terça-feira, 28 de junho de 2011
do desespero
"A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida – o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos
Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?"
A transparência perdida – o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos
Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?"
Os Erros, Sophia de Mello Breyner Andresen, em O Nome das Coisas
segunda-feira, 27 de junho de 2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
outra vez política
Correndo o risco de estar a sofrer de parolice aguda, que se calhar se contrai efectivamente no campo e/ou em pequenas aldeias suburbanas, ou a transformar-me (finalmente!) numa pessoa optimista, dei por mim a assistir embevecida e cheia de esperança ao desfile do governo recém empossado. Gostei de tudo: do jovem ministro que se passeia de vespa (imaginei-me parada ao lado dele num semáforo lisboeta, que ideia bonita...), da Assunção Cristas no seu jeito despachado, apeteceu-me inventar uma pasta para a Teresa Caeiro e lembrei-me emocionada do código postal do nosso primeiro-ministro. Tudo muito jovem e cheio de pica, a ir almoçar à pressa para ir logo a correr ter com o FMI, de mangas arregaçadas.
Ai, valentes! Não votei em ninguém, mas fiquei contente com este resultado.
terça-feira, 7 de junho de 2011
abstenção
Não fui votar.
Não me arrependo, não me sinto envergonhada, nem considero que a minha abstenção constitua uma falta de respeito e reconhecimento para com aqueles que um dia ousaram impôr-se ao fascismo e conquistaram, entre outras coisas, o direito ao voto.
Acho que os políticos, de uma forma geral e sem legitimidade para tal, se tornaram elementos de uma espécie de elite aristocrática deste regime dito democrático. As regalias que lhes assistem os seus cargos e os privilégios imorais que o seu estatuto lhes garante deviam ser proporcionais aos seus níveis de empenho e de serviços prestados.
A mim soa-me que deviam ser eles a ter a vergonha de justificar a livre escolha dos cidadãos por um direito adquirido numa luta cujos ideais não se reflectem na postura dos que agora nos governam. Não me parece que a revolução de Abril visasse um futuro dependente e bajulador da Europa, nem governadores corruptos e literalmente aldrabões. Soa-me que deviam ser eles a sentir-se embaraçados por gastar o meu dinheiro em campanhas absurdas e milionárias em época de crise.
Não me revejo em ninguém, em nenhum.
Podia fazer como muitos e optar pelo chamado voto útil, ou o voto de protesto, ou o voto em branco. Podia gabar-me do dever cívico exercido de ter estado lá, a cumprir. Votaria talvez no partido que defende os animais, coerente com a minha teoria de que valem mais do que muitos de nós.
Não, não fui votar e não quero saber das críticas.
Espero que aqueles que foram tenham feito a escolha mais acertada, porque eu não a saberia fazer.
Não fui votar porque considero o voto um direito que devemos exercer em consciência e não um dever que temos de exercer em desespero.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
anita garibaldi
está em rodagem, em Portugal.
Por causa dela, há famílias sem pai em casa dias e noites a fio.
Revolucionários!
quinta-feira, 2 de junho de 2011
piratas
Ir ver a Penélope Cruz e o Johnny Depp a 3D com uns monos oculares por cima das minhas delicadas lunetes serviu para quatro coisinhas:
.ficar com a certeza de que a Penélope não devia andar nestas lides em periodo de gestação;
.convencer-me de que a história devia ter ficado pelo terceiro filme (quiçá pelo segundo);
.reforçar a ideia de que as sereias são as minhas figuras mitológicas preferidas (nesta versão sensual e demolidora);
.sair da sala com uma valente dor na cana do nariz.
O Jack está igual a ele mesmo o que é bom e mau: é tão fiel à personagem que uma quarta sequela já não lhe faz justiça.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
terça-feira, 31 de maio de 2011
Continente
Quando entrei reparei logo no rapaz. Talvez porque era bastante alto e fez um gesto brusco com a cabeça, soprando para trás a madeixa de cabelo ondulado que lhe cobria parte do rosto. Mas deve ter sido, sobretudo, porque passei muito perto da caixa dele para me dirigir ao interior do supermercado, que olhei sequer naquela direcção. Ainda cirandei dois minutos a ver algumas revistas mas dirigi-me logo à secção de produtos de higiene e cosmética. Só queria mesmo comprar tinta para o meu cabelo, que agora tem dois tons de castanho, o que me deixa mais incomodada que os cabelos brancos.
Fui para uma fila, distraidamente, a olhar para o escaparate de pastilhas e pilhas duracell e a pensar que tinha de ir comprar ben-u-ron. Distraidamente, para a fila do rapaz. Estavam três pessoas à frente, com poucas coisas na mão e ele atira-me um meio-sorriso e um olhar rápido de alto a baixo, assim, com aquele tipo de indiscrição intencional mas subtil. Vou avançando e aquele olhar, que já não enfrento mas sinto pousado em mim, vai continuando. Estou a pensar, muito rapidamente que aquilo deve estar a dar-lhe um gozo tremendo e que o miúdo anseia que chegue a minha vez para ganhar a legitimidade para olhar, falar e sorrir enquanto as duas embalagens de tinta e o o verde-código-verde o justificarem. Apetece-me dizer-lhe que devo ter idade para ser, vá, professora dele. E dizer-lhe que sou casada e mãe de família. E exibir-lhe os cabelos brancos da franja que me obrigam a pintar o cabelo da minha côr natural, para ver se ele se enxerga. Mas não. O miúdo é diferente. É imberbe, mas é ousado, destemido, simpático e, à sua maneira, galanteador. Se calhar topou-me mais velha à distância e provavelmente reparou nos cabelos brancos e noutros pormenores que nem eu sei que saltam à vista, mas talvez tenha sido disso que gostou.
Acredito que há miúdos-homens com uma maturidade para o amor que só uma mulher mais velha pode satisfazer. E apreciar.
Damien Rice - 9 Crimes (Live Abbey Road 2006)
"...as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora."
Milan Kundera
segunda-feira, 30 de maio de 2011
os dias em que finjo
Pode parecer sinónimo de uma incapacidade inata para ser feliz, mas a verdade é que não me concebo de outra forma. Desde sempre me lembro de achar que a coisa mais reconfortante do mundo era a inacessibilidade da nossa mente, aquele mundo vago onde se concentram as coisas sensoriais e o pensamento fictício que, de uma forma ainda assim lógica e racional, concebe as estórias que não vivemos na vida real. Rostos, vidas, expressões, vozes, gestos, momentos inventados.
Há ocasiões do passado que não estou certa de ter vivido ou imaginado, assim como pessoas que foram importantes por não ultrapassarem esse patamar metafísico onde a única história boa que existiu se deve precisamente ao facto de não ter existido. Mas fingir que as coisas são pode ser extremamente doloroso quando não fingimos apenas o que queremos que seja mas também aquilo por que se receia, e nesse caso, a história que afinal até nem é pode provocar-nos lágrimas amargas.
A minha vida sempre foi assim, feita de fingimentos mais ou menos trágicos, de mensagens subliminares - em muitos casos de mim para mim - de fazer de conta que é mas deixar isso suspenso, para saber mais tarde ou não. Não me imagino de outra forma. Os livros que nunca consegui escrever tenho-os a todos gravados algures cá dentro. E é um volume que nunca pára de aumentar.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Entre estas imagens, existem pelo menos mil diferenças. Descubra quais.
Todas essas diferenças se prendem com falta de classe, gosto e sentido de oportunidade.
O Partido Comunista caminha a passos largos para uma morte lenta e dolorosa.
Completamente merecida.
o campo
Ontem, um pirilampo que entrou pela janela da casa de banho e aterrou fragilizado na banheira fez-me lembrar tempos idos, uma infância com berlindes e jogos de rua.
Saudades de não bocejar da vida.
De cansaços felizes.
Pisca, pisca, pisca, e eu penso no milagre daquilo. E acho maravilhoso.
Ainda há esperança para mim (mesmo que me entristeça viver num mundo onde o Homem obriga a chuva a cair do céu, inconsciente do facto de toda a acção ter uma consequência).
terça-feira, 24 de maio de 2011
da parentalidade
Como ser mãe n' este mundo?
Eu olho e desespero. Qual deles eu preferia ser o meu filho?
Desculpem se não tenho o pragmatismo da pedopsiquiatra que vê o despertar optimista de novas formas de comunicação onde eu apenas descortino uma ira descontrolada...
Desculpem se não tenho o pragmatismo da pedopsiquiatra que vê o despertar optimista de novas formas de comunicação onde eu apenas descortino uma ira descontrolada...
segunda-feira, 23 de maio de 2011
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Queen | The Show Must Go On | Music Video
Hoje a minha vida parece uma tragédia grega.
Preciso de mergulhar aqui a alma...
febre
Há coisas que nos podem provocar febre que não são assim tão óbvias como um vírus ou uma bactéria. O atendimento a clientes da Optimus é uma delas. Não sou cliente, nunca fui, mas outra das inúmeras experiências abomináveis que a empresa onde trabalho me proporciona com frequência é a de estar em contacto com os senhores, senhoras, meninos e meninas (assim mesmo, como no circo) que trabalham para este grupo, porque achou em tempos que não voltam mais, que a Vodafone não era satisfatória. Vai daí que venha a mudança.
Sucedem várias coisas que posso dizer sobre isto.
A primeira vem no cabeçalho das facturas e reza assim: prémio APCC 2010. O melhor serviço de atendimento. 1º Prémio da Associação Portuguesa de Contact Centers 2010. Não sei que associação é, nem que troféu é este, nem quais são os critérios de atribuição do mesmo, e admito mesmo a possibilidade de ser uma coisa utópica, fruto da conjugação entre a imaginação fértil de um grupo de criativos, com a necessidade de preencher o espaço em branco ao lado do logótipo. Talvez seja efectivamente uma estratégia de marketing, não sei, não me incomodei em investigar. Seja o que for, liga-se para o apoio a cliente (concretamente para a linha Optimus Negócios - nome pomposo) e o prémio, o troféu, a associação, puf!, cai tudo por terra. Atende um imbecil, domesticado para dizer apenas algumas palavras, de uma maneira específica, que se preocupa mais com a avaliação formal do seu desempenho do que em ouvir o que lhe é perguntado. Depois despede-se com a presunção de que foi de alguma forma útil, questionando o interlocutor (je) se pode ajudar em mais alguma coisa.
A segunda coisa que me vem à ideia é o porquê de se ter um Gestor de Cliente - outro nome pomposo, que supostamente nos dá atendimento privilegiado mas que, na realidade, não responde a um e-mail, telefonema ou sms urgente (e sucessivas insistências) durante meses a fio e depois, um dia, do nada, entra em contacto connosco, por uma coisa banalíssima, com uma naturalidade tal que nos desarma e a disponibilizar-se para qualquer coisa que seja necessária, até ser de facto necessário alguma coisa e se dar novo eclipse.
Lembro-me de outras coisas que se prendem com a dificuldade em pagar uma factura fora de prazo - coisa com que, profissionalmente, estou por demais familiarizada - é experimentar deixar bloquear o serviço e vão ver! Não há referência MB, cheque ou nib bancário que vos valha: aquela malta deixa de querer ver o dinheiro e, em vez disso, tortura os clientes, criando uma referência para pagar cinco euros no multibanco, que servem para quê? Para arrastar o penoso processo que consiste no 'sacrifício' de aceitar duzentas vezes esse valor e recuperar o cliente.
Enfim. Tanta e tanta coisa.
Sem falsas pretensões, juro por mi alma, não querer ferir susceptibilidades: eu própria já fui uma call-girl concorrente dos senhores (tempos de faculdade, malta que não pensa). Mas, foda-se, vocês são fraquinhos.
Grande mérito vos valha, não é qualquer coisinha que me faz febre!
terça-feira, 17 de maio de 2011
fujo, mas eles perseguem-me
e dou por mim a gostar disto como não me lembro de gostar de coisas 'novas' desde os Keane...
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