Quando nos resignamos ao facto de que temos mesmo de esperar por duzentas senhas à frente da nossa, principalmente se entretanto conseguimos um lugar sentado, num sítio estratégico, de onde podemos avistar o quadro electrónico e observar as pessoas que passam, a coisa deixa de parecer assim tão má. Gosto principalmente da parte do observar... Gosto de ver maldicência em tudo. Quer dizer, faço jogos e julgamentos morais inconsequentes sobre as pessoas e as coisas que vejo e isso ajuda-me a passar o tempo.
Há aquele homem de feições agradáveis, fato cuidado, a entrar nos quarentas, que ostenta uma barriga disforme quando se levanta. Uma barriga daquelas é estranhamente desproporcional àquela cara-de-corpo-magro!
Depois há a senhora Channel, num tailleur impecável de vermelho rubi e preto, com um penteado e uma maquilhagem irrepreensíveis. Não lhe sinto o perfume mas aposto que é forte.
Mas o que mais se vê é gente terrivelmente mal vestida e barulhenta. Mulheres na casa dos trinta, com o filho ou a filha adolescente e um ou dois netos ranhosos pela mão ou ao colo. Fazem-se acompanhar também da nora (ou genro) porque tratar de alguns assuntos é motivo de peregrinação familiar. De qualquer maneira são todos desempregados e normalmente esperam vez na Segurança Social ou no Instituto de Emprego. Elas são normalmente gordas, usam roupas justas, de mau gosto. Têm cabelos compridos, amarrados em rabos-de-cavalo, com pontas espigadas. Mal-dispostas ou galhofeiras, a mim parecem-me sempre crianças, mesmo que os rostos aparentem muito mais idade do que a que têm na realidade. Acho que estas mães e avós precoces nunca chegaram a crescer de facto. Chegam a parecer-me mesmo mais imaturas que os filhos. Esses, são por defeito miúdos ou miúdas cheios de um estilo indefinido e empastado. Os rapazes costumam ser magros e as miúdas gordas. Em comum têm a tendência para os acessórios, piercings, cabelos oleosos e usam roupas que se vêm muito na Praça de Espanha.
Há também aquela personagem que se senta muito perto de nós, acompanhada de um familiar ou amigo e que pode não ter nenhuma característica especial, daquelas que nem chamam a atenção, não fosse o facto de estar demasiado perto para podermos evitar ouvir a sua conversa. Conversa que perturba muitas vezes o prazer de observar em paz e sossego. Desta vez calhou-me um senhor. Sexagenário. Falava que se fartava. A esposa, ao seu lado, respondia de quando em quando, com um calmo pois é, mas aposto que na alma residia uma paciente resignação, fruto de uma jura eterna que a gasta aliança testemunhava. Primeiro pensei que no lugar dela já tinha cortado os pulsos. Depois, apoderou-se de mim uma sensação agradável ao imaginar uma companhia interessada e vivida, numa idade em que as nossas vidas já não pedem muitas outras emoções e pensei que aquela senhora era uma mulher de sorte. Lembrei-me de um e-mail curriqueiro que já recebi tantas vezes, daqueles que circulam por todo o mundo, que dizia que não se deve partilhar a vida com alguém de quem não se seja amigo, confidente e que não saiba conversar, pois vai chegar um dia em que valorizaremos isso mais do que tudo.
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