terça-feira, 10 de abril de 2012

para ti, que já foste a minha pessoa

Agora já não corro. Nem sequer tenho caminhado. 
A barriga cresce eufórica, num entusiasmo que a minha emoção não acompanha.
Eu sei que eu sou a responsável mas, de vez em quando, amaldiçoo-te por me roubares a felicidade que deveria estar a sentir.
E eu sei que não é bonito. Mas é isto...

sexta-feira, 23 de março de 2012

indiferente

"Porque o melhor, enfim, 
É não ouvir nem ver... 
Passarem sobre mim 
E nada me doer!"
Camilo Pessanha, Clepsidra

Sabia que o dia ia chegar em que, governada pela indiferença, me tornaria este ser desapaixonado que não reconheço. 
Agora espero que também a indiferença passe, e só receio que depois não haja nada.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Eat Pray Love

"We can just acknowledge that we have a screwed up relationship and stick with it anyway. 
We can accept the fact that we fight a lot, we barley have sex anymore... but we don't want to live without each other. 
We can make a life together... be miserable... but happy not to be apart..."




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

corpos

Não consigo tocar em cadáveres. Penso nisto algumas vezes mas não costumo proferir, ou escrever, porque é mórbido e inconveniente e parece despropositado. Mas evito enfrentar a morte, a Morte, a dos outros, mesmo os que não me são muito chegados. Não gosto de pensar no conceito, nem consigo aceitar a concretização.
É isso, é um problema de aceitação. Recuso-me a aceitar que a vida abandona o corpo.

Um dos cachorrinhos da Lirita estava morto hoje, na sua caminha, um pouco afastado dos seus quatro irmãos, muito mais matulões desde o dia da nascença. Sobreviveu nestas condições de inferioridade fisionómica mais de quinze dias e não pensei que não resistisse, assumi que ultrapassara o pior. Aproximei-me deles e fiquei a observar os seus movimentos cegos e ternurentos e reparei nele, imóvel, a um canto. Tive medo de lhe tocar. Sabia o que ia sentir por isso não queria fazê-lo. Encostei-lhe um dedo e senti a rigidez que temia. Afastei-me repugnada, arrepiada com a frieza da morte, com a insensibilidade com que despreza o corpo.
Afastei-me e, insensível como a própria morte, deixei-o lá, abandonado, no meio do calor dos irmãos.

Odeio sentir-me fraca.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

run


Sensivelmente ao km 2, direcção Guincho-Cascais, ouvia com clarividência "light up, light up", enquanto ao meu lado via erguer-se o farol. 
Agora que penso em como esta música é boa para correr lembro-me, com renovada ironia, do seu título.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

sindicatos

Já não posso ouvir os dirigentes sindicais. Raios os partam. Estamos num país, coitadinho, onde o virtuosismo da liberdade de expressão serve para pouco mais do que ameaçar greves e manifestações por tudo e por nada. Pessoas que se consideram informadas e que representam minorias assalariadas, enchem os noticiários e ocupam tempos de antena em horário nobre para ironizar decisões governamentais que se prendem com formalizar restrições que na verdade já afectam a maioria dos funcionários privados há anos, e que são uma realidade na quase totalidade dos países europeus. Não me refiro só à mais recente decisão de acabar com o feriado de Carnaval e a respectiva tolerância de ponto. Quem, como eu, já trabalhou numa empresa privada sabe que em muitos casos o direito a um acréscimo de três dias ao tempo de férias por motivo de assiduidade é uma miragem. Como também sabe que os prazos para marcação e gozo de férias não são por vezes cumpridos, o que origina malabarismos familiares para conciliar o periodo de encerramento dos colégios dos filhos com as férias que os pais podem efectivamente gozar. Porque também creio não ser novidade que são as empresas privadas as principais responsáveis pelo desenvolvimento do país e se houver necessidade de mais produção, esses direitos tão aclamados dos trabalhadores são relegados para segundo plano, da mesma forma que é no serviço público, qualquer que seja a sua área de intervenção, que assistimos ao maior atravancamento de processos, procedimentos e burocracias.
Os dirigentes sindicais e afins não fazem mais actualmente do que mostrar-se perplexos e indignados com a exigência do Governo de que se trabalhe um pouco mais, abdicando, por exemplo, de um feriado que não diz nada a grande parte do país e serve apenas de pretexto para reduzir um pouco mais a produtividade, prejudicando o erário público e ajudando a acumular mais processos. Uma bola de neve. Estes mesmos dirigentes consideram efectivamente um bom argumento afirmar publicamente que estas decisões políticas e governamentais são 'palhaçadas' e porquê? porque obviamente o funcionário que já normalmente não se sente motivado, irá trabalhar este(s) dias (ainda) com menos vontade e, consequentemente, produzir menos.
Caros senhores, culpar o Governo pela nossa inércia e falta de motivação para trabalhar não só não é argumento válido, como denota falta de inteligência (ou de consideração pelos mais inteligentes - ainda não percebi se estes senhores são estúpidos ou se se alimentam astuciosamente dos menos espertos).
Julgo mesmo que a falta de razoabilidade destas pessoas, desvia as atenções de qualquer decisão mais repreensível do Governo. A triste realidade é que as unidades sindicais são menos credíveis que a classe política. Pela minha parte, estou disponível para trocar lugares com uns bons milhares de pessoas que, coitadas, passam pelo drama de ter emprego no dia de Carnaval. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

pensar demais

Lembrei-me de uma coisa engraçada, por causa da ligeira humidade e vento que regressaram hoje, depois do maravilhoso sol de Inverno que tem estado. Hoje é um daqueles dias que me estraga a franja. Do ponto de vista psicanalítico, isto diz muito sobre mim. Se isto é uma coisa que me chateia tanto, e se me é impossível impedir que existam dias húmidos e ventosos, porque é que, especialmente nesta época do ano, eu sinto uma vontade súbita de ter uma franja?
A resposta é comum a muitas outras coisas que me afectam muito para além da futilidade de um penteado e tem a ver com a minha tendência para complicar e problematizar tudo na minha vida.

to be continued..

Quando a minha situação ligeiramente precária dá lugar ao optimismo proporcionado pela decisão de, finalmente, fazer o meu curso de mandarim, e me convenço que esta poderá muito bem ser a janela que se abre depois de a porta se fechar, eis que surge a remota possibilidade de ter uma coisa muito melhor.
(E o meu tão familiar pessimismo teima em tentar convencer-me que esta coisa muito melhor pode resultar num lobo vestido de ovelha. Já nem as expectativas me fazem feliz.)

ser assim

Sou exigente com as palavras, com os discursos, as explicações, as desculpas, as descrições, os argumentos. Sou inflexível com o grau de insistência, com a força argumentativa, com a importância da expressão, com a intencionalidade, o motivo, a clareza, o esclarecimento.
Aprendi que não posso ser e sou na mesma.
Se o exigirem de mim, provavelmente não estou à altura, mas é verdade que o exijo dos outros.
Ai de quem me falha, ai de quem me falta.
Quero sempre saber os porquês. Sempre. Mesmo quando não quero. E isto é mais do que uma maçada, é uma dor permanente, uma tortura constante.
Quando faço análises ao sangue, insistem-me para que não olhe. Parece incomodar-lhes a serenidade com que acompanho todos os procedimentos e como faço questão de fixar com atenção o momento em que enchem a seringa.
As pessoas felizes, parece-me, têm esta característica comum que consiste em não procurar por aí além, não ver muito e sobretudo, nunca saber tudo.
Eu exijo sempre ter conhecimento, não me contento com menos. Se me derem razões para suspeitar, creiam que nunca mais acredito. Especialmente se nunca ficar satisfeita com o discurso, as razões, os argumentos, a intencionalidade, a insistência e, em rigor, a suprema perfeição da palavra que me conforte e convença.
E essa palavra não existe.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

not a random patch

ervas daninhas

Dói-me a alma de cada vez que entro aqui e vejo este abandono.

Vou colocar aqui qualquer coisa que não me relembre, que não me enfraqueça, que não me faça recair.
Vou colocar aqui um remendo, grande, feio e desconexo, só para evitar o último post, que me congela e paralisa, e assim, um dia destes, quando entrar, desbloqueio. Hoje não é o dia.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

does it shows?

Quando caminho pelas ruas, em toada normal, numa rotina que agora se tornou mais leve e sem compromissos sérios, sem ter de cumprir horários, sem excel e primavera, sem trocar telefonemas indesejados.
Quando a levo ao colégio e faço palhaçadas e canto (meu deus!, como canto. Canto muito, sempre, tantas vezes sem vontade, sem noção..), e rio e penso e sinto, verdadeiramente, o peso bruto deste amor absoluto, o único realmente inquestionável, indestrutível.
Quando te dou a mão, para que faças dela o que queres, para que a estimes e protejas, para que a apertes com força e amor e certeza e segurança. Ou quando aperto a tua, nos raros momentos em que eu julgo ser mais forte.
Quando brinco, gracejo, quase parecendo ser autêntica, formosa, segura, aquela que queria ser. Quase.
Quando estou aqui, só, entregue, rendida, para me reerguer numa reviravolta que, em segundos, me devolve ao mundo com a máscara habitual.
Quando te imploro, e quero e não quero saber a verdade. As verdades. Quantas são afinal? Não era suposto ser só uma...?
Quando digo que perdão não é esquecimento e resignação não é necessariamente aceitar, para depois agir como se fosse.

Será que se nota?
Porque eu sinto-me uma fraude. Óbvia e inequívoca.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

dia sim, dia não

Num dia temos tudo sob o nosso controlo. A nossa felicidade ou a simples aceitação de que esse é um estado que não se alcança em plenitude e permanência. Os nossos desaires e incertezas. As angústias e as dúvidas de quem teme não fazer as escolhas certas mas sabe que pode escolher. Num momento temos o livre arbítrio e a certeza de que, melhor ou pior, tudo se resolve e que temos o nosso destino nas nossas mãos. 
Depois, num outro dia, perdemos o chão e caímos num abismo do tamanho da escalada de uma vida. A queda é sempre inesperada, surge sem aviso, como que para nos mostrar que as nossas certezas e a garantia de que somos nós a controlar o que quer que seja, não passa de um engano ingénuo e profundo, próprio de quem se julga dono de si e dos outros.
O que nós sentimos não influi no comportamento daqueles que julgamos serem nossa pertença. Nem o que eles próprios sentem parece servir de garantia de que tudo será como as palavras e as aparências querem mostrar. Apenas uma parte muito pouco significativa daquilo que nós somos e queremos está dependente apenas de nós. Quase tudo o que nos faz estas pessoas deriva da nossa interacção com os outros, aqueles que em consciência escolhemos para fazerem parte indissociável da nossa vida. E um dia descobrimos que eles são apenas gente que também comete o profundo e ingénuo erro de se julgar no controlo de alguma coisa.
Num momento, o elevador sobe, comandado por um sistema infalível, pensado para funcionar e nos assegurar um destino preciso e no momento seguinte o sistema de segurança que pensámos ao pormenor  falha e caímos desamparados num poço escuro.
Só temos realmente aquilo em que acreditamos. Quando deixamos de acreditar, não temos nada.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

my heart is broken


"She can ask for the truth
but she'll never believe you"

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

ao relento, em noite de chuva


"- És uma pessoa muito agarrada ao passado.
- Pois sou... (e tanto mais agarrada ao que não devia)."

sábado, 29 de outubro de 2011

impotência

Gosto de ver séries sobre médicos, cirurgiões, enfermeiros, ambientes esterilizados e frágeis, onde não há margem para erro. Gosto de apreciar, na minha ignorância pueril, a forma como empunham bisturís e recortam firmemente a dura-máter e o espaço subaracnoideu, sem hesitar, nas rigorosas neuro-cirgurgias. Ou então, acompanhar a precisão com que transplantam órgãos, separando cada veia, cada vaso, que depois voltam a ligar, miraculosamente.
Faz-me suspender a respiração. Pensar que a qualquer momento vão atingir uma área proibida, uma zona perigosa, como se pudessem despertar um nervo que não mata, mas acorda a dor, o desespero, para um grito mudo que ninguém - acordado - ouve.
Eu sou constantemente tocada em áreas proibidas, em zonas perigosíssimas, e assim, sem mais, despertam uma e outra vez, nervos adormecidos. 
Eu grito, mas do fundo desta anestesia sombria, parece que ninguém ouve.

Poucas coisas são tão frustrantes como não ter palavras para descrever o que se sente, quando julgamos que é de palavras que somos feitos.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

mudanças

Quando ganhar um pouquinho de coragem, passo por aqui para chorar um pouco a estagnação que se deu na minha vida.. Ou para partilhar se a mais recente mudança pode ou não vir a ser uma coisa positiva. Ou então venho só trazer para aqui o Outono, directamente do nosso jardim. Ai, o nosso jardim.. Boa noite.