quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

a teresa

ainda não nasceu. Também não está atrasada, mas adivinha-se que não chegue na data prevista. Já sei que será preguiçosa, a minha menina. Ou apenas pouco pontual, como a mãe. Nisso e na carinha redonda, dizem os médicos.
Um feliz 2010 para tutti.

domingo, 20 de dezembro de 2009

primeiro presente antecipado

Querido Pai Natal:
Muito e muito obrigada!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

a uma semana

Querido pai natal:
o tempo vai-se esgotando, em muitos aspectos, por exemplo, as entregas via ctt correm risco de grandes atrasos nesta época e por isso, mesmo que a recepção desta mensagem seja quase imediata, quero dar-te tempo para a preparação e resposta às minhas solicitações.
Normalmente não te faço pedidos a ti, faço-os às pessoas que assumiram um compromisso comigo e têm a obrigação moral de ir a um centro comercial ou coisa assim, e gastar uns euros em caprichos meus. Mas este ano é diferente. Há coisas que só tu me podes dar. Acho que é justo que, volvidas três décadas, satisfaças os desejos que manifesto na primeiríssima carta que te dirijo.
Por isso, cá vai.
A primeira coisa que quero é uma prenda antecipada. Gostaria muito que desses um jeitinho ao relvado da Luz porque desde que o Jesus (o Jorge) lamentou o de Alvalade, parece que caíu uma geada maldita ali para a zona de Benfica, o que não deixa de ser desconfortável. E irónico.
Na sequência disto (e admito que é um dos meus pedidos mais complicados), também seria bom que no próximo domingo pudéssemos dar uma cabazada ao fc porto... Sabes, eu não sou nada a aficcionada típica que está sempre cheia de fezada antes de um jogo, pelo contrário, sou muito pessimista e só me encho de bazófia se a coisa no fim tiver corrido bem. Ainda mais num derby com o fc porto. E já agora, se possível, que a coisa seja limpinha, sem espinhas, nem desculpas (daí o tratamento ao relvado para o Jesualdo nunca mas nunca poder dizer que 'ah e tal parece que fomos jogar ao campo do Sertanense') embora a vitória seja mais importante e a minha bazófia não se esgote se os gajos quiserem arranjar um bode expiatório no caso de derrota.
Sabes, isto é muito, muito importante por dois motivos. Primeiro porque, vá-se lá saber porquê, o meu marido deu-lhe para se associar a uma página do facebook cujo nome é qualquer coisa como isto 'o grupo dos que se vão fartar de rir se chegar a Maio e o Benfica não tiver ganho nada'. Ora, isto não lembra a ninguém mas a verdade é que ultimamente lhe deu para andar espicaçado (e não é por mim) e talvez lhe fizesse bem ficar uns pontinhos mais atrás, depois de um tête-a-tête cá com os nossos meninos. A neura passa-lhe depressa e ele não é dado à violência doméstica e assim até acalmava. Passávamos um natal muito mais santo (principalmente agora com a família a aumentar e tudo). O segundo motivo para a vital importância da tua ajuda é, obviamente, o facto de termos a equipa um nadinha condicionada por causa de lesões muito pouco oportunas e problemas de indisciplina (aliás, mesmo ainda assoberbada por aquele segundo golo de ontem aos gregos, continuo a achar que o menino Di Maria não merece presente no sapatinho para aprender a lição, deves concordar comigo). Estou com um medinho que o Jesus (o Jorge) me ponha o Luís Filipe em campo que nem te conto!
E pronto, poderias começar por aqui, não te deve custar muito, desconfio até que sejas benfiquista por causa dessa mania da barba enorme (embora branca) e por te vestires de vermelho (diz que isso é da coca-cola e que até costumavas ser verde mas também não deves querer ir nesse sentido, ou mesmo que vás, não me parece que a tua ajuda fizesse diferença - nem Jesus (o verdadeiro) deve conseguir milagres à turma dos violinos).
Há uma segunda coisa importante que apreciava, para acabarmos com a coisa do futebol. Muita gente me pergunta o que quero para o Natal e outros tantos, talvez os mesmos, me desejam para breve 'uma hora pequenina'. Ora, seria bom se algum visionário se lembrasse 'espera! É isso! Vou-lhe oferecer uma hora pequenina!' mas não parece coisa que lhes esteja ao alcance. Ora, tu trazes renas, não cegonhas, mas és o homem que torna possíveis todos os desejos. Será que podias encarregar-te de zipar essa dita horinha? Vou esperar, humildemente, que atendas este meu pedido. É que depois de perder pinga de sangue quando a minha cama tremeu há duas noites por uns breves segundos, percebi que uma fracção de tempo pode de facto ser muito variável. E também que sou uma cagarolas.
Até agora são só dois pedidos, difíceis, mas apenas dois. E que feliz que me fariam!
Agora, pedidos mais fáceis, coisinhas que certamente fariam feliz muito mais gente e são tão óbvias (porque é que ninguém se lembra?)
1º Repetir até à exaustão alguns sketches do Gato Fedorento, mas apenas aqueles mesmo bons, que é como quem diz todos os que imitam sotaques da beira. Podem passá-los nos intervalos dos filmes e das séries, que tal?
2º Acabar com esses tiques que a malta dos blogues adopta, como espécie de moda intelectual, e que defendem, por exemplo, a extinção do ponto de exclamação. A sério, parem lá com isso.
3º Deixar de passar futebol na sic OU banir os longos, pseudo-intelectuais, chatos, intermináveis, aborrecidos, inoportunos comentários do Rui Santos por cima desses mesmo jogos.
4º Banir o Rui Santos, se possível. E acabar com o programa dos estarolas comentadores da bola, principalmente o da sic. A sério, parecem os velhotes dos marretas, não há paciência e perde-se tempo de antena importantíssimo em que podiam estar a emitir, por exemplo, sketches repetidos do Gato Fedorento (só os bons, o que exclui os do Miguel Góis - és um bom argumentista rapaz mas... olha, faz aquilo em que és bom. A sério.)
Não me lembra de mais nada por agora. E como tenho ali a 6ª temporada da Anatomia de Grey para ver até ao décimo episódio - oh yeah! Bless the downloads! - e mais umas quantas temporadas de Sopranos para pôr em dia, vou fazer-me à vida.
Não sei como te agradecer, Pai Natal, se conseguires satisfazer os meus pedidos. Claro que te pediria também que fizesses de mim a mãe perfeita mas sei que tal pedido não é correcto. Tentarei isso pelos meus próprios meios. E se me concederes estes presentes, prometo fazer da minha filhota uma tua seguidora fiel e enganá-la anos e anos a fio, com a presunção de que és, de facto, real.
Um abraço apertado, ou talvez apenas um beijinho à esquimó porque a minha barriga e a tua, bom, sejamos realistas, né?
E um feliz Natal para os bloguistas todos, todos, todos. Até para a Pipoca Mais Doce, vá.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

este mês de Dezembro está a ser muita quente ou é só de mim?

Vim, porque já há muito tempo não vinha, e ainda que sem nada de jeito para debitar, custa-me um bocadinho receber reports tão pobrezinhos sobre os escassos visitantes, e até nem é porque me preocupe com estatísticas, mas os -já de si fraquitos- records descerem a pique porque não venho cá há umas semanas, fazem-me pensar que este decréscimo reflecte uma certa desilusão de alguns habitués, que de vez em quando pensam 'ora deixa lá ver se pingou alguma pérola...' . E há pior. Há duas frases atrás demorei uns bons quinze segundos a pensar como se escreve descerem, isto sim, é preocupante.
Mas agora vou voltar ao casulo, primeiro porque me dói os'quadrantes ou o que é isto -já nem sei o que dói e o que não, palavra de honra- de estar sentada na cadeira de jantar, depois porque não trouxe os óculos e juro que ainda me vou parecer um dia com o Júnior Soprano graças a estes descuidos. Deixo aqui notícias frescas. Estou a atingir, mais trufa menos trufa, os catorze quilos de acréscimo que me foi aconselhado não ultrapassar e não acredito, nem por um bocadinho, que me fico por aqui. Já falta pouco, ao menos isso. E por falar em trufas, faço minhas as sábias palavras da Mónica, que me vale de cada vez que não tenho nada bonito ou muito interessante para deixar...
...
mais abaixo. pois, aí, na etiqueta.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

cinco anos

... o que devia ser motivo para não te oferecer prendas de Natal nos próximos dez anos.
mas de vez em quando dás-me quase 43250032744899856000 motivos para te querer mimar a toda a hora!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

para juntar à cueca descartável

A resolução é listar uma série de músicas que pretendo que me acompanhem durante o laborioso parto que se aproxima. O grande problema é não fazer a mínima ideia do que devo incluir nessa lista, que terá de ser muito bem esgalhada.
Uma boa notícia é que o meu mp3 é fraquinho, de marca branca e aposto que não tem grande capacidade de armazenamento, o que espero que agoire uma hora mesmo pequenina.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

a começar

I couldn't get through Mondays without knowing you're equally miserable

em última análise, a nossa sobrevivência está quase sempre condicionada, proporcionalmente, à maior ou igual miséria alheia.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

ibis valencia bonaire

Tenho-me lembrado várias vezes desta estadia: viagem de trabalho, acompanhante asqueroso, muito cansaço, exposição de construção na Feria de Valencia, mais cigarros que o ideal em periodo de abstinência, inviabilidade de conseguir acesso a carregamentos telefónicos para chamadas do pré-pago, enfim, o fim do mundo em cuecas. Curiosamente as recordações que tenho tido são quase... agradáveis. Lembro as contrapartidas positivas, aquelas que na altura pareciam não existir. O facto de nos calhar em sorte o ibis de bonaire (onde comprei umas coisitas da mango em outlet e uns sapatos giríssimos para a minha mãe que ela nunca usou, os quais esqueci na loja para onde tive de correr já depois das onze da noite e me valeram menos alguns minutos de conversa para boi dormir com o boi que me acompanhava - que não dormia e queria ficar a tomar uns drinkzinhos comigo no bar ao serão...) em vez do deprimente e marginal ibis do aeroporto; as chamadas sorrateiras que não foram debitadas, feitas à noite, em desespero e em desabafo, com românticas promessas de um salvamento em madrid, se eu quisesse (é que era já) e tão bem que sabiam essas promessas de salvamento que, como é óbvio, nunca aceitaria; o regresso a portugal, por todos os motivos e mais alguns mas especialmente porque, digam o que disserem, o melhor de visitar espanha é sempre poder regressar a portugal.

domesticidades

Deixei fugir coisas por entre os dedos. Ficaram por tirar algumas fotos pelas ruas do Chiado, numa noite fria qualquer, onde não se revelam rostos mas que esconde alguma história feliz. Não fiz viagens que devia ter feito e onde experimentaria olhares e beijos que me enriqueceriam mais do que os livros que fiquei, quieta, a ler. Não me meti na política, não me armei em poetisa e desisti das artes, por qualquer coisa mais térrea, que nunca cheguei a ter. Perdi contactos, perdi-lhes o rasto. Não me esqueço dos rostos nem das experiências sensoriais, tácteis, mas não sei lhes conheço paradeiro e não devia ser assim. Ou devia.

Hoje farto-me de pensar que tenho de limpar os armários da cozinha, as gavetas, a caixilharia das lâmpadas fluorescentes tubulares, as prateleiras onde estão os livros de culinária e os bonecos holandeses. Preocupo-me com a fraca assiduidade com que limpo o pó e obrigo-me a admitir que gostaria de uma mulher a dias (a horas, vá, e poucas) como prenda de Natal, porque, às vezes, acho que não sei como sair vitoriosa desta minha nova lista de prioridades.

Mas existem sempre coisas que me vão fazendo lembrar de quem eu já fui e de outros presentes que desejei. E não é melancolia, nem rancor, nem mágoa. É a inevitabilidade das coisas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Há pessoas que se preocupam com a política nacional e internacional, com os problemas económicos do país, com o estado da nação e a corrupção pública e privada, com as desigualdades sociais, com a moral e os bons costumes, com a estabilidade profissional e uma adequada gestão financeira; pessoas cujos dilemas, as conversas e os pensamentos giram sempre em torno da razão, da lógica, do sentido prático e da justiça; pessoas que se debruçam sobre o que é importante.
Depois existo eu, que faço um balanço negativo e considero um desperdício de tempo, uma tarde rodeada de gente e de conversas à volta de teorias sobre princípios rígidos e outras coisas sem a espontaneidade e aquela indispensável overdose de gargalhadas, disparates e outros excessos desnecessários.
Valem-me sempre os meus conflitos emocionais e os sonhos perturbadores que me trazem de volta os paradoxos do meu mundo.

dá-me ideia que

a solidariedade do jesualdo com o paulo bento começa a ser um pouco despropositada e até nefasta.
Mas não vou repudiar estes farrapinhos de felicidade.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

i heard the news today

Uma destas noites estava condenada a não adormecer nem por nada. Ou era a almofada mal colocada, ou a posição incómoda, ou o calor tardio, ou, sobretudo, os pensamentos persistentes sobre insanos trabalhos de parto, visualizados à custa de uma imaginação um pouco ansiosa e pouco experiente nestas andanças, que por isso mesmo viaja no meio de uma angústia perdida entre o terrífico e o potencialmente real. Agravante de peso, a sensação de apneia e sufoco provocada pela ilusão de um tecido cutâneo cuja elasticidade aparenta ser insuficiente para tamanho desafio como o é a gravidez. Enfim, algumas horas escuras e paralizantes.
Só tenho experimentado esta mesma sensação condensada em curtos periodos de tempo numa outra ocasião: quando vejo, na televisão, a expressão do Paulo Bento.
É por isso que hoje fiquei com a ideia de que o Paulo Bento deu, finalmente, à luz. E agora, depois de uma gravidez longa e desumana e de um parto difícil, prepara-se enfim para iniciar um grande projecto de vida, o de não estar à frente do Sporting.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

...

Coisa estranha esta, de condicionarmos a nossa própria revelação a um insolente pudor ou a uma espécie de orgulhoso anonimato, como se o desvendar da nossa essência correspondesse a uma amostra provocatória e escusada, que encerra em si o automático desinteresse da audiência.
E, em todo o caso, só consigo ver na partilha indescriminada, sinais de uma exposição gratuita, que evito a todo custo e que me incomoda que tentem buscar em mim. Gosto de enganar o mundo inteiro. Só assim consigo tirar verdadeiro prazer dos olhares de entendimento que recebo daqueles que conseguem, naturalmente, ver-me a nudez da alma.
Um prazer quase tão imenso como o que experimento quando me vêem precisamente como quero que me vejam.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

tributos

Pela música.
01.11.2009



"António Sérgio nunca esteve bem em qualquer estação de rádio. Mesmo quando a rádio era rádio. Porque António Sérgio é uma estação de rádio andante e uma estação não cabe noutra estação.

Para mais, é uma estação hostil às outras, contra as quais exerce uma guerrilha permanente. Mais do que meramente ingovernável - ou até uma oposição paciente - António Sérgio e a indissociável Ana Cristina Ferrão são um governo em exílio permanente. E com uma imperdoável agravante: é assim que gostam. E é nisso que insistem teimosamente. É lindo.

Os espanhóis da Prisa fizeram bem em despedi-lo. Estando livres de gratidão, memória ou preocupações da representação da boa música em Portugal, tiveram a coragem que faltou aos antecessores portugueses, ainda demasiado constrangidos pelo reconhecimento e pelo medo da superioridade musical de António Sérgio.

É importante frisar que não é de agora a tanga do mercado nem o fado do fim da rádio. António Sérgio só durou até 2007 porque se recusou a ir embora. Desde os anos 70 que agentes sorrateiros se agacham atrás dele, tentando puxar-lhe a cadeira, a ver se cai. Mas o homem sempre esteve ocupado de mais para reparar. Fincou os pés, sacou dos discos e fez o que sempre fez: o que lhe estava na real gana. De resto o desprezo pode ser a mais bela das distracções.

Ajudou também o facto de António Sérgio ser o melhor divulgador de música popular do nosso tempo - John Peel era magnífico mas tinha lapsos de gosto. Muito se perdoa a quem escolhe música boa tão bem, durante tanto tempo, com tanta arte e tanta inteligência.

A música de António Sérgio é a melhor e está tudo dito.

Claro que é preciso gostar de boa música - e de querer descobrir boa música nova - para perceber a grandeza e a utilidade brutal de António Sérgio. A nostalgia é um argumento inimigo. Hoje há muito mais música boa e muito mais música nova do que nos anos 80 ou 60. Mas continua a ser 0,1% de toda a música que se faz.

Essa proporção continua a mesma. O que mudou é a atitude geral da população. Dantes, a ignorância inibia e produzia falsos respeitos por quem se suspeitava "ter conhecimentos". Havia seguidismos acéfalos e dependências paralisantes, tudo exacerbado pelas dificuldades e desigualdades de acesso à música. Havia mestres: era inevitável. ("Mestres" no mau sentido, de professorzinhos de província.) Na rádio as directrizes dos mestres eram obviamente inseparáveis do acesso à música para que nos dirigiam.

Não era bom - até porque os mestres eram mais do que muitos e geralmente pomposos e autoritários, para não falar nos vendidos. Mas é inegável que, entre os pouquíssimos capazes de descobrir e defender música boa, o maior era e é António Sérgio. Por definição é um anti-mestre, desinteressado do tráfego de influências e da concordância dos seguidores.

Digo mal desse tempo - que era também o meu - para poder absolvê-lo do maior defeito dos tempos de hoje, apesar de serem musicalmente mais vastos e empolgantes: o relativismo ignorante. É ele que acaba por explicar a atmosfera que leva à lata de despedir António Sérgio.

Segundo o relativismo ignorante, ninguém pode dizer se uma música é boa ou não. É tudo uma questão de gosto. Depende das circunstâncias. Depende da idade. Às vezes sabe bem uma coisa que, noutra altura, sabe mal. Cada um é como é e aquilo que agrada a um ... perdoem-me se me fico por aqui no blá blá blá.

Tem ou não tem graça como esta atitude coincide exactamente com a conveniência comercialista do cliente ter sempre razão; que os números não mentem; que os ouvintes é que sabem; que os anunciantes é que pagam e quem somos nós para dizer que não está bem assim?

O pior é que esta humildade é uma subserviência e este deixar decidir, este respeito pelos gostos dos outros, é uma gulosa cobardia. Que vai acabar mal - porque quanto mais a rádio se recusa a ser minoritária mais as minorias vão fugir dela. O problema da massificação é que as massas não existem para depois virem agradecer o que se fez por elas.

A apologia do tudo-vale confunde-se sempre com a santificação da ignorância e daí até dizer que António Sérgio sabe escolher música tão bem como eu vai um passinho. A verdade é que sabe muito mais. Escolhe muito melhor. Arrisca mais e engana-se menos. É simples: António Sérgio sabe mais de música popular - no sentido de saber escolhê-la, que é o único que interessa - do que qualquer outra pessoa.

É por haver tanta música hoje - e tanto acesso - que a sabedoria selectiva de António Sérgio é mais valiosa e necessária do que nos tempos ditos áureos em que, verdade se diga, não era assim tão difícil separar o trigo do joio. A música de António Sérgio é como a boa música: não se deixa interromper. É ele que não deixa. O homem sabe o que vale e o que tem de fazer. É escusado atravessarem-se no caminho dele. O que menos interessa é a estação de rádio.

A música de António Sérgio é a melhor e está tudo dito.

Se calhar foi isso que custou à Rádio Comercial engolir. Não soube suportar o desprezo, talvez por saber que o merecia. Às vezes, quando existe uma pontinha de vergonha, é desagradável ter, mesmo ali ao lado, um exemplo tão claro de dignidade. De estatura. Desmotiva muito. Faz lembrar coisas que conviria esquecer, que atrapalham a marcha para a capitulação final.

Vai ter sorte a estação de rádio onde voltará a tocar a música de António Sérgio. Mas que fique desde já avisada que escusa de tentar desviar a caminhada do bicho. Em vão agitará no corredor papéis com números de audiências ou os amoques de focus groups. É escusado implorar-lhe que oiça "sem preconceitos" os CD de merda que vos interessa impingir. Não vale a pena atirar-lhe com a história dos tempos terem mudado.

Os tempos sim; a rádio outrossim; mas a urgência de descobrir e defender a música boa é a mesma de sempre. Ou maior ainda, dada a massificação da própria desistência de escolher e divulgar a música que vale a pena.

E não há ninguém que saiba fazer isso melhor do que António Sérgio. Que não faz outra coisa desde que faz rádio. Que não fará outra, mesmo que tentem impedi-lo. Para nosso bem - e, sobretudo, para bem de quem ainda não se sabe quem.

Ou então não - nem isso é preciso. A música de António Sérgio é a melhor e está tudo dito. Haja pressa em poder ouvi-la e saber dela outra vez."

Miguel Esteves Cardoso, Público 17 Setembro 2007

terça-feira, 27 de outubro de 2009

I'm a better athlete than you

I don't spit on the floor
(ainda a propósito...)

veto ao passô-bem e às palmadinhas no rabo também está em cima da mesa

Acredito, piamente, na viabilidade desta medida.
E qualquer palpite de que possa estar a ironizar sobre o assunto deriva da má interpretação a que, assumidamente, me sujeito.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

o caminho da luz

Não sou nada de euforias, mas se este Jesus do futebol está de alguma forma relacionado com o Deus da Bíblia de que fala o Saramago, então também serei obrigada a condenar a polémica do lançamento de Caim. E se o manual técnico do filho estiver relacionado com as escrituras do pai, então eu não lhe chamaria, de todo, manual de maus costumes - quando muito de maus hábitos se esta tendência iluminada ainda vier a dar para o torto.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

analogias e coincidências

Faço analogias a toda a hora. Gosto ou é-me inevitável, não sei. Acho sempre que um alguém me faz lembrar outro alguém ou que determinada situação reporta para não sei o quê. Isso às vezes irrita as pessoas, mesmo quando para mim é tão óbvio que me parece digno de registo. Adelante. Ocorre-me isto depois de ontem à noite ter assistido ao esmiuçamento partilhado entre o Ricardo Araújo Pereira e o Marcelo Rebelo de Sousa, em que, a determinada altura, e não obstante estar a divertir-me imenso com a cavaqueira que por ali ia e com o excelente entretenimento proporcionado - em grande contraste com o conseguido há dias por Francisco Moita Flores ao ter transformado aqueles breves dez minutos numa entediante eternidade -, não obstante isso, dizia, não pude evitar chegar a um ponto em que o professor Marcelo me pareceu personificar, na perfeição, a mais histérica e insana das Júlias Pinheiro e acumular, em simultâneo, uns trejeitos de Luís Goucha. Foi o ex-libris do programa, digo eu.
E logo a seguir, entram em cena, antes que tivesse tempo para fugir, o Eduardo Madeira e a Bárbara Guimarães. Nem de propósito: quando quero evitar comparações absurdas, a eterna primeira dama da cultura vem por ali a fora a abanar-se que nem uma galinha, fazendo aquilo que ela parece julgar terem sido movimentos sexy, que demonstram a supremacia feminina.
Depressa me refugiei no quarto para acompanhar os preparativos da viagem de Salomão para Viena de Áustria e eis senão quando, a caixa mágica me acompanha até ao leito, precisamente para ouvir falar de Saramago e das suas polémicas. Pensei cá para mim que anda muita gente a ter necessidade de escrever e falar, sem saber muito bem sobre o quê, e no desespero desta evidência, adoptam a lógica Marcelista (lá vamos nós outra vez) e optam por pensar que é preferível ter uma opinião qualquer sobre nada do que passar por burro ou imbecil. Mau! pensei eu, isto já não são analogias, são coincidências. E fui dormir, porque não consigo ler mais que dez páginas com tão deplorável pontuação.

terça-feira, 20 de outubro de 2009