas assustadoras.
Já para não falar no precedente para o estigma que, na idade adulta, se materializa em assobiadelas ao Quaresma...

quarta-feira, 4 de março de 2009

barroca

podia ser modernista e simples como um exposição do MoMA, minimalista.
ou colorida, objectual, simbolista, como a pop.
podia ser naïf no seu estilo não académico.
mas o que escrevo é, por vezes, enleado e entediante como o barroco que estudava na escola. enjoativo e cheio de rodeios e pormenores, como uma escultura rocócó do Aleijadinho.

impaciências

Tenho-me lembrado, com alguma insistência, de prestar tributo aos sujeitos que controlam o trânsito no acesso às obras de construção do novo traçado da CREL (que nem sei se por estes lados não será já um IC qualquer-coisa) pelo seu valioso contributo (estou certa) para o bom funcionamento de algumas coisas, sendo que nenhuma delas passará certamente por controlar o trânsito. Pois que este tributo é então, efectivamente, um irónico alerta para o perigo que estes indivíduos representam e para o qual ninguém parece estar sensibilizado, incluindo quem é responsável por atribuir-lhes essas funções e as próprias autoridades, que se marimbam para a presença deles no meio da estrada.
Vejamos. Nada tenho contra os pobres que se revezam nestes postos de vigia ao longo do dia. Com os temporais que por aqui se levantam nesta zona de árido microclima, aposto que não deve ser pêra doce estar-lhes na pele, mas os pelintras já me pregaram alguns sustos. Logo para começar, costumam enterrar a cabeça na gola do casaco e cirandam pela berma baloiçando inconsequentemente a raquete do stop na mão, quando a luz já é fraca e as condições atmosféricas não ajudam nada. Por outro lado, parece-me que começa a ser frequente entre os automobilistas habituais ignorar as suas indicações, pelo que não lhes vejo grande utilidade. Um investimento na criação de novos e ousados postos de trabalho de forma a reduzir os índices de desemprego, talvez. Seja o que for, sei que tenho de estar bem atenta a mais esta invenção da engenharia civil e obras públicas. E talvez devesse forçar-me a usar sempre os óculos, conforme prescrição médica, porque isso também evitaria algum tipo de alucinação visual que, conjuntamente com os sinaleiros sem formação, tendem a impacientar-me.
É isso e o Miguel Sousa Tavares. Muito me impacientam.

terça-feira, 3 de março de 2009

eduardo verástegui

Pelo que percebi é uma espécie de menino bonito da televisão mexicana, mas estou disposta a sujeitar-me à possível mediocridade da película por duas horas de deleite com... José.
Acho que mereço, depois de ouvir de uma amiga (por quem tenho grande estima) que o Caneira tem uma beleza invulgar. E falava a sério!
related: bella

segunda-feira, 2 de março de 2009

coisas que fazem rir

1º Shuriken school é uma miscelânea franco-nipónica, parece-me; nada o tipo de coisa com que me identifique, mas confesso que me suscitou a curiosidade. Passa nas manhãs de sábado na sic e fez-me rir bem cedo e depois de uma noite pouco e mal dormida. Não é mais do que uma série de animação estreada há uns tempos pela nickelodeon. Achei digno de registo.
2º O Rui Santos e a sua triste vidinha dedicada a dissecar jogos de futebol até ao ponto em que não se percebe o quê e o porquê de se estar a falar naquilo (como quando se repete muitas vezes a mesma palavra e às tantas ela já não faz sentido nenhum e parece totalmente inadequada).
3º (pelo menos) Duas situações no primeiro par de dias em transmissão da tvi24:
i) a afirmação do José Eduardo Moniz sobre fazer "informação séria e independente" - coisa que ninguém tomará como certa até ao seu pedido de divórcio e enquanto permitir coisas como a escolha, em estreia da nova emissora, de um programa especial apresentado pelo Paulo Salvador e cujo tema é o primeiro homem grávido.
ii) a adorável emissão do primeiríssimo jornal da manhã do estreado canal, apresentada por um simpático casal de pivots, que parecem espreitar por detrás de um balcão, o que deixa no ar a dúvida sobre se estarão as cadeiras muito baixas ou se, pelo contrário, a aerodinâmica estrutura que lhes corta o plano pelo peito é intencional, a lembrar o Cheers, na versão Lux.
4º A triste mas anedótica situação que o povo Guineense parece ver-se obrigado a enfrentar, face aos recentes acontecimentos (versão soft e modernista da história do Uganda). Mais um déja vu profundamente lamentado pelos ecos diplomáticos de todo o primeiro mundo.