quinta-feira, 18 de novembro de 2010

saudades do Natal

Gosto das luzes e dos presépios em sítios estratégicos, quase que me enternecem os Pais Natal pendurados de qualquer maneira em janelas suburbanas, moda que não havia nos meus tempos de meninice, e fico deslumbrada com o brilho de algumas avenidas mais finas, com as suas montras caras e reluzentes. Não me incomoda por aí além o consumismo porque, com ou sem crise, sempre existiu quem esbanjasse nesta quadra (e durante todo o ano) enquanto outros passam dificuldades, e reconhecer isto não me permite a hipocrisia de julgar que, apenas este ano, se verificam amargas injustiças. Acho que sempre gostei do ar frio e festivo das ruas da cidade em Dezembro. Passeava sempre com a família, um pouco sem destino, em grandes caminhadas pela cidade nesta época do ano, em fins de tarde de Sábado ou Domingo. Descíamos a Avenida da Liberdade e metíamos pelas Portas de Santo Antão, até à ginjinha que o meu pai me dava a provar, para meu gáudio, e sem que isso constituísse alguma forma de mau exercício de parentalidade, e acabávamos quase sempre por ir comer uma omeleta no pão numa das tascas em frente ao Braz & Braz. Gostava de ir às lojas da Baixa, quase todas com vários pisos, e perder-me pela imensidão de coisas que vendiam. Era impossível contá-las. Íamos também até ao Martim Moniz, sem receios nem preconceitos, subíamos ao Intendente e olhávamos as montras com cartolinas verdes, amarelas e laranja, em forma de estrela, que anunciavam os preços fantásticos dos electrodomésticos. Cruzávamo-nos com mendigos que se abrigavam cedo, debaixo de papelões, e com as primeiras mulheres que se assomavam às esquinas, ao início da noite, e que me faziam trocar risinhos e olhares cúmplices com a minha irmã. Claro que, nesta altura no Natal, era obrigatório comprar castanhas na Praça da Figueira e correr a Rua Augusta até ao fim, para chegar a um Terreiro do Paço ainda sem árvore de Natal recorde.
Naquela altura, parece-me, tudo era simples e pouca coisa nos bastava para nos sentirmos felizes. Lembro-me de pensar em um ou dois presentes que sabia que iria ter quase de certeza, e de admitir até que, se não fossem garantidos, pelo menos contaria com as notas que o meu pai espalhava pela árvore no dia de Natal e que me faziam sentir o peso da responsabilidade de garantir que aquele investimento, que eu sabia ser do seu subsídio, teria um destino à altura da sua hombridade. Além disso, a minha mãe tinha sempre as saias de fazenda e as camisolas de lã entrançadas para nós vestirmos nas refeições de festas em casa dos tios. Costumava fazer um balanço dos meus presentes, e às vezes colocava as coisas todas lado a lado, como que a avaliar o que entrara de novo na minha vida. Mesmo nos melhores anos, contavam-se todos pelos dedos das mãos, e não precisavam ser mais, afinal de contas as prendas eram bónus: qualquer prenda era melhor que nada, e ainda tínhamos direito a passeios pela cidade, com castanhas quentes, ginja, omoletes e um ou outro lanche na pastelaria Suiça, mais a família reunida e normalmente a presença da avó lá em casa, para fazer as filhós, as fatias douradas, os sonhos, a aletria e o arroz doce e passar dias connosco que eram realmente bem aproveitados. Havia tanto para valorizar e dar graças.
Este Natal, a bem da tradição, espera-se mais uma vez a família reunida, um pouco mais alargada, um pouco mais abençoada. E espera-se o do costume: sobrinhos que farão birra desde muito cedo para antecipar a meia-noite logo depois do jantar, sem dar paz a ninguém, sem a alegria boa da expectativa e da valorização de tudo o resto que faz parte de um bom Natal. E espera-se uma imensidão de papéis rasgados e laços brilhantes a cobrir o chão bem antes da hora, pelo meio dos quais se perdem brinquedos e novidades cujo entusiasmo inebriou a sala por alguns minutos. Espero, finalmente, pela imensa tristeza e frustração que me assolam quando lembro o tempo em que contemplava, pela madrugada dentro, as prendas que o Natal me tinha trazido e fazia o balanço do ano. Na pior das hipóteses, faltava alguma coisa que queria mesmo ter mas dentro de alguns meses seria o meu aniversário. Tudo o resto eram ganhos, para valorizar, e sabia que ia acordar na manhã de Natal um pouquinho mais abonada e grata por isso.
Espero que o Natal da minha petinga seja sempre tão generoso como os Natais que sempre tive e dos quais tenho saudades.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

o meu eterno distúrbio

Dá-me a sensação que, de uma forma completamente desbragada e inconveniente, ele escolheu os meus sonhos para manifestar a sua incapacidade de aceitar o que lhe aconteceu faz tanto tempo. Eu tenho pena e padeci por isso. Tive a minha dose de arrependimentos pelo que não foi feito e cheguei a temer pela minha sanidade, pelo irremediável, pela primeira coisa que tive efectivamente ganas de mudar, tão somente por saber ser impossível - estou convencida que, não fora por isso, e tudo teria seguido um rumo calmo e tranquilo, apenas acossado aqui e ali pela indiscrição ocasional de uma rede social sempre demasiado próxima para lhe podermos fugir. Depois passou-me, estou certa que sim. Mas como M. Night Shyamalan tão bem saberá, esta coisa dos mortos que não aceitam a sua condição pode dar a volta à cabeça dos vivos. Alguns vivem a experiência acordados, eu tenho o dom de encarnar vidas e relações antes de ouvir o alarme do relógio e começo a ficar farta de acordar com a sensação do que poderia ter sido. E é isto precisamente que não entendo. Que sossego é este que se procura através da insistente confrontação da minha pessoa com a sua própria cobardia emocional? Pois bem. Se a missão que te fará atingir a paz eterna estiver relacionada com a minha aceitação de que me subestimei a níveis muito abaixo das temperaturas escandinavas em relação ao que podíamos ter sido um dia, you got your point.
Agora faz o favor de morrer. De vez.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

mourinho: o santo-cagão















é um daqueles casos em que antes de o ser, já o era!

olá e adeus

Não escrevo por falta de tema, mas por falta de tempo. Ficam os tópicos:
- Tenho de vos falar da Alzira, mulher jovem e mais ou menos realizada, e da outra, a que não sabe o que é um sonho erótico e "já tem idade para ter o seu sossêgo";
- Estou farta da ameaça de crise. Não a sinto, mas pressinto-a e sei, efectivamente, que ela resulta única e exclusivamente de acção especulatória: a palavra tem um poder imenso!;
- Tenho muitíssima pena do Pablo Aimar. É um desperdício e dói-me a alma quando o vejo suar em campo, completamente só;
- Também tenho pena do Maniche porque não é um homem realizado: Deus deu-lhe algum jeito e muita, muita vontade, mas falta-lhe o resto e ele pertence ao mundo do desporto como eu pertenço a um quadro do Munch;
- Gostava de saber porque é que alguém achou que eu sou "o tipo de pessoa que deve achar o Shutter Island um filme muita bom".

Tenho a fome de um lobo e vou almoçar.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

casamento

Tal e qual como nós, que para além da curta e belíssima versão que nos deu o mote, temos um percurso cheio de muito mais.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

OE 2011: não é odisseia no espaço mas podia ser.













Políticos jovens, empreendedores, cheios de genica, com novas ideias e projectos para o futuro longo que ainda têm pela frente.
É óbvio que estas caras lindas gostam deste panorama: não fodem, nem saem de cima.

sono

Peço desculpa por estar cansada e aborrecida de morte. Tanto, que quase não consigo preocupar-me o suficiente, quando devia fazê-lo. Está cá tudo: o sono acumulado por noites interrompidas, o aborrecimento e o cansaço quase fatais desta rotina miserável e também a preocupação inigualável de mãe. Mas não vos preocupais em demasia. Nada é grave, eu é que gosto de abusar dos adjectivos. Tomorrow is only a day away...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

"Pedes-me um tempo,



"para balanço de vida.
Mas eu sou de letras,
não me sei dividir.
Para mim um balanço
é mesmo balançar,
balançar até dar balanço
e sair.."


* Não sejam assim! Esta música não é triste, é bela. E eu não sou depressiva, sou nostálgica.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

absurdos

Sou uma pessoa dada a pensamentos dispersos. Qualquer tarefa de rotina serve de pano de fundo para um chorrilho de coisas pensadas. Acho piada quando me dizem para esvaziar a mente e nem levo muito a sério, porque imagino que é retórica, muito embora haja quem me garanta que eu poderia (e deveria) fazer isso mais vezes, dando a entender que não o faço por teimosia. Seja.
Ontem, durante o banho da bebé, por entremeio de palavrinhas cantaroladas, exclamações e sorrisos, ia pensando. Pensando assim: a mãe é uma inventora. Ela inventa um ser, assim, do nada. E esse ser tem características muito bem definidas, muito distintas. Nesta fase, os meus pensamentos poderiam ter enveredado para as questões da genética, mas não, foram continuando por outros rumos. A sua invenção, como todas as invenções, é algo que o seu criador dá ao mundo e que, de certa forma, deixa automaticamente de pertencer-lhe, logo que é concebido, o que tem tanto de injusto como de inevitável. A sua invenção, como todas as invenções, é da sua responsabilidade e o seu motivo de orgulho. A sua invenção, como todas as invenções poderá ou não ser grandiosa, ocupar um lugar de destaque, fazer a diferença, ficar para a História. Sem pretensiosimos, gostava que a minha pequenina invenção fosse um grande instrumento do Mundo. Não precisava ser uma estrela, nem de ter fama ou dinheiro. Gostava apenas que, aquilo em que se transformasse, no futuro, pudesse traduzir-se em gestos nobres e que, como as maiores "invenções" de sempre, fosse capaz de encontrar a felicidade pura em muito pouco e ensinar o mundo a fazer o mesmo.
Depois tive de ir dar-lhe o jantar e comecei a pensar em mil e uma outras coisas tão absurdas como esta.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

relembrar

Parece que há quem ainda não tenha percebido.
Enerva-me deveras que me peçam para ter calma quando argumento ponderadamente sobre qualquer coisa.
A minha tranquilidade transforma-se em rastilho para a faísca lançada pela insinuação de que estou alterada.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

inconfidência

Não percebo as pessoas que não sabem apreciar a utilidade de um bidé.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Imagine.. 70º

faltou-me o repasto; o resto é igualinho, igualinho!

" (...) Devorada a travessa inteira de rojões e seguindo o jogo para um pudim Abade de Priscos, sou confrontado com a magnífica triangulação Fabinho-Saviola-Carlos Martins (lá está, nome de craque e de jazzman), que resulta no golão deste último. Considerando o estado de nervos em que me encontrava, a que não era alheia a demora na chegada de mais uma garrafa de um encorpado maduro tinto da região, explodi ali mesmo e gritei golo, seguido de expressão vernacular que rima com reviralho. No micronésimo de segundo em que o fiz, temi pela fúria brácara dos adeptos do Sporting local. Toda a gente sabe que um minhoto irritado é capaz do pior. Qual não é o meu espanto quando quatro quintos do restaurante gritam golo comigo. Recebo um abraço, dois palavrões e três sorrisos e compreendo a velha máxima que nos diz que em Braga o Benfica está tão em casa como na Estrada da Luz.

"Ao engarfar o último trecho do sobredito pudim, reparo nas comemorações do autor do golo vermelho, que me deixaram bastante enjoado, como se acabasse de comer algo que leva vinte ovos e trezentos gramas de manteiga e açúcar: reparemos que Martins marca o golão, corre para a bandeirola de canto e simula qualquer coisa intravenosa – o que pode ser interpretado como algo para os lados do ilícito ou como uma crítica subtil à nomeação de Paulo Bento como seleccionador. Logo de seguida, pede uma bola ao apanha ditas, simula a gravidez e num gesto de extrema violência, esmurra a barriga grávida provocando parto extemporâneo do nascituro. O que quis Martins dizer com isto? Não fosse uma generosa aguardente envelhecida em carvalho, servida em balão aquecido, teria sido torturado por esta celebração plena de pós modernidade durante o resto do repasto.

"Com o apito final do árbitro, depois do Benfica ter estado perto do dois a zero por duas vezes, dei por terminada a minha refeição. Quando me preparava para solicitar a conta ao Garçon, confronto-me com a entrevista relâmpago de Domingos Paciência: no seu fácies era legível a desesperada procura da perfeita desculpa para o sucedido. Não encontrou melhor que um fora de jogo assim-assim e a referência ao facto de o Benfica, depois do golo, ter jogado em queima-tempo. Após uma tirada deste calibre, fui forçado a mandar vir mais um digestivo. Fechei os olhos e, enquanto o bebia de penalty, consegui rever em fast forward os três minutos, dois beijos, seis apertos de mão, catorze palmas e cinquenta passos que o bracarense Vandinho deu para sair do campo instantes antes do fuzilamento Martineiro. “Ainda te lixas com f se dás um jogo como empatado aos setenta e três minutos”, já me dizia um tio meu, treinador adjunto (com curso de grau dois) do Marialvas de Cantanhede nos anos oitenta. Paguei a conta, saí do restaurante, e fui festejar com aqueles imensos benfiquistas que apitavam no Campo da Vinha. Afinal, estava “tipo do género” a jogar em casa."
 

podia muito bem chamar-se: a insuportável supremacia dos ignorantes

Caro Luís Filipe Vieira:
As "pessoas" que apedrejam autocarros são, normalmente, "pessoas" estúpidas, que gostam do conflito, não medem consequências e borrifam-se para as forças de segurança.
Costumam ser também "pessoas" que se sentem particularmente entusiasmadas e impulsionadas pela provocação, pelo aviso e pela ameaça. A adrenalina que se liberta aquando dos seus actos, fervilha com maior intensidade quando há jogo de bastidores com muita antecedência e existe um clima de animosidade latente, que não precisa de ser intensificado, porque está lá sempre, quer se dirija à comunicação social ou não.
Portanto, Sr. Luís Filipe Vieira, se se preocupa com a integridade física dos seus jogadores ou de quem quer que seja, engrandecer as intenções de gente estúpida, seja de que clube for, talvez não seja uma boa ideia.

Custa-me muito que as pessoas sejam imbecis. Custa-me muito mais quando essas pessoas estão à frente do meu Benfica.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

manhã

Hoje acordei com discussão acesa entre José Sócrates e Paulo Portas, sobre a compra de submarinos e o fundo de pensões da PT. Grunhiam, exasperavam-ve, riam despregadamente da grandessíssima lata do outro, a comparar as decisões governamentais de cada um dos seus executivos, e justificavam a legitimidade de uma ou outra coisa, quase sempre comparando as duas, ora porque uma dependia dos dinheiros públicos e a outra nada tinha que ver com isso, ora por incumbência de responsabilidade no partido alheio - pois que foi o seu Governo que propôs os submarinos; - pois que foi o seu que o aprovou!
Senti imediatamente uma profunda náusea. Quis ver-me engolida pelo colchão e pensei, com honestidade, que quando acordamos hoje, todos os dias do nosso presente, não podemos de forma alguma sentirmo-nos felizes com mais um nascer do sol. A nossa vida não é apenas uma dádiva fortuita que nos calha em sorte e que devemos aproveitar, menosprezando a responsabilidade que temos de perpetuar essa vida para além da nossa existência. O que se passa à nossa volta é uma vergonha de contornos escandalosos. Existem grupos de pessoas que lucram à custa da invasão da propriedade e da liberdade dos outros, da perda, da extinção, da exploração. Já não é uma questão de política, é uma questão de atitude global.
O Paulo Portas e o José Sócrates fizeram passar-me em frente aos olhos o filme daquilo em que nos transformamos. Eles, e outros, que discutem 'pacotes' e aprovam 'medidas'.
Durante a manhã, passei os olhos pelas notícias e li uns textos do Daniel Oliveira e as náuseas voltaram. Eu falo. Todos falam. Ninguém, NINGUÉM faz nada.
Assim nos vamos afundando neste País que teve outrora qualquer coisa de Paraíso.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

one of the puppets



Não sei que diga. A senhora, tão preocupada com a sapiência, a disciplina, a concentração, o bom aproveitamento, a prática da leitura e o treino da escrita, conseguiu deixar-me sem palavras.
Talvez seja a postura condescendente, artificialmente maternalista ou aquele olhar arregalado que de vez em quando se assoma como que a dizer, se não te portas bem, és engolido, mas num tom muito suave. Talvez seja o discurso naquele serpentear entre o dever cumprido e as suas glórias, a palavrinha de compreensão sobre a juventude que fica sempre bem, os conselhos práticos sobre descanso, boa mesa e tempos livre, sem esquecer - de olho arregalado - o tempo para estudar!, que tem de ser único, exclusivo e rigoroso.
Isto dá-me assim uma impressão de Estado Novo.
Tenho um aperto no peito. Sei agora que se não sou mais, se não sou melhor, deve-se concerteza aos livros da colecção Uma Aventura que li com tanta avidez. Sei agora, que neles devem existir mensagens subliminares, de lavagem cerebral, derramadas de discursos inflamados que condenaram gerações.
Agora a sério, Sra. Ministra, quem era mesmo o seu público alvo?
Não se aflija, estou certa de que, depois desta mensagem de incentivo, vamos formar mentes brilhantes, que farão o nosso País sorrir de orgulho (e que irão depois estagiar para Londres, onde serão muito bem sucedidos).

coisas que não percebo

- o exercício completamente desequilibrado entre receitas e despesas na gestão das contas públicas;
- pessoas que sorriem sempre;
- a titularidade inquestionável do César Peixoto.

Ya ba da ba dooo!! (50 anos)


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

da literatura sensível

ou quando a minha Anaïs Nin precisa do seu Henry Miller.

em estado de profunda necessidade

Hoje acordei assim, com estas vozes parvas. Se calhar são as mesmas que se enraizaram no meu cérebro enquanto adormecia ontem, as dos vizinhos, que parecem vir de todas as direcções e se elevam até ao expoente da loucura, como diz aquela música, e se juntam ao som de objectos que parecem ser arremessados, portas que batem, persianas que correm, trincos que dão voltas ruidosas. Juro que ouvi alguém que chorava, um choro desesperado, profundo, de lamento, de súplica por um pouco de paz. Pelo meio do cansaço, tive pena e vontade de ir ajudar, mas não sei de onde vinha e agora que penso nisso, questiono-me se seria real... Dizia que acordei assim, com esta vontade parva de mandar calar, de pedir sossêgo, de mendigar por uns minutos de silêncio, logo hoje, que trouxe as vozes comigo. Estas vozes da minha cabeça são quase sempre nefastas, pelo menos para aqueles que defendem as coisas bonitas da vida e as frases feitas. Mas eu borrifo-me para isso, para usar do eufemismo porque normalmente é assim, digo que as coisas são 'aborrecidas' quando na realidade quero dizer que são uma 'merda', porque parece que para mim a escrita é intocável e falar mal até posso mas escrever tem outro peso. Enquanto isto, vai-me apetecendo bater. Bater não, gritar. Ofender profunda e irreversivelmente aqueles que me irritam continuamente em coisas que nunca mudam e que inviabilizam qualquer possibilidade de se criar um laço de amizade profunda. Não me digam que não é possível não se fazer amigos entre aqueles com quem vivemos pelo menos oito horas por dia, cinco dias por semana. Digo-vos eu que sim, que é possível, não só possível mas normal, provável até. Estúpido mesmo é criticar aquela que deveria ser a selecção criteriosa e, contudo, natural dos nossos amigos de percurso. E se o motivo da preocupação é considerar triste ou patética esta inaptidão social, então aí desarmam-me: sempre me achei uma inadaptada portanto se é este o nosso denominador comum, então as contas foram bem feitas.
Estou a precisar de sair um bocadinho à noite e beber uma porcaria que misture groselha com qualquer coisa ácida, posicionar-me com bastante precisão num recanto da pista de dança que não seja muito escondido mas que me circunscreva à minha carapaça de participante-observadora, libertar algumas endorfinas ou outras que tais ao som de alguma música muito vintage, fingir que danço e sentir-me desajeitada ao fazê-lo mas ficar com a sensação que tive a agitação of a lifetime, ufa!.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

o suposto tédio

Gosto de ler os outros, sobre o que escrevem, aquilo que pensam, que defendem, que atacam, que os escandaliza ou preocupa, que os realiza. Ler o que outros escrevem é como observar um cenário que, de repente, pára para nós. Por isso gosto de ler toda a gente: os que me irritam, os que se revelam muito sensíveis, os inteligentes, os politicamente correctos, os espalhafatosos, os reservados, os interessantes, os obscuros, os indecifráveis e os transparentes. Critíco muito para dentro. Da mesma forma que faço quando observo as pessoas. A diferença, é que no terminal do aeroporto não podemos congelar o tal cenário, para fruí-lo convenientemente: o homem que observa por cima dos óculos todas as mulheres que vão passando, o atrapalhado que se veste e se move de forma desajeitada, a brasileira que exibe luxuriosamente as curvas bronzeadas, entre o brega e o chique, os miúdos chatos que guincham alto e que não queremos ouvir, a hospedeira bem disposta, o segurança de ar sisudo, os bons ares de quem vai partir e os ares extenuados de quem chega de longe, a correria, a impaciência, a excitação, a monotonia.
Há pessoas que me cansam mais depressa. Ou pela sua insolência ou pela sua ignorância, ou porque são aborrecidas ou pouco interessantes. Por isso deixo de lê-las, não perco tempo a observá-las. Outras fascinam-me. Ora porque me impressionam na sua grandeza, ora por serem aberrações irresistíveis.
Ando farta da informação empacotada, que veícula igual em todo o lado, que nos é imposta e vem pronta-a-consumir, sem questionar. Não me apetece ler líderes de opinião e supostas figuras da praça pública, da política, do desporto, dos sindicatos, das instituições ambientais cujos porta-voz degradam o ambiente tanto como eu. Apetece-me gente normal, que fale do quotidiano, que escreva sobre nada, sobre pequenos nadas. Apetece-me ir para o terminal do aeroporto, congelar cenários e olhar demoradamente para as pessoas.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Hoje...

... sinto-me mais mãe.
Levei a pequena à creche e passei pela experiência de, solidariamente, me encafifar pelo meio de outros pais cujos carros se empurram, se esticam e se espremem para conseguir lugar um pouco mais perto da porta de desembarque dos pingentes.
Curiosamente, o embróglio que me reteve quinze minutos quase sem sair do sítio, foi à passagem por outro colégio que apanho em caminho, onde desfilavam viaturas de cilindradas upa upa. O nosso é bem mais calmo e espaçoso e tem um acesso de verdadeira quinta! Gosto mesmo do espaço.
Enfim, o entusiasmo deste dia é coisa digna de registo, até porque tudo é novidade e adrenalina maternal, com a colaboração da pequena que fez o enorme favor de não ficar a chorar por mim na despedida. Adivinha-se porém que com o frio, a chuva e a rotina instalada, eu deixe de achar tanta piada à louca correria em que se vão transformar os meus inícios de dia.

120º aniversário Agatha Christie... no Google


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

para me distrair das minhas angústias

Autor Mensagem
driakaal
Convidado

Assunto: Estou prestes a cometer uma loucura!!! Qui 01 Jul 2010, 14:13


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Queridos irmãos em Cristo, estou passando por dias muito difíceis e preciso de uma ajuda, de uma orientação, sou casada à 04 anos e meio, tenho um filho de 03 anos e uma filha de 1 ano e 03 meses, meu esposo é obreiro na igreja onde congregamos e nos damos bem, construimos uma casa própri recentemente e Deus tem nos abençoado muito na área financeira, temos sido prosperos...enfim, mas terça feira agora chegou uma correspondencia em minha casa da justiça dizendo que o meu marido tem que fazer um teste de DNA DIA 08/08/2010, para averiguação de paternidade de um menino de 06 ou 07 anos, que não sabia nem que existia...Estou em cacos, como assim outro filho? Ele me disse que quando ainda estava no mundo, antes de me conhecer teve um caso com a mãe desta criança e que não era nada sério, que ela ficou com outros rapazes e depois apareceu gravida mas não padiu que reconhecesse a criança, agora depois de todo esses tempo vem esssa notícia para destruir a minha familia, estou muito decepcionada e magoada, não sei como agir diante desta situação, fiquei sem chão...meus filhos são muito novos e não tenho condições de cria-los sozinha se não iria embora, afinal não tenho culpa dos erros do meu marido! Sei que este é um pensamento egoista mas é o que sinto no momento!
Meu coração esta muito apertado, não foi isso que sonhei para mim, o pior é que não tenho ninnguém para me ajudar (orientar), minha mãe não é nada confiavel, sei que a primeira sugestão que ela dari seria me separar ou falaria pratodo mundo essa vergonha...moro em uma cidade pequena e os buatos correm muito soutos por aqui, não posso espor este problema para ninguem, eu e meu esposo estamos sem nos falar desde então, não tenho palavras para explicar o que estou sentindo, se alguém puder me ajudar eu agradeço com lágrimas nos olhos.....

Dri
e depois vem isto,

Número de Mensagens: 1
Data de inscrição: 26/07/2010

Assunto: Deus tem um caminho no deserto Seg 26 Jul 2010, 15:29

Autor da mensagem
Pati de Jesus


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Oi Dri...

o que aconteceu é um fatalidade sim... mas creio que tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus (RM 8:28)... e nas adversidades da vida, devemos nos apoiar não nos que os outros pensam... mas na Palavra de Deus... e a Palavra diz que Deus já se esqueceu dos pecados do seu marido no tempo da ignorância... afinal ele hoje pelo que vc comenta é um bom homem... e temente ao Senhor.

Deus lança no mar do esquecimento os nossos pecados... aleluia!!!

E tb quero te aconselhar a orar, para que o Espírito Santo te ajude a ver esta situação com os olhos de Jesus...

tb creio que vcs são suficientemente capazes, de amarem esta criança, caso ela venha a ser filho(a), realmente do seu marido, pq o Eterno habita em vcs... creia nisto e renove a sua mente pela Palavra de Deus (Rm 12:2).

O mundo com certeza pregará, o divórcio... mas a Palavra prega o perdão e a misericórdia... especialmente pq isto faz parte de um passado sem Jesus.

Perdoe seu marido e o apoie... neste momento... não deixe o diabo destruir o futuro da sua família... olhe para Jesus... e siga... sempre penso que Deus, se clamarmos, nos guiará nos desertos da vida...

Dri... que o Espírito Santo te console e mostre o que vc deve fazer.

Leia I Co 13.

Deus te abençoe querida e te guarde de tropeçar.

Bjs... Pati

Ser bom cristão, comprova-se uma vez mais, é saber ser tolerante com os Homens (os homens).

Sempre em nome da paz.

Pérola de sabedoria do fórum dos Semeadores da Palavra.

voltámos

A família toda juntinha, descansadinha e com melhores cores.
Agora vem a parte difícil.
Estou angustiada. A criança, com apenas oito mesitos, deu entrada na creche precisamente hoje. Tão sorridente que estava de manhã, quando eu me arrastei para reiniciar a rotina laboral, e agora, pelo que sei através do papá, parece que as coisas não correram nada bem. Eu, que até estava descontraída e via positivismo em todo o lado, dou agora graças por não ter sido eu a levá-la. E não é cobardia. Continuo a achar que é um mal necessário, que terá os seus frutos, mas ver a pequena chorar desalmadamente no nosso primeiro dia de dura realidade era tudo o que eu não precisava agora. Ainda bem que pôde ser o pai a fazer isto. Aquele choro de socorro, num bebé tão pequeno, que não é birra irritante mas antes pedido de auxílio de quem estranha e não entende... não sei se não a traria de volta para casa e não pediria uma licença de um ano para ficar com ela!
Desculpa, Pequerrucha. A mamã tem o coração apertado, apertado.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

até já...


procura-se:

Se alguém conhece a Tânia Shoei, por favor transmita-lhe que a Koala procura por ela.
Era mesmo giro, giro, giro se isto resultasse!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

afinal, há bons conselhos à borla


um aviso à navegação:

Eu tenho moderação de comentários, ok?
Significa isto que sou muito democrata até àquele limite em que a crítica deixa de ser construtiva para se resumir apenas a reacções de gente muitíssimo ofendida na sua susceptibilidade que, não me conhecendo, se acha no direito de me chamar preconceituosa e depreende coisas a respeito dos concertos a que assisto.

Por isso, cara Ana, continua a escrever cartas mas se queres tempo de antena para te insurgires contra as minhas meras opiniões - que sinceramente não te deveriam atingir assim tanto - sugiro-te que o faças no teu próprio blogue.

Muitas felicidades e... (imagino-te na primeira fila) bom concerto!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

o fenómeno Michael Bublé

São aqueles com quem, se formos excessivamente zelosas, consideramos trair moralmente os nossos homens. São os que nos roubam a atenção, ainda que seja no imaginário da construção virtual de um homem que não existe em carne e osso; os que, enfim, seriam o sacrossanto, o nosso ai jesus.
Parto do princípio que toda a gente encontra discrepâncias mais ou menos significativas entre o que tem como ideal de homem e aquele que efectivamente lhe calha em sorte ou, vá lá, para ser mais romântica, aquele por quem o seu coração clama. Bonito.
Assim, o meu homem ideal teria de ter determinadas características - físicas, psicológicas e... físicas - muito bem esgalhadas.
Por exemplo:
- Moreno. Sempre que possível.
- Mais forte que eu (neste capítulo não abdico da condição feminina - se quero construir o meu homem ideal então caramba, terá de conseguir pegar em mim ao colo e enrolar-me em abraços fortes, de cortar o fôlego).
- Com sentido de humor - nada de sisudez (basto eu).
- Inteligente - espero não ter de justificar esta exigência relativamente a algo que é entendido como um protótipo do ideal.
- Romântico q. b. - e q. b. é mesmo q. b.! Há merdas consideradas romantismo que a mim só me soam a pimbalheira.
- Um nadinha ciumento, cioso, vá. Melhor ainda, que seja ciumento quando queremos aquela preciosa bajulação e despegado quando dispensamos cenas desnecessárias.
- Ligeiramente imprevisível - de preferência no bom sentido - e um bocadinho rebelde: comida picante estraga o sabor mas insossa fica sempre um pouco aquém.
- Admito, sou exigente com o olhar, o sorriso, a expressividade. E adoro mãos bonitas mas másculas.
Fazendo a retrospectiva, creio estar muito bem servida com a cara-metade. Balanço muito positivo.

Dito isto, posso acrescentar que serei provavelmente a única mulher portuguesa que não vai assistir ao concerto do Michael Bublé e não tem pena nenhuma.
Embora acredite que o jovem faria, enquanto genro, as delícias de qualquer sogra, a sua voz delicada e os seus trejeitos calmos não me encantam, nem mais nem menos do que a sua música perfeitinha.
Não me parece que alguma vez tenha usado uns jeans com um rasgão num joelho e isso, exclui-o automaticamente da minha lista de rebeldia-mínima-exigida-num-gajo-que-é-gajo.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

entrada loira de Jorge Jesus

Voltou o futebol que alimenta as nossas vidas.
Algumas coisas a dizer sobre isto.
Parabéns à Académica, pela 'capacidade de sofrimento' - pode não ser a virtude dos campeões mas revelou-se bastante eficaz.
Homens do jogo:
Roberto: à falta de jeito, junta-se uma enorme falta de sorte. Não há, no momento, atleta mais infeliz (leia-se pateta) aos olhos do nosso Portugal.
Ao Laionel, duas coisinhas: nunca mais na vida fazes outra igual, em contrapartida podias adoptar um nome artístico, tipo António ou Carlitos...

Há também o Porto e o Sporting mas.. e então?

efemérides

A Madonna nasceu há 52 anos.
O Elvis Presley morreu há 33.
As coincidências terminam aqui.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Miguel Torga - 103 anos

"Nunca houve em toda a montanha pastor como o Gabriel.
- Merecias outras ovelhas, homem! disse-lhe um dia o Prior, desanimado da anarquia dos seus paroquianos, quando viu o rebanho do rapaz atravessar a estrema dum centeio sem tirar uma dentada.
- Deus me livre! Já me vejo maluco com estas...
Mentira. O padre tinha razão. Era uma pena ver tanta autoridade, tanta vocação, tanto jeito natural, ao serviço de animais. Nem se pode fazer ideia! O carneiro mais teimoso, mais lorpa, mais churro, chegava às mãos do Gabriel e mudava de condição. Só não ficava a falar.
- Que fazes tu ao gado, criatura? Parece que o enfeitiças!
- Nada. Dou-lhe monte, como a outra gente. Sorria. E lá continuava a educar os malatos com gestos e palavras que ninguém sabia fazer nem dizer. Nunca batia numa rés. O castigo era um simples olhar reprovativo, um assobio impaciente, uma interjeição mal humorada. Mas bastava. Ao fim de algum tempo, cada cabeça como que porfiava em não desagradar ao dono, em viver sintonizada com aquele governo sem cajado. E dava gosto ver a disciplina com que o rebanho deixava o redil e atravessava o povo. (...)
(...) Mas esta comunhão instintiva com a natureza dos bichos não tentava o Gabriel alargá-la à natureza dos homens. Desses arredava-se discretamente, sem querer passar, nas relações com eles, do plano amorfo da neutralidade."

O Pastor Gabriel in Novos Contos da Montanha, Miguel Torga

Miguel Torga nasceu a 12 de Agosto de 1907.
Quando morreu, eu tinha já seis anos.
A 'companhia' dos Bichos e dos Novos Contos da Montanha ao longo da minha vida escolar foi um dos muitos factores que me fez tirar tanto prazer da leitura desde que me lembro.
A maior riqueza deste país é a sua impagável biblioteca.

acto não é ato

Constato com tristeza que o novo acordo ortográfico já minou quase tudo à minha volta. Vou continuar a escrever como gosto, como aprendi na escola.
Sou um pouco avessa à mudança, principalmente quando não lhe reconheço mais valias.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

The Wizard of Oz

71 anos?
Impossível!

p.s. adoro as homenagens do google.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

sobre a Teresa

Não falo aqui muito na minha petinga porque não me apetece, não quero, não tenho necessidade de a explorar como acontece em relação a outras pessoas e coisas e assuntos. Não é um espaço que me apeteça dedicar a ela, quase em exclusivo, como há quem faça.
Nada contra. Acho até uma certa piada quando tropeço em blogs onde se relatam, exaustiva e diariamente, as rotinas dos bebés. Não sou muito diferente delas, mães. Sinto os mesmos deslumbramentos, as mesmas canseiras, os mesmos medos, os mesmos inconstantes sentimentos de auto-avaliação sobre a minha capacidade de estabelecer hábitos e impor limites, penso antecipadamente se saberei incutir-lhe os valores mais nobres e educar uma criança saudável e equilibrada. Acho-lhe piada aos palreios, às mãozinhas gordas, aos pezinhos que não param, ao milagre do nascer dos dentes afiadinhos e também me exasperam as noites mal dormidas, a irregularidade das refeições bem sucedidas e a inesgotável fonte de despesas das fraldas, dos leites, das papas e dos cremes mal cheirosos da La Roche Posay para peles atópicas.
Vou falar hoje, para dizer que está grande, está linda e saudável, muito embora me acorde durante a noite e nem sempre coma como eu gostaria, e às vezes espirre, e tenha cocós que pecam ou por defeito ou por excesso, ou por qualquer uma dessas coisitas que nos arrelia ou aflige e, na realidade, nada têm de mal.
Venho aqui escrever hoje, para agradecer ao santo padroeiro dos bloggers com filhotes, pela bênção que me foi concedida, ainda que quase nunca faça referência às minhas peripécias de grávida ou de puérpera ou de mãe-oficial. Por um bocadinho, ponho de lado as folhas de horas, as subempreitadas, os autos e as facturas, os telefonemas, os faxes e os e-mails, bem como a resmunguice que tantas vezes lhes é inerente, e vou esquecer-me até que não sei do paradeiro do meu vencimento deste mês e estou a pensar em reservar um tempo de antena antes do Telejornal, como a Polícia Judiciária fazia antigamente para encontrar pessoas com fotos medonhas, com a finalidade de descobrir alguma coisa a este respeito, deixo, como dizia, tudo isso de parte, só para fazer aqui uma breve homenagem à minha bebé porque acredito que, para além do que é óbvio, consegue ainda fazer de mim, todos os dias, uma pessoa melhor.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

nós, mortais

Podia fazer-se um grafismo qualquer com as caras do cancro. Não as suas facetas, mas as suas caras, efectivamente. As caras que o personificam.
Acabei por considerar que seria uma tarefa interminável, tantos são os casos, só entre aqueles que publicamente reconhecemos. É assustadora a perspectiva global que isso nos dá: ninguém está imune e fica a sensação que não há hábitos saudáveis ou coisa que o valha que nos livre desta coisa maldita.
Fica o último rosto, de entre mais um que reconhecemos, e numa frenética e imparável sucessão.
Que, em homenagem a esta e a todas as outras faces, reconhecidas e anónimas, se descubra uma cura para isto. Para ontem.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

que é como quem diz, ali um palacete no Príncipe Real


http://www.canalplus.fr/c-series/pid3578-c-page-teasing-maison-close.html?vid=364337

Durante um periodo que incluiu uma boa parte do meu serviço de incubação, o parto e o primeiro mês completo de maternidade, era por aqui que o meu marido andava enfiado...

terça-feira, 20 de julho de 2010

coisas da cabeça

O ritmo a que se sucede a mudança torna a experiência muito rápida, efémera, pouco útil. De quase nada nos vale e pouco nos ensina. Dela, não resulta maturidade.
Acredito mais na sabedoria ancestral, quando os tempos corriam devagar e tudo se aprendia e tudo se saboreava.
Ora pará-lo, ora fazê-lo correr, mas nunca por nunca consigo gostar do tempo que o tempo leva.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

analisador meu...

I write like
Chuck Palahniuk

I Write Like by Mémoires, Mac journal software. Analyze your writing!

Parece que o tipo é o autor de Fight Club e outras coisas tão mais controversas que não as querem adaptar ao cinema. É o mesmo que dizer que a minha especialidade é transgressional fiction, satire, horror.

Não há dúvida de que escolhi um post interessante para avaliar.

(Continuei a corrente a partir da www.ladyohmydog.blogspot.com)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

soberbo

www.pastoralportuguesa.blogspot.com

Só páro de tempos a tempos, para recuperar o fôlego, que é também quando aproveito para saborear e reflectir sobre a conjugação daquele último pedacinho de semântica. Acresce o facto de normalmente fazer coincidir, num pleno de forma e conteúdo, as minhas com as suas opiniões, desta feita, no que respeita à Espanha e ao êxtase adormecido que a sua incontestável vitória no campeonato do mundo representou. Se inicialmente julguei que o meu descontentamento se devia ao facto de não os eleger como favoritos e de terem o estatuto de arqui-inimigos, sei agora que afinal teve tudo a ver com o entorpecimento em que o seu futebol me envolveu, se se pode dizer sequer que cheguei a envolver-me pelo que quer que seja.

Encerra em si também a excepção que gosto que confirme a regra, no que respeita às convicções quase sempre ligeiramente parciais sobre o Benfica, que eu, raramente de forma objectiva, me esforço por contrariar. Nisto, e desgraçadamente só nisto, talvez lhe roce um calcanhar.

Entretanto, sabe quem me conhece, o quanto me delicio com a sua leitura.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Homenagem


Por vezes, estamos demasiado encerrados na nossa redoma... por isso, muito lamento.

primeiro dos últimos

Este fim-de-semana, num programa televisivo de qualidade duvidosa, e enquanto esperava por um cheirinho do Optimus Alive, deparei-me com a constatação de uma coisa que tenho para mim como verdade absoluta desde sempre.
Dizia alguém que, em vésperas do seu casamento, lamentava acima de tudo, algo que provavelmente nunca mais experimentaria: um primeiro beijo. Partindo do princípio que daria início a uma vida recheada de beijos monógamos, de todo o tipo, mas nunca mais com a excitação inerente à descoberta implícita num primeiro beijo, posso dizer que partilho com ela precisamente essa inevitável frustração.
Não é uma revelação do Além e provavelmente é algo que partilhamos com o resto do mundo, mas é sempre bom ouvir-se, alto e bom som, da boca de outra pessoa, para exorcisar os fantasmas que tal observação pode invocar.
A rotina não é necessariamente má, mas pode ser altamente castradora.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

misreading


Era uma vez um Rei
Com uma grande barriguinha
Comia, comia
E mais fome tinha.

Bom dia, Sr, Rei!
Como passa Vossa Alteza?!...
Se continua a comer tanto
Vai rebentar com certeza.
Isto dizia o bobo,
No meio de uma palhaçada
Mas o rei continuava
Como se não fosse nada.

Bom dia, Sr, Rei!
Viva a Vossa Majestade!
Depois de tanto comer
Como é que ainda tem vontade?
Isto dizia a Rainha
Meia triste, meia zangada,
Mas o rei continuava
Como se não fosse nada.

Bom dia, Sr, Rei!
Vossa Alteza é o maior,
Um rei deve ser grande
Se for gordo ainda é melhor.
Isto dizia o cozinheiro
Olhando o rei de alto a baixo,
O rei que coma, que coma
Quero lá perder o tacho.

Bom dia, Sr, Rei!
Faz Vossa Alteza muito bem
Os reis são feitos para comer
Para beber e dormir também.
Isto dizia o conselheiro
Esfregando as mãos de contente
O rei que coma, que coma
Enquanto eu sou o Regente.

E para final desta história
Já com tanto que contar,
Vamos dizer-lhe amiguinhos,
Como o rei se passou a chamar
Sua Alteza de tanto comer,
Já só andava à cambalhota,
O povo chamou-lhe então
O não sei quê, é o "Rei bolota".


Que dizer? Esta música, que eu não conhecia, tem sido a minha grande aliada desde que fui mãe pois ao que parece a minha filha sente um grande interesse pela história, mais do que propriamente pela melodia, e olha para mim com muita atenção, como quem se interessa deveras pelo enredo da coisa. Por diversas vezes a distraiu da birra e outras tantas a ajudou a comer mais duas ou três colheradas.

Tudo isto deve ser muito vulgar dentro deste contexto, mas a parte mesmo engraçada, é a forma como nos dedicamos à interpretação de algo que deveria ser totalmente objectivo mas acaba por não ser, e até não interessa nada!

Senão vejamos. Aquela parte onde se canta Com uma grande barriguinha, eu, algo disléxica e meio surda, entendia e cantava Comandante barriguinha (vá-se a entender a lógica), assim como substituia o Bobo pelo Povo (o que também não faz muito sentido, embora os súbditos possam cair na tentação de zombar do seu Rei, principalmente se for um gordalhufo comilão). Curiosamente, a parte que me inspirava dúvidas e que não parece mesmo fazer bater a bota com a perdigota, é a O não sei quê, é o Rei bolota. O não sei quê? Que falta de chá! Mas parece que esta eu entendi bem.

Por estas e por outras é que as canções para crianças são o que de mais parecido há com aquele jogo do telefone ou da mensagem, em que a palavra dita no início acabava noutra coisa completamente diferente depois da corrente de sussurros. Cada cabeça sua sentença. Daí aquela do 'assentada' à chaminé que se popularizou na cantiga do Atirei o Pau ao Gato e perpetua o recorrente erro do prefixo antes do verbo.

Enfim, todos contribuimos para esta causa. Eu já inventei a minha versão. E a Teresa gosta.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

informações úteis


Quando o que interessa mesmo saber é o que teve ela de fazer para entrar no Chicago!

terça-feira, 29 de junho de 2010

patronos e patrões

hoje é dia de S. Pedro.
e eu estou em Sintra... a trabalhar.

parabéns, Antoine


segunda-feira, 28 de junho de 2010

terça-feira, 22 de junho de 2010

um pouco sobre a maternidade

Já me perguntaram como foi, como é. Se é suportável aquele momento em que a conduzi efectivamente à vida. Se é maior a ansiedade ou a dor. Se o amor supera, como dizem, a dificuldade dos longos minutos de aflição. Se a revelação supera a expectativa. Se nos sentimos mudar. Se nos sentimos parciais e pouco objectivos na sua apreciação. Se mudamos. Se nos sentimos pessoas mais esclarecidas, se vemos mais além. Há até quem, ingenuamente, questione se vale a pena, sem saber que é mais do que isso, sem saber que é maior e mais forte que nós desde muito cedo.
Mas ser mãe é, sobretudo, difícil. É saber sacrificar, abdicar, aprender, chorar, intuir, saber até o que não se soube nunca até então. É ser sempre mais paciente, mais esforçada, mais forte, mais resistente, mais generosa.
Só o amor de uma mãe consegue superar a dificuldade que implica abdicar natural e instintivamente da nossa natureza egoísta. E isso nem um pai conseguirá alguma vez entender.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

gostava de poder dissertar sobre uma série de assuntos.
gostava de poder homenagear José Saramago e chorar aqui a sua morte, que considero de facto mais uma enorme perda no nosso panorama cultural e para o nosso horizonte crítico (muito embora ele já tenha morrido nessa batalha há muito, votando certas mesquinhices ao abandono, neste nosso país). A bem da verdade, nem sei bem que tipo de sentimento nutria pelo senhor e gostava apenas de ter acabado a Viagem do Elefante antes da sua morte (já que de outras suas obras de maior vulto desisti, receio que, irremediavelmente - também não acredito que ele apreciasse por aí além a minha obra literária...).
gostava (oh, se gostava) de dar uns palpites sobre o mundial de futebol e a verdadeira novela de fraca qualidade que se vai desenrolando em prol do mesmo, desde as vuvuzelas (sobre as quais acho que já tudo se disse), passando pelos protagonistas, que não se sabe bem quem são, sem esquecer o mais importante de tudo: o mundo paralelo criado pela comunicação social em volta deste acontecimento. É, de facto, impressionante a panóplia que se consegue explorar. A última foi a bruxa zulu que vi ontem na sic e que nos adivinhava uma vitória sobre a Coreia e a eliminação nas meias-finais... fulana sombria, mas muito optimista.
Todavia, e sem mais delongas porque o trabalho que a gente acumula em seis meses é qualquer coisa de valor, quis vir apenas deixar um marcador importante. Dois, vá.
Primeiro, divido-me tragicamente entre as sardinhadas do S. Pedro e o Dios Salve a la Reina, no próximo sábado.
Segundo, como é possível que alguém goste de uma música pertubadora de seu nome Como uma Onda, pela voz particularmente irritante do jovem dos Pólo Norte?
possivelmente algum fã do tal instrumento cónico que por cá se popularizou laranja...
isto uma pessoa tem de aturar muita merda.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

mother

Eis-me de regresso, após largo periodo de seca, com uns salpicos aqui e ali, que só fertilizaram umas ervas daninhas, mensalmente depositadas. Andei por outros terrenos, de muito maior fertilidade e grau de exigência sem fim. Muitas horas de minúcia, cuidados extremosos, dedicação ao pormenor: ver crescer com o olhar, literalmente.
Hoje, um dia depois de ela descobrir os pés (que maravilha!), saí de casa pela manhã, de lágrima no olho (mas só até ao elevador, rapidamente recomposta), e cá me encontro, pronta para tudo e a evitar fazer contagem decrescente dos minutos. Trouxe comigo as fotografias dos olhos expressivos que me prometem sorrisos para logo mais à tarde, quando a tiver outra vez no meu regaço...

sábado, 8 de maio de 2010

miúda-mãe

Isto anda escasso. De tal maneira que, misteriosamente, o meu tipo de letra aparece diferente. Alteraram o raio da configuração durante a minha ausência.
Ando a viver num mundo mais ou menos paralelo que, aqui e ali, conforme as horas dormidas à noite, se mistura com a realidade, mas ainda não estou bem consciente do que sou agora, muito embora me pareça que sou uma miúda-mãe.
Se calhar até só passei por aqui para picar o ponto este mês (que isto da quase abstinência imediatamente após a maternidade aplica-se, de facto, a várias coisas) e, confesso, até só me loguei porque andava a cirandar o blogspot: sou fã incondicional de uma suposta blogger que me desperta a curiosidade. Ele há coisas que valem a pena por aqui!

sábado, 3 de abril de 2010

(a)parte

Gosto de sardas. Gosto das da minha mãe e também tenho algumas, poucas, que se multiplicam no Verão. São sempre poucas e discretas, daquele tipo de sardas que só as pessoas que nos olham de muito pertinho reparam e comentam. São as sardas da minha intimidade.
Espero que a Teresinha venha a ter sardas "sazonais", como as minhas.

quarta-feira, 31 de março de 2010

estamos vivas!

Já lá vai um tempinho, é verdade. Mas também é verdade que a minha noção de tempo tem oscilado vertiginosamente, de há tempos para cá. Desde a última vez, já aconteceram algumas coisas dignas de registo e outras nem por isso. A minha imaginação não se tem revelado muito fértil e parece-me até que esta coisa de ser mãe me tem queimado neurónios porque me sinto um bocado tontinha com isto dos horários trocados, da bendita amamentação, dos choros, das fraldas e possivelmente de assistir repetidamente aos mesmos programas que passam nos canais da cabo durante a tarde (eu sei, tenho opções, mas sempre que tento dormir uma sesta ou penso sequer em voltar à 3ª temporada dos Sopranos que deixei suspensa, começa a ouvir-se um choro que só acalma quando todos os meus sentidos se destinam a essa missão: estar lá, de corpo e alma).
Já estamos na Primavera e isso diz tudo, pelo menos a mim. Começa a fazer cada vez mais sentido pensar que o tempo voa, que devemos aproveitar todos os momentos, espremer o suminho até à última gota e todos esses clichés que as pessoas que considerávamos literalmente velhas nos impingiram ao longo da nossa adolescência. Os 48 cm são agora quase mais dez, e os quilinhos já são certamente mais de cinco, o que faz uma diferença; as expressões ganharam toda uma nova dimensão e fazem-nos pensar que ainda é só o começo, o começo de mil mudanças que surgem todos os dias e que nos deixam meio tontinhos de orgulho. É uma patetice, pois é, mas esperem só pela vossa vez...
Palpita-me que num ápice vou andar a cantarolar, de lágrima no olho, a velhinha melodia dos ABBA, "school bag in hand she leaves home in the early morning waving good-bye with an absent-minded smile"...
Lá está, - não ouvem? - o tal choro suplicante..
Até breve...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

3 semanas depois

a pele é quase translúcida e de muito perto conseguem ver-se as pequeninas veias, a penugem clara, as pestanas escassas e as unhas muito finas. O olhar ainda não tem uma cor definida e a expressão é quase só de curiosidade, de busca. O choro, quer o mais fraco, quer o mais resoluto, é angustiante, só pelo facto de ser choro. Os movimentos são incertos e inconsequentes mas a força que emerge daquela fragilidade é impressionante quando os cinco dedinhos de boneca se enrolam em volta de algo que possam apertar.
Este ano, os Reis fizeram-me um bocadinho espanhola e trouxeram-me um motivo para encontrar no cinzento e frio mês de Janeiro uma data que quero celebrar para sempre.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

a teresa

ainda não nasceu. Também não está atrasada, mas adivinha-se que não chegue na data prevista. Já sei que será preguiçosa, a minha menina. Ou apenas pouco pontual, como a mãe. Nisso e na carinha redonda, dizem os médicos.
Um feliz 2010 para tutti.

domingo, 20 de dezembro de 2009

primeiro presente antecipado

Querido Pai Natal:
Muito e muito obrigada!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

a uma semana

Querido pai natal:
o tempo vai-se esgotando, em muitos aspectos, por exemplo, as entregas via ctt correm risco de grandes atrasos nesta época e por isso, mesmo que a recepção desta mensagem seja quase imediata, quero dar-te tempo para a preparação e resposta às minhas solicitações.
Normalmente não te faço pedidos a ti, faço-os às pessoas que assumiram um compromisso comigo e têm a obrigação moral de ir a um centro comercial ou coisa assim, e gastar uns euros em caprichos meus. Mas este ano é diferente. Há coisas que só tu me podes dar. Acho que é justo que, volvidas três décadas, satisfaças os desejos que manifesto na primeiríssima carta que te dirijo.
Por isso, cá vai.
A primeira coisa que quero é uma prenda antecipada. Gostaria muito que desses um jeitinho ao relvado da Luz porque desde que o Jesus (o Jorge) lamentou o de Alvalade, parece que caíu uma geada maldita ali para a zona de Benfica, o que não deixa de ser desconfortável. E irónico.
Na sequência disto (e admito que é um dos meus pedidos mais complicados), também seria bom que no próximo domingo pudéssemos dar uma cabazada ao fc porto... Sabes, eu não sou nada a aficcionada típica que está sempre cheia de fezada antes de um jogo, pelo contrário, sou muito pessimista e só me encho de bazófia se a coisa no fim tiver corrido bem. Ainda mais num derby com o fc porto. E já agora, se possível, que a coisa seja limpinha, sem espinhas, nem desculpas (daí o tratamento ao relvado para o Jesualdo nunca mas nunca poder dizer que 'ah e tal parece que fomos jogar ao campo do Sertanense') embora a vitória seja mais importante e a minha bazófia não se esgote se os gajos quiserem arranjar um bode expiatório no caso de derrota.
Sabes, isto é muito, muito importante por dois motivos. Primeiro porque, vá-se lá saber porquê, o meu marido deu-lhe para se associar a uma página do facebook cujo nome é qualquer coisa como isto 'o grupo dos que se vão fartar de rir se chegar a Maio e o Benfica não tiver ganho nada'. Ora, isto não lembra a ninguém mas a verdade é que ultimamente lhe deu para andar espicaçado (e não é por mim) e talvez lhe fizesse bem ficar uns pontinhos mais atrás, depois de um tête-a-tête cá com os nossos meninos. A neura passa-lhe depressa e ele não é dado à violência doméstica e assim até acalmava. Passávamos um natal muito mais santo (principalmente agora com a família a aumentar e tudo). O segundo motivo para a vital importância da tua ajuda é, obviamente, o facto de termos a equipa um nadinha condicionada por causa de lesões muito pouco oportunas e problemas de indisciplina (aliás, mesmo ainda assoberbada por aquele segundo golo de ontem aos gregos, continuo a achar que o menino Di Maria não merece presente no sapatinho para aprender a lição, deves concordar comigo). Estou com um medinho que o Jesus (o Jorge) me ponha o Luís Filipe em campo que nem te conto!
E pronto, poderias começar por aqui, não te deve custar muito, desconfio até que sejas benfiquista por causa dessa mania da barba enorme (embora branca) e por te vestires de vermelho (diz que isso é da coca-cola e que até costumavas ser verde mas também não deves querer ir nesse sentido, ou mesmo que vás, não me parece que a tua ajuda fizesse diferença - nem Jesus (o verdadeiro) deve conseguir milagres à turma dos violinos).
Há uma segunda coisa importante que apreciava, para acabarmos com a coisa do futebol. Muita gente me pergunta o que quero para o Natal e outros tantos, talvez os mesmos, me desejam para breve 'uma hora pequenina'. Ora, seria bom se algum visionário se lembrasse 'espera! É isso! Vou-lhe oferecer uma hora pequenina!' mas não parece coisa que lhes esteja ao alcance. Ora, tu trazes renas, não cegonhas, mas és o homem que torna possíveis todos os desejos. Será que podias encarregar-te de zipar essa dita horinha? Vou esperar, humildemente, que atendas este meu pedido. É que depois de perder pinga de sangue quando a minha cama tremeu há duas noites por uns breves segundos, percebi que uma fracção de tempo pode de facto ser muito variável. E também que sou uma cagarolas.
Até agora são só dois pedidos, difíceis, mas apenas dois. E que feliz que me fariam!
Agora, pedidos mais fáceis, coisinhas que certamente fariam feliz muito mais gente e são tão óbvias (porque é que ninguém se lembra?)
1º Repetir até à exaustão alguns sketches do Gato Fedorento, mas apenas aqueles mesmo bons, que é como quem diz todos os que imitam sotaques da beira. Podem passá-los nos intervalos dos filmes e das séries, que tal?
2º Acabar com esses tiques que a malta dos blogues adopta, como espécie de moda intelectual, e que defendem, por exemplo, a extinção do ponto de exclamação. A sério, parem lá com isso.
3º Deixar de passar futebol na sic OU banir os longos, pseudo-intelectuais, chatos, intermináveis, aborrecidos, inoportunos comentários do Rui Santos por cima desses mesmo jogos.
4º Banir o Rui Santos, se possível. E acabar com o programa dos estarolas comentadores da bola, principalmente o da sic. A sério, parecem os velhotes dos marretas, não há paciência e perde-se tempo de antena importantíssimo em que podiam estar a emitir, por exemplo, sketches repetidos do Gato Fedorento (só os bons, o que exclui os do Miguel Góis - és um bom argumentista rapaz mas... olha, faz aquilo em que és bom. A sério.)
Não me lembra de mais nada por agora. E como tenho ali a 6ª temporada da Anatomia de Grey para ver até ao décimo episódio - oh yeah! Bless the downloads! - e mais umas quantas temporadas de Sopranos para pôr em dia, vou fazer-me à vida.
Não sei como te agradecer, Pai Natal, se conseguires satisfazer os meus pedidos. Claro que te pediria também que fizesses de mim a mãe perfeita mas sei que tal pedido não é correcto. Tentarei isso pelos meus próprios meios. E se me concederes estes presentes, prometo fazer da minha filhota uma tua seguidora fiel e enganá-la anos e anos a fio, com a presunção de que és, de facto, real.
Um abraço apertado, ou talvez apenas um beijinho à esquimó porque a minha barriga e a tua, bom, sejamos realistas, né?
E um feliz Natal para os bloguistas todos, todos, todos. Até para a Pipoca Mais Doce, vá.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

este mês de Dezembro está a ser muita quente ou é só de mim?

Vim, porque já há muito tempo não vinha, e ainda que sem nada de jeito para debitar, custa-me um bocadinho receber reports tão pobrezinhos sobre os escassos visitantes, e até nem é porque me preocupe com estatísticas, mas os -já de si fraquitos- records descerem a pique porque não venho cá há umas semanas, fazem-me pensar que este decréscimo reflecte uma certa desilusão de alguns habitués, que de vez em quando pensam 'ora deixa lá ver se pingou alguma pérola...' . E há pior. Há duas frases atrás demorei uns bons quinze segundos a pensar como se escreve descerem, isto sim, é preocupante.
Mas agora vou voltar ao casulo, primeiro porque me dói os'quadrantes ou o que é isto -já nem sei o que dói e o que não, palavra de honra- de estar sentada na cadeira de jantar, depois porque não trouxe os óculos e juro que ainda me vou parecer um dia com o Júnior Soprano graças a estes descuidos. Deixo aqui notícias frescas. Estou a atingir, mais trufa menos trufa, os catorze quilos de acréscimo que me foi aconselhado não ultrapassar e não acredito, nem por um bocadinho, que me fico por aqui. Já falta pouco, ao menos isso. E por falar em trufas, faço minhas as sábias palavras da Mónica, que me vale de cada vez que não tenho nada bonito ou muito interessante para deixar...
...
mais abaixo. pois, aí, na etiqueta.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

cinco anos

... o que devia ser motivo para não te oferecer prendas de Natal nos próximos dez anos.
mas de vez em quando dás-me quase 43250032744899856000 motivos para te querer mimar a toda a hora!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

para juntar à cueca descartável

A resolução é listar uma série de músicas que pretendo que me acompanhem durante o laborioso parto que se aproxima. O grande problema é não fazer a mínima ideia do que devo incluir nessa lista, que terá de ser muito bem esgalhada.
Uma boa notícia é que o meu mp3 é fraquinho, de marca branca e aposto que não tem grande capacidade de armazenamento, o que espero que agoire uma hora mesmo pequenina.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

a começar

I couldn't get through Mondays without knowing you're equally miserable

em última análise, a nossa sobrevivência está quase sempre condicionada, proporcionalmente, à maior ou igual miséria alheia.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

ibis valencia bonaire

Tenho-me lembrado várias vezes desta estadia: viagem de trabalho, acompanhante asqueroso, muito cansaço, exposição de construção na Feria de Valencia, mais cigarros que o ideal em periodo de abstinência, inviabilidade de conseguir acesso a carregamentos telefónicos para chamadas do pré-pago, enfim, o fim do mundo em cuecas. Curiosamente as recordações que tenho tido são quase... agradáveis. Lembro as contrapartidas positivas, aquelas que na altura pareciam não existir. O facto de nos calhar em sorte o ibis de bonaire (onde comprei umas coisitas da mango em outlet e uns sapatos giríssimos para a minha mãe que ela nunca usou, os quais esqueci na loja para onde tive de correr já depois das onze da noite e me valeram menos alguns minutos de conversa para boi dormir com o boi que me acompanhava - que não dormia e queria ficar a tomar uns drinkzinhos comigo no bar ao serão...) em vez do deprimente e marginal ibis do aeroporto; as chamadas sorrateiras que não foram debitadas, feitas à noite, em desespero e em desabafo, com românticas promessas de um salvamento em madrid, se eu quisesse (é que era já) e tão bem que sabiam essas promessas de salvamento que, como é óbvio, nunca aceitaria; o regresso a portugal, por todos os motivos e mais alguns mas especialmente porque, digam o que disserem, o melhor de visitar espanha é sempre poder regressar a portugal.

domesticidades

Deixei fugir coisas por entre os dedos. Ficaram por tirar algumas fotos pelas ruas do Chiado, numa noite fria qualquer, onde não se revelam rostos mas que esconde alguma história feliz. Não fiz viagens que devia ter feito e onde experimentaria olhares e beijos que me enriqueceriam mais do que os livros que fiquei, quieta, a ler. Não me meti na política, não me armei em poetisa e desisti das artes, por qualquer coisa mais térrea, que nunca cheguei a ter. Perdi contactos, perdi-lhes o rasto. Não me esqueço dos rostos nem das experiências sensoriais, tácteis, mas não sei lhes conheço paradeiro e não devia ser assim. Ou devia.

Hoje farto-me de pensar que tenho de limpar os armários da cozinha, as gavetas, a caixilharia das lâmpadas fluorescentes tubulares, as prateleiras onde estão os livros de culinária e os bonecos holandeses. Preocupo-me com a fraca assiduidade com que limpo o pó e obrigo-me a admitir que gostaria de uma mulher a dias (a horas, vá, e poucas) como prenda de Natal, porque, às vezes, acho que não sei como sair vitoriosa desta minha nova lista de prioridades.

Mas existem sempre coisas que me vão fazendo lembrar de quem eu já fui e de outros presentes que desejei. E não é melancolia, nem rancor, nem mágoa. É a inevitabilidade das coisas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Há pessoas que se preocupam com a política nacional e internacional, com os problemas económicos do país, com o estado da nação e a corrupção pública e privada, com as desigualdades sociais, com a moral e os bons costumes, com a estabilidade profissional e uma adequada gestão financeira; pessoas cujos dilemas, as conversas e os pensamentos giram sempre em torno da razão, da lógica, do sentido prático e da justiça; pessoas que se debruçam sobre o que é importante.
Depois existo eu, que faço um balanço negativo e considero um desperdício de tempo, uma tarde rodeada de gente e de conversas à volta de teorias sobre princípios rígidos e outras coisas sem a espontaneidade e aquela indispensável overdose de gargalhadas, disparates e outros excessos desnecessários.
Valem-me sempre os meus conflitos emocionais e os sonhos perturbadores que me trazem de volta os paradoxos do meu mundo.

dá-me ideia que

a solidariedade do jesualdo com o paulo bento começa a ser um pouco despropositada e até nefasta.
Mas não vou repudiar estes farrapinhos de felicidade.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

i heard the news today

Uma destas noites estava condenada a não adormecer nem por nada. Ou era a almofada mal colocada, ou a posição incómoda, ou o calor tardio, ou, sobretudo, os pensamentos persistentes sobre insanos trabalhos de parto, visualizados à custa de uma imaginação um pouco ansiosa e pouco experiente nestas andanças, que por isso mesmo viaja no meio de uma angústia perdida entre o terrífico e o potencialmente real. Agravante de peso, a sensação de apneia e sufoco provocada pela ilusão de um tecido cutâneo cuja elasticidade aparenta ser insuficiente para tamanho desafio como o é a gravidez. Enfim, algumas horas escuras e paralizantes.
Só tenho experimentado esta mesma sensação condensada em curtos periodos de tempo numa outra ocasião: quando vejo, na televisão, a expressão do Paulo Bento.
É por isso que hoje fiquei com a ideia de que o Paulo Bento deu, finalmente, à luz. E agora, depois de uma gravidez longa e desumana e de um parto difícil, prepara-se enfim para iniciar um grande projecto de vida, o de não estar à frente do Sporting.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

...

Coisa estranha esta, de condicionarmos a nossa própria revelação a um insolente pudor ou a uma espécie de orgulhoso anonimato, como se o desvendar da nossa essência correspondesse a uma amostra provocatória e escusada, que encerra em si o automático desinteresse da audiência.
E, em todo o caso, só consigo ver na partilha indescriminada, sinais de uma exposição gratuita, que evito a todo custo e que me incomoda que tentem buscar em mim. Gosto de enganar o mundo inteiro. Só assim consigo tirar verdadeiro prazer dos olhares de entendimento que recebo daqueles que conseguem, naturalmente, ver-me a nudez da alma.
Um prazer quase tão imenso como o que experimento quando me vêem precisamente como quero que me vejam.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

tributos

Pela música.
01.11.2009



"António Sérgio nunca esteve bem em qualquer estação de rádio. Mesmo quando a rádio era rádio. Porque António Sérgio é uma estação de rádio andante e uma estação não cabe noutra estação.

Para mais, é uma estação hostil às outras, contra as quais exerce uma guerrilha permanente. Mais do que meramente ingovernável - ou até uma oposição paciente - António Sérgio e a indissociável Ana Cristina Ferrão são um governo em exílio permanente. E com uma imperdoável agravante: é assim que gostam. E é nisso que insistem teimosamente. É lindo.

Os espanhóis da Prisa fizeram bem em despedi-lo. Estando livres de gratidão, memória ou preocupações da representação da boa música em Portugal, tiveram a coragem que faltou aos antecessores portugueses, ainda demasiado constrangidos pelo reconhecimento e pelo medo da superioridade musical de António Sérgio.

É importante frisar que não é de agora a tanga do mercado nem o fado do fim da rádio. António Sérgio só durou até 2007 porque se recusou a ir embora. Desde os anos 70 que agentes sorrateiros se agacham atrás dele, tentando puxar-lhe a cadeira, a ver se cai. Mas o homem sempre esteve ocupado de mais para reparar. Fincou os pés, sacou dos discos e fez o que sempre fez: o que lhe estava na real gana. De resto o desprezo pode ser a mais bela das distracções.

Ajudou também o facto de António Sérgio ser o melhor divulgador de música popular do nosso tempo - John Peel era magnífico mas tinha lapsos de gosto. Muito se perdoa a quem escolhe música boa tão bem, durante tanto tempo, com tanta arte e tanta inteligência.

A música de António Sérgio é a melhor e está tudo dito.

Claro que é preciso gostar de boa música - e de querer descobrir boa música nova - para perceber a grandeza e a utilidade brutal de António Sérgio. A nostalgia é um argumento inimigo. Hoje há muito mais música boa e muito mais música nova do que nos anos 80 ou 60. Mas continua a ser 0,1% de toda a música que se faz.

Essa proporção continua a mesma. O que mudou é a atitude geral da população. Dantes, a ignorância inibia e produzia falsos respeitos por quem se suspeitava "ter conhecimentos". Havia seguidismos acéfalos e dependências paralisantes, tudo exacerbado pelas dificuldades e desigualdades de acesso à música. Havia mestres: era inevitável. ("Mestres" no mau sentido, de professorzinhos de província.) Na rádio as directrizes dos mestres eram obviamente inseparáveis do acesso à música para que nos dirigiam.

Não era bom - até porque os mestres eram mais do que muitos e geralmente pomposos e autoritários, para não falar nos vendidos. Mas é inegável que, entre os pouquíssimos capazes de descobrir e defender música boa, o maior era e é António Sérgio. Por definição é um anti-mestre, desinteressado do tráfego de influências e da concordância dos seguidores.

Digo mal desse tempo - que era também o meu - para poder absolvê-lo do maior defeito dos tempos de hoje, apesar de serem musicalmente mais vastos e empolgantes: o relativismo ignorante. É ele que acaba por explicar a atmosfera que leva à lata de despedir António Sérgio.

Segundo o relativismo ignorante, ninguém pode dizer se uma música é boa ou não. É tudo uma questão de gosto. Depende das circunstâncias. Depende da idade. Às vezes sabe bem uma coisa que, noutra altura, sabe mal. Cada um é como é e aquilo que agrada a um ... perdoem-me se me fico por aqui no blá blá blá.

Tem ou não tem graça como esta atitude coincide exactamente com a conveniência comercialista do cliente ter sempre razão; que os números não mentem; que os ouvintes é que sabem; que os anunciantes é que pagam e quem somos nós para dizer que não está bem assim?

O pior é que esta humildade é uma subserviência e este deixar decidir, este respeito pelos gostos dos outros, é uma gulosa cobardia. Que vai acabar mal - porque quanto mais a rádio se recusa a ser minoritária mais as minorias vão fugir dela. O problema da massificação é que as massas não existem para depois virem agradecer o que se fez por elas.

A apologia do tudo-vale confunde-se sempre com a santificação da ignorância e daí até dizer que António Sérgio sabe escolher música tão bem como eu vai um passinho. A verdade é que sabe muito mais. Escolhe muito melhor. Arrisca mais e engana-se menos. É simples: António Sérgio sabe mais de música popular - no sentido de saber escolhê-la, que é o único que interessa - do que qualquer outra pessoa.

É por haver tanta música hoje - e tanto acesso - que a sabedoria selectiva de António Sérgio é mais valiosa e necessária do que nos tempos ditos áureos em que, verdade se diga, não era assim tão difícil separar o trigo do joio. A música de António Sérgio é como a boa música: não se deixa interromper. É ele que não deixa. O homem sabe o que vale e o que tem de fazer. É escusado atravessarem-se no caminho dele. O que menos interessa é a estação de rádio.

A música de António Sérgio é a melhor e está tudo dito.

Se calhar foi isso que custou à Rádio Comercial engolir. Não soube suportar o desprezo, talvez por saber que o merecia. Às vezes, quando existe uma pontinha de vergonha, é desagradável ter, mesmo ali ao lado, um exemplo tão claro de dignidade. De estatura. Desmotiva muito. Faz lembrar coisas que conviria esquecer, que atrapalham a marcha para a capitulação final.

Vai ter sorte a estação de rádio onde voltará a tocar a música de António Sérgio. Mas que fique desde já avisada que escusa de tentar desviar a caminhada do bicho. Em vão agitará no corredor papéis com números de audiências ou os amoques de focus groups. É escusado implorar-lhe que oiça "sem preconceitos" os CD de merda que vos interessa impingir. Não vale a pena atirar-lhe com a história dos tempos terem mudado.

Os tempos sim; a rádio outrossim; mas a urgência de descobrir e defender a música boa é a mesma de sempre. Ou maior ainda, dada a massificação da própria desistência de escolher e divulgar a música que vale a pena.

E não há ninguém que saiba fazer isso melhor do que António Sérgio. Que não faz outra coisa desde que faz rádio. Que não fará outra, mesmo que tentem impedi-lo. Para nosso bem - e, sobretudo, para bem de quem ainda não se sabe quem.

Ou então não - nem isso é preciso. A música de António Sérgio é a melhor e está tudo dito. Haja pressa em poder ouvi-la e saber dela outra vez."

Miguel Esteves Cardoso, Público 17 Setembro 2007

terça-feira, 27 de outubro de 2009

I'm a better athlete than you

I don't spit on the floor
(ainda a propósito...)

veto ao passô-bem e às palmadinhas no rabo também está em cima da mesa

Acredito, piamente, na viabilidade desta medida.
E qualquer palpite de que possa estar a ironizar sobre o assunto deriva da má interpretação a que, assumidamente, me sujeito.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

o caminho da luz

Não sou nada de euforias, mas se este Jesus do futebol está de alguma forma relacionado com o Deus da Bíblia de que fala o Saramago, então também serei obrigada a condenar a polémica do lançamento de Caim. E se o manual técnico do filho estiver relacionado com as escrituras do pai, então eu não lhe chamaria, de todo, manual de maus costumes - quando muito de maus hábitos se esta tendência iluminada ainda vier a dar para o torto.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

analogias e coincidências

Faço analogias a toda a hora. Gosto ou é-me inevitável, não sei. Acho sempre que um alguém me faz lembrar outro alguém ou que determinada situação reporta para não sei o quê. Isso às vezes irrita as pessoas, mesmo quando para mim é tão óbvio que me parece digno de registo. Adelante. Ocorre-me isto depois de ontem à noite ter assistido ao esmiuçamento partilhado entre o Ricardo Araújo Pereira e o Marcelo Rebelo de Sousa, em que, a determinada altura, e não obstante estar a divertir-me imenso com a cavaqueira que por ali ia e com o excelente entretenimento proporcionado - em grande contraste com o conseguido há dias por Francisco Moita Flores ao ter transformado aqueles breves dez minutos numa entediante eternidade -, não obstante isso, dizia, não pude evitar chegar a um ponto em que o professor Marcelo me pareceu personificar, na perfeição, a mais histérica e insana das Júlias Pinheiro e acumular, em simultâneo, uns trejeitos de Luís Goucha. Foi o ex-libris do programa, digo eu.
E logo a seguir, entram em cena, antes que tivesse tempo para fugir, o Eduardo Madeira e a Bárbara Guimarães. Nem de propósito: quando quero evitar comparações absurdas, a eterna primeira dama da cultura vem por ali a fora a abanar-se que nem uma galinha, fazendo aquilo que ela parece julgar terem sido movimentos sexy, que demonstram a supremacia feminina.
Depressa me refugiei no quarto para acompanhar os preparativos da viagem de Salomão para Viena de Áustria e eis senão quando, a caixa mágica me acompanha até ao leito, precisamente para ouvir falar de Saramago e das suas polémicas. Pensei cá para mim que anda muita gente a ter necessidade de escrever e falar, sem saber muito bem sobre o quê, e no desespero desta evidência, adoptam a lógica Marcelista (lá vamos nós outra vez) e optam por pensar que é preferível ter uma opinião qualquer sobre nada do que passar por burro ou imbecil. Mau! pensei eu, isto já não são analogias, são coincidências. E fui dormir, porque não consigo ler mais que dez páginas com tão deplorável pontuação.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

vigília

Às vezes sonho com pessoas importantes que a vida me obrigou a deixar para trás. Os dias correm, mais ou menos felizes, com realidades práticas, objectivos cumpridos ou não, frustrações e conquistas, vividos como se pode e se sabe, nas suas vinte e quatro horas, e de súbito, uma noite, um sonho que não sabemos se foi longo ou curto, traz-nos à lembrança recordações violentas. A violência destes sonhos não está no seu género, mas na sua intensidade. Não são pesadelos épicos, com monstros cruéis, daqueles que nos arrancam do sono com um arrepio gelado. Ao contrário, são sonhos profundos, às vezes parados, sem história nem cronologia, feitos de momentos cheios de um calor que a vida real não tem.
Há poucos dias tive um sonho destes, que me trouxe por alguns instantes, alguém que desapareceu há anos, depois de já se haver perdido na minha vida. Nunca pedi para que esta pessoa regressasse, invadindo o meu sono, mas é algo que acontece com insistência. Sei sempre, mesmo antes de acordar, enquanto vivo o enredo que a fantasia me constrói, que aquilo não é real, e sei-o porque a realidade nunca me permitiu os abraços demorados, cheios de calor, fartos de qualquer coisa que só se compreende ali, por nós. A realidade nunca me deixou pousar os olhos ousada e demoradamente nesta pessoa, sem constrangimentos e embaraços. A alma nunca se me esvaiu pelo toque, nem se denunciou pelo olhar, a não ser numa ou outra circunstância que, me pergunto hoje, se não terá sido também ela fruto da imaginação.
Sei sempre, mesmo antes de acordar, que aquilo não é real mas prolongo e vivo aquela sensação que nunca experimentei e, no entanto, sei que existe. Leio no outro olhar a mesma coisa que no meu está escrito, uma espécie de aceitação irremediável, que se rebela apenas por uns minutos, num sonho, como que a desafiar o que a vida não deixou. Depois, o abraço apertado que nunca se deu e o olhar profundo que nunca existiu vão-se lentamente consciencializando e acabam por se fundir com aquilo que é real e onde não podem coexistir. A vida volta a impor-se, na sua realidade que não admite subterfúgios e o que resta é a sensação, aquela sensação que fica e que não se consegue pôr em palavras nenhumas do mundo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

heróis do mar

Cheguei à conclusão de que nada enche o ego aos portugueses como uma pequena provocação, mesmo com falta de gosto. De repente, todos inchámos o peito e reclamámos história e conquistas, mesmo os portugueses que pouco sabem de Camões ou quantos anos durou a ditadura salazarista.
Até a selecção nacional, com brasileiros à mistura, ganhou forças e renasceu das cinzas para mostrar de que é feita a nossa força. E já ninguém parece ter dúvidas que, depois de tão heróicas provas dadas, seremos concerteza campeões do mundo.
Já pensei em emigrar, para tentar saber o que é patriotismo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

para pensar

Manuela Moura Guedes, ao Correio da Manhã, a propósito da deliberação da ERC sobre a suspensão do Jornal Nacional de 6ª:
"Um acto ilegal é um acto nulo" ...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

maitê proença e o incontinental

Ora aqui estão reflectidos os meus pensamentos em relação à polémica. E muito precisos, em quase todos os aspectos. A verdade é que não creio que o vídeo seja, por si só, digno de se postar em que blogue for, mesmo que com intenções de divulgação e instauração da revolta. O que me parece é que uma das grandes mágoas provocadas em mentes mais sensíveis e bem recordadas dos serões da programação nacional das grandes décadas de oitenta e noventa, é precisamente a forte desilusão de nos darmos conta que os calores provocados pelas Maitês da saudosa Globo (no meu caso não eram calores mas uma forte inspiração de modelo feminino), podem não passar de uma fraquinha ilusão de infância.
De salientar um dos aspectos mais importantes que este texto refere e que me ocorreu precisamente quando assisti ao vídeo: toda esta cantiga de escárnio e maldizer da actriz prova que a sua pesquisa em torno das nossas fragilidades enquanto país de gente diminuta foi muito fraquinha. De facto, mais do que ofendida, senti-me extremamente desapontada. Não conseguiu apenas ganhar a inimizade dos portugueses que na sua razoável estrutura web tiveram acesso à sua deprimente iniciativa, como o fez sem qualquer brilhantismo e fundamento cómico. Francamente não consegui perceber o porquê da histeria final naquele estúdio, mas gostava de, pelo menos, poder ter tido algum motivo para rir de tanta chacota, que também é coisa que aprecio, quando bem feita.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

descrédito

Quem viu a entrevista ao Marques Mendes, tão deliciosamente esmiuçada pelo Ricardo Araújo Pereira, sabe do que estou a falar: como é possível confiar neste homem, que diz com um ar absolutamente sereno e até descontraído, que nunca se sentiu embaraçado pela sua estatura?
Que outras falsidades tão ou mais atrozes serão os políticos capazes de enunciar com tamanha pacatez?
Não se deixem enganar, digo eu.

domingo

Ontem não votei e não me pesa nada a consciência. A minha freguesia de eleitorado está desactualizada em relação à freguesia de residência e portanto também não boicotei grande coisa: já sou uma espécie de alienígena há algum tempo e também não estava a par dos programas de campanha de nenhum partido ou independente para qualquer dos meus duplos municípios. Como estou farta de votar em branco, resolvi deixar a hipocrisia de lado e optar pelo meu direito de simplesmente não votar. Aqueles que foram antes para a praia também devem ter direito ao perdão político porque temperaturas de 30º num Domingo de Outono fazem esquecer quase todas as prioridades, principalmente quando há quinze dias atrás, o mesmo alegado 'dever cívico' nos obrigou a dedicar mais um dia escaldante à romaria pelas escolas do país.
Assim como assim, o meu voto não iria fazer a diferença. Está mais que visto que, com ou sem abstenção há uma coisa que os líderes do PS e PSD jamais farão: assumir-se derrotados. E como o resto é milho para pardais...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

reiki

Experimentei quatro sessões de reiki, uma única vez na minha vida. Quatro sessões devidamente intercaladas por uma semana de intervalo, como convém, para não se tornarem dispersas e perderem 'eficácia'. Aproveitei uma espécie de promoção de reiki, digamos. Pague 3, leve 4. Mas o reiki nunca se 'abriu' para mim, nunca revelou a sua essência. E se sou uma rapariga esperta e, teoricamente, até consigo perceber os seus princípios mais elementares e os seus objectivos, não devo ter abertura espiritual para aceitar a sua influência equilibrante e harmoniosa.
Agora é aquela parte em que me diz, quem entende, que não dei tempo ao reiki para entrar na minha vida. Pois, eu sei. Mas eu sou uma céptica por natureza, o que é difícil de vergar, e quando me submeto a este tipo de experiências o que costuma acontecer é tornar-me tão artificialmente vulnerável que dou por mim a quebrar que nem um galho, nas mãos de um estranho qualquer.
Não digo que as massagens não tenham sido sublimes, porque sou sensível ao toque e qualquer mãozinha dedicada é capaz de me deixar o fio de baba pendurado e em estado meio vegetativo, quanto mais umas mãos cheias de energia, aquecidas a óleos e habituadas aos gémeos de uma equipa inteirinha de futebol onze com suplentes e tudo, mas espiritualmente, o reiki foi uma experiência sobrenatural e estranha, que envolveu coisas indesejáveis como dar por mim a falar incansavelmente sobre coisas que não queria, depois de alguns periodos de espera solitária numa sala vazia de calor humano.
Desconfio que não gostei mesmo nada de perceber que se calhar me faz falta um bocadinho de terapia desde os tempos da adolescência, por mais descrédito que atribuia à psicanálise.

Acho que ainda tenho lá por casa a única prescrição que resultou destas sessões: um papelinho muito bem dobradinho onde está escrito em letra irregular e redondinha: A Profecia Celestina. Ao que parece era o remédio que eu precisava, mas nunca cheguei a aviar a receita. E sinceramente, não me apetece nada.