sexta-feira, 22 de julho de 2011
terça-feira, 19 de julho de 2011
Houve uma altura em que me julgava capaz de escrever tudo e de todas as formas. Evidentemente que sempre tive o meu estilo, que se caracteriza, na medida das minhas limitações, pelo perfeccionismo ortográfico, e que esse estilo sempre incluiu as respectivas fraquezas, como não saber responder na ponta da língua como se conjuga determinado verbo num tempo verbal com nome pomposo. De facto, coisa que nunca tive foi mesmo o domínio sobre os sintagmas. Sempre preferi saber conjugar as coisas, mesmo que não soubesse o seu nome, embora isto se tornasse complicado quando, num exame, me pedissem para identificar ou construir algo a partir do nome que lhe davam. As minhas boas notas sempre se deveram muito mais ao pedacinho dedicado à composição livre, o que sempre me permitiu respirar de alívio e constituiu a ponte para os meus modestos sucessos. Dentro deste que sempre identifiquei como sendo o meu estilo, julguei sempre existir uma margem de manobra grande, adaptável, conciliável com outros estilos, outras exigências linguísticas, outras necessidades e solicitações. Isso fez-me crer nalgumas escolhas como sendo óbvias e acertadas, que, sei hoje, não o são garantidamente.
Escrevi sentimentos durante muito tempo, embora saiba desde cedo que só o devemos fazer entre iguais. Quem não escreve sentimentos também não os pode compreender escritos e normalmente não tem maturidade sensível para os merecer. E escrever sentimentos não é escrever cartas de amor. Essa é outra coisa que inspira enganos. Gosto de pensar que escrevo sempre sobre sentimentos porque não existo exclusivamente racional mas antes empírica, e não sei passar a minha vivência por um filtro. Certo dia, numa breve entrevista para um possível emprego numa redacção, foi-me apresentado um teste para analisar a minha capacidade de síntese e, espero eu, avaliar a qualidade do que era escrito. Um pouco nervosa, por ter pela primeira vez à minha frente a terrível folha em branco, demorei a arrancar para conseguir passados minutos qualquer coisa meio oca. Acredito hoje que, não pela falta qualidade mas antes porque foi uma entrevista concedida por favor e quando não estavam a contratar ninguém, a ausência de feed-back não tenha sido uma rejeição e até me apraz pensar que foi bom não ter conseguido alcançar qualquer tipo de objectivo proposto através de um teste de escrita depurada.
Tenho presente a teoria da pirâmide invertida bem como os critérios exigidos para que um acontecimento seja notícia, a importância da ética e da deontologia, as noções de direito aplicadas à informação, mas de mim só brota a escrita dos sentimentos e sei por isso que o jornalismo me defrauda. E de que interessa isso se, na prática, nada do que se pratica no jornalismo actual tem presentes estes conceitos teóricos?
Vou continuar a escrever neste estilo afinal de contas pouco moldável, ainda que isso não me leve a lado algum.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
das coisas que eu sei da vida
Um homem que conheço dizia-me há tempos que nós, mulheres, somos umas cabras da pior espécie. Tenho para mim que é capaz de ser dos homens que conheço que pior encara a vida sem mulheres, uma ou várias, e mesmo estando por dentro do contexto, sei que este homem vive numa guerra permanente e mais ou menos saudável entre estas duas certezas: a da natureza cruel e manipuladora que faz parte da condição feminina e a da sua resignação face ao deslumbramento que essa mesma condição lhe impõe. Provoca-me nervoso miudinho esta coisa da distinção entre homens e mulheres porque atribuir a causa das coisas a um género, indistintamente, como sendo uma inevitabilidade, é um pouco comparável a dizer que já temos um destino traçado, outra das coisas que me causam espécie pois serve mais de pretexto para desculpar a nossa inércia, do que para justificar as nossas escolhas. E se bem que reconheço tendências comportamentais que se vão valendo de maus hábitos ou tradições bacocas para perpetuar os comportamentos mais masculinos ou mais femininos, não lhes atribuo carácter vinculativo. As mulheres são tão misteriosas como os homens, que é o mesmo que dizer que há alguns que vale a pena descobrir e outros nada têm a oferecer. Ambos se desiludem mutuamente, por motivos semelhantes. Ambos sabem amar infinitamente bem ou são um igual fracasso. Ambos sabem jogar baixo ou manter o nível. Ambos se atacam mesquinhamente quando se lhes esgotam os argumentos. No amor e no sexo vão de doutores a palhaços num instante. Claro que também me apetece dizer que são todos iguais e, sim, a sua líbido funciona de outra forma - isto é ciência, não é superstição - mas também não aguento um ambiente infestado de mulherio por muito tempo. Há alturas em que a todos nos convém dizer que não acreditamos em bruxas mas que as há, há. Mas lá bem no fundo, essa coisa de se dizer a alguém que faz parte de um grupo que é um complot maquiavélico à parte, que não se entende e que se desdenha, não é mais do que uma tentativa vã de incitar a provocação, quando o que se quer na verdade é um convite para poder entrar nessa elite de que não se é pertença.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
intervenção técnica... às minhas dioptrias
O gajo (da optimus) era bem giro, salvo seja!
(posso dizer que aprendi hoje uma boa lição: não desdenhar ou fazer troça do uso de expressões populares que nos podem vir a ser muito úteis em ocasiões como esta. Vai buscar!)
coisas com piada
Receber uma chamada no escritório: sou técnico da optimus e estou a deslocar-me para as vossas instalações para uma intervenção... pode explicar-me onde ficam...? Ora, Terrugem.. Parque Industrial de Ar.., salvo seja. Onde fica isto?
Está tudo certinho, rapaz. E o nome é esse. Sem o salvo seja.
message in a botle
Relativizadas as circunstâncias e apurado o resultado da diferença entre prós e contras, sou uma pessoa feliz. Pronto, não ando para aí sorridente, sempre de tacha arreganhada, que esse não é o meu feitio, mas ando satisfeita com a vida. Estou resignada com as inevitabilidades e a tentar pôr em prática aquele que é o conselho mais consensual da parte de quem percebe da arte da felicidade: viver um dia de cada vez e tentar absorver as coisas boas até ao tutano.
Então pergunto, se tenho planos, projectos, se até estou a tentar engrenar um processo de mudança positiva, a juntar pedacinhos de coragem que me farão sair deste agrilhoamento profissional any time soon - I hope! -, e se estou a curtir tanto as minhas pessoas e as minhas emoções, porque raio têm certas pessoas de cortar esta boa onda, insistindo que este é o timing perfeito para ter mais bebés?
Cut it out, porra!
quinta-feira, 7 de julho de 2011
rating
Não andava nada preocupada com a minha desinspiração, até porque de bom grado aceito perder toda e qualquer vontade de escrever se isso significar uma reconciliação interior que raramente alcanço, porque é sabido que isto da inclinação para a arte da pena resulta, normalmente, de uma de duas coisas: uma predisposição natural para um permanente questionar de tudo (principalmente o que não podemos ter ou mudar) ou uma capacidade intelectual fora de série. No caso de alguns, é o acumular de ambas as circunstâncias mas eu não quero sair da minha liga.
Por isso, numa altura em que até o sexo tem sido irrepreensível em quantidade e qualidade, coisa nem sempre fácil entre gente casada, fico fodida quando aparecem meia dúzia de gajos, provavelmente gente muito ressabiada ainda por cima, a deitar abaixo o meu país, a minha cidade e o meu banco. Porque uma coisa é os factos dizerem que estamos efectivamente na merda, outra coisa é um grupo de cafeínólicos que têm crises de meia idade aos vinte e sete anos, teorizarem sobre a merda que é um país que provavelmente não sabem apontar no mapa.
Tinha de dizer qualquer coisa sobre isto e como o meu poder de síntese não é grande coisa, fique registado que está sublinhada a parte fulcral da mensagem.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Yoav - Beautiful Lie
Babe.
My babe.
You got a secret - it's starting to show.
My babe.
Sweet babe.
How long can you keep it?
How far would you go?
You tell a beautiful lie.
You tell a beautiful lie.
And it's going to, it's going to drive you crazy.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
um segredo de um casamento feliz
" (...) Nos livros profissionais, dizem que a única grande diferença entre homens e mulheres é a maneira como "lidam com o conflito": os homens evitam mais do que as mulheres. Fogem. Recolhem-se, preferem ficar calados.
Por acaso é verdade. Os livros podem ser da treta mas os homens são mais fugidios.
Em vez de lutar contra isso, o marido deve ceder a essa cobardia e recolher-se sempre que a discussão der para o torto. Não pode ser é de repente. Tem de discutir (dizê-las e ouvi-las) um bocadinho antes de fugir.
Não pode é sair de casa ou ir ter com outra pessoa. Deve ficar sozinho, calado, a fumegar e a sofrer. Ele prende-se ali para não dizer coisas más.
As más coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis. Ou, pior ainda, de se repetirem tanto, banalizam-se. Perdem força e, com essa força, perde-se muito mais.
As zangas passam porque são substituídas pela saudade. No momento da zanga, a solidão protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco - ou muito - depois, a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria zanga. Dantes estávamos apenas magoados. Agora continuamos magoados mas também estamos um bocadinho arrependidos e esperamos que ela também esteja um bocadinho.
Nunca podemos esconder os nossos sentimentos mas podemos esconder-nos até poder mostrá-los com gentileza e mágoa que queira mimo e não proclamação.
Consiste este segredo em esperar que o nosso amor por ela nos puxe e nos conduza. A tempestade passa, fica o orgulho mas, mesmo com o orgulho, lá aparece a saudade e a vontade de estar com ela e, sobretudo, empurrador, o tamanho do amor que lhe temos comparado com as dimensões tacanhas daquela raivinha ou mágoa. Ou comparando o que ganhamos em permanecer ali sozinhos com o que perdemos por não estar com ela.
Mas não se pode condescender ou disfarçar. Para haver respeito, temos de nos fazer respeitar. Tem de ficar tudo dito, exprimido com o devido amuo de parte a parte, até se tornar na conversa abençoada acerca de quem é que gosta menos do outro. Há conflitos irresolúveis que chegam para ginasticar qualquer casal apaixonado sem ter de inventar outros. Assim como o primeiro dever do médico é não fazer mal ao doente, o primeiro cuidado de um casamento feliz é não inventar e acrescentar conflitos desnecessários."
(...) Vendo bem, os casamentos felizes são muito mais dramáticos, violentos, divertidos e surpreendentes do que os infelizes. Nos casamentos infelizes é que pode haver, mantidas inteligentemente as distâncias, paz e sossego no lar. "
Miguel Esteves Cardoso, in "Jornal Público"
terça-feira, 28 de junho de 2011
do desespero
"A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida – o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos
Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?"
A transparência perdida – o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos
Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?"
Os Erros, Sophia de Mello Breyner Andresen, em O Nome das Coisas
segunda-feira, 27 de junho de 2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
outra vez política
Correndo o risco de estar a sofrer de parolice aguda, que se calhar se contrai efectivamente no campo e/ou em pequenas aldeias suburbanas, ou a transformar-me (finalmente!) numa pessoa optimista, dei por mim a assistir embevecida e cheia de esperança ao desfile do governo recém empossado. Gostei de tudo: do jovem ministro que se passeia de vespa (imaginei-me parada ao lado dele num semáforo lisboeta, que ideia bonita...), da Assunção Cristas no seu jeito despachado, apeteceu-me inventar uma pasta para a Teresa Caeiro e lembrei-me emocionada do código postal do nosso primeiro-ministro. Tudo muito jovem e cheio de pica, a ir almoçar à pressa para ir logo a correr ter com o FMI, de mangas arregaçadas.
Ai, valentes! Não votei em ninguém, mas fiquei contente com este resultado.
terça-feira, 7 de junho de 2011
abstenção
Não fui votar.
Não me arrependo, não me sinto envergonhada, nem considero que a minha abstenção constitua uma falta de respeito e reconhecimento para com aqueles que um dia ousaram impôr-se ao fascismo e conquistaram, entre outras coisas, o direito ao voto.
Acho que os políticos, de uma forma geral e sem legitimidade para tal, se tornaram elementos de uma espécie de elite aristocrática deste regime dito democrático. As regalias que lhes assistem os seus cargos e os privilégios imorais que o seu estatuto lhes garante deviam ser proporcionais aos seus níveis de empenho e de serviços prestados.
A mim soa-me que deviam ser eles a ter a vergonha de justificar a livre escolha dos cidadãos por um direito adquirido numa luta cujos ideais não se reflectem na postura dos que agora nos governam. Não me parece que a revolução de Abril visasse um futuro dependente e bajulador da Europa, nem governadores corruptos e literalmente aldrabões. Soa-me que deviam ser eles a sentir-se embaraçados por gastar o meu dinheiro em campanhas absurdas e milionárias em época de crise.
Não me revejo em ninguém, em nenhum.
Podia fazer como muitos e optar pelo chamado voto útil, ou o voto de protesto, ou o voto em branco. Podia gabar-me do dever cívico exercido de ter estado lá, a cumprir. Votaria talvez no partido que defende os animais, coerente com a minha teoria de que valem mais do que muitos de nós.
Não, não fui votar e não quero saber das críticas.
Espero que aqueles que foram tenham feito a escolha mais acertada, porque eu não a saberia fazer.
Não fui votar porque considero o voto um direito que devemos exercer em consciência e não um dever que temos de exercer em desespero.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
anita garibaldi
está em rodagem, em Portugal.
Por causa dela, há famílias sem pai em casa dias e noites a fio.
Revolucionários!
quinta-feira, 2 de junho de 2011
piratas
Ir ver a Penélope Cruz e o Johnny Depp a 3D com uns monos oculares por cima das minhas delicadas lunetes serviu para quatro coisinhas:
.ficar com a certeza de que a Penélope não devia andar nestas lides em periodo de gestação;
.convencer-me de que a história devia ter ficado pelo terceiro filme (quiçá pelo segundo);
.reforçar a ideia de que as sereias são as minhas figuras mitológicas preferidas (nesta versão sensual e demolidora);
.sair da sala com uma valente dor na cana do nariz.
O Jack está igual a ele mesmo o que é bom e mau: é tão fiel à personagem que uma quarta sequela já não lhe faz justiça.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
terça-feira, 31 de maio de 2011
Continente
Quando entrei reparei logo no rapaz. Talvez porque era bastante alto e fez um gesto brusco com a cabeça, soprando para trás a madeixa de cabelo ondulado que lhe cobria parte do rosto. Mas deve ter sido, sobretudo, porque passei muito perto da caixa dele para me dirigir ao interior do supermercado, que olhei sequer naquela direcção. Ainda cirandei dois minutos a ver algumas revistas mas dirigi-me logo à secção de produtos de higiene e cosmética. Só queria mesmo comprar tinta para o meu cabelo, que agora tem dois tons de castanho, o que me deixa mais incomodada que os cabelos brancos.
Fui para uma fila, distraidamente, a olhar para o escaparate de pastilhas e pilhas duracell e a pensar que tinha de ir comprar ben-u-ron. Distraidamente, para a fila do rapaz. Estavam três pessoas à frente, com poucas coisas na mão e ele atira-me um meio-sorriso e um olhar rápido de alto a baixo, assim, com aquele tipo de indiscrição intencional mas subtil. Vou avançando e aquele olhar, que já não enfrento mas sinto pousado em mim, vai continuando. Estou a pensar, muito rapidamente que aquilo deve estar a dar-lhe um gozo tremendo e que o miúdo anseia que chegue a minha vez para ganhar a legitimidade para olhar, falar e sorrir enquanto as duas embalagens de tinta e o o verde-código-verde o justificarem. Apetece-me dizer-lhe que devo ter idade para ser, vá, professora dele. E dizer-lhe que sou casada e mãe de família. E exibir-lhe os cabelos brancos da franja que me obrigam a pintar o cabelo da minha côr natural, para ver se ele se enxerga. Mas não. O miúdo é diferente. É imberbe, mas é ousado, destemido, simpático e, à sua maneira, galanteador. Se calhar topou-me mais velha à distância e provavelmente reparou nos cabelos brancos e noutros pormenores que nem eu sei que saltam à vista, mas talvez tenha sido disso que gostou.
Acredito que há miúdos-homens com uma maturidade para o amor que só uma mulher mais velha pode satisfazer. E apreciar.
Damien Rice - 9 Crimes (Live Abbey Road 2006)
"...as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora."
Milan Kundera
segunda-feira, 30 de maio de 2011
os dias em que finjo
Pode parecer sinónimo de uma incapacidade inata para ser feliz, mas a verdade é que não me concebo de outra forma. Desde sempre me lembro de achar que a coisa mais reconfortante do mundo era a inacessibilidade da nossa mente, aquele mundo vago onde se concentram as coisas sensoriais e o pensamento fictício que, de uma forma ainda assim lógica e racional, concebe as estórias que não vivemos na vida real. Rostos, vidas, expressões, vozes, gestos, momentos inventados.
Há ocasiões do passado que não estou certa de ter vivido ou imaginado, assim como pessoas que foram importantes por não ultrapassarem esse patamar metafísico onde a única história boa que existiu se deve precisamente ao facto de não ter existido. Mas fingir que as coisas são pode ser extremamente doloroso quando não fingimos apenas o que queremos que seja mas também aquilo por que se receia, e nesse caso, a história que afinal até nem é pode provocar-nos lágrimas amargas.
A minha vida sempre foi assim, feita de fingimentos mais ou menos trágicos, de mensagens subliminares - em muitos casos de mim para mim - de fazer de conta que é mas deixar isso suspenso, para saber mais tarde ou não. Não me imagino de outra forma. Os livros que nunca consegui escrever tenho-os a todos gravados algures cá dentro. E é um volume que nunca pára de aumentar.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Entre estas imagens, existem pelo menos mil diferenças. Descubra quais.
Todas essas diferenças se prendem com falta de classe, gosto e sentido de oportunidade.
O Partido Comunista caminha a passos largos para uma morte lenta e dolorosa.
Completamente merecida.
o campo
Ontem, um pirilampo que entrou pela janela da casa de banho e aterrou fragilizado na banheira fez-me lembrar tempos idos, uma infância com berlindes e jogos de rua.
Saudades de não bocejar da vida.
De cansaços felizes.
Pisca, pisca, pisca, e eu penso no milagre daquilo. E acho maravilhoso.
Ainda há esperança para mim (mesmo que me entristeça viver num mundo onde o Homem obriga a chuva a cair do céu, inconsciente do facto de toda a acção ter uma consequência).
terça-feira, 24 de maio de 2011
da parentalidade
Como ser mãe n' este mundo?
Eu olho e desespero. Qual deles eu preferia ser o meu filho?
Desculpem se não tenho o pragmatismo da pedopsiquiatra que vê o despertar optimista de novas formas de comunicação onde eu apenas descortino uma ira descontrolada...
Desculpem se não tenho o pragmatismo da pedopsiquiatra que vê o despertar optimista de novas formas de comunicação onde eu apenas descortino uma ira descontrolada...
segunda-feira, 23 de maio de 2011
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Queen | The Show Must Go On | Music Video
Hoje a minha vida parece uma tragédia grega.
Preciso de mergulhar aqui a alma...
febre
Há coisas que nos podem provocar febre que não são assim tão óbvias como um vírus ou uma bactéria. O atendimento a clientes da Optimus é uma delas. Não sou cliente, nunca fui, mas outra das inúmeras experiências abomináveis que a empresa onde trabalho me proporciona com frequência é a de estar em contacto com os senhores, senhoras, meninos e meninas (assim mesmo, como no circo) que trabalham para este grupo, porque achou em tempos que não voltam mais, que a Vodafone não era satisfatória. Vai daí que venha a mudança.
Sucedem várias coisas que posso dizer sobre isto.
A primeira vem no cabeçalho das facturas e reza assim: prémio APCC 2010. O melhor serviço de atendimento. 1º Prémio da Associação Portuguesa de Contact Centers 2010. Não sei que associação é, nem que troféu é este, nem quais são os critérios de atribuição do mesmo, e admito mesmo a possibilidade de ser uma coisa utópica, fruto da conjugação entre a imaginação fértil de um grupo de criativos, com a necessidade de preencher o espaço em branco ao lado do logótipo. Talvez seja efectivamente uma estratégia de marketing, não sei, não me incomodei em investigar. Seja o que for, liga-se para o apoio a cliente (concretamente para a linha Optimus Negócios - nome pomposo) e o prémio, o troféu, a associação, puf!, cai tudo por terra. Atende um imbecil, domesticado para dizer apenas algumas palavras, de uma maneira específica, que se preocupa mais com a avaliação formal do seu desempenho do que em ouvir o que lhe é perguntado. Depois despede-se com a presunção de que foi de alguma forma útil, questionando o interlocutor (je) se pode ajudar em mais alguma coisa.
A segunda coisa que me vem à ideia é o porquê de se ter um Gestor de Cliente - outro nome pomposo, que supostamente nos dá atendimento privilegiado mas que, na realidade, não responde a um e-mail, telefonema ou sms urgente (e sucessivas insistências) durante meses a fio e depois, um dia, do nada, entra em contacto connosco, por uma coisa banalíssima, com uma naturalidade tal que nos desarma e a disponibilizar-se para qualquer coisa que seja necessária, até ser de facto necessário alguma coisa e se dar novo eclipse.
Lembro-me de outras coisas que se prendem com a dificuldade em pagar uma factura fora de prazo - coisa com que, profissionalmente, estou por demais familiarizada - é experimentar deixar bloquear o serviço e vão ver! Não há referência MB, cheque ou nib bancário que vos valha: aquela malta deixa de querer ver o dinheiro e, em vez disso, tortura os clientes, criando uma referência para pagar cinco euros no multibanco, que servem para quê? Para arrastar o penoso processo que consiste no 'sacrifício' de aceitar duzentas vezes esse valor e recuperar o cliente.
Enfim. Tanta e tanta coisa.
Sem falsas pretensões, juro por mi alma, não querer ferir susceptibilidades: eu própria já fui uma call-girl concorrente dos senhores (tempos de faculdade, malta que não pensa). Mas, foda-se, vocês são fraquinhos.
Grande mérito vos valha, não é qualquer coisinha que me faz febre!
terça-feira, 17 de maio de 2011
fujo, mas eles perseguem-me
e dou por mim a gostar disto como não me lembro de gostar de coisas 'novas' desde os Keane...
sexta-feira, 6 de maio de 2011
ontem, o estádio do AXA tremeu...
... quando Jorge Jesus chamou do banco um trunfo chamado Filipe Menezes.
Nem eu, em casa dos sogros, consegui segurar um 'puta que te pariu'...
quinta-feira, 5 de maio de 2011
sobreviver
Vai a caminho de mês e meio fora da 'minha casa'.
É difícil.
Vou ter de habituar-me a outra, renovada, muito diferente, mas anseio por esse processo de familiarização, de reconhecimento, de marcação territorial, de privacidade. Anseio por essa altura em que venham a carga de trabalhos, despesas e chatices que me farão a cabeça em água por uma boa causa. Por cá estará o bom do blogue para eu maldizer à vontade o raio de ideia que me deu para me meter nisto e naquilo.
Anseio. Porque acredito mesmo que vai valer a pena.
E porque estou a precisar desesperadamente de uma casa quase vazia e de uma família pequena.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
a verdade e a propaganda
Nem todos somos estúpidos.
Tenho esperança de que um dia, apesar da incompreensão que as denominadas guerras santas provocam, as pessoas percebam e responsabilizem as potências que carregam a culpa de milhares de mortes inocentes.
Certamente mais de três mil.
Certamente em muitos outros lugares que não o world trade center.
ao Jorge Jesus
Não, Sr. Jorge Jesus, não custa sofrer um golo nos últimos segundos.
O que custa, Sr. Jorge Jesus, é ver o Benfica jogar esta miséria de futebol, esta prática pseudo-futebolística que na realidade nem futebol é, estes sofridos noventa minutos de cada vez, com atletas presos por arames, com falta de dedicação, com motivações diferentes consoante se trate de uma competição já há muito perdida ou de uma disputa para a qual ainda há hipóteses. O que custa, mister, é ter de gerir uma equipa a partir de meio da época, ainda para mais quando não se tem banco. O que custa é que o César Peixoto, o Filipe Menezes e o Luís Filipe façam parte desta equipa. Custa saber que se perdem Di Maria, Ramirez e David Luíz pela inevitabilidade lógica do capitalismo desportivo - outra das áreas em que o Benfica não está ao nível europeu por motivos óbvios - e se faz face a essas perdas com a contratação milionária de um guarda-redes chamado Roberto que dá ares de estar constantemente a despertar de um traumatismo craniano, o que será financeiramente colmatado com a venda mais do que inevitável do Fábio Coentrão e muito provavelmente o adeus a Sálvio.
O que custa, Sr. Jorge Jesus, é o Benfica estar minado de gente e de interesses que nada têm a ver com a aclamada mística benfiquista.
O que custa, Sr. Jorge Jesus, é ter de admitir que não estou certa de querer ver o Benfica numa final europeia a ser mais uma vez o motivo de felicidade do adversário.
O que me custa, Sr. Jorge Jesus, é que a remota possibilidade de o Benfica ganhar uma final europeia ao Porto neste momento seria, no mínimo (e a manter-se a tendência completamente antagónica das duas equipas), terrivelmente injusto.
Não é muito difícil perceber isto.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quilópodes
Abril.
Misteriosas alterações climáticas.
Calor de ananases, vento, chuva e granizo.
Centopeias aos molhos a sair sei lá de onde.
(logo agora que abraçava a ideia de viver no campo)
Misteriosas alterações climáticas.
Calor de ananases, vento, chuva e granizo.
Centopeias aos molhos a sair sei lá de onde.
(logo agora que abraçava a ideia de viver no campo)
pensar em voz alta
O único namorado que me deu com os pés ressentiu-se com o facto de me saber envolvida com outra pessoa muito pouco tempo depois. Mostrou-se traído. Às vezes - ainda hoje - penso que isso lhe pode ter ficado na lembrança: quem nos dá com os pés merece ter uma amarga recordação do que significa perder-nos. Bem feito.
Depois lembro-me - ainda hoje - que esse ressentimento foi apenas uma espécie de orgulho ferido, uma vaidade ligeiramente afectada pela noção de não se ser exclusivo.
Tenho a certeza de termos ambos ultrapassado aquela relação que parece distar um milhão de anos e é por isso que acho curiosos estes pensamentos.
Toda a gente tem uma necessidade recalcada de saber como é recordada pelos outros.
quinta-feira, 28 de abril de 2011
a dor que superou a gaguez do rei
A questão que se levanta depois de ver o filme é ambígua: é imperativo não esperar para ver um filme assim, todavia nunca é tarde para vê-lo.
Soberbo.
Soberba, Natalie.
terça-feira, 26 de abril de 2011
nem ele sabe
Gigantes outdoors comprovam:
Já não devo ser a única pessoa a considerar o Futre um génio do marketing.
Uns anos em Espanha e volta-se assim, um analfabeto espertalhão.
da ausência prolongada
Optei por dar todo um novo significado à prática do jejum por alturas da Quaresma.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
otites e outras dores de cabeça
Mafarrica doente, mãe sem paciência para e-mails e cibernáutica.
Clima escandalosamente quente, piscina de água verde de inverno.
Casa nova-velha, com relvado, árvores de fruto, garagem, churrasqueira, baloiço e a necessitar de mão de obra, negócio quase fechado.
Insónias a meio da noite..
Com a mafarrica a melhorar e bem disposta como o sol, e com a ajuda do calorzinho bom, desconfio que a falta de sono só se pode dever a um dos enumerados. Maldita indecisão.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
estou além
"Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P’ra outro lugar"
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P’ra outro lugar"
António Variações, "Estou Além"
Se me pedirem para identificar a música que me define penso sempre nesta mas talvez diga outra qualquer.
Não gosto de admitir que tenho saudades de pessoas e lugares que me são estranhos.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Camarote 146
Logo ali depois do Estúdio do Benfica e por cima da claque adversária. Fácil, fácil.
(e dois golos foram do número 8! Pois.)
quinta-feira, 7 de abril de 2011
da psicologia racional
Na blogosfera respira-se aquele fenómeno do ping-pong, comum a todas as redes sociais em que há interacção e acompanhamento do outro e que acaba por fazer nosso o seu tema. Daí lembrar-me de algo que estudei bastante na escola, mais ao nível da imagem no âmbito do Design, mas que é fundamentado até pela pseudo-poesia.
"Eu faço minhas coisas, e você faz as suas.
Eu não estou neste mundo para viver as suas expectativas.
Você é você, e eu sou eu,
E, se por acaso, nós nos encontrarmos, será óptimo.
Se não, nada se pode fazer."
Friederich Perls
A sua aplicação prática contudo...
quarta-feira, 6 de abril de 2011
pertinente
Porque é que se costuma usar a expressão "o anti-vírus está a correr"?
Deve ser para gozar connosco, enquanto esperamos dois minutos para minimizar uma janela.
drama queen
Como sou uma pessoa que acredita no casamento a advertência já vem tarde, mas as minhas relações sentimentais deviam começar com uma apresentação explícita:
Não tenho mau feitio e sou uma pessoa (quase sempre) fácil e carinhosa. Não sou a mulher mandona que assusta o marido quando arregala os olhos. Sou uma alma branda, branda, que dá dó. Mas choro. Sou chorona. Choro compulsivamente enquanto tento argumentar. São duas coisas que, em simultâneo, não saem bem (ao contrário do que se vê no cinema).
A mesmíssima coisa que me impede de dizer ao meu chefe a cavalgadura que ele é prende-se com este entrave. A partir do momento em que começasse a dissertar sobre a sua filha da putice, ao invés de articular um discurso inteligente e bem aplicado, sair-me-ia um chorrilho disparatado e humilhante regado a lágrimas, que a raiva também me dá para isso.
Ficam avisados.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
(some) wishes do come true
Sábado foi do best.
Parece que o blogue é a minha lâmpada de Aladino.
Já estou a trabalhar em novos desejos.
(pena não ter vindo a tempo de desejar que o Benfica fizesse ontem o jogo da sua vida)
sexta-feira, 1 de abril de 2011
este sábado à noite,
gostava de me aninhar no canto de um restaurante confortável e sossegado, com algum requinte, sem muito barulho, em frente de uma mesa discreta, num assento corrido e estofado de onde não apetecesse levantar depois da sobremesa. Gostava de beber lambrusco doce até sentir aquela embriaguez tímida e agradável que solta a língua em conversas boas.
Porra, não me apetece nada incluir a minha filhota neste serão de sábado.
Avós?
Anyone?
(hello...?)
Pink Floyd "On The Turning Away" Live 1988 (DSOT Version)
Ouve-se isto e sabe-se.
Não é entretenimento, é arte.
Alguém disse que os Pink Floyd, ao contrário de algumas bandas, conseguem ser melhores ao vivo do que numa gravação em estúdio. É bem verdade.
Ouvir esta música, bem alto, seja onde for, faz-nos sentir capazes de qualquer coisa. O nome assenta-lhes bem. Há músicas que são pura droga (no melhor dos sentidos).
quinta-feira, 31 de março de 2011
quarta-feira, 30 de março de 2011
isto lembra-me que ainda tenho de ir buscar o meu Carapuço d'Ouro, por serviços prestados ao país
Calculo que tenha aproveitado a viagem para partilhar cá com os mãos largas do reconhecimento o segredo de uma economia de sucesso.
os dias úteis
Já passei por muitas fases neste meu último emprego.
Senti coisas boas e más, ao sabor dos sucessos e insucessos da empresa. Já fui responsável por organizar eventos considerados 'profissionalmente vantajosos', almoços natalícios, lúdicos, que servem o propósito exclusivo de demonstrar que se tem a colocação financeira necessária para garantir segurança a clientes, fornecedores e empregados, alguns mais do que isso, amigos.
Ao longo do tempo, experimentei diferentes emoções. De concretização, de realização, de frustração, de derrota. Actualmente, experimento o pior, vergonha. É difícil trabalhar com pessoas mal formadas, com personalidades que chocam connosco, com um grupo de gente disforme, pela negativa. Mas isso é, também, experiência. Experiência social, que desafia a nossa capacidade de ultrapassar obstáculos, de agir e reagir: experiência de vida, estaleca para tudo o que ainda temos pela frente. O pior, neste momento, é a vergonha de me considerar não um trabalhador por conta de outrém, mas o pau mandado da hipocrisia, falta de carácter e cobardia de alguém; um porta-voz de tudo o que abomino. Permanecer aqui corrompe-me, trai os meus princípios e verga-me a honestidade que me caracteriza.
Nutro um profundo desprezo por pessoas cobardes, sem ética, sem respeito pelos outros. Pessoas que não atendem o telefone porque não lhes convém. Pessoas que não assumem as suas falhas. Pessoas que não têm a coragem de reconhecer as suas dificuldades e que prevalecem arrogantes mesmo quando a situação lhes exige humildade.
Há dias que sinto uma vergonha imensa.
Receio não conseguir ultrapassar esta fase, que é, de longe, a mais difícil com que me obrigo a (con)viver(apesar da conjuctura pouco favorável ao luxo da demissão).
Porra, sou mais que isto.
terça-feira, 29 de março de 2011
let's put it this way
(...)
And I can say I’ve never bought you flowers
Because I can’t work out what they mean"
"I never thought that I’d love someone
That was someone else’s dream"
(...)
"But it might be a second too late
And the words that I could never say
Are gonna come out anyway"*
And I can say I’ve never bought you flowers
Because I can’t work out what they mean"
"I never thought that I’d love someone
That was someone else’s dream"
(...)
"But it might be a second too late
And the words that I could never say
Are gonna come out anyway"*
Numa realidade diferente, eu era homenzinho para me ver numa alhada destas e dizer qualquer coisa como isto.
lar
Encontrar casa.
Nem sempre se sabe o que se quer. Isso comigo, infelizmente, é usual e pouco surpreendente.
Actualmente sinto-me regredir, eu, que já me acho miúda, demasiado miúda para a senhora que devia ser com trinta e dois. Sou fruto de um percurso normal, muito normal, sem erasmus, sem inter-rails, sem escoteiros, sem drogas, sem (grandes) loucuras, sempre pautado por um equilíbrio comportamental só aqui e ali arranhado pelos desvarios emocionais da adolescência que acho que não teve (tem) fim em mim. Espanta-me a certeza que me levou a casar. A ausência de dúvidas ou de arrependimento, mas apenas pelo meu receio de mudar de quereres, este capricho sentimental intrínseco, quase uma maldição. Mas, aparentemente, é apenas a continuação de um processo normal, num percurso normal.
Ter um filho. Foi natural e muito menos assustador do que temia. Foi inevitável porque me fazia falta e nisto de ter filhos começa por ser o nosso egocentrismo (e não a nossa generosidade) a falar mais alto. O relógio biológico torna-se exigente e, também ele, caprichoso. É, talvez, o acto mais self-centered e que, no final, mais significa partilha. Agora, mais do que o casamento e que tudo o que foram as nossas escolhas, aquela criança faz sentido e existe em nós e com um individualismo surpreendente, que evolui todos os dias e nos ultrapassa, e já não é nosso - nunca foi e será sempre - mas de todos e de si mesmo.
Mas encontrar casa...
É racionalizar uma lista infindável de coisas que se tornam massacrantes. Não é, antes de mais, um processo natural, biológico ou emocional. É cansativo, minucioso, dispendioso, burocrático e uma constante interrogação. Talvez seja um pouco menos isto tudo e muito mais agradável se se tiver o dinheiro que compra os prós e elimina os contras mas o desafio é construir um lar a partir desta condicionante principal.
Gostava de ser aquela pessoa que vive numa casa alugada, na cidade, onde o que importa é ter um bom acesso a tudo e uma cama para dormir ao fim do dia. Não sou. Sou aquela pessoa que se sente feliz quando regressa a casa e lhe reconhece o cheiro, os recantos.
Ainda não sei que casa vou comprar. A minha foi ocupada por uma professora do liceu e um australiano que desenha iates. Estão a sentir-lhe o cheiro de que tenho saudades. Onde vivo agora, não me cheira a lar. Não sei quanto tempo vou demorar a encontrá-lo. Sei que irá levar o tempo para encontrar o espaço mais o tempo para lhe reconhecer o cheiro, o que, mesmo na melhor das hipóteses, é sempre demasiado.
Encontrar casa.
Construir um lar.
Reconhecer-lhe o cheiro.
Receio que ainda vá tardar...
sexta-feira, 25 de março de 2011
the joke is on... him
Gostava mesmo de ser uma daquelas pessoas capazes de rematar este vídeo com um texto brilhante. Mas receio que qualquer tentativa saísse gorada.
Custa-me muito a crer que isto aconteceu e até estou tentada a acreditar que tudo não passa de uma montagem maquiavélica para destruir a reputação de uma pessoa honrada e sem vícios.
quarta-feira, 23 de março de 2011
segunda-feira, 21 de março de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
adelina
A minha avó paterna vivia no alto da Trafaria, numa zona mal afamada pelo índice de ligeira criminalidade e nível de pobreza das gentes locais. Recordo-me particularmente da sua casa à beira da estrada principal, escondida atrás de um portão de madeira e das árvores e arbustros que despontavam no seu quintal. Quando chegávamos, os seus pequinois de mau feitio corriam até à rua para nos dar as suas ameaçadoras boas vindas e ela surgia à porta, calma e tranquila, com o habitual sorriso que mostrava a dentadura branca e muito certinha que usou desde que me lembro, a iluminar um rosto marcado por rugas vincadas.
Lembro-me sempre da Trafaria no Verão, periodo em que lá passávamos mais tempo, e de acordar com os raios de sol a rasgar as folhagens do imenso matagal que era o jardim da minha avó. A casa tinha um espaço em toda a volta, que nos permitia correr do jardim da frente até ao quintal das traseiras, onde havia uma pequena horta e uma capoeira. Pelas traseiras tínhamos acesso à casa, através de um anexo muito rudimentar. Os espaços eram pequenos e a casa era pobre. Lembro-me bem da casa de banho, um espaço frio, de azulejos brancos, com uma pequena janela que tinha sempre teias de aranha. O espelho era pequeno, velho e rachado. Haviam poucos objectos pessoais, apenas o essencial para lavar as mãos, um pente e uns ganchos para apanhar o cabelo de manhã no pequeno arranjo que usava sempre, e uma bacia antiga, apoiada no suporte metálico com o respectivo gomil. Sempre que penso na minha avó, lembro-me de trapos. Trapos e mais trapos. De trapos, fazia tudo. Os chinelos de quarto eram feitos de restos de fazendas quentes e grossas, pacientemente cosidas à mão, e ficavam completamente díspares, sem um formato bem definido mas o mais aperfeiçoados possível e de forma a aproveitar cada desperdício da sua costura.
A cama onde eu e a minha irmã dormíamos quando lá passávamos parte das férias de Verão, tinha um colchão completamente artesanal, feito pela minha avó, com enchimento de feno e trapos, que o tornavam numa massa disforme, pontiaguda aqui e ali, que picava e nos fazia coçar toda a noite, a ameaçar alguma alergia que o pó e os ácaros nos pudessem causar.
Tinha um medo terrível de me levantar durante a noite e rezava para não ter vontade de ir à casa de banho. Não apostaria que, na escuridão e no silêncio da madrugada, não houvessem pequenos rastejantes pelo caminho e a teia de aranha na casa de banho estaria certamente ocupada pela sua inquilina.
De manhã, cheirava sempre a café e pão torrado no fogão. Havia sempre leite fervido, doce, marmelada e manteiga. E muito açucar. A minha avó gostava de tudo muito doce e, como costumava fazer com os outros netos, tentava dar-nos muitas vezes a lanchar pão com manteiga abundantemente polvilhado de açucar, coisa que detestávamos.
Enquanto lá estávamos, o tempo corria mais devagar, ao ritmo da própria casa. Era como se ela própria se traduzisse em poucas pressas. Penso que em casa das pessoas idosas que vivem sós é comum que se sinta este ambiente, de não urgência para nada. A sala da minha avó parecia parada no tempo. Quase não se entrava lá. Existia uma televisão mas não me lembro nunca de a ligar quando lá passávamos férias. Era possível estar dias a fio sem nos interessarmos por tal coisa. A humilde mobília de jantar, as almofadas forradas a lã, os naperons e as molduras antigas pareciam estar ali com o propósito de ser apenas contempladas. Não convidavam ao convívio. Era à mesa da cozinha que se comia, se conversava, se preparavam as refeições e se costurava.
Nos dias de calor, acordávamos transpiradas do quente colchão de palha e metíamos pés ao caminho, até à praia. Descíamos a avenida, à beira da mata, passávamos a escola que tinha reputação de albergar os piores alunos de todos, o quartel, os bombeiros e seguíamos em direcção à Costa da Caparica. A avó ficava em casa, que já não estava para tais canseiras, e nós íamos pela fresca, cheias de gana. O regresso era muito mais penoso, depois do calor, quando o Verão ainda era Verão e ao fim da tarde o alcatrão ainda escaldava e não se sentia uma brisa. Sempre a subir, de volta à Quinta da Corvina, era com alívio que ouvíamos o ladrar dos cães e que nos sentávamos outra vez à mesa da cozinha, depois de um banho fresco de mangueira no terraço.
Tenho saudades da minha avó, da sua casa na Trafaria, dos meus tempos de criança, da sensação de felicidade ao fim de um dia cheio e feliz. Lembro-me dos dias em que o tempo dava para tudo sem termos de o esticar e de abdicar do que quer que fosse. Tenho pena de não ter avós e espanta-me que haja quem os tenha até tarde e não saiba apreciar o valor desse património inestimável.
Enquanto lá estávamos, o tempo corria mais devagar, ao ritmo da própria casa. Era como se ela própria se traduzisse em poucas pressas. Penso que em casa das pessoas idosas que vivem sós é comum que se sinta este ambiente, de não urgência para nada. A sala da minha avó parecia parada no tempo. Quase não se entrava lá. Existia uma televisão mas não me lembro nunca de a ligar quando lá passávamos férias. Era possível estar dias a fio sem nos interessarmos por tal coisa. A humilde mobília de jantar, as almofadas forradas a lã, os naperons e as molduras antigas pareciam estar ali com o propósito de ser apenas contempladas. Não convidavam ao convívio. Era à mesa da cozinha que se comia, se conversava, se preparavam as refeições e se costurava.
Nos dias de calor, acordávamos transpiradas do quente colchão de palha e metíamos pés ao caminho, até à praia. Descíamos a avenida, à beira da mata, passávamos a escola que tinha reputação de albergar os piores alunos de todos, o quartel, os bombeiros e seguíamos em direcção à Costa da Caparica. A avó ficava em casa, que já não estava para tais canseiras, e nós íamos pela fresca, cheias de gana. O regresso era muito mais penoso, depois do calor, quando o Verão ainda era Verão e ao fim da tarde o alcatrão ainda escaldava e não se sentia uma brisa. Sempre a subir, de volta à Quinta da Corvina, era com alívio que ouvíamos o ladrar dos cães e que nos sentávamos outra vez à mesa da cozinha, depois de um banho fresco de mangueira no terraço.
Tenho saudades da minha avó, da sua casa na Trafaria, dos meus tempos de criança, da sensação de felicidade ao fim de um dia cheio e feliz. Lembro-me dos dias em que o tempo dava para tudo sem termos de o esticar e de abdicar do que quer que fosse. Tenho pena de não ter avós e espanta-me que haja quem os tenha até tarde e não saiba apreciar o valor desse património inestimável.
quinta-feira, 17 de março de 2011
gipsy
A minha vida deu uma reviravolta daquelas que, não fora o magnetismo terrestre, e eu teria trambolhado para a mesosfera e por lá andaria a flutuar. De repente, do meu número fixo já não serei eu a atender, terei de dar uma cópia da chave do correio a estranhos, não terei mais serões a balançar-me no cadeirão onde tantas vezes embalei a minha filha e, pior, serão outros a dormir na minha cama. Sair da nossa casa para lá deixar alguém no nosso lugar, a fazer as suas coisas com as nossas coisas, é do mais estranho que há. Quando temos de o fazer de repente e damos por nós num sítio que não é céu nem inferno, mas uma espécie de purgatório, uma sala de espera onde aguardamos que se abra a porta para o lugar que realmente nos irá pertencer, a coisa piora. Não sou nómada, não me entendo com desenraizamentos, sinto-me perdida, desapoiada, mesmo quando tenho alguém a amparar-me. Vou andar uns tempos nesta vida de não-pertença, nesta coisa de emigrante de lar. Esforço-me por pensar que é por uma boa causa mas, de momento, nada me consola. Isto com tempo vai lá.
No Domingo vou participar na mini-maratona de Lisboa. Espero conseguir afastar estes pensamentos, pelo menos enquanto ainda estiver no tabuleiro da ponte, a uma altura considerável.
sábado, 12 de março de 2011
o meu balanço do evento à rasca
Tive oportunidade de assistir pela televisão a uma considerável parte da manifestação de hoje e fiquei mais convencida do que já estava da boçal ingenuidade deste movimento - não obstante as boas intenções que lhe estão na origem. Ouvi ali uma jovem, revoltada por perder a bolsa de estudo, facto que a obrigou a pedir um empréstimo para poder terminar os estudos - porque, efectivamente, trabalhar umas horas num call-center ou em tantos outros sítios para os quais existem ofertas de emprego constantes e são perfeitamente conciliáveis com a faculdade, a não ser claro que se desconte o tempo passado no bairro alto, no clube ferroviário ou no BBC, não é uma alternativa - confirmando a minha teoria de que os bancos e diversas outras instituições continuam a oferecer créditos indiscriminadamente, e que as pessoas, claro, continuam a ver nessa a opção mais vantajosa a curto ou médio prazo, ao invés de sujeitar-se a trabalhar (salvo seja!) numa área desprestigiante ou que não corresponde à sua formação académica. Outros - muitos deles jovens - quando abordados pelos jornalistas, respondiam, com risinhos de embaraço, que até nem estão em situação precária, apenas estão ali por solidariedade com o tio, a prima ou o namorado - se entendessem realmente a noção de precariedade em que está este país, compreendiam que todos nós estamos nessa situação, actuais empregados ou desempregados, actuais reformados com pensões de miséria ou futuros idosos sem garantia de que haja alguma sequer. Ou os pais, sexagenários, coitados, ali presentes para rogar pelos filhos que, com trinta e muitos ainda não saíram de casa, desempregados. Curiosamente, a única pessoa abordada pela jornalista da sic no Rossio, que estava sentada na praça mas respondeu não estar a participar e nem sequer concordar com a manifestação, foi delicadamente desprezada pela profissional, que ainda rematou a entrevista apelidando a senhora de menos jovem e pessimista.
E assim se conclui que, no meu caso, não estar a trabalhar na minha área talvez tenha alguma razão de ser, já que o que aprendi em quatro anos de licenciatura acerca de ética e validade noticiosa, não se aplica de todo na comunicação social. Sujeito-me portanto a trabalhar em algo que não aprecio, mas ajuda a sustentar a minha família, já que não posso contar com o governo, que aparentemente me considera demasiado afortunada para atribuir sequer um abono à minha filha. O mesmo governo que há não muito tempo era aplaudido pelas intenções de atribuir uma esmola por bebé nascido.
Já alguém me disse que esta manifestação talvez fosse até uma manobra governamental para as pessoas jubilarem com o seu fabuloso poder de intervenção e distrair as atenções do que é realmente importante. Cheira-me que é possível, depois de saber que ontem se anunciaram novas medidas de contenção e austeridade. Mas isso não importa porque há quem hoje durma melhor por sentir que, de alguma forma, fez algo que irá contar para o que quer que seja.
sexta-feira, 11 de março de 2011
pai
Os meus sogros vão matar um porco este fim-de-semana. Adivinha-se algazarra e petisco. Para quem cresceu neste tipo de ambiente, são alturas de festa. Não é o meu caso. Sempre fui geograficamente suburbana, mas de hábitos bastante citadinos. A minha mãe já me disse alarmada, nem penses que o teu pai vai! Agradece o convite mas para isto não contem com ele! Eu também já avisei que não estaria presente, pelo menos para o espectáculo, mas não me importo de ir no dia seguinte, provar um bocadinho do bicho. O meu raciocínio é este: eu como carne, inclusive de porco, e quando o faço não penso nas (horríveis) condições em que eles vivem e nas hormonas que lhes espetam, portanto tenho de concluir que o Mantorras - alcunha simpática para o porquinho preto - até tem sido bastante feliz e a sua carne deve ser do mais saudável que há - eu própria lhe dei algumas folhas de couve. À luz deste raciocínio, consigo combater a imagem de que estou a consumir aquele ser vivo que no outro dia andava a chafurdar na sua pocilga.
Mas o meu pai é de outra natureza. Independentemente dos nossos defeitos e virtudes, ou até mesmo da nossa educação, existem pessoas com dons. Estou convencida que o meu pai tem um dom que não corre em mais ninguém da família. Sempre o achei diferente dos meus tios e de outras pessoas da sua idade. Sempre foi um trabalhador incansável e jamais terá sido recompensado por alguém como devia. Fez muitos sacrifícios ao longo de uma vida inteira e às vezes engulo em seco quando deixa entreaberta a porta para o seu passado. Tenho ideia de que nunca saberei metade do que sofreu em criança e mais tarde em jovem. Apesar da sua idade, esquivou-se à guerra colonial e apenas cumpriu os normais dois ou três anos de tropa, maior parte dos quais em Mafra, tempos que às vezes recorda com nostalgia, talvez porque a sua tarefa se confinava a pouco mais do que descascar batatas na cozinha e a poder dar-se ao luxo de lavar melhor as suas hortaliças, ao contrário dos que eram servidos. Acredito que a brandura da sua vida militar tenha contribuído para que a sua natureza calma prevalecesse. De resto, sempre me lembro de ver nele um homem com sonhos, que todavia sempre calou o seu lado emocional, em detrimento do que lhe era exigido e como consequência da quase inexistente relação com um pai duro e um padrasto negligente, ambos cedo lhe roubados. A sua postura de filho único no meio de raparigas também lhe amoleceu os modos.
Há dois anos perdeu o cão que lhe foi imposto pela minha irmã e que lhe fazia companhia nos últimos dez anos. Não era um animal que ele quisesse de início: a perspectiva da perda sempre o fez pensar duas vezes na hora de criar laços – neste aspecto, a minha mãe nem sempre teve vida fácil durante os últimos trinta e cinco anos, não há-de ser sempre agradável viver com alguém que, sendo bom e generoso, não gosta de se entregar. Há dois anos que usa, enrolada ao pulso, a coleira que o cão usava, grossa, de ferro, a lembrar uma bijutaria grotesca. As pessoas espantam-se. Eu não.
Também não me espanto que o meu pai, homem de outra natureza, não queira comer o Mantorras, e muito menos matá-lo. Não me espanta que, ao contrário de mim, ele não consiga ignorar o facto de que já viu o bicharoco vivo e já lhe fez festas no focinho e, só por isso, criou laços.
O dom do meu pai é a pureza. Uma pureza que admite falhas e defeitos, que não é a pureza dos santos, mas uma pureza que o distingue dos restantes de nós. Uma pureza que eu amo.
do mal o menos
Os japoneses têem um auto-controlo e uma capacidade de organização incrível.
Aposto que ficam muito reconhecidos com o "sentimento de profunda preocupação e solidariedade" que a Comissão Europeia já manifestou, pela pessoa de Durão Barroso, mas não haverá outro povo no mundo com a mesma extraordinária capacidade de se levantar do chão por si próprio como eles.
Ainda nós deitamos as mãos à cabeça, já eles têem as mangas arregaçadas.
Ainda nós deitamos as mãos à cabeça, já eles têem as mangas arregaçadas.
Oxalá que sim.
tendências
Tenho para mim que a homossexualidade está na moda. O lesbianismo então parece estar a tornar-se exigência social. Na blogosfera é aos magotes. Experiências, insinuações, inconfidências, revelações explícitas. Eu até compreendo, a sério. Aliás, sempre disse que é bastante apelativa a ideia de duas mulheres juntas (quem diz duas diz uma orgia). O conceito do feminino é bonito, sensual, delicado, excitante.
Tudo muito bem e a emancipação é uma coisa fantástica.
Dito isto, eu é mais músculos, maçãs de Adão e barba rija - e deixem ficar as pilosidades porque, a não ser que se revejam no Toni Ramos, prefiro que a minha perna seja a mais suave entre os lençóis.
Sim, eu sou mesmo old-fashioned.
quinta-feira, 10 de março de 2011
snugglin'
Sou muito esquisita com o meu snugglin'. Não consigo dormir uma noite inteira agarrada a alguém. A anatomia é uma coisa que impõe posturas limitadas e pouco descontraídas.
Só gosto da minha almofada própria para o snuggle. É desmaiada e murcha, tem um escasso enchimento sintético e perde-se na imensidão da fronha, mas preenche os vazios entre o meu corpo e o colchão.
Preciso dela para adormecer.
alongamentos
Por falar em hábitos, há aqueles que são bons e para manter.
Esta música, por exemplo, é a dos cinco minutinhos de alongamentos da aula de body vive.
Ouvi-la transporta-me sempre para aqueles instantes finais, depois do corpo suado, dos glúteos e abdominal tensos, dos gémeos doridos e dos bíceps e tríceps massacrados pela força do elástico; aqueles instantes de cansaço bom em que o corpo se liberta da força, se espreguiça e relaxa.
São acordes bons para alongar.
segunda-feira, 7 de março de 2011
O Discurso Do Rei
Assisti ao filme este fim-de-semana, deitada no sofá, os olhos a querer fechar, porque o tempo pedia sesta e também porque o ritmo da película não faz propriamente disparar a adrenalina, mas alerta até ao fim, mesmo nas partes em que os diálogos dessíncronos se sobrepunham às legendas adaptadas e o cérebro ameaçava fazer curto-circuito (tenho uma dependência grave da língua de origem e de legenda em português à percentagem de setenta e trinta por cento, respectivamente - a minha grande relutância em emigrar deve-se a essa mania tão resto-mundana de dobrar tudo o que não é língua materna).
Dizia então que finalmente vi o filme. E foi um finalmente!, o que é bom. Tenho-me sentido defraudada por muitos dos filmes que vão ficando pendentes mas nunca esquecidos e que um dia se me apresentam em toda a sua esplendorosa desilusão (como foi o caso recente d'A Dúvida), mas desta vez a coisa correspondeu ao esperado. Podia falar na atenção aos pormenores, na força dos personagens, no bom resultado da forma escolhida para se adaptar este enquadramento histórico específico, mas disso fala quem percebe, quando o que o distingue tem sobretudo a ver com o que ele me diz a mim e não à academia.
Eu existi dentro daquele Rei e das suas limitações. Eu vivi a privação da impotência, a frustração da batalha infrutífera com o seu eu, a agressividade que resulta de não se saber lidar com a diferença sendo diferente. A minha luta, a minha impotência, a minha frustração e a minha agressividade souberam reconhecer-se e resignaram-se, por duas horas, perante o consolo da gaguez de George VI. E senti-me confortada com o ultrapassar de um obstáculo, com o suspiro de alívio que a queda de um muro pode trazer, com a satisfação da quebra das barreiras invisíveis, uma de cada vez.
Da amálgama que constitui a mistura de todas as nossas qualificações e limitações, sobressai a prevalência que todos partilhamos pelo medo do fracasso.
Da amálgama que constitui a mistura de todas as nossas qualificações e limitações, sobressai a prevalência que todos partilhamos pelo medo do fracasso.
sexta-feira, 4 de março de 2011
crise no sporting: a explicação
A notícia, avançada no sapo.pt, é: Está descoberto o treinador mistério
Os comentários que se lêem em seguida são estas pérolas:
"OS BENFAS VALORIZAM MUITO A DROGA E TRÁFICO ADORAM OS SEUS MALEFICIOS, ADULAM A CHULICE, ADORAM MATAR; ROUBAR... ETC..";
SPORTINGUISTA
"UM PAIS COM 6 MILHOES DE JAVARDOS SÓ PODIA SER UM PAIS ATRASADO, CLARO. CHATEIA-ME TANTO JAVARDO É MESMO UMA CHATICE..."
Estamos conversados no que respeita a prioridades e soluções.
"Dias Ferreira apenas disse que o escolhido «é estrangeiro, nunca treinou em Portugal, mas tem conhecimentos do futebol português e fala duas ou três línguas». Ele é…o holandês Frank Rijkaard.
Segundo avança o jornal A Bola, o treinador estrangeiro de Dias Ferreira é Frank Rijkaard, ex-internacional holandês e ex-treinador daquela que é considerada a melhor equipa do Mundo, o Barcelona.
O holandês, que está actualmente sem clube, volta a estar na rota do leão, depois de em 1987/88, na direcção de Jorge Gonçalves, quase ter envergado a camisola do emblema lisboeta. Rijkaard chegou a treinar em Alvalade, mas seria no Saragoça que jogaria.
Em 2006, levou o Barcelona à conquista da Liga dos Campeões – fazia parte da equipa o luso-brasileiro Deco – e também pelos catalães foi bicampeão espanhol (2004/05 e 2005/06). Por isto, Frank Rijakaard é um dos nomes sonantes do panorama mundial.
Aos 49 anos, o holandês pode vir a treinar os leões, caso Dias Ferreira vença no dia 26 de Março as mais concorridas eleições de sempre no Sporting."
Os comentários que se lêem em seguida são estas pérolas:
"OS BENFAS VALORIZAM MUITO A DROGA E TRÁFICO ADORAM OS SEUS MALEFICIOS, ADULAM A CHULICE, ADORAM MATAR; ROUBAR... ETC..";
SPORTINGUISTA
"UM PAIS COM 6 MILHOES DE JAVARDOS SÓ PODIA SER UM PAIS ATRASADO, CLARO. CHATEIA-ME TANTO JAVARDO É MESMO UMA CHATICE..."
Estamos conversados no que respeita a prioridades e soluções.
quinta-feira, 3 de março de 2011
heterogéneo
O amor terno, seguro e confortável. Aquele amor que é hábito, é rotina e é bom. Traz aromas familiares, fins de dia ou acordares, tarefas, prazeres e obrigações implícitas. O amor organizado, combinado, partilhado, sereno. Amor bom, doce, certo, eterno, que se quer, que se prolonga e sobrevive e se adapta e cresce e se molda e aprende. Amor que decorre, pleno. Que vive sem pressas, romântico, que se redescobre aqui e ali em surpresas agradáveis, em viagens ao passado e regressos ao presente. Amor que se mantém, resiste, fica, é.
A paixão. Egoísta, violenta e repentina. A paixão que vive do desejo que o corpo não consegue negar e que não se detém no amor. Paixão que reaparece, que espreita, que é fraqueza, é defeito, é sozinha. A paixão que só serve para nos servirmos a nós, para calar o coração que acelera por nada, por tudo. A paixão vive do que adivinha, da imaginação, da ousadia, da vontade, do capricho. Paixão que não admite menos que o máximo do que se quer, do que se pode, do que se sonha. Perigosa, impiedosa, quase cruel. Que aprisiona. Que amordaça. Que não admite a razonabilidade, a ética, a reflexão.
O amor alimenta-se. A paixão devora.
São insolúveis entre si.
Mas coexistem.
...
Preciso de algo que me apazigue. Quero reconciliar-me comigo.
Descubro refúgio no pecado das palavras erradas e por enquanto isso basta-me.
Por enquanto.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Rambo III - bandas sonoras #5
É anos 80 por todo o lado. Os músculos, o cabelo, a temática e a adaptação musical de um original um pouco mais antigo.
terça-feira, 1 de março de 2011
insuportável
Insuportável não é apenas chato ou difícil. Insuportável é aquilo que nos faz gritar cá dentro e que nos obriga a afastar para não explodir. Insuportável não é aquela isca a que torço o nariz porque é fígado mas engulo contrariada. Insuportável é um punhado de sementes de malagueta esmagadas e coadas para um copo de onde temos de beber um trago. O insuportável impõe um limite físico que não devemos propôr-nos ultrapassar. Hoje, ao almoço, estive prestes a quebrar esse limite.
Juro que não me importo de ser tida anti-social, muda, individualista, esquisita, quase excêntrica. Na verdade sou simples, de uma simplicidade que poucos entendem na minha atitude por vezes fria.
O que me incomoda mesmo é ver a minha inteligência diminuída. Esta perspicácia que de pouco me serve mas é minha, tão recalcadinha por conversas parvas, menores, desinteressantes ao expoente máximo da estupidez, tão boicotada que chega a ser... insuportável.
Não sei se o pior são as histórias chatas de vida sem chama ou as fantasias inventadas de quem não tem vida. São terríveis as pessoas que se julgam bons contadores de estórias e são apenas parvos.
De quanto não vale uma boa conversa! Quando o não é, prefiro-me só. Mil vezes.
Lembro-me sempre dele.
Gosto de pensar que se fosse um homem, no início do século XX, seria ele.
"Não me macem, por amor de Deus.
(...)
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Ah, que maçada quererem que eu seja a companhia! " *
Vou apanhar ar. Juro que este almoço me caíu mal.
72 horas
Numa altura em que toda a gente corre para os cinemas para ver os galardoados (ou apenas nomeados) do momento, eu continuo a zeros. Não porque me falte vontade, mas por uma série de motivos que se prendem normalmente com prioridades, e no passado sábado pela excepção de encontar todas as sessões esgotadas num determinado cinema bastante concorrido, ainda não vi nenhum dos filmes que ando com vontade de ver, muito particularmente O Discurso do Rei. Às horas que tem sido o meu recolher, nem a pirataria me vale já que tenho o Cisne Negro lá em casa e ainda não me fiz a ele - no passado Domingo estava a dormir às 22h30. A sério, há mais alguém como eu (como nós)?
Então, num fim-de-semana que foi de aproveitamento do sol, os serões foram calmos e o pós-desilusão da bilheteira cheia transportou-nos para o sofá, com pipocas da Lusomundo, mas com o disco externo como projeccionista. Como a minha tendência (já de si negra) para transportar coisas obscuras para a cama me fez ter o bom senso de não optar pela história dramática da Natalie Portman, a escolha recaiu sobre o 72 Horas, thriller intenso, Russel Crowe a caminhar para estragadote, mas sempre com aquele papel de quem tem mais qualquer coisa no QI ou na capacidade de desenranscanço, que lhe vale a admiração do resto de nós, mortais (uma espécie de Harrison Ford next-generation). Foi jeitoso, vá. Assim a atirar para o ora triste, ora deprimente, ora dramático, ora de segurar o fôlego.
Será um filme de happy ending para a generalidade, para os que não ficam a pensar no que vem depois, para os que não questionam as consequências emocionais, as marcas, os efeitos de estar preso na liberdade aparente. Para mim há todo um rol de consequências trágicas e negativas que aquele final augura.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
billboard chart #2
Após uma tarde de novas experiências, relacionadas com uma área que sempre quis experimentar (tossidelas irónicas), sinto-me uma verdadeira TOC. E sim, chego à conclusão que a vida pode sempre ser um bocadinho pior do que já é. O positivo é que quando passamos por estas coisas, tudo aquilo de que nos queixamos habitualmente passa a soar muito melhor.
Enriquecida a minha capacidade de escrutinar facturação, ainda tenho um tempo para aqui despejar meia dúzia de anos.
1987 - With or Without You - U2
1988 - Bad Medicine - Bon Jovi
1989 - Patience - Gn'R ex-aequo Smooth Criminal - Michael Jackson (e assim se abre o precedente para a não-exclusividade, com pena minha)
1990 - Enjoy The Silence - Depeche Mode
1991 - Wicked Game - Chris Isaak (primeira vez na vida que tive pena de não ser homem, nem gay e que tive consciência que era apenas invejosa)
1992 - November Rain - Gn'R ex-aequo Bohemian Rapsody - Queen ex-aequo(!) One - U2 (lamento, sou fraca e não aguento a pressão)
como o dia começa
O tempo que vai desde o sorriso de bom dia até à despedida é muito curto. Em dias como hoje, sobretudo, a minha vontade era levá-la para um sítio bonito e brincar o dia todo, sob a bênção deste sol radioso.
Mas tenho de resignar-me a deixá-la e a vir encerrar-me entre quatro paredes.
Serve-me de consolo saber que a deixo no meio deste maravilhoso pulmão urbano.
A luz está fraca e as fotos foram tiradas à pressa, em movimento, a conduzir. Um dia invisto mais tempo a captar a beleza deste local. É bom que existam estes espaços. É bom que ela tenha o privilégio de usufruir desta redoma de qualidade ambiental.
Estou desejosa que o sol se torne mais caloroso para que ela possa disfrutar do que a espera na Quinta.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
peneirar o billboard chart #1
Traduz-se na actividade que consiste (à falta de trabalho e/ou vontade de realizar tarefas administrativas aborrecidas) em percorrer o histórico dos tops 100 de sempre, pela orientação do conceituado billboard, e tentar extrair-lhe a nata da nata, desde o grandioso e longínquo ano que me viu nascer até ao presente.
Duas ressalvas: a minha selecção é baseada no top do billboard para cada ano, portanto limitei-me a escolher desse top, com riscos assumidos de deixar escapar alguma das pérolas que possam ter marcado a minha vida e não constem do dito, e, claro, sendo uma selecção minha não visará talvez o consensualmente melhor, mas antes o individualmente mais marcante.
And the winner is:
1979 - I Will Survive - Gloria Gaynor (não deixa de ser uma grande música apenas porque a passámos (passamos) até à exaustão e nas mais diversas versões, em quase tudo o que é disconite. Atentem à sua época.)
1980 - Another Brick In The Wall - Pink Floyd (preciso mesmo de justificar esta escolha?)
1981 - The Winner Takes It All - ABBA (que mulherada poderosa! Desconfio que me embeiçava por elas e pelos seus glosses, se não tivesse um ano de vida na época e uma vagina.)
1982 - Don't Stop Believin' - Journey (começa a desgraça das bandas que potenciam os grandes karaokes do século XXI. Adoro.)
1983 - Human Nature - Michael Jackson.
1984 - Thriller - (guess?) Michael Jackson (repetir o M.J. quando há tão bons a ficar para trás? Pois, as escolhas tenderam a ser difíceis mas esta repetição era inevitável.)
1985 - Summer of '69 - Bryan Adams (se eu não escolhesse esta, teria de negar toda a minha adolescente existência.)
1986 - Nikita - Elton John (quem era a miúda de escola que não queria ter a pele da Nikita, e os olhos da Nikita e o chapéu da Nikita? E dar um tiro ao senhor que tratava mal a Nikita...?)
Como se vê, há muito aqui que não tem a ver com a qualidade da escolha. Há aqui muito de mim, pequenita, pequenita.
Qualquer dia vem o resto. Agora tenho mais que fazer.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
patrício
Queria escrever qualquer coisa sobre o Sporting-Benfica de ontem, mas pensava para mim que não valeria o esforço. O benfica saíu vitorioso, ok, urras e vivas com fartura, mas não foi lá uma grande partida. Cartões, expulsão, futebolinho muito fraquinho do Sporting porque é evidente: eles não sabem fazer melhor e quem não quer ver é cego, uma gestão de esforço da parte do Benfica (devido a meio tempo com o onze transformado em dez e porque dois jogos por semana nas perninhas é coisa que o futebolista português tem dificuldade em digerir) e assim decorreu, morno, com mérito mas também com alguma borrifadela de divino nos ressaltos que deram origem aos golos. Enfim, dá ideia de que o que apetece dizer é que podia ter sido melhor e para mais, num jogo em que já existiam doze pontos de diferença entre as equipas e uma delas está animicamente mais fraca que um desempregado de longa data, adivinha-se que, seja qual for o desfecho, a montanha vai sempre parir um rato.
Mas quando eu pensava que nada de nada que se relacione com o Sporting-Benfica de ontem teria grande interesse, descubro esta espécie de milagre gráfico.
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