sexta-feira, 4 de julho de 2008

velhos hábitos, novos vícios

Tenho saudades dos tempos em que andava de transportes públicos e observava, fascinada, as pessoas à minha volta. Andar de transportes, para além de ser actualmente muito mais económico, tem a vantagem de nos alargar os horizontes muito para além do que estamos habituados quando conduzimos os nossos carros, sempre pelos mesmos percursos, a resmungar com quem anda muito devagar porque tem tempo, ou com quem anda a rasgar porque é cromo.
O comodismo de conduzir um automóvel em nada se compara à sensação deliciosa de nos deixarmos cair num lugar vago do autocarro, ao fim do dia de trabalho, e não ter de mexer um músculo, enquanto usufruimos dos cenários que se nos deparam. Ou sou eu que o digo, apenas por ter saudades de andar de transportes.
O que eu lia nas minhas viagens de metro para a estação de Arroios! Ansiava depois pelos finais de tarde em que passava a Portugália, de novo de livro na mão, até ao subterrâneo ou à paragem do 16, conforme a vontade, o trânsito ou os horários (que sabia de cor). Somos muito mais expeditos e desenrascados quando andamos de transportes públicos. Quando nos agarramos a um automóvel perdemos a criatividade e ficamos uns estúpidos, limitados a rádios medíocres, felizes por não termos de esperar 10 minutos numa paragem e realizados com a nossa perícia em conseguir estacionamento a uma distância de 10 metros da entrada do prédio, que tem 10 andares e onde cada vizinho tem, pelo menos, um carro.
O passe social é o nosso bilhete para a liberdade e só percebemos isso quando já fomos engolidos pelo comodismo enganador.

3 comentários:

Sereia* disse...

Que saudades de ir a dormir de Benfica até Sintra...
ou de Sintra até Benfica...

Descansada, a dormir ou a ler, a ver passar a vista...

Que saudades...
Porque é que ainda não comboios directos Sintra-Tires???

Gonças disse...

É não é que é mesmo?? Voltei ao mundo dos transportes públicos e voltei a ter tempo para ler, cochilar, ver, sentir, cheirar....

Daniel Conde disse...

Eu sou utente de comboio desde 1994, tinha então 10 anos de idade, começando pelas Linhas do Tua e do Douro, e daí até agora tornei-me num incondicional apoiante do uso deste meio de transporte. Durante a faculdade, perdi a conta ao númer de vezes que fui de Lisboa a Bragança (ainda demora quase tanto como na música dos Xutos!) em autocarro, e, quando podia, de comboio.

Mas a realidade das grandes cidades é outra. Apanho o Metro cheio de manhã, e cheio o apanho à tarde. Essa de cair num lugar vago para mim é quase idílico. Já o autocarro de manhã tornou-se absolutamente insustentável, sendo aos 3 e 4 aqueles que passavam pela minha paragem sobrelotados, e sem parar. À noite o cenário era semelhante. Solução: comprei carro.

Mas desenganem-se se pensam que vou entupir as artérias de Lisboa. Não, e aqui é que deve entrar o perdido (mais que a Arca da Aliança) conceito de "Rede de Transportes": carrinho apenas desde casa até à estação de Metro mais próxima. O resto é de Metro e a penantes. Poupa-se o suplício do autocarro (e os atrasos que daí vinham).

Mas para outras andanças, como as minhas deambulações a conhecer o país... Toca a comprar o bilhete em Santa Apolónia, e oupa a perder distâncias, a ler, a ouvir música, a escrever, a fotografar, a conhecer gentes e terras.......