quarta-feira, 6 de abril de 2011

drama queen

Como sou uma pessoa que acredita no casamento a advertência já vem tarde, mas as minhas relações sentimentais deviam começar com uma apresentação explícita:
Não tenho mau feitio e sou uma pessoa (quase sempre) fácil e carinhosa. Não sou a mulher mandona que assusta o marido quando arregala os olhos. Sou uma alma branda, branda, que dá dó. Mas choro. Sou chorona. Choro compulsivamente enquanto tento argumentar. São duas coisas que, em simultâneo, não saem bem (ao contrário do que se vê no cinema).

A mesmíssima coisa que me impede de dizer ao meu chefe a cavalgadura que ele é prende-se com este entrave. A partir do momento em que começasse a dissertar sobre a sua filha da putice, ao invés de articular um discurso inteligente e bem aplicado, sair-me-ia um chorrilho disparatado e humilhante regado a lágrimas, que a raiva também me dá para isso.

Ficam avisados.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

(some) wishes do come true

Sábado foi do best.
Parece que o blogue é a minha lâmpada de Aladino.
Já estou a trabalhar em novos desejos.

(pena não ter vindo a tempo de desejar que o Benfica fizesse ontem o jogo da sua vida)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

este sábado à noite,

gostava de me aninhar no canto de um restaurante confortável e sossegado, com algum requinte, sem muito barulho, em frente de uma mesa discreta, num assento corrido e estofado de onde não apetecesse levantar depois da sobremesa. Gostava de beber lambrusco doce até sentir aquela embriaguez tímida e agradável que solta a língua em conversas boas.
Porra, não me apetece nada incluir a minha filhota neste serão de sábado.
Avós?
Anyone?

(hello...?)

iupiiiii

tenho um blogue cheio de futilidades!

Farrell







Gosto.
Gosto.
Gosto.
Gosto.
Gosto...
Errr... era escusado...

Pink Floyd "On The Turning Away" Live 1988 (DSOT Version)



Ouve-se isto e sabe-se.
Não é entretenimento, é arte.

Alguém disse que os Pink Floyd, ao contrário de algumas bandas, conseguem ser melhores ao vivo do que numa gravação em estúdio. É bem verdade.
Ouvir esta música, bem alto, seja onde for, faz-nos sentir capazes de qualquer coisa. O nome assenta-lhes bem. Há músicas que são pura droga (no melhor dos sentidos).

hoje é o vosso dia







Parabéns!

quinta-feira, 31 de março de 2011

a música d'hoje



Este vídeo é uma mão cheia de coisas boas.
(gosto da Sharleen Spiteri)

ter objectivos

projectos
plantas
alçados
cortes

esperança
ansiedade

quarta-feira, 30 de março de 2011

isto lembra-me que ainda tenho de ir buscar o meu Carapuço d'Ouro, por serviços prestados ao país

Calculo que tenha aproveitado a viagem para partilhar cá com os mãos largas do reconhecimento o segredo de uma economia de sucesso.

os dias úteis

Já passei por muitas fases neste meu último emprego.
Senti coisas boas e más, ao sabor dos sucessos e insucessos da empresa. Já fui responsável por organizar eventos considerados 'profissionalmente vantajosos', almoços natalícios, lúdicos, que servem o propósito exclusivo de demonstrar que se tem a colocação financeira necessária para garantir segurança a clientes, fornecedores e empregados, alguns mais do que isso, amigos.
Ao longo do tempo, experimentei diferentes emoções. De concretização, de realização, de frustração, de derrota. Actualmente, experimento o pior, vergonha. É difícil trabalhar com pessoas mal formadas, com personalidades que chocam connosco, com um grupo de gente disforme, pela negativa. Mas isso é, também, experiência. Experiência social, que desafia a nossa capacidade de ultrapassar obstáculos, de agir e reagir: experiência de vida, estaleca para tudo o que ainda temos pela frente. O pior, neste momento, é a vergonha de me considerar não um trabalhador por conta de outrém, mas o pau mandado da hipocrisia, falta de carácter e cobardia de alguém; um porta-voz de tudo o que abomino. Permanecer aqui corrompe-me, trai os meus princípios e verga-me a honestidade que me caracteriza.
Nutro um profundo desprezo por pessoas cobardes, sem ética, sem respeito pelos outros. Pessoas que não atendem o telefone porque não lhes convém. Pessoas que não assumem as suas falhas. Pessoas que não têm a coragem de reconhecer as suas dificuldades e que prevalecem arrogantes mesmo quando a situação lhes exige humildade.
Há dias que sinto uma vergonha imensa.
Receio não conseguir ultrapassar esta fase, que é, de longe, a mais difícil com que me obrigo a (con)viver(apesar da conjuctura pouco favorável ao luxo da demissão).

Porra, sou mais que isto.

terça-feira, 29 de março de 2011

39

foto daqui
Parabéns, maestro.

let's put it this way

(...)
And I can say I’ve never bought you flowers
Because I can’t work out what they mean"
"I never thought that I’d love someone
That was someone else’s dream"
(...)
"But it might be a second too late
And the words that I could never say
Are gonna come out anyway"*

Numa realidade diferente, eu era homenzinho para me ver numa alhada destas e dizer qualquer coisa como isto.

lar

Encontrar casa.

Nem sempre se sabe o que se quer. Isso comigo, infelizmente, é usual e pouco surpreendente.
Actualmente sinto-me regredir, eu, que já me acho miúda, demasiado miúda para a senhora que devia ser com trinta e dois. Sou fruto de um percurso normal, muito normal, sem erasmus, sem inter-rails, sem escoteiros, sem drogas, sem (grandes) loucuras, sempre pautado por um equilíbrio comportamental só aqui e ali arranhado pelos desvarios emocionais da adolescência que acho que não teve (tem) fim em mim. Espanta-me a certeza que me levou a casar. A ausência de dúvidas ou de arrependimento, mas apenas pelo meu receio de mudar de quereres, este capricho sentimental intrínseco, quase uma maldição. Mas, aparentemente, é apenas a continuação de um processo normal, num percurso normal.

Ter um filho. Foi natural e muito menos assustador do que temia. Foi inevitável porque me fazia falta e nisto de ter filhos começa por ser o nosso egocentrismo (e não a nossa generosidade) a falar mais alto. O relógio biológico torna-se exigente e, também ele, caprichoso. É, talvez, o acto mais self-centered e que, no final, mais significa partilha. Agora, mais do que o casamento e que tudo o que foram as nossas escolhas, aquela criança faz sentido e existe em nós e com um individualismo surpreendente, que evolui todos os dias e nos ultrapassa, e já não é nosso - nunca foi e será sempre - mas de todos e de si mesmo.

Mas encontrar casa...
É racionalizar uma lista infindável de coisas que se tornam massacrantes. Não é, antes de mais, um processo natural, biológico ou emocional. É cansativo, minucioso, dispendioso, burocrático e uma constante interrogação. Talvez seja um pouco menos isto tudo e muito mais agradável se se tiver o dinheiro que compra os prós e elimina os contras mas o desafio é construir um lar a partir desta condicionante principal.
Gostava de ser aquela pessoa que vive numa casa alugada, na cidade, onde o que importa é ter um bom acesso a tudo e uma cama para dormir ao fim do dia. Não sou. Sou aquela pessoa que se sente feliz quando regressa a casa e lhe reconhece o cheiro, os recantos.
Ainda não sei que casa vou comprar. A minha foi ocupada por uma professora do liceu e um australiano que desenha iates. Estão a sentir-lhe o cheiro de que tenho saudades. Onde vivo agora, não me cheira a lar. Não sei quanto tempo vou demorar a encontrá-lo. Sei que irá levar o tempo para encontrar o espaço mais o tempo para lhe reconhecer o cheiro, o que, mesmo na melhor das hipóteses, é sempre demasiado.

Encontrar casa.
Construir um lar.
Reconhecer-lhe o cheiro.
Receio que ainda vá tardar...

sexta-feira, 25 de março de 2011

the joke is on... him



Gostava mesmo de ser uma daquelas pessoas capazes de rematar este vídeo com um texto brilhante. Mas receio que qualquer tentativa saísse gorada.
Custa-me muito a crer que isto aconteceu e até estou tentada a acreditar que tudo não passa de uma montagem maquiavélica para destruir a reputação de uma pessoa honrada e sem vícios.

quarta-feira, 23 de março de 2011

segunda-feira, 21 de março de 2011

sexta-feira, 18 de março de 2011

adelina

A minha avó paterna vivia no alto da Trafaria, numa zona mal afamada pelo índice de ligeira criminalidade e nível de pobreza das gentes locais. Recordo-me particularmente da sua casa à beira da estrada principal, escondida atrás de um portão de madeira e das árvores e arbustros que despontavam no seu quintal. Quando chegávamos, os seus pequinois de mau feitio corriam até à rua para nos dar as suas ameaçadoras boas vindas e ela surgia à porta, calma e tranquila, com o habitual sorriso que mostrava a dentadura branca e muito certinha que usou desde que me lembro, a iluminar um rosto marcado por rugas vincadas.
Lembro-me sempre da Trafaria no Verão, periodo em que lá passávamos mais tempo, e de acordar com os raios de sol a rasgar as folhagens do imenso matagal que era o jardim da minha avó. A casa tinha um espaço em toda a volta, que nos permitia correr do jardim da frente até ao quintal das traseiras, onde havia uma pequena horta e uma capoeira. Pelas traseiras tínhamos acesso à casa, através de um anexo muito rudimentar. Os espaços eram pequenos e a casa era pobre. Lembro-me bem da casa de banho, um espaço frio, de azulejos brancos, com uma pequena janela que tinha sempre teias de aranha. O espelho era pequeno, velho e rachado. Haviam poucos objectos pessoais, apenas o essencial para lavar as mãos, um pente e uns ganchos para apanhar o cabelo de manhã no pequeno arranjo que usava sempre, e uma bacia antiga, apoiada no suporte metálico com o respectivo gomil. Sempre que penso na minha avó, lembro-me de trapos. Trapos e mais trapos. De trapos, fazia tudo. Os chinelos de quarto eram feitos de restos de fazendas quentes e grossas, pacientemente cosidas à mão, e ficavam completamente díspares, sem um formato bem definido mas o mais aperfeiçoados possível e de forma a aproveitar cada desperdício da sua costura.
A cama onde eu e a minha irmã dormíamos quando lá passávamos parte das férias de Verão, tinha um colchão completamente artesanal, feito pela minha avó, com enchimento de feno e trapos, que o tornavam numa massa disforme, pontiaguda aqui e ali, que picava e nos fazia coçar toda a noite, a ameaçar alguma alergia que o pó e os ácaros nos pudessem causar.
Tinha um medo terrível de me levantar durante a noite e rezava para não ter vontade de ir à casa de banho. Não apostaria que, na escuridão e no silêncio da madrugada, não houvessem pequenos rastejantes pelo caminho e a teia de aranha na casa de banho estaria certamente ocupada pela sua inquilina.
De manhã, cheirava sempre a café e pão torrado no fogão. Havia sempre leite fervido, doce, marmelada e manteiga. E muito açucar. A minha avó gostava de tudo muito doce e, como costumava fazer com os outros netos, tentava dar-nos muitas vezes a lanchar pão com manteiga abundantemente polvilhado de açucar, coisa que detestávamos.
Enquanto lá estávamos, o tempo corria mais devagar, ao ritmo da própria casa. Era como se ela própria se traduzisse em poucas pressas. Penso que em casa das pessoas idosas que vivem sós é comum que se sinta este ambiente, de não urgência para nada. A sala da minha avó parecia parada no tempo. Quase não se entrava lá. Existia uma televisão mas não me lembro nunca de a ligar quando lá passávamos férias. Era possível estar dias a fio sem nos interessarmos por tal coisa. A humilde mobília de jantar, as almofadas forradas a lã, os naperons e as molduras antigas pareciam estar ali com o propósito de ser apenas contempladas. Não convidavam ao convívio. Era à mesa da cozinha que se comia, se conversava, se preparavam as refeições e se costurava.
Nos dias de calor, acordávamos transpiradas do quente colchão de palha e metíamos pés ao caminho, até à praia. Descíamos a avenida, à beira da mata, passávamos a escola que tinha reputação de albergar os piores alunos de todos, o quartel, os bombeiros e seguíamos em direcção à Costa da Caparica. A avó ficava em casa, que já não estava para tais canseiras, e nós íamos pela fresca, cheias de gana. O regresso era muito mais penoso, depois do calor, quando o Verão ainda era Verão e ao fim da tarde o alcatrão ainda escaldava e não se sentia uma brisa. Sempre a subir, de volta à Quinta da Corvina, era com alívio que ouvíamos o ladrar dos cães e que nos sentávamos outra vez à mesa da cozinha, depois de um banho fresco de mangueira no terraço.
Tenho saudades da minha avó, da sua casa na Trafaria, dos meus tempos de criança, da sensação de felicidade ao fim de um dia cheio e feliz. Lembro-me dos dias em que o tempo dava para tudo sem termos de o esticar e de abdicar do que quer que fosse. Tenho pena de não ter avós e espanta-me que haja quem os tenha até tarde e não saiba apreciar o valor desse património inestimável.

quinta-feira, 17 de março de 2011

gipsy

A minha vida deu uma reviravolta daquelas que, não fora o magnetismo terrestre, e eu teria trambolhado para a mesosfera e por lá andaria a flutuar. De repente, do meu número fixo já não serei eu a atender,  terei de dar uma cópia da chave do correio a estranhos, não terei mais serões a balançar-me no cadeirão onde tantas vezes embalei a minha filha e, pior, serão outros a dormir na minha cama. Sair da nossa casa para lá deixar alguém no nosso lugar, a fazer as suas coisas com as nossas coisas, é do mais estranho que há. Quando temos de o fazer de repente e damos por nós num sítio que não é céu nem inferno, mas uma espécie de purgatório, uma sala de espera onde aguardamos que se abra a porta para o lugar que realmente nos irá pertencer, a coisa piora. Não sou nómada, não me entendo com desenraizamentos, sinto-me perdida, desapoiada, mesmo quando tenho alguém a amparar-me. Vou andar uns tempos nesta vida de não-pertença, nesta coisa de emigrante de lar. Esforço-me por pensar que é por uma boa causa mas, de momento, nada me consola. Isto com tempo vai lá.

No Domingo vou participar na mini-maratona de Lisboa. Espero conseguir afastar estes pensamentos, pelo menos enquanto ainda estiver no tabuleiro da ponte, a uma altura considerável.

sábado, 12 de março de 2011

o meu balanço do evento à rasca

Tive oportunidade de assistir pela televisão a uma considerável parte da manifestação de hoje e fiquei mais convencida do que já estava da boçal ingenuidade deste movimento - não obstante as boas intenções que lhe estão na origem. Ouvi ali uma jovem, revoltada por perder a bolsa de estudo, facto que a obrigou a pedir um empréstimo para poder terminar os estudos - porque, efectivamente, trabalhar umas horas num call-center ou em tantos outros sítios para os quais existem ofertas de emprego constantes e são perfeitamente conciliáveis com a faculdade, a não ser claro que se desconte o tempo passado no bairro alto, no clube ferroviário ou no BBC, não é uma alternativa - confirmando a minha teoria de que os bancos e diversas outras instituições continuam a oferecer créditos indiscriminadamente, e que as pessoas, claro, continuam a ver nessa a opção mais vantajosa a curto ou médio prazo, ao invés de sujeitar-se a trabalhar (salvo seja!) numa área desprestigiante ou que não corresponde à sua formação académica. Outros - muitos deles jovens - quando abordados pelos jornalistas, respondiam, com risinhos de embaraço, que até nem estão em situação precária, apenas estão ali por solidariedade com o tio, a prima ou o namorado - se entendessem realmente a noção de precariedade em que está este país, compreendiam que todos nós estamos nessa situação, actuais empregados ou desempregados, actuais reformados com pensões de miséria ou futuros idosos sem garantia de que haja alguma sequer. Ou os pais, sexagenários, coitados, ali presentes para rogar pelos filhos que, com trinta e muitos ainda não saíram de casa, desempregados. Curiosamente, a única pessoa abordada pela jornalista da sic no Rossio, que estava sentada na praça mas respondeu não estar a participar e nem sequer concordar com a manifestação, foi delicadamente desprezada pela profissional, que ainda rematou a entrevista apelidando a senhora de menos jovem e pessimista.
E assim se conclui que, no meu caso, não estar a trabalhar na minha área talvez tenha alguma razão de ser, já que o que aprendi em quatro anos de licenciatura acerca de ética e validade noticiosa, não se aplica de todo na comunicação social. Sujeito-me portanto a trabalhar em algo que não aprecio, mas ajuda a sustentar a minha família, já que não posso contar com o governo, que aparentemente me considera demasiado afortunada para atribuir sequer um abono à minha filha. O mesmo governo que há não muito tempo era aplaudido pelas intenções de atribuir uma esmola por bebé nascido.
Já alguém me disse que esta manifestação talvez fosse até uma manobra governamental para as pessoas jubilarem com o seu fabuloso poder de intervenção e distrair as atenções do que é realmente importante. Cheira-me que é possível, depois de saber que ontem se anunciaram novas medidas de contenção e austeridade. Mas isso não importa porque há quem hoje durma melhor por sentir que, de alguma forma, fez algo que irá contar para o que quer que seja.

sexta-feira, 11 de março de 2011

pai

Os meus sogros vão matar um porco este fim-de-semana. Adivinha-se algazarra e petisco. Para quem cresceu neste tipo de ambiente, são alturas de festa. Não é o meu caso. Sempre fui geograficamente suburbana, mas de hábitos bastante citadinos. A minha mãe já me disse alarmada, nem penses que o teu pai vai! Agradece o convite mas para isto não contem com ele! Eu também já avisei que não estaria presente, pelo menos para o espectáculo, mas não me importo de ir no dia seguinte, provar um bocadinho do bicho. O meu raciocínio é este: eu como carne, inclusive de porco, e quando o faço não penso nas (horríveis) condições em que eles vivem e nas hormonas que lhes espetam, portanto tenho de concluir que o Mantorras - alcunha simpática para o porquinho preto - até tem sido bastante feliz e a sua carne deve ser do mais saudável que há - eu própria lhe dei algumas folhas de couve. À luz deste raciocínio, consigo combater a imagem de que estou a consumir aquele ser vivo que no outro dia andava a chafurdar na sua pocilga.
Mas o meu pai é de outra natureza. Independentemente dos nossos defeitos e virtudes, ou até mesmo da nossa educação, existem pessoas com dons. Estou convencida que o meu pai tem um dom que não corre em mais ninguém da família. Sempre o achei diferente dos meus tios e de outras pessoas da sua idade. Sempre foi um trabalhador incansável e jamais terá sido recompensado por alguém como devia. Fez muitos sacrifícios ao longo de uma vida inteira e às vezes engulo em seco quando deixa entreaberta a porta para o seu passado. Tenho ideia de que nunca saberei metade do que sofreu em criança e mais tarde em jovem. Apesar da sua idade, esquivou-se à guerra colonial e apenas cumpriu os normais dois ou três anos de tropa, maior parte dos quais em Mafra, tempos que às vezes recorda com nostalgia, talvez porque a sua tarefa se confinava a pouco mais do que descascar batatas na cozinha e a poder dar-se ao luxo de lavar melhor as suas hortaliças, ao contrário dos que eram servidos. Acredito que a brandura da sua vida militar tenha contribuído para que a sua natureza calma prevalecesse. De resto, sempre me lembro de ver nele um homem com sonhos, que todavia sempre calou o seu lado emocional, em detrimento do que lhe era exigido e como consequência da quase inexistente relação com um pai duro e um padrasto negligente, ambos cedo lhe roubados. A sua postura de filho único no meio de raparigas também lhe amoleceu os modos.
Há dois anos perdeu o cão que lhe foi imposto pela minha irmã e que lhe fazia companhia nos últimos dez anos. Não era um animal que ele quisesse de início: a perspectiva da perda sempre o fez pensar duas vezes na hora de criar laços – neste aspecto, a minha mãe nem sempre teve vida fácil durante os últimos trinta e cinco anos, não há-de ser sempre agradável viver com alguém que, sendo bom e generoso, não gosta de se entregar. Há dois anos que usa, enrolada ao pulso, a coleira que o cão usava, grossa, de ferro, a lembrar uma bijutaria grotesca. As pessoas espantam-se. Eu não.
Também não me espanto que o meu pai, homem de outra natureza, não queira comer o Mantorras, e muito menos matá-lo. Não me espanta que, ao contrário de mim, ele não consiga ignorar o facto de que já viu o bicharoco vivo e já lhe fez festas no focinho e, só por isso, criou laços.
O dom do meu pai é a pureza. Uma pureza que admite falhas e defeitos, que não é a pureza dos santos, mas uma pureza que o distingue dos restantes de nós. Uma pureza que eu amo.

do mal o menos

Os japoneses têem um auto-controlo e uma capacidade de organização incrível.

Aposto que ficam muito reconhecidos com o "sentimento de profunda preocupação e solidariedade" que a Comissão Europeia já manifestou, pela pessoa de Durão Barroso, mas não haverá outro povo no mundo com a mesma extraordinária capacidade de se levantar do chão por si próprio como eles.
Ainda nós deitamos as mãos à cabeça, já eles têem as mangas arregaçadas.

Oxalá que sim.

tendências

Tenho para mim que a homossexualidade está na moda. O lesbianismo então parece estar a tornar-se exigência social. Na blogosfera é aos magotes. Experiências, insinuações, inconfidências, revelações explícitas. Eu até compreendo, a sério. Aliás, sempre disse que é bastante apelativa a ideia de duas mulheres juntas (quem diz duas diz uma orgia). O conceito do feminino é bonito, sensual, delicado, excitante.
Tudo muito bem e a emancipação é uma coisa fantástica.
Dito isto, eu é mais músculos, maçãs de Adão e barba rija - e deixem ficar as pilosidades porque, a não ser que se revejam no Toni Ramos, prefiro que a minha perna seja a mais suave entre os lençóis.


Sim, eu sou mesmo old-fashioned.

quinta-feira, 10 de março de 2011

snugglin'

Sou muito esquisita com o meu snugglin'. Não consigo dormir uma noite inteira agarrada a alguém. A anatomia é uma coisa que impõe posturas limitadas e pouco descontraídas.
Só gosto da minha almofada própria para o snuggle. É desmaiada e murcha, tem um escasso enchimento sintético e perde-se na imensidão da fronha, mas preenche os vazios entre o meu corpo e o colchão.
Preciso dela para adormecer.

alongamentos



Por falar em hábitos, há aqueles que são bons e para manter.
Esta música, por exemplo, é a dos cinco minutinhos de alongamentos da aula de body vive.
Ouvi-la transporta-me sempre para aqueles instantes finais, depois do corpo suado, dos glúteos e abdominal tensos, dos gémeos doridos e dos bíceps e tríceps massacrados pela força do elástico; aqueles instantes de cansaço bom em que o corpo se liberta da força, se espreguiça e relaxa.
São acordes bons para alongar.

segunda-feira, 7 de março de 2011

O Discurso Do Rei

Assisti ao filme este fim-de-semana, deitada no sofá, os olhos a querer fechar, porque o tempo pedia sesta e também porque o ritmo da película não faz propriamente disparar a adrenalina, mas alerta até ao fim, mesmo nas partes em que os diálogos dessíncronos se sobrepunham às legendas adaptadas e o cérebro ameaçava fazer curto-circuito (tenho uma dependência grave da língua de origem e de legenda em português à percentagem de setenta e trinta por cento, respectivamente - a minha grande relutância em emigrar deve-se a essa mania tão resto-mundana de dobrar tudo o que não é língua materna).
Dizia então que finalmente vi o filme. E foi um finalmente!, o que é bom. Tenho-me sentido defraudada por muitos dos filmes que vão ficando pendentes mas nunca esquecidos e que um dia se me apresentam em toda a sua esplendorosa desilusão (como foi o caso recente d'A Dúvida), mas desta vez a coisa correspondeu ao esperado. Podia falar na atenção aos pormenores, na força dos personagens, no bom resultado da forma escolhida para se adaptar este enquadramento histórico específico, mas disso fala quem percebe, quando o que o distingue tem sobretudo a ver com o que ele me diz a mim e não à academia.
Eu existi dentro daquele Rei e das suas limitações. Eu vivi a privação da impotência, a frustração da batalha infrutífera com o seu eu, a agressividade que resulta de não se saber lidar com a diferença sendo diferente. A minha luta, a minha impotência, a minha frustração e a minha agressividade souberam reconhecer-se e resignaram-se, por duas horas, perante o consolo da gaguez de George VI. E senti-me confortada com o ultrapassar de um obstáculo, com o suspiro de alívio que a queda de um muro pode trazer, com a satisfação da quebra das barreiras invisíveis, uma de cada vez.
Da amálgama que constitui a mistura de todas as nossas qualificações e limitações, sobressai a prevalência que todos partilhamos pelo medo do fracasso.

descanso e folia

Tenho uma relação estranha com o Carnaval.

sexta-feira, 4 de março de 2011

... fazem coisas iluminadas

pessoas iluminadas...



crise no sporting: a explicação

A notícia, avançada no sapo.pt, é: Está descoberto o treinador mistério

"Dias Ferreira apenas disse que o escolhido «é estrangeiro, nunca treinou em Portugal, mas tem conhecimentos do futebol português e fala duas ou três línguas». Ele é…o holandês Frank Rijkaard.
Segundo avança o jornal A Bola, o treinador estrangeiro de Dias Ferreira é Frank Rijkaard, ex-internacional holandês e ex-treinador daquela que é considerada a melhor equipa do Mundo, o Barcelona.
O holandês, que está actualmente sem clube, volta a estar na rota do leão, depois de em 1987/88, na direcção de Jorge Gonçalves, quase ter envergado a camisola do emblema lisboeta. Rijkaard chegou a treinar em Alvalade, mas seria no Saragoça que jogaria.
Em 2006, levou o Barcelona à conquista da Liga dos Campeões – fazia parte da equipa o luso-brasileiro Deco – e também pelos catalães foi bicampeão espanhol (2004/05 e 2005/06). Por isto, Frank Rijakaard é um dos nomes sonantes do panorama mundial.
Aos 49 anos, o holandês pode vir a treinar os leões, caso Dias Ferreira vença no dia 26 de Março as mais concorridas eleições de sempre no Sporting."

Os comentários que se lêem em seguida são estas pérolas:

"OS BENFAS VALORIZAM MUITO A DROGA E TRÁFICO ADORAM OS SEUS MALEFICIOS, ADULAM A CHULICE, ADORAM MATAR; ROUBAR... ETC..";

SPORTINGUISTA
"UM PAIS COM 6 MILHOES DE JAVARDOS SÓ PODIA SER UM PAIS ATRASADO, CLARO. CHATEIA-ME TANTO JAVARDO É MESMO UMA CHATICE..."

Estamos conversados no que respeita a prioridades e soluções.

quinta-feira, 3 de março de 2011

heterogéneo

O amor terno, seguro e confortável. Aquele amor que é hábito, é rotina e é bom. Traz aromas familiares, fins de dia ou acordares, tarefas, prazeres e obrigações implícitas. O amor organizado, combinado, partilhado, sereno. Amor bom, doce, certo, eterno, que se quer, que se prolonga e sobrevive e se adapta e cresce e se molda e aprende. Amor que decorre, pleno. Que vive sem pressas, romântico, que se redescobre aqui e ali em surpresas agradáveis, em viagens ao passado e regressos ao presente. Amor que se mantém, resiste, fica, é.

A paixão. Egoísta, violenta e repentina. A paixão que vive do desejo que o corpo não consegue negar e que não se detém no amor. Paixão que reaparece, que espreita, que é fraqueza, é defeito, é sozinha. A paixão que só serve para nos servirmos a nós, para calar o coração que acelera por nada, por tudo. A paixão vive do que adivinha, da imaginação, da ousadia, da vontade, do capricho. Paixão que não admite menos que o máximo do que se quer, do que se pode, do que se sonha. Perigosa, impiedosa, quase cruel. Que aprisiona. Que amordaça. Que não admite a razonabilidade, a ética, a reflexão.

O amor alimenta-se. A paixão devora.
São insolúveis entre si.
Mas coexistem.

...

Preciso de algo que me apazigue. Quero reconciliar-me comigo.
Descubro refúgio no pecado das palavras erradas e por enquanto isso basta-me.
Por enquanto.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Rambo III - bandas sonoras #5



É anos 80 por todo o lado. Os músculos, o cabelo, a temática e a adaptação musical de um original um pouco mais antigo.

balanço

Releio-me e penso uma coisa: tenho mesmo de mudar de trabalho.

terça-feira, 1 de março de 2011

insuportável

Insuportável não é apenas chato ou difícil. Insuportável é aquilo que nos faz gritar cá dentro e que nos obriga a afastar para não explodir. Insuportável não é aquela isca a que torço o nariz porque é fígado mas engulo contrariada. Insuportável é um punhado de sementes de malagueta esmagadas e coadas para um copo de onde temos de beber um trago. O insuportável impõe um limite físico que não devemos propôr-nos ultrapassar. Hoje, ao almoço, estive prestes a quebrar esse limite.
Juro que não me importo de ser tida anti-social, muda, individualista, esquisita, quase excêntrica. Na verdade sou simples, de uma simplicidade que poucos entendem na minha atitude por vezes fria.
O que me incomoda mesmo é ver a minha inteligência diminuída. Esta perspicácia que de pouco me serve mas é minha, tão recalcadinha por conversas parvas, menores, desinteressantes ao expoente máximo da estupidez, tão boicotada que chega a ser... insuportável.
Não sei se o pior são as histórias chatas de vida sem chama ou as fantasias inventadas de quem não tem vida. São terríveis as pessoas que se julgam bons contadores de estórias e são apenas parvos.
De quanto não vale uma boa conversa! Quando o não é, prefiro-me só. Mil vezes.
Lembro-me sempre dele.
Gosto de pensar que se fosse um homem, no início do século XX, seria ele.

"Não me macem, por amor de Deus.
(...)
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja a companhia! " *

Vou apanhar ar. Juro que este almoço me caíu mal.

72 horas

Numa altura em que toda a gente corre para os cinemas para ver os galardoados (ou apenas nomeados) do momento, eu continuo a zeros. Não porque me falte vontade, mas por uma série de motivos que se prendem normalmente com prioridades, e no passado sábado pela excepção de encontar todas as sessões esgotadas num determinado cinema bastante concorrido, ainda não vi nenhum dos filmes que ando com vontade de ver, muito particularmente O Discurso do Rei. Às horas que tem sido o meu recolher, nem a pirataria me vale já que tenho o Cisne Negro lá em casa e ainda não me fiz a ele - no passado Domingo estava a dormir às 22h30. A sério, há mais alguém como eu (como nós)?
Então, num fim-de-semana que foi de aproveitamento do sol, os serões foram calmos e o pós-desilusão da bilheteira cheia transportou-nos para o sofá, com pipocas da Lusomundo, mas com o disco externo como projeccionista. Como a minha tendência (já de si negra) para transportar coisas obscuras para a cama me fez ter o bom senso de não optar pela história dramática da Natalie Portman, a escolha recaiu sobre o 72 Horas, thriller intenso, Russel Crowe a caminhar para estragadote, mas sempre com aquele papel de quem tem mais qualquer coisa no QI ou na capacidade de desenranscanço, que lhe vale a admiração do resto de nós, mortais (uma espécie de Harrison Ford next-generation). Foi jeitoso, vá. Assim a atirar para o ora triste, ora deprimente, ora dramático, ora de segurar o fôlego.
Será um filme de happy ending para a generalidade, para os que não ficam a pensar no que vem depois, para os que não questionam as consequências emocionais, as marcas, os efeitos de estar preso na  liberdade aparente. Para mim há todo um rol de consequências trágicas e negativas que aquele final augura.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

billboard chart #2

Após uma tarde de novas experiências, relacionadas com uma área que sempre quis experimentar (tossidelas irónicas), sinto-me uma verdadeira TOC. E sim, chego à conclusão que a vida pode sempre ser um bocadinho pior do que já é. O positivo é que quando passamos por estas coisas, tudo aquilo de que nos queixamos habitualmente passa a soar muito melhor.
Enriquecida a minha capacidade de escrutinar facturação, ainda tenho um tempo para aqui despejar meia dúzia de anos.
1987 - With or Without You - U2
1988 - Bad Medicine - Bon Jovi
1989 - Patience - Gn'R ex-aequo Smooth Criminal - Michael Jackson (e assim se abre o precedente para a não-exclusividade, com pena minha)
1990 - Enjoy The Silence - Depeche Mode
1991 - Wicked Game - Chris Isaak (primeira vez na vida que tive pena de não ser homem, nem gay e que tive consciência que era apenas invejosa)
1992 - November Rain - Gn'R ex-aequo Bohemian Rapsody - Queen ex-aequo(!) One - U2 (lamento, sou fraca e não aguento a pressão)

o SOL anda a deixar-me melodiosa


MusicPlaylist
Music Playlist at MixPod.com

E acho sempre que me ficam a faltar milhares.
O facebook tem estas coisas boas. Acho que vou fazer up-dates todos os dias.

como o dia começa

O tempo que vai desde o sorriso de bom dia até à despedida é muito curto. Em dias como hoje, sobretudo, a minha vontade era levá-la para um sítio bonito e brincar o dia todo, sob a bênção deste sol radioso.
Mas tenho de resignar-me a deixá-la e a vir encerrar-me entre quatro paredes.
Serve-me de consolo saber que a deixo no meio deste maravilhoso pulmão urbano.


 A luz está fraca e as fotos foram tiradas à pressa, em movimento, a conduzir. Um dia invisto mais tempo a captar a beleza deste local. É bom que existam estes espaços. É bom que ela tenha o privilégio de usufruir desta redoma de qualidade ambiental.
Estou desejosa que o sol se torne mais caloroso para que ela possa disfrutar do que a espera na Quinta.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

peneirar o billboard chart #1

Traduz-se na actividade que consiste (à falta de trabalho e/ou vontade de realizar tarefas administrativas aborrecidas) em percorrer o histórico dos tops 100 de sempre, pela orientação do conceituado billboard, e tentar extrair-lhe a nata da nata, desde o grandioso e longínquo ano que me viu nascer até ao presente.
Duas ressalvas: a minha selecção é baseada no top do billboard para cada ano, portanto limitei-me a escolher desse top, com riscos assumidos de deixar escapar alguma das pérolas que possam ter marcado a minha vida e não constem do dito, e, claro, sendo uma selecção minha não visará talvez o consensualmente melhor, mas antes o individualmente mais marcante.
And the winner is:
1979 - I Will Survive - Gloria Gaynor (não deixa de ser uma grande música apenas porque a passámos (passamos) até à exaustão e nas mais diversas versões, em quase tudo o que é disconite. Atentem à sua época.)
1980 - Another Brick In The Wall  - Pink Floyd (preciso mesmo de justificar esta escolha?)
1981 - The Winner Takes It All - ABBA (que mulherada poderosa! Desconfio que me embeiçava por elas e pelos seus glosses, se não tivesse um ano de vida na época e uma vagina.)
1982 - Don't Stop Believin' - Journey (começa a desgraça das bandas que potenciam os grandes karaokes do século XXI. Adoro.)
1983 - Human Nature - Michael Jackson.
1984 - Thriller - (guess?) Michael Jackson (repetir o M.J. quando há tão bons a ficar para trás? Pois, as escolhas tenderam a ser difíceis mas esta repetição era inevitável.)
1985 - Summer of '69 - Bryan Adams (se eu não escolhesse esta, teria de negar toda a minha adolescente existência.)
1986 - Nikita - Elton John (quem era a miúda de escola que não queria ter a pele da Nikita, e os olhos da Nikita e o chapéu da Nikita? E dar um tiro ao senhor que tratava mal a Nikita...?)
Como se vê, há muito aqui que não tem a ver com a qualidade da escolha. Há aqui muito de mim, pequenita, pequenita.
Qualquer dia vem o resto. Agora tenho mais que fazer.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

La Vita è Bella - bandas sonoras #4



Dispensa comentários.

patrício

Queria escrever qualquer coisa sobre o Sporting-Benfica de ontem, mas pensava para mim que não valeria o esforço. O benfica saíu vitorioso, ok, urras e vivas com fartura, mas não foi lá uma grande partida. Cartões, expulsão, futebolinho muito fraquinho do Sporting porque é evidente: eles não sabem fazer melhor e quem não quer ver é cego, uma gestão de esforço da parte do Benfica (devido a meio tempo com o onze transformado em dez e porque dois jogos por semana nas perninhas é coisa que o futebolista português tem dificuldade em digerir) e assim decorreu, morno, com mérito mas também com alguma borrifadela de divino nos ressaltos que deram origem aos golos. Enfim, dá ideia de que o que apetece dizer é que podia ter sido melhor e para mais, num jogo em que já existiam doze pontos de diferença entre as equipas e uma delas está animicamente mais fraca que um desempregado de longa data, adivinha-se que, seja qual for o desfecho, a montanha vai sempre parir um rato.
Mas quando eu pensava que nada de nada que se relacione com o Sporting-Benfica de ontem teria grande interesse, descubro esta espécie de milagre gráfico.

as minorias

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

mais do costume

Hoje sonhei muito. Sonhei com uma pessoa que não conheço. Um estranho.
E ali estava, familiar e naturalmente, a invadir território que não lhe pertence, com ousadia, sem receios, como se outra coisa não fosse de esperar.
O estranho ria-se para mim de forma franca, enquanto abanava a cabeça como quem me toma por frágil, como se eu fosse uma criança de colo que ele quer e sabe que pode proteger. Sinto-me vulnerável como se aquele sorriso mostrasse que eu sou transparente. O estranho consegue ver-me como se eu fosse revestida por uma carcaça de cristal, que deixa perceber o bater mais forte do coração, o sangue a correr mais depressa e todas as alterações que se processam no meu interior. Tento calar o pensamento mas as palavras aparecem escritas no ar e nada do que penso ou sinto permanece mistério. E há qualquer coisa de condescendência na sua postura, como quem mostra que pode optar por uma de duas coisas, das quais depende toda a minha vida. Deixa-me quebrada, impotente.
Enquanto acordo devagar, percebendo que estou a passar desse estado de respiração suspensa para o despertar da consciência, tenho tempo para perceber que ele tem uma terceira opção, a de não escolher. E ainda vislumbro, antes de abrir os olhos, aquele sorriso complacente, que me dá a certeza de ter paredes transparentes e de estar a ser constantemente observada.

Uma noite mais ou menos igual às outras, portanto.

...

Já passaram dez dias. Morreu a mãe de uma amiga, do nada, num segundo, sem um ai.

Obriguei-me mais uma vez a aceitar que, quando estas coisas acontecem, temos de conciliar o luto com as inevitáveis burocracias e formalidades. Aflige-me que haja tanto em que pensar quando o corpo só consegue sentir desalmadamente. Ponderei mais uma vez sobre a morte. A morte acontece sempre, mais cedo ou mais tarde. Ou deixamos alguém a sofrer por nós ou teremos de aceitar sofrer por alguém que parte. Cheguei mais uma vez à conclusão de que mais vale não pensar muito.

De uma forma obstinada, sempre me agradou a 'lógica' da longevidade ser o pretexto ideal para a morte. Lembro-me de, em pequena, temer que me faltasse a minha mãe, por alturas em que comecei a perceber que as pessoas mais velhas iam desaparecendo para sempre. Era um medo horrível. Mas fui crescendo com a ideia de que, por muito que a minha vontade seja a de perpetuar até aos limites do possível a vida dos meus pais, será sempre melhor que não sejam eles a ter de suportar a dor de me perder a mim.

E agora que fui mãe renova-se com muito mais significado esta filosofia. Nenhuma mãe do mundo devia passar pela dor que (imagino) seja a de perder um filho.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

em calha


Já a seguir.
E vem da minha Caleidoscópio.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

lágrimas de leão

scp vs naval 4/02/2011

Para mim, o futebol não tem a ver com lógica e raciocínio. Nem tem a ver com matemáticas. E se é certo que nos vemos obrigados a exigir vitórias para somar pontos e atingir um auge, temos de admitir que isso só acontece em função do momento emocional que esse auge implica. Normalmente o auge dá-se nas conquistas, e em última análise, é disso que a competição depende. Mas, uma vez por outra, o futebol ganha outras dimensões, que nada têm a ver com resultados, e são repletos de emoção.
Infelizmente, o sporting não encheu a casa na sexta-feira passada, para que uma lotação esgotada pudesse ter assistido ao que dificilmente alguma outra equipa alcançará este ano.
O meu coração eternamente rival emocionou-se com tamanho arrebatamento.
Depois de mais noventa minutos de inglória descoordenação e por ocasião de um acontecimento que à luz da racionalidade é mais uma bronca considerável para o clube, a única explicação para tantos adeptos voltarem para casa com os corações quentinhos é mesmo a prova irrefutável de que não é dos golos e das fintas que vive o futebol, mas antes do amor irracional, louco e descontrolado que ele desperta nas pessoas.

sábado houve disto


...aqui:

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

esperar, esperar, esperar para ver

Quem havia de dizer que o cabrão do César Peixoto ia jogar à farta contra o Porto?
É oficial, não tomo mais nada como certo nesta vida.

(qualquer dia até o Luís Filipe se lembra de uma coisa destas!)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

'closer' bandas sonoras #3




Esta é a de sempre.
Mais concretamente, dos últimos dias.
Muito particularmente, de hoje...

p.s. tive um namorado que me lembra bastante o Jude Law e até nem acho que foi o mais giro de todos, o que faz de mim uma mulherzinha com alguma sorte (ou com problemas de visão, o que é muito mais provável visto sofrer de astigmatismo e usar óculos para ler, ver televisão e me debruçar aqui ao blogue).

sr. antónio

Hoje sonhei com a mercearia onde ia com a minha mãe. Fui atendida pela Piedade e comprei dvd's que estavam em promoção (lá não se vendem dvd's) e ofereciam o terceiro na compra de dois. Depois fui devolvê-los. Ainda não era aquela prenda. Era para ser um jogo para a Playstation (o que me deu para comprar dvd's?). Está a esgotar-se o tempo. Corro para o carro e vou ver o saldo bancário, com preocupação (a primeira coisa efectivamente lógica na presente conjuntura). Tenho 32 euros. O que se faz com isso? Tenho uma prenda para comprar e, como de costume, tem de ser perfeita, adequada mas, como de costume, só consigo pensar em quantidade para compensar a qualidade.
Costumo sonhar muito. Normalmente com obrigações, chatices, contrariedades, coisas que me perturbam, que não me dão prazer. Preocupa-me que esta prenda represente tudo isso.

dias

Era preciso que tivessem paciência para mim.
Era preciso que me deixassem sentir necessidades.
Era preciso que me levassem a beber um café, a caminhar à noite, com pés frios e muita roupa.
Era preciso que terminássemos num lugar quente, com caras estranhas e música alta, com suor de corpos e casas de banho à pinha.
Era preciso eu esquecer-me de que sou precisa.
Era preciso alguém querer sentir-se assim comigo.
Era preciso não me sentir tão deseperadamente à parte.
Era preciso tudo isto para me convencer que não estou completamente sozinha.

25 aninhos

Já não é Vitinho.
Agora já se chama Vitor. Com sorte, acabou o ensino superior e já é Dr. Vitor.
Faz de conta que ainda não passaram 25 anos, Vitinho...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

a minha (tardia) homenagem

metáfora da vida humana (autor)

"E tu, ó cornaca, que raios vais tu fazer com o elefante a viena, Provavelmente o mesmo que em lisboa, nada de importante, respondeu subhro, irão dar-lhe muitas palmas, irá sair muita gente à rua, e depois esquecem-se dele, assim é a lei da vida, triunfo e olvido, Nem sempre, Aos elefantes e aos homens, sempre, embora dos homens eu não deva falar, não passo de um indiano em terra que não é sua, mas, que eu conheça, só um elefante escapou a esta lei, Que elefante foi esse, perguntou um dos homens das forças, Um elefante que estava moribundo e a quem cortaram a cabeça depois de morto, Então acabou-se tudo aí, Não, a cabeça foi posta no pescoço de um deus que se chama ganeixa e que estava morto, Fala-nos desse tal ganeixa, disse o comandante, Comandante, a religião hinduísta é muito complicada, só um indiano está capacitado para compreendê-la, e nem todos o conseguem, Creio recordar que me disseste que és cristão, E eu recordo-me de ter respondido, mais ou menos, meu comandante, mais ou menos, Que quer isso dizer na realidade, és ou não és cristão, Baptizaram-me na índia quando eu era pequeno, E depois, Depois, nada, respondeu o cornaca com um encolher de ombros, Nunca praticaste, Não fui chamado, senhor, devem ter-se esquecido de mim, Não perdeste nada com isso, disse a voz desconhecida que não foi possível localizar, mas que, embora isto não seja crível, pareceu ter brotado das brasas da fogueira. Fez-se um grande silêncio só interrompido pelos estalidos da lenha a arder. Segundo a tua religião, quem foi que criou o universo, perguntou o comandante, Brama, meu senhor, Então, esse é deus, Sim, mas não o único, Explica-te, É que não basta ter criado o universo, é preciso também quem o conserve, e essa é a tarefa de outro deus, um que se chama vixnu, Há mais deuses além desses, cornaca, Temos milhares, mas o terceiro em importância é siva, o destruidor, Queres dizer que aquilo que vixnu conserva, siva o destrói, Não, meu comandante, com siva, a morte é entendida como princípio gerador da vida, Se bem percebo, os três fazem parte de uma trindade, são uma trindade, como no cristianismo, No cristianismo são quatro, meu comandante, com perdão do atrevimento, Quatro, exclamou o comandante, estupefacto, quem é esse quarto, A virgem, meu senhor, A virgem está fora disto, o que temos é o pai, o filho e o espírito santo, E a virgem, Se não te explicas, corto-te a cabeça, como fizeram ao elefante, Nunca ouvi pedir nada a deus, nem a jesus, nem ao espírito santo, mas a virgem não tem mãos a medir com tantos rogos, preces e solicitações que lhe chegam a casa a todas as horas do dia e da noite, (...)"

Excerto do livro ' A Viagem do Elefante', José Saramago, 2008

"O livro narra uma viagem de um elefante que estava em Lisboa, e que tinha vindo da Índia, um elefante asiático que foi oferecido pelo nosso rei D. João III ao arquiduque da Áustria Maximiliano II (seu primo). Isto passa-se tudo no século XVI, em 1550, 1551, 1552. E, portanto, o elefante tem de fazer essa caminhada, desde Lisboa até Viena, e o que o livro conta é isso, é essa viagem.";

Livro que é um conto e não um romance "porque lhe falta o que caracteriza em primeiro lugar um romance: uma história de amor - o elefante não conhece uma elefanta no caminho...";

Há anos, em Salzburgo: "Creio que no próprio dia da minha chegada fomos jantar com outros professores a um restaurante que se chamava `O Elefante`. O simples nome do restaurante não era suficiente para despertar a minha curiosidade, mas a verdade é que lá dentro havia uma escultura relativamente grande representando um elefante e havia, sobretudo, um friso de pequenas esculturas que, entre a Torre de Belém, que era a primeira, e outra de um monumento ou edifício público que representaria Viena, marcava o itinerário do elefante entre Lisboa e Viena. Perguntei-lhe o que era aquilo, ela (Gilda Lopes Encarnação) contou-me e, naquele momento, eu senti que aquilo podia dar uma história...";

"(...) é uma metáfora da vida humana: este elefante que tem de andar milhares de quilómetros para chegar de Lisboa a Viena, morreu um ano depois da chegada e, além de o terem esfolado, cortaram-lhe as patas dianteiras e com elas fizeram uns recipientes para pôr os guarda-chuvas, as bengalas, essas coisas...";

"Quando uma pessoa se põe a pensar no destino do elefante - que, depois de tudo aquilo, acaba de uma maneira quase humilhante, aquelas patas que o sustentaram durante milhares de quilómetros são transformadas em objectos, ainda por cima de mau gosto - no fundo, é a vida de todos nós. Nós acabamos, morremos, em circunstâncias que são diferentes umas das outras, mas no fundo tudo se resume a isso";

José Saramago, em entrevista à Lusa, 5 de Novembro 2008

sempre acabamos por chegar aonde nos esperam, assim diz a epígrafe do livro.

José Saramago completou a sua viagem.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

um dia

Um dia, vais conhecer a pessoa da tua vida. Vai ser por acaso, por acidente, por um instinto que reconhecerás mais tarde como desígnio, mas que sempre se afigurou casual. Ouvirás dela as palavras certas, como se te lesse os pensamentos e soubesse que era precisamente o que querias ouvir, ao ponto de te questionares se não será perfeito demais e se poderá ser assim tão como tu és. Imaginá-la-ás a ouvir a mesma música, a gostar dos mesmos acordes e a cantar, de cor, os mesmos refrões. Saberás que aquele ritmo também será irresistível para ela e conhecerás, com toda a certeza, os mesmos sítios em que se sente à vontade, os lugares a que pertence. Saberás das suas fraquezas através das entrelinhas e adivinharás a sua sensibilidade nas estórias dentro da sua história, nos seus fracassos, nas suas desilusões, nas suas conquistas. A pessoa da tua vida pode nunca cruzar-se contigo na rua e podes nunca olhá-la na cara. Pode até acontecer que grande parte do que essa pessoa te dá seja virtual. Podes nunca saber porque razão a chamaste à tua vida quando não procuravas nada, e mesmo assim pensares sempre que aquela poderia muito bem ser a tua pessoa. É muito provável que dês contigo um dia algures, num sítio que imagines comum, à espera dela, mesmo sabendo que não vem. Nessa altura vais olhar o horizonte com o pensamento perdido em coisas do imaginário, com a sensação de que, por cima do ombro irá surgir alguém que, certamente, não surge. Ela vai fazer-te pensar e repensar a tua vida e vai fazer-te dizer mais do que estavas disposta a admitir que sequer sentias. E não te assustes, filha, tudo isto poderá acontecer quando já tiveres conhecido a pessoa da tua vida.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

epifania

É curioso que as coisas que mais nos assustam e as nossas pequenas fobias não correspondam, normalmente, a uma ameaça real à nossa vida. A mim, por exemplo, não me interessa nada saltar das alturas, muito embora saiba que se o fizesse seria em consciência, com segurança e munida de meios que me protegessem. Por outro lado, não hesitava em atirar-me a um tanque de tubarões se a alternativa fosse um buraco cheio de centopeias, consciente que esta opção instintiva tem muito mais a ver com paranóia do que com a lógica de querer preservar a minha vida.
São tudo questões curiosas que caem por terra quando estamos melancólica e pateticamente sentados à secretária, a fazer uma porra de um serviço administrativo qualquer, e de repente nos engasgamos com a nossa própria saliva, falhando numa função tão elementar como a que consiste em coordenar a respiração com a deglutição. Fodido não é morrer esborrachada no chão por uma queda de dois mil pés, nem ser engolida por um tubarão. Pior é parar de respirar por dislexia, a olhar par o IC30 e acreditar mesmo que é o fim.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

flugelbinder



Qual Tom Cruise dos tempos de catraio, qual romance, qual sonho temporário de vir um dia a aprender a fazer jiga-joga com garrafas, qual quê.
O que me marcou para todo sempre no Cocktail, foi a descoberta do flugelbinder.

(o que, tendo tanto de desinteressante como de curioso, me leva a questionar, porquê!? porque consigo encontrar o vídeo do flugelbinder e nada de nada da Rita Catita?)

daqui por... hora e meia


hoje,
mais difícil do que o rabo para dentro, a força abdominal, os ombros afastados das orelhas e as pernas ligeiramente flectidas..
mais difícil do que a força bem direccionada, o domínio do equilíbrio e a resistência..
mais difícil do que o controlo total da respiração e a insistência nos alongamentos perfeitos...

bem mais difícil que tudo isso vai ser o Sr. Joseph Pilates convencer-me a vestir t-shirt e a descalçar as meias grossas.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Pink Floyd - Hey You Lyrics [Recently featured in the film 'Due Date'] bandas sonoras #2



Due date foi o filme de sexta à noite. Sem grandes enredos, como seria de esperar de um filme para proporcionar gargalhadas fáceis.
Não fica na lista dos melhores, nem dos piores.
É unlisted.
Já a banda sonora teve ali um esgar de genialidade.

ainda o domingo

Afinal, não fui votar. Fiquei em casa, com a minha cria, porque fazia um frio escandinavo e não estou para sujeitá-la a uma pneumonia porque houve um dia um 25 de Abril. Actualmente, vejo as eleições como um daqueles e-mails que nos prometem azar se não reenviarmos para a nossa lista completa de contactos e acabo sempre por ir votar com um sentimento de não vá o diabo tecê-las!. Este ano, resolvi agir em conformidade. Acredito tanto nas fervorosas convicções dos candidatos como nas promessas de felicidade e riqueza que circulam na internet, portanto, exerci o meu direito de não reencaminhar ninguém para a cadeira do poder.

p.s. Eu sei que a abstenção é uma forma de facilitar a maioria anunciada, mas parece-me que o prof. Cavaco Silva também saberá que a sua reeleição tem mais a ver com a indiferença dos portugueses do que com a confiança que depositam no Presidente.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

domingo

Até há dois dias atrás, não estava consciente que as eleições presidenciais se iam realizar no próximo domingo. Sabia que eram em Janeiro mas, não fosse o caso de afinal não ser assim tão eremita como às vezes faço passar, iria acabar por chegar a meio de Fevereiro até me aperceber que, efectivamente, Janeiro já era. Não tenho assistido a telejornais, a tempos de antena, nem tenho lido nada de jeito sobre actualidade. Em tempos idos sentir-me-ia embaraçada com tamanha alienação, com tão grande ignorância, e considerar-me-ia fortemente responsável pelo rumo que este país tomou. Neste momento, não poderia estar mais nas tintas para essas tretas da consciência. Hei-de ir votar sim, mas vai ser um grande transtorno porque ainda não alterei a minha freguesia eleitoral, e só o faço porque ainda vivo no medo daquele mito que diz que os bancos podem não dar crédito aos cidadãos que não cumpram com os seus deveres cívicos.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

rita catita


Era uma delícia. Falava muito e muito depressa, era políticamente incorrecta - o que é caricato num desenho animado - e respondia em directo a telefonemas para o programa. Eu já era crescida para assistir a programas infantis mas ela era mais que um boneco: era impetuosa, rebelde, irritante, stressada, impaciente e tinha um sentido de humor que, estou convencida, estava muito mais direccionado para adultos do que para crianças. Talvez por isso o programa não tenha sido um êxito e poucos se lembrem dela. Talvez por isso não consiga encontrar referências ou links que não terminem numa breve anotação de um ou outro blogger ou então num beco sem saída: a tvi eliminou as provas da sua existência.
Gostava tanto de ouvi-la mais uma vez. E de apresentá-la à Teresinha.

penso eu de que, jorge

Coitado do senhor, que não há quem o interne de vez num SPA paradisíaco, onde possa passear-se apenas com uma toalhinha branca à volta da cintura gorda, exibindo as suas peles flácidas, rodeado de meninas tesudas e recém chegadas à maioridade. 
Não há prece ou rogo que nos prive dos seus disparates.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

tudo do avesso

Sinto-me defraudada com a preocupação "psicopedagógica" a que sujeitam os miúdos agora. Ao que parece, as músicas que me cantavam na infância e que faziam 'eventual' referência a uma palmada ou um castigo, têm passado com grande preocupação pela censura diplomatizada que, como sabem, se ocupa hoje em dia, desde muito cedo, com a prevenção de futuras mazelas psicológicas nos miúdos - potenciais assíduos no acompanhamento profissional da terapia comportamental. A solução parece ser simples. Retiram-se alguns versos nefastos de canções sobejamente conhecidas, como nas Pombinhas da Cat'rina, em que a menina já não tem de se preocupar por ter partido a cantarinha, e portanto a versão que canto à minha filha é diferente da que me foi cantada, salvaguardando-a assim de um percurso infantil problemático e certamente de quedas muito pouco saudáveis a jogar à boa da cirumba e ao piolho.
O mesmo acontece em relação às histórias infantis, de uma forma ainda mais flagrante. Aqui, não alteram uma ou outra palavra, optam logo por mudar radicalmente a história, mantendo apenas as personagens. Por exemplo, a Capuchinho Vermelho desta nova Era é um absurdo: o lobo não é mau, não come crianças, não morre com o bucho cheio de calhaus. É antes uma espécie de animal doméstico, dócil (à semelhança do urso castanho - inspirado no pardo, um dos mais perigosos de sempre - mas que já ganhou há décadas um estatuto de fofinho), e já vi uma versão que culmina com um alegre piquenique entre a avó, a Capuchinho e o Lobinho, provavelmente a comer tofu. E com o Pinóquio é o mesmo, uma treta que nada tem a ver com o original.
É escandaloso ser mãe neste cenário. Fico sem palavras.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

bandas sonoras #1



É uma bela rúbrica. Música e cinema. Duas coisas que, não poucas vezes, andam de mãos dadas no meu pensamento. Inauguremos então a rúbrica, com a banda sonora mais improvável de todas: (eu, que nasci em 1979) retirada de um conto adaptado ao cinema em 1989, Life Lessons - integrado no filme Contos de Nova Iorque. Com um Nick Nolte já bem entradote para poder ser marcante na vida de uma miúda de dez anos de forma mais ou menos romântica, a não ser na minha, e uma Rosanna Arquette que era já tão pouco actriz como é hoje. E uma música de 1967, para agravar mais esta falha tectónica que existe na organização cronológica que é a minha vida.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ontem hoje amanhã

Sei que se enumerar as tarefas antes de as pôr em prática, mesmo que mentalmente, vou começar a executá-las já cansada. Às vezes é mais forte do que eu. Ainda estou no trabalho e quando faltam cinco para as seis já estou a pensar que, partindo do princípio que me ponho a andar às seis e meia, hei-de levar pelo menos vinte minutos a chegar ao colégio e depois é dar colo até ao carro, chegar a casa e transportar criança mais sacos (há sempre sacos), debaixo de chuva ou vento ou o que vier e aguentar os braços dormentes até ao sétimo andar, a olhar suplicante para o display do elevador, que passa lentos os números, e apostar, periclitante, em qual dos dois perco a força primeiro (pensando sempre, claro, que não pode ser no braço que leva a miúda). Depois de abrir a porta de casa sem saber bem como, deparo-me sempre com um dilema. O que fazer primeiro? Normalmente, e dependendo do estado consciente ou inconsciente da Teresa, os sacos ficam no hall, à espera de novas ordens, enquanto a deito/despacho (meaning=tirar gorro, despir casaco, puxar sapatos e acomodá-la na caminha/na sala com os brinquedos e o Baby First ligado). Fica a marinar. Às vezes, vou fazer xixi quando me lembro que é imperativo e já estou com vontade há... desde as cinco para as seis, vá. Depois pego nos sacos e arrumo as compras, enquanto vou trauteando/conversando/cantando para a sala, para não sentir que depositei ali um peso morto. Mas eis que se impõe o banho. Com isto tudo já são mais do que sete e convinha comer pouco depois das oito. Vai de encher a banheira, preparar pijama, arrastar a pequena, ligar o aquecimento, despir a pequena, enrolar na toalha, banheira, chap chap, espuminha aqui, té té té, pápápá (mamã é mentira), enrola em toalha e toca de secar, hidratar a pele, colocar fralda, limpar ouvidos, esguichar soro, chupar ranho, pentear caracóis e... voilá. Sentar na cadeirinha e aquecer a sopa e preparar a fruta trauteando/conversando/cantando. Dar colher, mais colher, mais colher, e brrrrr, e esguicha sopa porque já está a barriga satisfeita e é hora de brincar com a comida, e despacha fruta e lava boca (cara) e dentinhos (sete e meio da frente). Vai de volta, e agora já estão os Simpsons na Fox, que entretenimento, e eu volto para lavar pratinho e colher e pensar se há jantar ou se como cereais, ou se não é melhor aproveitar e ir tomar banho enquanto a barriga cheia e os Simpsons a têm sedada. Porque o pai não está, nem sei a que horas chega, que trabalho de gripista não tem horas e às vezes nem vem e acumulam em cima do micro-ondas blocos de notas dos hotéis, e tem de ser mesmo assim, este corre corre, onde nem tudo é mau, desde que não haja febre e urgências e noites mal dormidas, que é bom sinal.
Quando se pára, ah!, quando se pára.. sabe tão bem e ela sorri, como quem diz, estás aqui? A sério? No sofá, na sala, para brincar comigo?
Depois o pai vem (yuppiii, hoje conseguiu!) e despacha-se para ter sorrisos de saudade da menina. Daqui a pouco estamos todos enroscados, nos respectivos quartinhos, e vai o pai e envolve a mãe e diz carinhosamente: queria tanto outro bebé! Vamos fazer outro bebé? Agora!? (esperançado...!)
FODA-SE!

(o pior, é que a mãe também quer)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Love Should - Moby



e assim, sem querer, um amigo lembrou-me do quanto eu gosto disto.

as minhas medidas de austeridade

Estou naquela situação meio indefinida em que a minha condição física é condenável e exige muito trabalhinho de recuperação, não obstante ser demasiado elegante para pensar sequer em recorrer ao Peso Certo nacional. Acho que é aquele estádio em que os gordos nos olham com ar de 'quem me dera ter os teus problemas' e os magros pensam 'não te ponhas a pau, não!' (e agora que revi umas fotografias de épocas áureas, estou mais inclinada para este último pensamento).

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Tulum: o paraíso da propriedade horizontal



Ando com saudades de viajar.
É uma vontade desgraçada de ir para longe e ver outras gentes, esta que me consome ultimamente. Não suporto a alegria dos amigos que voltam da neve ou o entusiasmo dos que vão para os trópicos, pelo simples motivo que se me assoma um feio sentimento de profunda inveja.
Assim estou, entre suspiros, a remoer na última viagem, perdida por entre as fotos e a mergulhar no zoom in do google para ver de perto a praia de Tulum e o azul imenso do mar caribenho. A alternativa a isto é viver na realidade de um Janeiro que não viu um dime do ordenado anterior ou do subsídio de Natal, que é como quem diz, trabalhar por terapia ocupacional.

Para completar este quadro negro, entretenho-me com este vídeo promocional que me remete para duas coisas distintas: off shores e greenpeace.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Lisboa



Não sei como é possível, a vinte quilómetros, sentir tanto a falta da minha cidade.

o mesmo tipo de amor

Há aquelas mães que, mesmo antes de o serem, já se lhes adivinha a rudeza dos gestos, o empinar da anca para apoiar crianças robustas e o comportamento despreocupado, quase negligente. São mães que tendem a sê-lo segunda e terceira vez, e de cada uma, se tornam mais rudes no amor maternal, mais fortes a domar o rebanho, mais relaxadas na sua maternidade. Não são necessariamente as mães pobres, de bairro, de campo. Há-as também urbanas e citadinas, que não lavam roupa no tanque e trabalham num escritório.
E há aquelas outras mães, que o são em toda a sua candura desde a embrionagem do rebento. As que preparam com afinco ninhos de linho e puro algodão. São as que gostam dos tons pastel e decoram o quartinho com irrepreensível bom gosto, deixando-lhe permanentemente uma aura clara, brilhante, e um agradável odor a bebé. Têm sempre gestos delicados, as fraldas são bordadas, as roupas são hipoalergénicas e os objectos são imaculadamente esterelizados.
Não me revejo numa, nem na outra.
Parece que em alguma coisa na minha vida existe finalmente algum equilíbrio.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

então obrigada

Hoje de manhã ouvi na rádio que hoje era dia do agradecimento. Homenagem ao Obrigado/a.
Segue daqui da Terrugem, onde geograficamente partilho da noção de suburbanismo, um muito obrigada para o alfaiate, pela sua inspirada visão do mundo.

...todavia, me gusta

O amor às vezes é uma chatice.
Quem disser que o amor é lindo e que são só passarinhos verdes, borboletas e papoilas está a fazer uma confusão qualquer. O amor, como quase tudo o que é digno de ser, é trabalhoso, complicado, nem sempre branco, nem sempre preto, cheio de dificuldades e artimanhas, enganador e muitíssimas vezes uma chatice do pior. Ou é porque sim ou porque não, ou porque hoje eu quero e tu não estás ou porque amanhã estou tão bem e vais estragar tudo, ou porque o espaço é muito ou porque é pouco, ou porque somos a menos ou talvez sejamos a mais. É uma canseira. Na realidade, acho que o amor só é esse amor-arco-íris de vez em quando. O resto do tempo vai de férias e faz da cumplicidade o seu substituto.

a semântica

Democracia é uma palavra bonita, fazendo jus à conotação que lhe está inerente. Todas as coisas boas deviam ter um nome bonito, uma designação que lhes fizesse justiça, o que nem sempre acontece e é pena. A palavra democracia é fácil, é suave, é sucinta, e a sua verbalização pode e deve ser frequente, como os champôs que defendem uma utilização diária para obtenção de melhores resultados. Quanto mais nos valermos do argumento da democracia, mais inclinados estamos para o que está certo e nunca é demais acrescentar aqui e relembrar acolá, que a nossa sociedade é democrática. O nosso regime político é democrático e o nosso país, a sociedade actual, não conhece as palavras regime autoritário, palavras feias, duras, rígidas, inflexíveis, de opressão. Somos uma democracia plena - mais uma expressão bonita.
Mas a democracia, qual manta suave e delicada, esconde na sua beleza e na plenitude da sua semântica, processos burocráticos e esquemas políticos tão feios que não se lhes adivinha fim. Como o traço formal e elegante de um fato ministerial contrasta com a farda camuflada e grosseira de um general do terceiro mundo, como as medidas políticas tão bem alinhavadas e floreadamente argumentativas de uma medida de austeridade contrasta com a palavra de ordem de um ditador, também a suavidade da palavra democracia se vê oposta ao seu obscuro significado.
A democracia, desgraçadamente, vê-se assim a perder beleza. Já não se olha para ela como antes. Já ninguém a crê como bela, como certa, como o argumento que se utiliza frequentemente com tanto crédito. Os homens que inventaram o conceito de democracia praticam-no de forma pouco lisonjeira, corrompem-na. A própria utilização da palavra vai caindo em descrédito. Começa a acreditar-se que apregoar a democracia ostensivamente já não garante resultados de qualquer espécie, tal como sempre acreditei que usar champô no cabelo com frequência diária não garante melhores resultados, apenas satisfaz o interesse económico de alguns.
Quando penso no mal que se faz debaixo da suave manta da democracia, a palavra deixa de parecer-me tão bonita, tão fácil, tão sucinta.

Projectos que não falham

Manuela Azevedo, Camané e Jorge Palma.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

inédito

O Funes Mori está aqui está no Porto.
O cândido sentido de oportunidade da comunicação social provoca-me um sentimento balanceado entre a vontade de rir e a de chorar.
E dejá vu.

um ano disto!

dia de excepção.
dia de fotos pessoais.
à Teresa, parabéns e obrigada por seres (minha).

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Michael C. Hall a.k.a DEXTER


2010
Curado do cancro.
Divorciado da escanzelada da 'irmã'.
2011
De regresso, com a mesma fome de sangue.
A mesma franja.
O mesmo olhar.

Não dá para resistir.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Turn! Turn! Turn! (to Everything There Is A Season)



Que em 2011 saibamos viver tudo o que vier.
Time, time, time...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

queria desejar um bom ano...

... às pessoas que nos proporcionam silêncios confortáveis;
... àqueles de quem não sabemos há séculos e nos fazem felizes quando dão notícias;
... às pessoas que, no comércio & serviços, nos são prestáveis, gostem ou não do emprego que têm;
... aos bons condutores;
... ao Dexter;
... aos estranhos com quem empatizamos sem saber bem porquê...;
... ao Tim Booth, por não ter parado;
... aos voluntários de boas causas;
... a quem já foi muito importante para nós;
... a quem está longe e gostávamos muito, muito de abraçar e olhar demoradamente depois de tanto tempo;
... a quem falou horas ao telefone connosco apenas por gostar de nos ouvir ou porque precisámos;
... à lagarta Flora, que come maçãs a toda a hora, e faz muita companhia à minha filha;
... aos mais velhos, que algures no nosso percurso, nos ensinaram qualquer coisa;
... ao Benfica, por ter sido este ano, caraças!;
... ao pai, à mãe, à mana;
... a nós;
... a vós.

... 5, 4, 3, 2, 1!

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

ou achar que se é sonhador...

Nunca nada do que acontece é tão bom ou tão mau como eu pensei que fosse.
Vivo de expectativas.
Excelentes e terríveis expectativas.
Alguém deve saber como é...

para o ano há mais (porque é bom sinal)

O meu Natal foi tremendo. Tremendo de bacalhau, de perú, de cabrito, de lombo recheado, de acompanhamentos deliciosos, de roupa-velha e outras variantes salgadas; foi tremendo de doces: rabanadas, filhós, sonhos, bolo-rei, tortas e tartes, miniaturas, arroz doce e aletria; tremendo de queijos e presunto com brôa, pão saloio e regueifa. Foi um Natal tremendo de comida e bebida, tremendo até ao desperdício, curiosamente em ano de aguda crise económica (ninguém me tira da ideia que as pessoas tentam aniquilar o fantasma da crise com um consumismo bruto), que me conduziu não poucas vezes a pensamentos de grande frustração e empatia pelos que teriam, àquela hora, um Natal tremendo de frio, fome e solidão.
Tive um Natal tremendo de criançada, gargalhadas, entusiasmo, calor, luzes e boas cores, que foi também um Natal tremendo de correrias, azáfama, barulheira, birras, choros, discussões e egoísmo.
Foi o primeiro Natal da minha filha. Foi o meu primeiro Natal com a minha filha e não perdi a cabeça, nem as estribeiras por isso. Ela, que nem sabe o que foi tudo aquilo, que rodopiou de colo em colo e não descansou o que devia, mostrando-se, como eu, muitas vezes exausta e nos limites da paciência. Ofereci-lhe um livro, que custou pouco mais que dez euros. Apenas isso, que espero seja algo de que ela goste sempre, os livros.
Tive um longo fim-de-semana de Natal. Foi um bom Natal. E como sempre acontece depois de passar algum tempo com a família toda reunida, suspirei de alívio ao regressar a casa.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

bom natal e muita saudinha

Desde que saí ontem do dentista, com a bochecha direita adormecida e inútil, que questiono quanto tempo irei suportar esta coisa horrorosa que deverei assimilar como parte integrante da minha boca durante alguns meses. E não obstante o facto de achar que sim, que vai valer a pena e que vou implantar um dente lindinho a substituir o meu exemplar que estava irremediavelmente comprometido, custa-me a crer que este bocado de plástico colado ao céu da boca através de um suspeito processo de vácuo, vá alguma vez, durante estes meses que me esperam, deixar de ser, obstinadamente, rejeitado pelo meu corpo. 
Entretanto o meu cérebro anda para aqui às voltas com coisas muito mais importantes, nomeadamente as palavras 'filha', 'internada', 'febre', 'raio-x', 'análises', 'ventosas', que estou ainda a tentar conjugar numa frase com sentido que não me faça o coração em fanicos, enquanto espero um ok para deixar o trabalho, onde não estou claramente concentrada em coisíssima alguma, para poder correr para lá, onde, mesmo sem poder fazer nada, quero estar presente.
Não há prótese para substituir o coração de uma mãe.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

a quem ocorra transmitir-me hoje mais alguma vibração negativa...

... please, think again.

p.s. Sinto o cheiro da mudança. Não sei se é bom porque é parecido com o das castanhas cozidas: a erva-doce é agradável ao olfacto mas não me satisfaz o palato.